Dois meses após o novo acordo coletivo que acabaria com o trabalho aos sábados com a contrapartida de reduzir o horário das refeições dos operários para 30 minutos, a EssilorLuxottica, multinacional de lucro bilionário com planta em Campinas, interior de São Paulo, obriga os operários a continuar trabalhando em sábados alternados.
João Suzigan – Campinas (SP)
Trabalhador Unido – No chão da fábrica em Campinas, a escala 6×1 ainda é uma realidade, já que a empresa convoca arbitrariamente e usa uma estratégia perversa de escolher os setores que vão receber hora extra e os que não vão receber, pelo mesmo dia de trabalho.
Além disso, o assédio moral para cumprir horas extras é tanto que, caso não seja atingido um número mínimo para a operação do setor, torna-se obrigatório o dia de trabalho.
A situação tem gerado crescente indignação entre os milhares de trabalhadores que aprovaram em assembleia da sua categoria o fim dessa escala adoecedora e que hoje se desdobram para fazer a única refeição do turno de 8h em apenas 30 minutos.
Na prática, não houve redução da jornada e as condições de trabalho pioraram, conforme aponta Gisele*: “todo mundo aqui reclama de dor e vira e mexe alguém tem que fazer cirurgia por lesão de esforço repetitivo. A maioria do pessoal trabalha em pé o dia todo e o corpo não aguenta mesmo”, enquanto a família Del Vecchio, fundadora da empresa, vive luxuosamente há gerações, sem trabalhar e lucrando cada vez mais com tamanha exploração.
Monopólio na produção mundial
A EssilorLuxottica é a fusão de duas grandes empresas, com dezenas de fábricas espalhadas pelo mundo e quase 200 mil trabalhadores que produzem mais de 25% do mercado global de óculos, detendo marcas como Ray-Ban, Oakley, Chanel, Giorgio Armani, Vogue, Óticas Carol, entre outras, representando de acordo com a Forbes, 80% das marcas de luxo do mercado mundial de óculos de sol.
O lucro declarado em 2023 foi de 2,3 bilhões de euros (13 bilhões de reais), lucro este que foi extraído da força de trabalho roubada diariamente nos mais de 10 países em que a empresa está presente. Cabe lembrar que no modo de produção em que vivemos, as condições de trabalho são ainda piores nos países na periferia do capitalismo.
Veja o exemplo: nos Estados Unidos, França ou Itália a média salarial dos trabalhadores é de 2.600 dólares (R$13.000), enquanto as fábricas na Tailândia pagam de 300 a 600 dólares por mês (entre R$1.500 e R$3.000) e no Brasil em torno de 440 dólares (R$2.200), resultado de jornadas exaustivas, terceirização da produção e cada vez menos direitos e benefícios.
Categoria denuncia abusos
“Temos que trabalhar operando duas máquinas injetoras ao mesmo tempo porque muitos operadores que entram já desistem nos primeiros dias quando percebem as condições aqui, o risco de sofrer queimaduras mesmo sem receber adicional de periculosidade” relatou um operário que preferiu não se identificar
E conclui: “é muita coisa errada que a empresa faz, por exemplo, a função que está no meu contrato é de operador de produção, mas aqui a gente opera máquinas que é outra função de salário maior”
Marlene*, recentemente demitida sob a justificativa de baixa produção, “Esse nosso trabalho na produção é que nem uma escravidão, que a gente trabalha tanto, não descansa, e não sobra nada pra gente. Pra mim essa é a verdadeira escravidão”.
Vários operários relataram que só a greve resolveria essa situação imposta pela empresa. Como fizeram trabalhadores da EssilorLuxottica na França que em novembro do ano passado entraram em greve nacional de três dias em todas as fábricas e laboratórios do país, com a adesão de 9 mil pessoas exigindo aumento salarial e melhores condições de trabalho.
No Brasil, os operários e operárias podem arrancar vitórias assim como os trabalhadores da França, cruzando os braços e parando a produção, por mais dignidade, redução real da jornada, aumento do salário, fim do assédio moral e, principalmente, lutando pelo socialismo
***Todos os nomes são fictícios para evitar repressão por parte da empresa