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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Centro industrial de São Paulo: história da resistência operária

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Tati Bornato, Gabriel Borges e Victória Magalhães | São Paulo

O Centro de São Paulo foi construído pelo trabalho operário, e foi justamente nessa região que se consolidaram algumas das mais importantes lutas da classe trabalhadora brasileira, com conquistas que atravessaram décadas e ainda influenciam a vida de milhões.


SÃO PAULO – No fim do século XIX em diante, a cidade de São Paulo se transformou em um grande polo industrial, especialmente ao longo do vale do rio Tamanduateí, articulando bairros como Brás, Mooca, Ipiranga e Cambuci, conectados pelas linhas férreas. A industrialização paulistana não caiu do céu. Ela se expandiu com base em condições materiais muito claras: a localização, as linhas ferroviárias e a existência de grandes terrenos de baixo custo na área “além-Tamanduateí”. Essas condições permitiram a concentração de fábricas de tecidos, alimentos, bebidas e cerâmica e, mais tarde, metalúrgicas e montadoras.

A cidade crescia, a indústria se fortalecia,  mas o que sustentava esse ‘progresso’ era a exploração. Jornadas de trabalho de 12 a 16 horas por dia, salários miseráveis, trabalho infantil e ausência de direitos eram parte da rotina nas fábricas. Foi nesse cenário que surgiram as primeiras organizações operárias: ligas de resistência, associações de socorro mútuo e a imprensa operária, que colocaram no centro da luta reivindicações como redução da jornada, aumento salarial e proteção ao trabalho de mulheres e crianças.

Mooca e Ipiranga: territórios da classe operária em luta

A Mooca se industrializou rapidamente na virada do século, impulsionada pela estação ferroviária inaugurada em 1898, pela urbanização ao redor dos trilhos e pela chegada massiva de imigrantes que, antes explorados no campo, com o processo de exodo rural, passaram a ser explorados nas fábricas.

Grandes galpões de tijolo aparente, chaminés, pátios ferroviários e vilas operárias formam a paisagem industrial. A fábrica dominava não apenas o turno de trabalho, mas também a vida: bairros inteiros foram moldados pelo controle do patrão sobre moradia, consumo e sobrevivência.

Já no Ipiranga, entre os primeiros anos do século XX, a indústria se expandiu com força, a ponto de o bairro ser reconhecido como “bairro da Fábrica”, pela concentração de indústrias ao longo da ferrovia e do Tamanduateí. Os números mostram a dimensão desse processo: por volta de 1907, o Ipiranga já contava com cerca de 18 fábricas, empregando 6.296 operários; em 1913, já eram 49 fábricas e 16.317 trabalhadores.

Não à toa, a Greve Geral de 1917 marcou a história do operariado paulista e explodiu na Mooca. No Cotonifício Rodolfo Crespi, uma grande tecelagem do bairro, 400 mulheres operárias cruzaram os braços contra os baixos salários, a jornada exaustiva e os abusos do chão de fábrica. A mobilização se espalhou com rapidez e chegou ao Ipiranga, com paralisações em fábricas como as de Jafet, envolvendo cerca de 1.600 trabalhadores. 

Em poucos dias, São Paulo sentiu o peso da força operária: a greve se generalizou, grandes indústrias entraram no movimento, como a Companhia Antarctica Paulista, e cerca de 100 mil trabalhadores pararam. O que estava em jogo era o básico: condições dignas de trabalho e o direito de organização. E o resultado veio na prática: conquistas salariais, recuos patronais e, principalmente, o fortalecimento da classe trabalhadora como força coletiva.

Nos anos seguintes, diversas outras greves aconteceram na região até que em 1953, a cidade viveu uma das maiores greves urbanas da história do país: a conhecida Greve dos 300 mil. Foram mais de 300 mil trabalhadores paralisados, muitos deles concentrados justamente no eixo Mooca–Ipiranga–Brás, envolvendo metalúrgicos, têxteis e alimentícios. 

As reivindicações eram diretas e atravessam o tempo: reajuste salarial de 60%, congelamento de preços e reconhecimento de comissões de fábrica. Mesmo com limites e manobras institucionais, a mobilização garantiu resultado: reajuste de cerca de 32% e uma vitória moral que mostrou, mais uma vez, que quem luta conquista e a classe operária organizada é uma força inquebrável.

As greves operárias do Centro foram centrais para derrubar a Ditadura Vargas

Alguns tentam fazer crer que a classe operária ficou paralisada no período da Segunda Guerra Mundial quando Vargas impôs a ditadura do Estado Novo para aumentar ainda mais a exploração. Pesquisas mais recentes, porém, têm confirmado o que a imprensa da época escondia a realidade a mando do governo: os anos finais da guerra e da ditadura foram de greves e atos de rebeldia operária. 

Em 1944, no auge da repressão, sabendo se sua força fundamental, os operários na impossibilidade de fazer greves abertas, organizavam ações de sabotagem do ritmo da produção (as chamadas operações-tartaruga) e de insubordinação dentro das fábricas.

Na fábrica da Goodyear localizada no Belenzinho, a produção chegou a cair 30%. Em 1945, com o fim da guerra, chegou o momento da classe operária cobrar a conta do governo em uma explosão de greves que só recentemente conhecemos em detalhes.

Só entre 14 e 28 de maio de 1945 foram registradas pelo DOPS 341 greves, a imensa maioria no Centro de São Paulo. As greves explodiram sobretudo entre os têxteis (26%) e mecânicos (18%), mas envolveram também os operários dos setores alimentícios, de vidros, papelão, pneumáticos e da ferrovia São Paulo Railway que chegou paralisar totalmente, algo que não aconteceu nem em 1917. Ao todo, quase 400 mil operários estavam de braços cruzados.

E quem eram esses operários? Mais de 80% deles estavam empregados nas grandes fábricas (com mais de 500 trabalhadores), 65,5% moravam nos bairros periféricos recém-formados com a expulsão dos operários do Centro Antigo.

A maioria (63%) eram jovens de 15 a 29 anos que estavam sendo fichados pela primeira vez e recebendo seu batismo de fogo na luta de classes. A proporção de negros entre os grevistas detidos era superior a média de negros operários na fábrica (14,5% x 11%) e a liderança do setor têxtil indica que as mulheres que ocupavam 60% desses postos tiveram protagonismo na greve. 

O governo foi obrigado a negociar com todas as categorias. Os dados mostram que foram essas greves as responsáveis pela real efetivação do salário mínimo e da CLT na classe trabalhadora paulista: Se em 1944, 4 em 10 operários recebiam menos que um salário mínimo, em 1945 a proporção caiu para 2 em 10 e em 1946 para menos de 1 em 10. O setor têxtil que liderou a greve teve êxitos impressionantes: em 1944, 50% recebiam menos que o mínimo, mas em 1946, após nova onda de greves, o índice despencou para 20%.

O Centro de São Paulo segue sendo território operário

Uma mentira repetida nos últimos anos é a de que “a cidade de São Paulo não tem mais indústrias”, ou de que a classe operária desapareceu. História contada por quem tenta botar água fria na luta de classes. A verdade é outra: as fábricas continuam na cidade, e muitas ainda seguem presentes nesse eixo histórico, seja em plena operação, seja reconfiguradas em outros formatos produtivos e logísticos. 

Mesmo onde antigas fábricas foram transformadas em mercados, universidades ou empreendimentos imobiliários, os bairros carregam uma marca que não se apaga: são territórios moldados pelo trabalho operário, e a classe operária segue grande, forte e presente, produzindo tudo o que vemos, circulando nas mesmas ruas e trens que toda a nossa classe, se deslocando e sustentando a vida de São Paulo e do Brasil.

Recontar a história da industrialização no Centro e das lutas operárias na Mooca e no Ipiranga é reafirmar dois princípios simples: nenhuma conquista veio de presente e ainda mais importante, a classe operária quando organizada pode tudo! Tudo o que hoje existe como direito, foi conquistado na luta, nas greves, nos enfrentamentos e na organização.

Com o capitalismo na sua fase final e agonizante, impor precarização, rebaixar salários, flexibilizar direitos e fragmentar a classe trabalhadora, são táticas de desmobilização. 

Portanto, lembrar 1917 e 1953 é lembrar que o povo trabalhador e a classe operária têm força quando se organizam.  Se ontem essa força organizou greves, enfrentou a repressão e conquistou vitórias, hoje ela pode e deve ser retomada para novas vitórias. Porque os operários seguem firmes. E onde existe exploração, existe também a possibilidade concreta de resistência, organização, conquista, e sobretudo, liberdade!

 

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