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domingo, 3 de julho de 2022

Relação da polícia com tráfico aumenta mortes em São Paulo

Relação da polícia com tráfico aumenta mortes em São PauloOs homicídios cresceram 96% em setembro na capital paulista, em relação ao mesmo período em 2011. Foram 135 casos, mais de quatro ocorrências por dia, o maior número mensal registrado desde que a série começou a ser publicada, em janeiro do ano passado. Apenas no dia 27 de outubro, foram registrados 20 assassinatos na Grande São Paulo (incluindo suspeitos em confrontos com a PM), mais que três vezes a média diária de assassinatos este ano. No total, foram 949 pessoas assassinadas e, entre elas, 85 eram policiais militares. Para o secretário da Segurança Pública, Antônio Ferreira Pinto, “o índice de crimes varia como uma onda. A estratégia do governo não está errada, ela está corretíssima. Vários autores de homicídios foram presos e vão nos dizer qual a motivação do crime. O combate feito pelos policiais é efetivo e temos certeza de que vamos reverter esse quadro.”

Já o governador do Estado, Geraldo Alckmin (PSDB), considera a onda de atentados a policiais uma resposta ao combate da polícia ao tráfico de drogas. “O crime organizado não vai intimidar o Estado. A ordem é a polícia ir para a rua, prender os criminosos”, afirmou o governador no último dia 20 de outubro.

É inegável que a atual escalada da violência é consequência direta do aumento dos confrontos entre policiais e traficantes na periferia das cidades paulistas, mas por motivos diferentes daqueles apresentados pelo governador Alckmin e pelo seu secretário, que insistem em colocar a questão como uma guerra entre o bem o mal, entre os agentes da lei e bandidos, tentando angariar apoio da população para ações cada vez mais enérgicas e violentas da polícia.

A verdade é que a polícia trabalha de forma associada ao tráfico e ao crime de maneira geral e, quando a regulação ou a extorsão por parte dos policias cresce, os traficantes dão a resposta e logo surge uma nova escalada da violência. Trata-se de uma briga por uma “justa” divisão dos lucros obtidos com o crime. Lembremos que o Ministério Público e a ONG Justiça Global produziram um dossiê com documentos comprovando que o estopim para a onda de ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) em 2006, em São Paulo, foi uma absurda extorsão sofrida por Marcola, chefe do PCC, que se encontrava nas mãos da Polícia Civil.

Recentemente, um policial civil que investigou grupos de extermínio formados por policiais militares de São Paulo não só confirmou, em entrevista à revista Caros Amigos, (edição de setembro de 2012) a existência desses grupos e sua ligação e subordinação à cúpula da PM paulista, como relatou a sua ligação com o tráfico. “Em cada batalhão tem um grupo de extermínio”, afirmou o policial à revista, sem, entretanto, se identificar, alegando sofrer perseguição.

Os “caixas-dois” (como são conhecidos os grupos de extermínio de cada batalhão) funcionam da seguinte forma: primeiro, identificam-se os “bilões” de cada batalhão, aqueles que, segundo gíria da PM, são considerados os mais violentos, os que mais batem, mais torturam, com perfil de psicóticos. Eles são detectados e, em vez de serem colocados sob avaliação, ganham respaldo, incentivo. Depois, são chamados para integrar os “caixas-dois”. Para o “trabalho”, geralmente usam viaturas da Rota e da Força Tática – ou Forjas Trágicas, como são apelidadas. O grupo é formado por três integrantes, sendo um deles escoltado até um local seguro, onde tira a farda, coloca uma roupa civil e usa uma moto ou um carro para orientar ou executar os assassinatos. Quando o serviço acaba, chega uma viatura, encarregada de recolher as cápsulas e pedir para o pessoal do comércio lavar o local. Em seguida, coloca-se a vítima no carro, e, mesmo que esteja morta, ela é levada ao hospital. Quando necessário, usam o “kit vela” ou “kit flagrante”: uma porção de entorpecente e uma arma fria colocadas na mão do cadáver para justificar o homicídio. Às vezes, também deixam um celular junto à vítima. “O caixa-dois funciona quando não dá para fritar na resistência [justificar o assassinato como decorrência de suposto confronto com a PM]”, explica o policial civil.

A regra do batalhão é: o PM se negou a torturar, a matar? Vai para o PAO: Pelotão de Apoio Operacional, espécie de punição dada pelo comando de alguns batalhões da PM paulista. O castigo consiste em fazer ronda do lado de fora do batalhão, ficar 12 horas de pé, incomunicável com os outros membros da tropa e sem poder comer, urinar ou evacuar.

De acordo com o policial civil, os grupos de extermínio funcionam “numa égide de controle e higienização social, para prestigiar o comando e o governo, para abaixar índices de criminalidade”, explica. Segundo ele, ao ajudar a reduzir as estatísticas de violência nas suas regiões de trabalho, os policiais recebem proteção do comando, sendo favorecidos por melhores escalas, bicos, armamentos, viaturas e outros equipamentos táticos. Entretanto, os grupos já nascem associados a criminosos para gerar lucros aos envolvidos, que, além dos policiais e dos próprios bandidos, incluem políticos, empresários e banqueiros como integrantes. “Tem muito PM batizado no PCC”, completa o policial. Além disso, os grupos de extermínio têm como uma de suas funções intimidar e, se for o caso, matar desafetos políticos de governos, parlamentares ou capitalistas, como líderes sindicais ou populares. O policial civil relata, ainda,que existe um acordo entre policiais e criminosos sobre a divisão de caixas eletrônicos. No esquema, também entram disputas por caça-níqueis, loterias clandestinas e bingos, além dos pontos de venda de drogas.

A dificuldade de combater o problema ocorre, entre outros motivos, por causa da determinação para matar, que vem de cima para baixo. “A cúpula sabe que existe grupo de extermínio”, garante o policial civil. “Eles sabem, mas não querem denunciar. Não é para acabar, pois há interesses pecuniários e políticos. O comando manda fazer, acontecer e foder. Mas, se der merda, o cara fica sozinho.”

Na verdade, a violência policial não é nova no Brasil. Já no fim do século 19, havia várias denúncias da imprensa relatando que presos comuns eram submetidos a espancamentos, alguns deles brutais,  dentro de delegacias. Em 1898, o jornal A Nação aconselhava que a população não passasse nas ruas ou lugares onde estivessem soldados da polícia. O  famoso método de tortura chamado de “pau de arara” iria originar-se  nos anos quarenta em São Paulo. A violência não era praticada somente contra as classes populares, mas também contra os opositores políticos do Estado, como grevistas e lideranças de movimentos reivindicatórios.

No decorrer dos anos, as contradições sociais, econômicas e políticas foram se acentuando no Brasil e a organização policial foi ocupando cada vez mais um lugar de destaque para o enriquecimento de agentes do Estado e para a repressão e controle dos levantes populares. Em 1933, no Rio de Janeiro, e posteriormente em São Paulo, cria-se uma tropa de elite, denominada “Polícia Especial” (PE) para viabilizar as suas ações de repressão, que mais tarde se tornaria o braço armado da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops). Mais tarde, ainda no Rio de Janeiro, setores da imprensa e a Associação Comercial cobraram medidas duras de combate à criminalidade, e foi criado pelo delegado Cecil Borer, do Serviço de Vigilância, o Serviço de Diligências Especiais (SDE), que tinha total liberdade para empregar todos os métodos para conter a criminalidade, e, na prática, acabou não só por consolidar os esquadrões da morte, mas por aprofundar a associação dos esquadrões, da polícia, do governo e do Estado em geral com o crime, em especial o jogo do bicho, aumentando-se o número de pontos de bicho, dando-se liberdade de ação aos bicheiros, estimulando-se o lenocínio e centralizando-se as verbas distribuídas por todo tipo de contravenção.

Nos anos 1960, em São Paulo, já era comum policiais extorquirem ou venderem proteção aos marginais. Teria sido com o aval da polícia que o traficante “Zezinho da Vila Maria” se transformou no maior traficante do período. E, na Zona Leste da cidade de São Paulo, bem antes dos atuais justiceiros ficarem famosos, atuava, pago por comerciantes locais, o “Boca de Traíra”, acusado de ter praticado mais de 30 mortes. Para escapar da prisão, “Boca de Traíra” dividia seus lucros com policiais corruptos.

A ditadura militar reestruturou os organismos de repressão do Estado. Além do DOI-Codi e do Dops, da Operação Bandeirantes etc., novas siglas e organizações surgiram. Em São Paulo, na década de 1970, foram criados a Rota, Rone, Garra, entre outras. Nos outros Estados ocorreu a mesma coisa.

Os esquadrões da morte eram o braço extralegal do Estado para extorquir dinheiro e reprimir o povo. Novas nomenclaturas existem hoje, a exemplo dos grupos de extermínio e milícias, mas com os mesmos objetivos e modus operandi. Em suma, são policiais e membros da Forças Armadas, da base e do alto escalão, governos, políticos e empresários que, associados a criminosos comuns, controlam e gerenciam os mais variados crimes e perseguem e eliminam aqueles que põem em perigo o negócio ou os interesses de alguém do grupo.

Assim, as raízes dos confrontos entre policiais e traficantes são suas próprias relações para promover o crime. É preciso que a população conheça essa realidade e se organize para exigir mudanças. Como bem afirmou recentemente Lígia Rechenberg, integrante do Instituto Sou da Paz, “o cidadão tem que cobrar das autoridades uma mudança na política de segurança que vem sendo adotada nos últimos meses. O cidadão tem que se posicionar e dizer que não quer viver numa cidade onde está acontecendo um bangue-bangue”.

Roberto Luciano, Redação

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2 COMENTÁRIOS

  1. Esse tipo de postura é o que vem a denegrir a imagem dos Comunistas, sempre se posicionando em pró de bandidos, com essa conversa fiada de direitos humanos e blá,blá , esquecendo o verdadeiro ideal socialista. comparar bandidos do PCC com camaradas que lutaram contra a ditadura é simplesmente absurdo, esse tipo de postura é o que torna a luta dos verdadeiros camaradas cada vez mais complicada, me parece um texto escrito por um trotskista mas fazer o que este está cumprindo bem o seu papel de contra-revolucionário, trabalhando em pró do capitalismo como os trotskistas sempre fizeram.
    Não cabe a nenhum camarada  abrir a boca pra fazer propaganda de droga ou de mecanismos que pervertem a juventude. Um marxista, antes de mais nada, é um agente político dedicado, não garoto-propaganda de boca de fumo. 

  2. Caro Joao, prefiro acreditar que vc não se esforçou devidamente para compreender o texto. Do contrário, você perceberia que não existe qualquer “posicionando em pró de bandidos” ou mesmo comparação destes com os lutaram contra a ditadura. O que há, e como marxista digo isso baseado em pesquisas, estudos e fatos, é uma relação de parceria entre instituições do estado e criminosos, coisa que parcelas da própria burguesia, inclusive agentes do próprio estado burguês e da grande mídia, já admitiram por vezes. Isso não é novo, o papel do Estado já foi muito descrito por Marx. Estude um pouco e verá.

    Aliás, “bandidos”, “CONVERSA FIADA DE DIREITOS HUMANOS, BLÁ,BLÁ”, “garoto-propaganda de boca de fumo”…. Isso é linguagem de policial, de p2, de torturador. E aí eu me pergundo: qual a sua pretensão em escrever esse comentário? quem é vc afinal?

    Roberto Luciano

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