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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

“Manoel Lisboa foi um dos maiores símbolos da geração que enfrentou a Ditadura”

Manoel LisboaJosé Nivaldo Júnior é historiador, formado também em Direito, escritor, publicitário e torcedor fanático do Santa Cruz. Mas, apesar de tudo isso, ele se define de outra maneira: “Sou um publicitário, um publicitário que tem uma vida política, uma formação política e histórica, que fez um curso de Direito. Autor de Maquiavel, O Poder – história do Marketing, é também autor dos livros O Atestado da donzela 2 (Paixão, fuxico e mistério), obra esta inspirada em um romance escrito pelo seu pai, em 1967. Foi preso político na Ditadura Militar fascista e grande amigo de Manoel Lisboa de Moura, fundador e dirigente do Partido Comunista Revolucionário. A seguir, entrevista exclusiva de José Nivaldo ao jornal A Verdade sobre os 40 anos do assassinato de Manoel Lisboa, completados neste último mês de setembro.

A Verdade – Em setembro, completaram-se 40 anos do assassinato de Manoel Lisboa. Qual foi a importância de Manoel para sua geração?
José Nivaldo Jr. – Manoel Lisboa foi um dos maiores símbolos da geração que enfrentou a Ditadura nos anos 60 e 70. Era, ao mesmo tempo, um guerreiro valente, um teórico consistente e um estrategista de mão cheia. Além da capacidade de liderança e de organização. Não foi à toa que ele liderou o PCR nas condições mais adversas e levou a organização a crescer e se tornar uma das mais importantes no combate à Ditadura. As raízes que plantou eram tão profundas que resistiram à sua morte, ao extermínio de várias de suas lideranças, ao próprio fim da Ditadura. Nunca deixo de repetir que o PCR é a única organização revolucionária, surgida no enfrentamento da Ditadura, que continua atuando e crescendo até hoje, fiel aos seus princípios e à memória dos seus heróis e mártires.

Como ele foi torturado e quem o matou?
Manoel Lisboa, o Galego, como era conhecido na época, liderou o mais profundo golpe desferido contra a Ditadura no Nordeste: a ocupação e expropriação de armamentos de uma unidade da Base Aérea do Recife. Aquele ato desafiador atraiu para a cidade a elite da repressão brasileira, já que a luta armada perdia força naquele momento nas principais cidades do Centro-Sul. Através de um trabalho persistente do que se chama “inteligência” da repressão, sob o comando do maior símbolo dos torturadores do País, naquele período, o delegado Sérgio Paranhos Fleury, foram montadas várias operações, com centenas de agentes vigiando cada praça, cada rua da cidade. Este trabalho acabou resultando na prisão de vários militantes do PCR, inclusive Manoel Lisboa. Levado ao DOI-Codi, entidade que executava a repressão pelas forças armadas, Manoel foi violentamente torturado durante quase 20 dias, sem nada revelar aos seus algozes. Seu assassinato, de uma brutalidade inimaginável, foi decorrência de sua atitude coerente com o que pregava. Ele dizia que delatar companheiros era trair a causa. Morreu fiel a suas ideias e a seus compromissos revolucionários. Quem o matou foi o sistema ditatorial, através dos agentes do DOI-Codi, que ficava nas dependências do IV Exército, na Praça 13 de Maio, no Recife.

Na sua opinião, por que Manoel Lisboa foi levado pela repressão para São Paulo?
Eu não sei se ele foi levado para São Paulo ainda vivo ou já morto. O que sei é que ele não tinha nenhuma condição física para participar de qualquer ato público, muito menos de um tiroteio, como foi propagado. Manoel não foi apenas assassinado: ele foi destroçado, milimetricamente destruído, da forma mais dolorosa possível, porque a repressão investiu até o fim na expectativa de que, se assistindo morrer lenta e dolorosamente, ele viesse a fraquejar em qualquer aspecto que fosse. Mas, como disse antes, ele manteve uma firmeza impressionante, que vai além dos limites do apenas humano. Apenas uma pessoa que acredita profundamente em uma causa é capaz de um comportamento desses.

Você conviveu muitos anos com Manoel. Quais as lembranças que ficaram?
Manoel Lisboa trazia a marca de muitas qualidades. Era, em primeiro lugar, um ser humano excepcional, de uma generosidade sem limites. Ao mesmo tempo, uma pessoa leve e alegre, podemos dizer, de bem com a vida que escolheu. Guardo imagens que vão desde conversas descontraídas a discussões teóricas profundas; de ações simples, como discursos em porta de fábrica, a movimentos complexos como a invasão da Base Aérea. Em todos os momentos, agiu de conformidade com o que era preciso. Nunca perdeu a calma, nem a ternura.

Que lições Manoel deixou para os revolucionários de hoje?
Um partido realmente revolucionário não é algo circunstancial. É uma necessidade permanente numa sociedade marcada pela exploração e pela desigualdade, e que evolui não de acordo com os desejos das pessoas, mas sim de conformidade com o processo histórico. E que será importante na construção da nova ordem socialista, que é o futuro da humanidade. Marx lembrava que a história se conta por séculos. Provavelmente não estarei vivo, meus filhos estarão bem velhinhos, mas espero que meus netos participem do primeiro centenário do PCR e façam parte do coro: Manoel Lisboa, presente, agora e sempre!

 Alexandre Ferreira, Recife

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