UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

quarta-feira, 6 de julho de 2022

A tradição do jornalismo comunista no Brasil

A história dos comunistas sempre é uma via de mão dupla. De um lado, temos as narrativas daqueles que operam a imprensa para enriquecer e criar um espírito nacional em torno do seu interesse político; do outro lado, temos a narrativa daqueles que sublevam essa lei do capital e usam a imprensa para libertar a si e sua classe. Essa última é a via escolhida desde o jornal A Classe Operária em 1925 até ao A Verdade hoje.

Douglas Louis


Operários, entre eles Octávio Brandão, com exemplares do jornal A Classe Operária.

BRASIL Os primeiros jornais progressistas, com o regime monárquico ainda vigente, já estampavam a palavra socialismo na imprensa brasileira do século XIX. Tratava-se, no entanto, do socialismo definido por Karl Marx no Manifesto do Partido Comunista como o “socialismo utópico”. Provenientes sobretudo da França, essas doutrinas constituíam um posicionamento radical para a época, frente a um império conservador e católico. O camarada Astrojildo Pereira cita Gilberto Freyre no artigo “Imprensa Operária no Brasil” que atribui a popularidade destes ideais ao engenheiro francês Louis Léger Vauthier, contratado para realizar obras públicas que traz de seu país um amplo acervo literário e divulga o socialismo de Fourier entre o público letrado no Brasil, realizando estudos, assinaturas de jornais, livros, etc.

O fim da monarquia e o estabelecimento da república ficaram marcados pela continuidade no que se refere ao modelo econômico agroexportador que, concomitantemente, desenvolve alguns setores industriais com os excedentes da produção. Isso significou o crescimento de polos urbanos que já existiam no Rio de Janeiro e São Paulo em torno das indústrias. A explosão urbana deste início de século promoveu um substancial aumento quantitativo da classe operária.

Deste período até 1917, avolumou-se como a classe operária o número de publicações, periódicos e revistas socialistas, anarquistas e libertárias na imprensa brasileira. O ano de 1917 marca uma mudança qualitativa na imprensa e no movimento operário do Brasil. O ano da revolução russa também é o ano de uma profunda intensificação na luta de classes do país que culmina na primeira greve geral de sua história. Ainda profundamente influenciado por setores anarquistas, embora simpáticos ao bolchevismo, não houve uma organização proletária capaz de tomar o poder e converter a greve geral em uma insurreição revolucionária.

Esta derrota, no entanto, ampliou em muito os horizontes de consciência do movimento operário e o acúmulo das experiências, os balanços críticos e autocríticos, lançaram as bases materiais necessárias para a criação do Partido Comunista, vanguarda e estado-maior do proletariado brasileiro, em 1922.

Um destacado quadro do jornalismo comunista, Octávio Brandão, nos relata que data também deste período o surgimento das primeiras leis visando censurar a imprensa operária, especificamente comunista, no Rio de Janeiro, então capital da República-Velha de caráter oligárquico. Os primeiros anos de formação desta tradição jornalística no Brasil já impunha imensas dificuldades legais aos revolucionários.

A tradição do jornalismo comunista nesse momento já era conhecida e seus princípios mais fundamentais estudados com muito afinco pelos revolucionários. Em sua prática militante, Karl Marx já nos orientava quanto a centralidade do jornal na teoria da revolução, tendo o mesmo publicado artigos, matérias e balanços de conjuntura nos principais veículos operários e jornais progressistas de sua época.

Karl Marx, Friedrich Engels, Wilhelm Wolff e Wilhelm Weitling na redação do jornal Nova Gazeta Renana.

Em Lênin, é possível observar quase empiricamente o papel desempenhado pelo jornal durante todo o processo de revolução socialista, do apelo de Lênin no livro “Que fazer?” pela necessidade de um jornal para toda a Rússia, até a paulatina ascensão do proletariado ao poder político e o estabelecimento de sua ditadura contra a burguesia e os latifundiários. Dos primeiros momentos germinais de consciência até a definitiva vitória da revolução comunista.

Esta vitória significou, não só na Rússia, mas também no plano internacional, o apogeu de uma teoria marxista-leninista para a comunicação. Isso deu ao movimento dos trabalhadores uma invencível arma para a organização militante, elevação da consciência e combate frontal a dominação ideológica burguesa.

Não era a primeira vez que as classes dominantes tentavam impedir que os trabalhadores criassem uma sólida estrutura de comunicação jogando-lhes na clandestinidade. A insuficiência dessa medida se tornava evidente, pois frente a ela crescia o número de operários organizados, de volantes nas fábricas, de candidatos do povo às eleições, de núcleos comunistas nas principais capitais.  Isso em um contexto de retirada de direitos com perseguições sistemáticas promovidas pelo Estado ainda traumatizado pelas manifestações de massa que ocorreram em 1917.

A imposição da clandestinidade, entretanto, não era historicamente uma novidade na luta contra os revolucionários. Os comunistas conhecem bem a dificuldade para confiar na liberdade de imprensa porque, em certa medida, é possível contar a história das interrupções democráticas no Brasil pela história do jornalismo comunista. Só havia, portanto, uma resposta possível para a ilegalidade: disciplina e organização.

“Um vento de ódio sacudia o país, “comunista” era sinônimo de miserável, de bandoleiro, de vil ladrão noturno. Pela boca de uma propaganda paga com o dinheiro nazifascista espalhava-se sobre o país as calúnias mais sórdidas a respeito dos comunistas e do Partido. Era uma noite de desgraça e nessa noite asfixiante “A Classe Operária”, era um raio de luz rasgando as trevas. […] Era, sim, uma joia de valor insuperável. Era a palavra do Partido, era a literatura do Partido, era a esperança, a certeza de que nem tudo estava perdido, de que homens [e mulheres] desconhecidos, anônimos e de fibra inquebrantável estavam a postos; nos esconderijos, em meio à multidão, rotos e magros, passando fome e frio, muitas vezes tremendo de febre, mas levando para diante o facho do Partido, a confiança nos destinos do Brasil.”
– Jorge Amado: Homens e Coisas do Partido Comunista, 1946.

Muito produz-se academicamente sobre a exuberante infraestrutura de comunicações do PCB nos anos 40, que contemplava dezenas de jornais diários extremamente populares que seguiam a linha política do Partido.  Mas dado os condicionamentos de classe na produção deste conhecimento é sempre omitido que essa estrutura é, na realidade, um resultado do trabalho abnegado e disciplinado, da prática militante harmoniosamente organizada pela sua vanguarda política.

Os comunistas brasileiros precisam ter claro para si que tal resultado só foi alcançado mediante o mais incondicional esforço de construção e divulgação em um meio hostil com leis restritivas, classes dominantes atrasadas e violentas que consideravam  leitura e a proliferação de conhecimentos como um vício e um contexto de crise econômica que, se por um lado ampliava as possibilidades de ação política, por outro comprometia as parcas finanças do Partido.

Operários da construção civil com o jornal A Verdade.

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