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A resistência cultural do Coco de Ilú

Em janeiro, visitamos a  sede  do Coco de Ilú na cidade histórica  de Paudalho, em Pernambuco, e entrevistamos  o Mestre Iran, fundador  do grupo. O Coco de Ilú tem mais de 20 anos de atuação na Zona da Mata Norte do Estado e de dentro de um dos terreiros mais antigos de Pernambuco nos deu essa entrevista  sobre vivência  e resistência  da nossa cultura  popular.

Redação Pernambuco 
Jornal A Verdade


Foto: Jornal A Verdade

A Verdade – O que é o coco de Ilú e qual a sua origem?

Mestre Iran – Coco de Ilú é uma brincadeira autêntica de terreiro, é um brincante que sai de dentro de um terreiro de candomblé e é levado para as ruas para animar agremiações. É multicultural. Veio da cultura do terreiro. O Coco de Ilú nasceu no ano de 2001, depois de um candomblé de uma entidade chamada José dos Anjos e José Farrista, duas entidades de terreiro que são patronos da casa. Numa noite do mês de agosto, estávamos festejando e, ao terminarmos o candomblé, batemos no Ilú, que é um instrumento apropriado para o candomblé. Aí alguém disse: “mas que coco bom!”. Outro alguém perguntou: “que coco é esse?”. Aí alguém disse: “oh, e num é coco de Ilú?”. E eu disse: “Coco de Ilú! Esse grupo vai se chamar Coco de Ilú!”. E logo veio esse sentimento e esse pensamento. Antigamente esse grupo se chamava Panteo da Mata.

De onde vem essa resistência cultural?

Mestre Iran – Essa fonte de resistência cultural já nasce no terreiro, como já falei, e toda a fonte de musicalidade vem do próprio terreiro. A gente já não monta mais nada em termo de cantigas e versos e poesias de terreiro, que é a própria cantiga dos caboclos, da jurema e em tudo. O candomblé está enfeitiçado nisso tudo. O próprio terreiro e as cantigas são próprias dele, quer dizer, a gente é bem próprio, Coco de Ilú é uma coisa original da gente. A gente não consegue montar o que é, porque essa poesia e essas cantigas já vêm montadas dos nossos ancestrais, a gente traz essa cantiga diferenciada aqui pra rua, para o palco, fazendo com que eles venham a entender que o candomblé não é o que o povo pensa, mas sim uma musicalidade que vem de senzala e que veio já dos negros de coco de djambê e por aí vai. 

Falando agora para o vocalista do coco, o cantador, quem é esse mestre? E em quem ele se inspira para fazer as letras?

Mestre Iran – Esse cara sou eu, Iran Ogan, título que alcancei. Hoje o povo já chama de mestre porque já sou um ogan de candomblé. E a autenticidade desse Coco de Ilú já vem de próprio sangue, de próprio rito, nasci dentro de candomblé, sou descendente de terreiro, minha família é toda descendente de terreiro. Como hoje faço parte do Ylê axé de Iemanjá Sabah, de onde sai o Coco de Ilú, nasci e me criei nesse berço aí. Por isso que já carrego esse nome Iran Ogan e hoje o povo já me chama de mestre porque não é a gente que quer ser mestre, é o povo que vê nosso trabalho e sabe que a poesia está na gente. Por isso que eles têm esse vocabulário de chamar de mestre. E Coco de Ilú já nasce em mim, Iran Ogan é o nome de Coco de Ilú.

O que falta para mais grupos como o Coco de Ilú reacender essa identidade brasileira de reafirmação do seu povo?

Mestre Iran – Como já venho falando, a cultura depende muito de recurso e principalmente a de terreiro, que é uma cultura viva, elegante e principal, porque tudo nasceu de um terreiro e quando a gente está num terreiro, a gente sente tudo. Hoje muitos terreiros estão se acabando, estão se fechando, outros não querem mais porque o recurso é pouco e a cultura precisa de recurso. Coco de Ilú é uma cultura resistente que vem do terreiro, e viemos mostrar o que é o terreiro. A gente precisa muito de apoio, que é pouco, e principalmente dos governantes da nossa terra. Os terreiros hoje estão fechando as portas por conta disso, porque muitos querem reativar, e outros querem parar porque não têm como movimentar essa cultura tão grande, e tão grande e tão grande.

Para quem o Coco de Ilú toca?

Mestre Iran – Coco de Ilú tem uma entidade por trás. Ele entra fazendo um ritual. As entidades chefes que predomina no Coco de Ilú se chamam Iemanjá Sabah e Xangô Agodoh, que vêm por trás de Coco de Ilú, que é o Zé dos Anjos e o Zé Farrista, além do guia da casa, que não posso revelar o nome. Mas Coco de Ilú tem esse anseio por espiritualidade, e a gente mostra nas letras esse ritual.

O que vocês esperam daqui pra frente?

Mestre Iran – Daqui pra frente, se esses recursos não chegarem, a cultura cada vez mais vai se apagando, como outros ritos que tem por aí, como o frevo, o coco de terreiro, o coco de roda, o coco de embolada, o cavalo marinho, o boi de maracatu. Para que isso venha a resistir, precisamo. Porque isso é a própria cultura da gente. Não vamos buscar nada fora, eles que vêm buscar aqui. Se eles vêm buscar a nossa cultura, é porque a gente tem cultura. Eles sabem que a gente faz cultura, mas não ajudam nossa cultura. Porque riqueza temos, e a nossa riqueza é a cantiga, que é a batida, que é o envolvimento com essa coisa toda, mas não temos recursos de fazer uma roda. 

Deixa um verso para a gente?

Mestre Iran – Nada mais, nada mais a gente tava nesse período e foi assim mais ou menos à primeira lapada de Coco de Ilú foi:

“Coco de Ilú já chegou, Coco de Ilú já chegou
Eu vim cantar pra senhora, também cantar pro senhor.
Eu vim cantar no terreiro com muita paz e amor.
Coco de Ilú quando chega
Levanta a poeira do chão, mas hoje aqui é Morão, mas hoje aqui é Morão.
Sacode o chapéu pra cima e não deixa cair no chão
Ai de Paudalho eu não saio, juro por Deus que não.
Eu tenho satisfação da minha terra querida
Vou terminar minha vida, nesse período torrão.”

O Jornal A Verdade agradece pela entrevista e lhe deseja muita força na sua luta.

Mestre Iran – Em nome do terreiro de Iemanjá Sabah, em nome de Baomi Xangô, quero expressar a minha solidariedade ao jornal A Verdade. Me sinto grato por tudo isso que está acontecendo. Agradeço desde já a todos os que fazem parte, a todos os trabalhadores dessa comitiva e Coco de Ilú é isso aqui mesmo. Deixo mais este verso para vocês:

“Jornal da Verdade
Vou falando aqui
A verdade singela que só tem por aqui
Que rediz em Carpina
Mostrando a verdade humana na frente de um belo povo
Quando falo de jornal
Eu falo de uma verdade e falo de um povo cultural
Que simplesmente é um jornal que fala de coisas boas
E que fala de humanidade
Esse é um jornal tão bom que se chama
Jornal da verdade”.

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