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A luta contra o coronavírus não elimina a luta de classes

Trabalhadores do telemarketing em luta em defesa do direito a saúde. Foto: André Lucas/UOL

Por Lucas Marcelino, professor da rede estadual de SP e militante da UP

Para muitas pessoas a pandemia gerada com a disseminação do coronavírus se apresenta como uma oportunidade única para uma mudança de postura da humanidade e o surgimento de uma nova visão de mundo. Muitos acreditam que sairemos desta situação com mais empatia, solidariedade e bons exemplos, basicamente melhores do que éramos.

Alguns exemplos que demonstrariam essa esperança na humanidade partiram de pessoas comuns – desde simples trabalhadores até pequenos empresários – e rapidamente se espalharam pela internet e pela televisão, em um momento que o consumo de qualquer conteúdo relacionado à pandemia atingiu níveis absurdos.

O esforço e a dedicação de profissionais de saúde; jovens que se ofereceram para fazer compras para vizinhos idosos; redes de estudantes, pesquisadores, anônimos com impressoras 3D e até pequenos empresários produzindo equipamentos médicos como respiradores; doações de alimentos ou produtos como máscaras; estes gestos foram vistos como exemplos do que melhor a humanidade pode fazer.

A solidariedade e a unidade para reduzir ao máximo não só o número de mortes, mas também os danos e prejuízos econômicos, sociais e psicológicos acenderam um sinal de esperança para quem via um mundo cada vez mais egoísta e individualista, baseado na proposta de enriquecer como forma de ser feliz. Foi uma surpresa para muitas pessoas que acreditavam não haver mais bondade no ser humano.

Foi assim que surgiram campanhas para que as pessoas comprassem de pequenos comerciantes e ajudassem a evitar demissões e falências que deixariam muitos trabalhadores em situações ainda piores do que as enfrentadas no cotidiano. Até grandes empresas entraram na onda e supostamente abriram mão de seus lucros.

Sem surpresa

Pensando nas dificuldades que os trabalhadores enfrentarão para sobreviver e, consequentemente, nas mudanças econômicas que o mundo vai enfrentar com o isolamento social e a parada de serviços não essenciais, políticos de diversas correntes do espectro político passaram a defender medidas de auxílio para pessoas em vulnerabilidade social e para quem já estava ou ficará desempregado.

Desde partidos de esquerda até políticos de direita e extrema-direita – como os governadores de São Paulo e Rio de Janeiro e deputados do DEM, PSDB e PSL (entre outros) – se uniram para exigir do governo e do Congresso Federal a aprovação de verbas para bancar trabalhadores e pequenos comerciantes durante a pandemia.

Essa ação levou o ex-presidente Lula – que andava bastante sumido enquanto o povo aumentava seu descontentamento com o atual governo e só apareceu depois dos primeiros panelaços – a tecer elogios para o governador João Dória (PSDB) e ser afagado de volta em mensagens dizendo que as diferenças políticas devem ser deixadas de lado na luta contra o coronavírus.

Pode até parecer um gesto carregado de humanismo ou uma surpresa para alguns, mas para os mais atentos não há novidade. Recentemente, Lula chegou a elogiar Bolsonaro e, na sua trajetória política, são diversos os exemplos de sua admiração pela burguesia no esforço para continuar no poder enquanto atacava os demais partidos de esquerda.

Síndrome de Estocolmo

Em 1973, pessoas foram feitas reféns por dois assaltantes de banco ao longo de seis dias. Durante a tentativa de resgate e depois do fim do caso alguns dos reféns se fizeram de escudo para os bandidos e criaram fundos para arrecadar dinheiro para a defesa dos criminosos. Essa atitude foi considerada um transtorno psicológico que ficou conhecido como “Síndrome de Estocolmo”.

Pessoas acometidas por este transtorno passam a defender seus agressores em situações de estresse físico e mental extremo por entenderem que é a única forma de conseguirem sobreviver a tal situação. Assim, os momentos em que não são agredidos ou atos gentis do agressor são vistos como gestos de aparente bondade.

Não há dúvida de que estamos vivendo um momento de grande estresse físico e emocional com a atual pandemia. E parece que esta situação tem gerado sintomas da síndrome pelo capitalismo, já que o auxílio emergencial aprovado pelo Congresso Federal, a quarentena instaurada pelos governos estaduais e a doação de produtos por empresas têm sido vistos como gestos de bondade dos governantes e dos ricos capitalistas para com a população diariamente agredida.

Não há bondade no capitalismo

Só que quando analisamos os fatos vemos que não é esta a realidade. Vejamos:

1) O governo norte-americano desviou para os EUA navios carregados de máscaras e respiradores que iriam para outros países. Para isso, ofereceu um valor maior por equipamentos que já estavam vendidos. As empresas, em geral chinesas, preferiram lucrar mais do que garantir os respiradores para quem já havia comprado.

2) O governo norte-americano mantém há quase 60 anos um bloqueio econômico contra Cuba. Navios carregados de equipamentos e medicamentos têm sido proibidos de atracar em Cuba sob o risco de retaliações por parte dos EUA. Além disso, as sanções impostas a países como Irã e Venezuela (entre outros) estão mantidas. Mesmo com a pandemia e ainda que as populações destes países estejam correndo risco de vida.

3) Bancos receberam R$1,2 trilhão prometendo que criariam condições especiais para pequenas empresas, mas elas estão abandonadas diante do aumento os juros e dificultando as negociações.

4) Luciano Huck, visto como candidato a presidente e autodeclarado filantropo que usa o sofrimento de pessoas pobres em troca de audiência, demitiu vários trabalhadores da sua startup de educação pelo WhatsApp, sem nenhum direito e nem mesmo um tratamento respeitoso, mesmo sendo uma das pessoas mais ricas do país.

5) O auxílio emergencial fornecido pelo governo será de R$ 600,00, praticamente metade de um salário mínimo, enquanto o Dieese afirma que uma família de quatro pessoas precisaria de R$ 4.342,57 para viver com dignidade e mesmo assim milhões não conseguem receber por conta da crueldade do governo que impõe muita burocracia para ter acesso.

6) Cuba, mesmo sobre bloqueio, tem enviado centenas de médicos para diversos países no mundo – inclusive a Itália – para ajudar no enfrentamento da Covid-19.

7) Bolsonaro tem defendido que pior do que morrerem algumas pessoas é o colapso da economia. Para isso quer exigir que as pessoas voltem a uma vida normal em situação anormal.

8) Professores e outros trabalhadores têm sido obrigados a jornadas extenuantes de teletrabalho (home office) para garantir os lucros de escolas e universidades privadas e empresas e não desagradar clientes.

Estes são alguns fatos, mas que são suficientes para mostrar que toda essa suposta preocupação com o povo por parte dos governantes e capitalistas é apenas uma fachada para esconder a verdadeira face deste sistema: a acumulação de riquezas de um lado e pobreza extrema do outro; segurança e saúde para os ricos e ameaça de morte e doenças para os pobres.

Diferente do que pensam alguns políticos e partidos da social-democracia – que se passam por representantes da esquerda e até socialistas –, nenhuma das medidas tomadas até agora é para preservar a vida dos trabalhadores, mas apenas para evitar mais uma grande crise (talvez a maior da história) do sistema capitalista.

Querem apenas preservar seus lucros e passar uma boa impressão para amortecer a revolta do povo com o crescente número de mortos e a desigualdade social e sair na frente nas disputas eleitorais de 2020 e 2022.

O vírus pode até não escolher classe social como se tem dito, mas ele ataca com mais força os mais vulneráveis e mata mais os mais pobres e sem assistência médica e social.

Como disse Marx, a história da humanidade até hoje tem sido a história da luta de classes. E, infelizmente, não será esta pandemia que fará ela desaparecer. Só a luta do povo e uma revolução socialista podem fazer as mais nobres características humanas se tornarem o padrão na nossa sociedade.

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