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Guaiaquil, entre a pobreza e o desespero

Foto: En Marcha

EQUADOR. Sem apoio do Estado, corpos de vítimas do coronavírus são abandonados pelas ruas de Guaiaquil (Foto: En Marcha)

Extraído do semanário En Marcha, Edição 1897: 08 a 14 de abril de 2020
Tradução: Raphael Assis


Desde o dia 20 de fevereiro de 2020, quando foi confirmada a primeira paciente com COVID-19 no Equador, os números de casos têm crescido de forma alarmante. Um ritmo de contágio, até agora incontrolável, já tirou a vida de 190 pessoas1, e a quantidade de infectados segue aumentando.

Nesse cenário, apesar dos alertas emitidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) entre dezembro e janeiro deste ano, as autoridades equatorianas preferiram dedicar seus esforços e os recursos estatais para o pagamento da dívida pública, evitando adotar medidas de fortalecimento do sistema público de saúde diante da epidemia.

Em Guaiaquil, por conta das decisões erradas que as autoridades municipais têm tomado, a rede de contágio se tornou massiva, e a cidade vem passando por uma crise profunda. Tragicamente, essa incompetência do poder público tem custado a vida de mais de cem pessoas. Portanto, o modelo avançado de cidade que tanto divulgam os sociais-cristãos2 não passa de uma propaganda enganosa para mascarar as desigualdades e a pobreza em que vive o povo guaiaquileno.

Segundo dados oficiais do INEC, Guaiaquil é uma cidade com cerca de 2 milhões e 600 mil habitantes, onde o índice de pobreza é muito alto, 11,2% da população. Isso quer dizer que 240 mil habitantes vivem com menos de 84,82 dólares por mês, ou seja, não podem satisfazer suas necessidades mais básicas de saúde, alimentação e moradia. Além disso, a extrema pobreza também se faz presente na cidade, já que 50 mil pessoas vivem com menos de 42 dólares por mês. As condições materiais da população fazem com que o povo tenha que viver na informalidade para garantir o pão de cada dia, trabalhando em condições que não lhe oferecem segurança. Ou seja, a medida do isolamento social obriga essas pessoas a morrer de fome, pois o governo não resolve o problema da alimentação dos trabalhadores informais. Como se não bastasse, o governo municipal (Partido Social-Cristão) não garante às periferias e subúrbios água potável e tratamento de esgoto, o que, somado ao número de habitantes desses lugares, faz com que Guaiaquil vire um foco transmissor de qualquer doença.

Isso acontece porque, por mais de 20 anos, a cidade tem sido governada pela direita negligente e corrupta, a qual tem servido só para enriquecer os políticos social-cristãos e para implementar um modelo de cidade em que predominam o autoritarismo, o nepotismo e o abuso de poder. Muito longe de se desenvolver um modelo sustentável, em Guaiaquil criou-se um espaço urbano onde o crescimento desenfreado da população e a falta de planejamento urbano fizeram com que as pessoas passassem a habitar as áreas periféricas da cidade, sendo que os atuais governantes não têm interesse em cuidar dessa população.

Além disso, a corrupção tem trazido consequências desastrosas para Guaiaquil. Mesmo durante a pandemia, existem autoridades públicas que querem lucrar com a crise. O último escândalo foi a sobretaxação na compra de máscaras e insumos hospitalares para o hospital IESS Teodoro Maldonado Carbo, o que deixou claro como que funcionários do governo e autoridades locais enriquecem às custas das mortes das pessoas.

Mesmo que em todas as províncias do Equador tenham casos confirmados do coronavírus, pouco tem se falado da situação de Samborondón, que tem mais de 189 casos até o momento da redação desta reportagem. A situação nesse cantão3 não foi divulgada na grande mídia, pois é lá que vive a mais sofisticada elite guaiaquilena. No entanto, nas redes sociais apareceram imagens de uma festa realizada na região onde apareciam pessoas estrangeiras, as quais possivelmente importaram vários casos da COVID-19. Até agora, porém, estão culpando uma pobre mulher imigrante pelo contágio no país, enquanto os verdadeiros culpados estão em suas residências, livres de culpa.

Cadáveres nas ruas

A situação no país segue criando muitas incertezas e angústias. Além das centenas de mortes tanto pelo vírus quanto pelas condições que vêm da crise, cadáveres têm sido deixados pelas ruas da cidade de Guaiaquil. Os dados oficiais se contradizem, pois, em um momento, o ministro da saúde falou em 1.500 mortos em março nos hospitais públicos; porém, o serviço responsável pelo controle do número de mortos disse que eram mais de 400. Com as várias imagens circulando nas redes, com as reportagens da imprensa internacional e com os devastadores relatos dos familiares, podemos compreender que a tragédia é muito maior do que tem sido oficialmente divulgado.

O péssimo gerenciamento dos protocolos nos necrotérios tem feito com que vários corpos sejam colocados em bolsas e permaneçam, sem cuidados, fora dos espaços apropriados para a conservação. As pessoas que querem enterrar os corpos dos seus familiares ainda enfrentam um outro problema, que é ainda pior: uma burocracia que se dá através de infinitas papeladas, demora e má gestão do serviço, exigindo das pessoas assinaturas e documentos impossíveis de se conseguir dada a atual situação de emergência. Essa burocracia ainda chega ao cúmulo de impedir a venda de formol para o embalsamento dos corpos.

Por fim, a insensibilidade e o desrespeito do governo para com as famílias não têm limites. Há poucos dias, a prefeita de Guaiaquil falou em covas coletivas; há dois dias, distribuíram caixotes de papelão na entrada da cidade. O horror dessas ações demonstram a falta de amor pela vida humana e pela dor dos sobreviventes.

Até o encerramento desta matéria, os cemitérios e os necrotérios dos hospitais continuam despachando os mortos até as casas de seus familiares; centenas de mortos estão desaparecidos e as pessoas seguem desesperadamente buscando-os para poder enterrá-los dignamente.

Notas
1. Números oficiais até o encerramento da matéria.
2. O social-cristianismo é uma corrente política da direita que, por anos, tem domínio na região em Guaiaquil. Seus principais representantes na região são Jaime Nebot e Cinthya Viteri, que inclusive é a atual prefeita da cidade.
3. “Cantão” é um modelo de divisão geopolítica (de se dividir o espaço pela organização política) que não existe no Brasil, mas que existe em países, como Equador e Bélgica. Está abaixo do nível provincial ou estadual, porém acima do nível barrial.

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