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O Feminismo Liberal e o Escândalo da Avon

Foto: site da Avon

Por Isabela Pelague

Nesta semana, uma casa foi arrombada pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) no bairro Alto de Pinheiros, região nobre de São Paulo, para resgatar uma idosa de 61 anos que vivia em situação análoga à escravidão. A senhora, que desde 2011 não recebia salário, mas era obrigada a realizar serviços domésticos e sequer possuía acesso a um banheiro – realizando todas as suas necessidades em um balde – era “funcionária” de Mariah Corazza Üstündag.

Foto: Mariah Corazza Üstündag – Funcionária da AVON.

Para quem não conhece, Mariah Corazza era uma das diretoras de marketing da Avon, trabalhando em diversas campanhas publicitárias da empresa, inclusive propagandas que relacionavam a marca ao empoderamento feminino, a inclusão de minorias, como também, outras pautas do movimento feminista.

Esse caso horrendo não é, infelizmente, exceção. Na verdade, cada elemento envolvido em tal ato criminoso constitui-se como o sintoma de uma doença muito maior: a comercialização em massa das lutas sociais como produto de consumo, não só para lucrar, mas também para retroalimentar o sistema que oprime tais grupos minoritários. Há alguns anos, o feminismo se tornou uma das pautas favoritas da mídia capitalista que é usada de várias formas, como para a venda de produtos. O porquê disso é complexo, mas um fator importante é o crescimento dos movimentos sociais e o aumento do poder de consumo das mulheres nos últimos 50 anos, mais especificamente das mulheres brancas.

Não demorou muito para o capital identificar que apresentar um produto usando o discurso tradicional de ‘agradar o namorado’, ‘deixar a consumidora mais delicada e agradável aos homens’ não iria mais funcionar. Uma terceira onda Feminista estava a caminho – então, nada mais conveniente do que nela nadar. Assim, diversas empresas passaram a adotar um discurso mais progressista em suas propagandas, apresentando o léxico do momento. Compre este batom para se empoderar. Use esta blusa para ser livre. Use essa ou aquela maquiagem para o seu bem-estar.

Por trás do esvaziado de sentido de palavras antes tão lindas e fortes, havia um elemento mais que característico do “Novo” Feminismo: os pronomes possessivos no singular. Meu. Seu. Aqui, o indivíduo é mais do que soberano, suas vontades não podem ser paradas. É o prazer dele (ou melhor, dela) que conta, a sua “liberdade” é prioridade, nem que para isso o indivíduo cerce a liberdade do outro. Dessa forma, formou-se uma ala oportunista e neoliberal nos movimentos progressistas, ou seja, a dissipação do coletivo em prol do indivíduo e de suas vontades. O senso de comunidade, elemento base de qualquer movimento de luta, tornou-se secundário e despolitizado.

Essa linha de pensamento é extremamente poderosa. Para cada grupo conservador que tenta boicotar uma marca que veicula feminismo em suas mídias, há pelo menos 10 ou 20 grupos de “progressistas” liberais fazendo campanha massiva para defender tal marca como atividade “política”. Grifes que cometem os mais diversos crimes contra a dignidade humana por meio da exploração de trabalho semi-escravo em suas confecções são exaltadas quando estampam em seus catálogos a imagem de algum corpo fora do padrão – a pauta da representatividade também foi distorcida pelo capital.

Quando não são as próprias empresas as responsáveis diretas desse tipo de ação, são funcionários de seu mais alto escalão que se deleitam ao explorar o outro, como é o caso de Mariah Corazza e sua família. A idosa subjugada por Corazza passou a dormir no trabalho quando sua casa foi interditada, quando o pouco que recebia era incapaz de mantê-la sob um teto seguro. Nesse ínterim, a patroa vivia uma vida de luxo com a remuneração da empresa “inclusiva” em que trabalhava. A aspirante a sinhazinha só foi demitida apenas depois da grande repercussão do caso, com direito até nota de repúdio (sic) da Avon, mas sem citar seu nome. Afinal, expor o “posicionamento antirracista” da empresa por meio de hashtag é fácil, mas rechaçar publicamente uma pseudo-escravocrata moderna é bem mais difícil. Oferecer apoio financeiro integral a uma mulher tão explorada, não lucra tanto como fazer propagandas “progressistas”.

E muitos irão “perdoar” o que aconteceu. Individualizar a culpa, mesmo quando o erro é corporativo. Feminismo, empoderamento, liberdade e sororidade foram bastante esvaziados pela mídia burguesa ao passo que enriqueciam as grandes corporações. Diversos segmentos de cunho revolucionário caíram no reformismo e, por consequência, no liberalismo. Seus integrantes foram ludibriados pela ilusão de consumo consciente no capitalismo. Tornou-se prioridade exclusivamente repugnar marcas machistas e “lgbtfóbicas” quando, na verdade, o próprio conceito de marcas dentro de um sistema desumano é o seu problema embrionário.

O lema “quem não lacra, não lucra” mostra muito bem que o feminismo liberal, além de estagnar o movimento de mulheres, impossibilita qualquer possibilidade de ruir o capitalismo. O neoliberalismo surfa na crista da ascensão do movimento feminista. Desconstruir preconceitos nas redes sociais é fator sine qua non para obter a aprovação desses movimentos, enquanto seu íntimo continua ativamente explorador e narcisista, a exemplo de Corazza e sua família.

Entretanto, engana-se quem acredita que as consequências do quadro aqui apresentado sejam de irremediável de caráter pessimista. Há alternativas para contornar o neoliberalismo; cortar seus tentáculos dos movimentos sociais e parar a realimentação do sistema capitalista. A solução mais viável e efetiva é a total marxização de toda e qualquer pauta identitária, onde as experiências individuais de um ser não são ponto final para o debate, mas sim o fortalecimento para organização coletiva.

Apenas com o marxismo-leninismo será possível alcançar os reais objetivos das lutas progressistas, revolucionárias e não reformista. Abolição, não ressignificação. É a organização social em partidos que transmitam de forma didática e efetiva, a palavra do povo, teremos alguma perspectiva de melhora. Caso contrário, as organizações de luta por justiça social estarão fadadas a possuírem um protagonismo branco e burguês que não está lá para destruir as algemas de repressão, e sim para alimentar o próprio sistema capitalista. Marcas milionárias de cosméticos, roupas, acessórios e outros elementos de consumo não são aliadas da luta proletária, e sim peões dessa perspectiva econômica que coloca pessoas negras em suas propagandas enquanto as exploram em um regime de trabalho semi-escravo. É apenas no comunismo que pode-se pensar em uma integral liberdade a todos os povos, as mulheres e etnias, pois enquanto existir a mais-valia e for aceitável para os grupos dominantes, sua militância política não passará de lacre para o lucro.

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