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Servidores públicos denunciam condições de trabalho em Mauá

INSATISFAÇÃO DA CATEGORIA – Foram recolhidas diversas denúncias dos servidores de Mauá contra as atuais condições de trabalho na cidade. (Foto: Reprodução/ABCDOABC)

Bernardo Galeano

MAUÁ – Que a gestão de Átila Jacomussi (PSB) à frente de Mauá foi um desastre completo já é um fato consumado mesmo antes do final de seu mandato. Os inúmeros escândalos envolvendo roubo de dinheiro público que levou a duas prisões do atual mandatário do cargo de prefeito, além de uma série de investigações em andamento, falam por si só. A corrupção endêmica e a incompetência administrativa espalham-se por todas as secretarias e, obviamente, pela câmara municipal, onde 22 dos 23 vereadores foi cúmplice de crimes e irregularidades do atual governo, demonstrando seu descaso absoluto com a classe trabalhadora mauaense.

O auge desse descaso foi quando um dos vereadores, Adelto Cachorrão (Avante), em meio à pandemia da Covid-19, defendeu o corte de salários dos servidores públicos municipais, enquanto ele e seus comparsas que controlam o poder na cidade há décadas seguem se esbaldando com salários nababescos e ignoram a vida miserável da maioria do nosso povo.

É esse fato lamentável, inclusive, o disparador da construção da presente matéria: eu, que também integro o quadro de servidores públicos de Mauá resolvi entrevistar colegas do funcionalismo para saber o que eles pensam da política da cidade e tornar público o entendimento sobre como funciona a administração municipal, já que nós vivemos bem de perto essa situação.

Para manter a segurança dos entrevistados e a minha própria, substituí os nomes e omiti algumas informações, tendo em vista que uma das principais denúncias que recebemos é referente às pressões sofridas pelos funcionários de carreira.

“Uma das coisas que mais observei nessa gestão em relação aos servidores foi o assédio moral” diz uma das servidoras, aqui chamada Silene. O servidor Fernando a complementa: “o nosso secretário fala o tempo todo que devemos ser mais fiéis à atual gestão. Não temos que ser fiel à gestão, temos que ter fidelidade e compromisso com os munícipes”. E Zenira, mesmo sendo estatutária, o que lhe garante estabilidade, teme represálias: “denúncia infelizmente tenho medo de fazer porque ficaria muito evidente o meu setor”. Fernando vai além: “não se pode tecer crítica alguma. Lutamos pela melhoria das condições de trabalho, e por isso criticamos quando as coisas não andam bem. Mas já tomei advertência e fui ameaçado de processo administrativo por me opor a coisas que estão erradas”.

Sobre a postura da gestão em relação ao combate à pandemia da Covid-19, o tom das reclamações aumenta consideravelmente: “O decreto que vai fazer a gente trabalhar normalmente, não acho certo, deveria continuar revezando até porque duvido que o secretário pegue trem todos os dias e venha trabalhar todos os dias, no revezamento ele mesmo só veio poucas vezes e trabalhou na maioria dos dias em casa” diz Roberta. E Zenira acrescenta: “A gestão atual é péssima, acabaram com o rodízio e a partir de segunda vamos trabalhar normalmente, ou seja, nos expõe a riscos de contágio porque segundo a secretária do gabinete ‘o prefeito não vai pagar pra ninguém ficar em casa’”. A servidora Silene afirma ainda, com pesar: “Nas UPAS houve mortes de funcionários por falta de orientação mais eficaz pra prevenção” e continua “acho que deveriam fiscalizar o fluxo de pessoas nos bares e ruas aglomeradas, feiras, porta de bancos.” Laércio concorda: “Em uma visão geral, faltou ações de mais fiscalizações em torno do centro da cidade. Não apenas ações repressivas e sim mais esclarecedoras. Um a um. Conscientização. Nos bairros também. As pessoas possuem apenas as informações das redes sociais e televisivas. Mas diretamente do governo falta muito.” Fernando diz que “poderia contribuir mais com meu trabalho se fosse algo pensado com cuidado, organização e responsabilidade para ajudar realmente a  população, mesmo não sendo a minha área a da saúde. Bastava um treinamento para visitarmos casas e monitorar mais de perto a situação da nossa população. Mas não houve nenhuma iniciativa dos gestores a respeito disso”. Roberta está indignada com o descaso: “Nós que estamos trabalhando em um esquema de revezamento e em um serviço considerado como não essencial temos que comprar nossos itens de higiene e segurança. Em nenhum momento a chefia se preocupou em ceder sabão, álcool gel ou máscara. A Prefeitura de Mauá deixou de realizar várias ações, como a criação de um sistema de atendimento psicológico por telefone para todos os serviços principalmente para os da linha de frente e população em geral”.

Pergunto então se alguma ação foi tomada por parte dos gestores para com os comissionados em relação a uma campanha de proteção social por conta da Covid-19 e Laércio faz uma grave denúncia: “Sei, por exemplo, de servidores comissionados indo atrás de cestas básicas para necessitados, mas não por solidariedade, e sim usando tal atividade, claro, pensando em votos para a próxima eleição. Isto é claro. Tem setores em secretarias que contam com até cinco comissionados com cargos de chefia (no mesmo setor), se ocupando de tal missão. Nada muda. Assistencialismo na própria secretaria e em outras também”.

Para Henrique, falta conhecimento técnico aos gestores e comissionados: “são muitos, muito bem remunerados e sem formação na área, que se contentam apenas com uma visão assistencialista e imediata, usando a nossa secretaria como um recurso de marketing político, deixando de lado os objetivos dela.” E continua: “Neste cenário em que ninguém estava preparado, as ações devem estar voltadas aos cidadãos que se encontram em situação de vulnerabilidade. A máxima deve ser a de preservar vidas. Se antes não foi pensado, não é agora que devemos nos desesperar e implantar projetos que tragam a sensação de que tudo está normal. Qualquer ação precipitada, ou oposta ao isolamento nos custará a saúde física e mental. Precisamos nos adaptar nessa nova realidade, com planejamento e estrutura adequada, o que não temos”.

A estrutura para o trabalho parece ser um dos maiores tormentos dos servidores públicos mauaenses: “Falta infra estrutura para realização de muitos que ocupam suas funções enquanto servidor. É penoso não apenas para um ou outro. Material básico chega a ser item de luxo. Impressionante! Basta uma inspeção em alguns departamentos pra ver que falta muita coisa”, diz Laércio. Silene afirma que “necessitamos de um lugar apropriado para funcionamento íntegro do ambiente. Alguns setores não tem acessibilidade adequada para os munícipes”. Henrique acrescenta sobre seu setor: “Até tivemos um ganho com os espaços construídos nos últimos anos nos bairros, mas perdemos um espaço importante no centro, no qual circulavam um maior número pessoas e projetos. Nos bairros os equipamentos não têm a estrutura ideal para funcionar. Eles foram mal planejados para atender o público. Pisos e janelas mal planejados. Equipamentos básicos como bebedouros, computador, telefone e iluminação faltaram.” Diz ainda que “essa gestão não tem olhado para o servidor. Presenciamos situações de desrespeito. Muitas vezes não nos ouviram, não nos receberam, resultando desta forma num quadro de funcionários desmotivados. Estamos aqui para atender o munícipio, independente da orientação política.” E faz um apelo: “precisamos de gestores que possuam conhecimento técnico”. Roberta afirma que “a prefeitura, para o cumprimento das atividades, cria um ambiente insalubre para trabalhar. Falta iluminação, ventilação, mobiliário e até um espaço para momento de descanso e alimentação. Isso sem falar que somos obrigados a comprar material de higienização e limpeza com nossa própria remuneração. Para Laércio, é muito claro os motivos dessa situação: “Esta gestão permeou entre a saída ou não do prefeito que, possui o velho formato do coronelismo inconsequente que assola muitas cidades do país. Populismo e demagogia. Dizeres que caem bem nesta gestão, infelizmente. Só lutam pelos seus gordos salários. Muitos não possuem sequer gabarito para ocupar determinados cargos e não estou dizendo de formação acadêmica e sim de habilidades em lidar com o público. “Presenciei medidas nestes quatro anos de “gestão” que, a meu ver, fez a cidade atrasar dez anos, para não dizer mais”.

Diante desse triste quadro, questiono então meus colegas sobre o papel do Sindserv, o sindicato dos servidores e funcionários públicos de Mauá e sua atuação no município. E as impressões deles não são nem um pouco positivas. Segundo Zenira, “o sindicato deixa muito a desejar quando se trata de benefícios para os servidores… De vez em quando consegue nada mais que o “mínimo”, não percebemos luta de verdade para a classe”. Silene é enfática: “O sindicato não atua em favor do servidor” e Fernando a completa: “O filho do presidente do sindicato trabalha no governo, direto com o prefeito. Eles atuam mais em favor da velha política mauaense do que pelos trabalhadores. Precisamos nos organizar para lutar contra isso e tomar o sindicato em algum momento, lutando de fato pelos nossos direitos”. Laércio alerta que “o Sindicato é uma necessidade, sou a favor,”, mas com uma ressalva: “muitas vezes são o braço do governo e não do servidor. Sofrem de inércia crônica. Às vezes fazem uma boa mediação. Outras vezes dançam conforme acordos com o governo. O trabalhador fica entre ambos, esperando decisões que são em sua maioria determinantes para suas vidas.” Henrique acredita que “o trabalho do sindicato é importante para conquista e garantia dos direitos dos trabalhadores, mas eles precisam atender melhor as nossas demandas.” Já Roberta está mais descontente com a atuação do SINDSERV: “O objetivo principal dele é defender os direitos econômicos do Prefeito. Esse sindicato não me representa”.

A conclusão a que chego dessas conversas com meus pares dentro da administração pública é que a gestão atual despreza os servidores públicos concursados e atua constantemente para criar um clima de hostilidade, desmotivação e perseguição, de forma a impulsionar apenas os comissionados por indicação política, um vício antigo da cidade em atrelar a máquina pública ao controle do prefeito, vereadores e secretários municipais.  Essa situação vergonhosa não é combatida pela atual direção sindical que, ao invés de se comprometer na luta por melhores condições de trabalho e pelos direitos do funcionalismo, é cúmplice da politicagem suja que corrói nossa cidade como um câncer. Parece inacreditável que Mauá, 64º maior PIB do país, viva essa situação tão grave, que se estende à maioria de sua população que sofre com a falta de infraestrutura, de saneamento básico, de uma condição de moradia digna, com a destruição da saúde pública, com o desemprego e a informalidade crescente, além de ser prejudicada pela precarização do serviço público pela administração atual. Tudo isso é consequência de uma política genocida e capitalista que se dilata nesse município, onde os trabalhadores são impiedosamente explorados e massacrados pelos governantes para manter intactos os interesses e privilégios dos ricos e poderosos, contando ainda com o silêncio constrangedor daqueles que deveriam nos representar. Somente com a luta e a organização dos trabalhadores poderemos avançar à consciência de classe para combater os males que a política tradicional inflige não apenas em Mauá, mas em todas as cidades do país. Por isso é fundamental a construção de sindicatos fortes e combativos, a fim de destruir a hegemonia burguesa sobre a sociedade, colaborando assim para que o controle do poder político esteja com quem realmente deve estar: a classe trabalhadora!

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