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“O revolucionário Manoel Lisboa vive!”

MANOEL LISBOA VIVE – O Partido Comunista Revolucionário (PCR) mantém seu juramento de continuar o trabalho de Manoel Lisboa de Moura. (Foto: Arquivo/Jornal A Verdade)

Em homenagem a este verdadeiro comunista revolucionário, A Verdade publica o depoimento da companheira Dionary Sarmento revelando como foi sua convivência com Galego.
Dionary Sarmento

VITÓRIA (ES) – Manoel Lisboa de Moura foi assassinado no dia 04 de setembro de 1973, no Doi-Codi do IV Exército em Recife, Pernambuco. Durante 15 dias sofreu violentas e bárbaras torturas dos agentes da ditadura militar. Sua conduta foi exemplar, suportando as mais terríveis torturas: foi despido, pendurado no pau de arara, espancado por todo corpo, choques elétricos no pênis, nas mãos, nos pés, nas orelhas, queimado com vela, logo nos primeiros dias perdeu a sensibilidades dos membros inferiores, e nada disso fez entregar seu companheiros para os carrascos da ditadura. A operária e militante do PCR Maria do Carmo também presa e torturada, relata como viu Manoel Lisboa no DOI-CODI, em setembro de 1973: “Ele estava totalmente nu, com bastante hematomas. Ele fixou os olhos em mim e nada falou. Depois fiquei numa cela vizinha, ouvindo seus gritos. Depois de muito tempo, pensei que ia enlouquecer, pensei que não ia me libertar daqueles gritos de dor. Seu comportamento foi firme e  causou admiração até mesmo aos torturadores.” (A Vida e a Luta do comunista Manoel Lisboa. Edições Manoel Lisboa).

É este regime que pratica a tortura e assassinatos nos porões, que Bolsoanro, sua família e os generais querem novamente implantar em nosso país. Foram derrotados várias vezes, e serão quantas vezes se fizerem necessária. Te juramos Manoel!

Companheiro Zé, a luta continua!

O Manoel Lisboa de quem falo neste texto, na verdade, é o Companheiro Zé. Só após seu assassinato, soube o nome de registro civil deste herói, com quem tive a honra de conviver.

Pretendo ser breve, e é difícil diante da realidade de dias tão obscuros, insegurança e necessidade de vencer uma batalha entre forças tão desiguais: revolucionários contra a Ditadura Militar.

Centenas de patriotas brasileiros sequestrados, torturados e assassinados nos porões da ditadura, milhares exilados, imprensa censurada, leis e tribunais de exceção do regime implantado em 1964 com o golpe contra o governo do Presidente João Goulart, que buscava uma alternativa nacional de desenvolvimento para o Brasil e, por isso, foi deposto por militares brasileiros a serviço do imperialismo norte-americano que dava seguimento a sua doutrina de dominação no Continente, “América para os Americanos”.

Originária do PCB, a quem devo minha formação, quando ingressei na Faculdade de Direito da UFRN era vista pelos mais à esquerda como “reformista”. Minha relação amorosa com Leonardo Cavalcanti, estudioso, inteligente, mas irreverente e tido como boy burguês, além de meu visual de profissional de vendas de publicidade, completavam um perfil negativo junto ao núcleo do PCR da Casa do Estudante. Mas a convivência mostrou que tínhamos como contribuir, o que de fato aconteceu em pouco tempo. Organicamente nunca pertenci ao PCR, mas, quando nos transferimos para Recife, já tínhamos vínculos fortes e lealdade ao partido.

A confiança nos companheiros e a vontade de ajudar nos integrou naturalmente ao núcleo estudantil do PCR em Recife, 1970. Para meu orgulho, foi então que conheci o Companheiro Zé.

Dizer o que sobre ele? Posso escrever muito. Mas as palavras nunca serão suficientes para todo o sentimento e o legado que aquele homem me transmitiu em três anos.

Posso dizer que ouvir sua opinião sobre a necessidade da luta, da união de esforços, do sacrifício exigido de um revolucionário não era mera retórica: ele era a prova da existência de um verdadeiro combatente.

Seu olhar límpido e firme, a clareza de sua voz, a convicção dos seus argumentos me transmitia energia. E era doce, gentil, educado. Mas intransigente na defesa de suas ideias.

Acho importante salientar para o movimento de mulheres que Manoel Lisboa, o Zé, foi um precursor da defesa do feminismo. E provo. Léo, meu companheiro, era machão nordestino. E na mínima manifestação (às vezes até pedindo pra ser servido por mim) era duramente repreendido pelo visitante. Uma vez chegou a dizer mais ou menos essas palavras: “Companheiro, isso não é forma de tratar sua mulher. Na verdade, ela é mais revolucionária que você. Não só por suas origens, mas por tudo que já enfrentou sem desistir de ajudar a revolução”. Leonardo respeitava, amava e se dedicava a tarefas de máxima segurança. O Zé confiava nele. Mas não deixou de corrigir o desvio.

Passei a me valorizar mais como mulher quando quis participar em tarefas mais de frente e ouvi dele: “Não, companheira. Você é muito mais útil aqui na retaguarda. O PCR precisa de você no lugar certo. Todas as tarefas são importantes”. Foi uma lição política e um reforço a minha autoestima, por não dar o devido valor ao que fazia.

Sempre participei de conversas e debates, opinando nas questões em que estava envolvida. Não era simplesmente tarefeira. Efetivamente, foi sob a liderança do Zé que prestei serviços ao PCR. Fiz parte das discussões em que, como dirigente comunista seguro e firme nas suas teses, debatia conosco as ações políticas com os parcos recursos disponíveis. Definição de pautas, palavras de ordem, segurança para produzir os dois jornais do PCR: O Reflexo, visando estudantes, e Hora Extra, voltado para o operariado. Meu trabalho só não incluía o esquema do Hora Extra. O jornal exigia normas rígidas de segurança, distribuído pela madrugada nas portas de fábricas e pontos estratégicos de acesso ao proletariado. Poucos participavam desta tarefa. Eu, por exemplo, só sabia do sucesso relatado em distribuições já feitas.

Mas a distribuição do jornal e as panfletagens na área estudantil sempre tiveram minha participação.

Quero afirmar que nada me foi mais gratificante como cidadã que minha casa ter sido o abrigo seguro, um refúgio estratégico do Zé, que atravessava todo o Recife a pé, sol ou chuva, dia ou noite, na mais perigosa clandestinidade.

Mas sabia que minha porta estava lá. Que haveria um prato de comida simples, mas feita por mim. E quantas vezes explicava a repetição do prato: “Não estranhe. Não sei quando vou ter comida de novo”. Com o tempo nem precisava falar mais, eu já sabia da gula por necessidade.

As roupas desbotadas, sandálias gastas, mas limpo. Educado. Mostrava ter tido boa educação em todos os detalhes.

Só vi sua companheira Selma uma vez, casualmente ao ceder meu apartamento para reunião de dirigentes. Mesmo assim, sem saber que era sua esposa. Reconheci em fotos pela imprensa. Ainda imagino como dói ter perdido o Manoel Lisboa, sendo mulher e irmã na luta. Tem todo meu amor e respeito.

Não sei exatamente quando vi o Companheiro Zé pela última vez. Lembro que nossas reuniões foram escasseando à medida que extraoficialmente sabíamos da queda de militantes de outras organizações que eram aliados nossos nos trabalhos de massa. Marco como sinistro o período entre a segunda quinzena de agosto e a primeira de setembro de 1973. Neste período, cheguei a fugir do Recife com Léo e meus quatro filhos, para aldeia de pescadores amigos no RN. Com muito medo, mas com receio de perder empregos, voltamos. No dia 5 de setembro, li a notícia do falso tiroteio em que Zé teria morrido. Inevitável não ter sido sequestrada em casa e Léo na rua. Direto pro Doi-Codi. A data não lembro, era dia útil. Eu havia chegado do trabalho, início de noite. O ritual todos já conhecem e nem a Léo tive coragem de contar. Abortei, tive hemorragia e febre. No quarto dia, fui posta na cela coletiva onde conheci Fortunata e Maria do Carmo, do núcleo operário. E nesse dia, cuja data não sei precisar, me chocou ver na capa da Veja ou Isto É, não tenho certeza, a foto do Pinochet com a faixa presidencial no peito.

Desta cela vi sacos sendo carregados, úmidos de sangue e com todo aspecto de pedaços de corpos humanos. Vi duas vezes.

Da mesma cela, no segundo dia, vi passar Zé Nivaldo, companheiro, amigo e colega de turma. Estava encapuzado, todo machucado e sujo. Se não desse sua risada inconfundível, não o reconheceria – nunca havia visto Zé Nivaldo só de cuequinha tipo sunga, com cabeça totalmente coberta. Riso de puro nervosismo e desespero. Entendi: Nosso PCR caiu.

Nunca me recuperei desse trauma. Porém, do exemplo do Zé e de outros companheiros, nunca esqueci.

Enfim, se existir uma dimensão onde estiver Manoel Lisboa, companheiro Zé, desejo que saiba: Dionary Sarmento teve, através dele, o maior exemplo de que, para um verdadeiro revolucionário, a luta continua. Ainda que covardemente assassinado, seu exemplo lhe mantém no nosso comando.

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