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Emissoras de TV cancelam debates para favorecer candidatos dos ricos

SEM DEBATES – Grandes redes de TV cancelam debates eleitorais para favorecer candidatos da burguesia (Foto: Reprodução)

Os comentaristas das grandes emissoras de televisão gostam de posar de “imparciais”, contrários à “velha política”, condenam as famílias que se perpetuam no poder municipal, mas na hora da eleição fazem de tudo para favorecer esses grupos. De fato, a realização de debates colocaria em risco e abriria espaço para as candidaturas de oposição ao fascismo crescerem.
Felipe Annunziata

RIO DE JANEIRO (RJ) – Em mais uma demonstração de que os donos dos canais de TV têm pouco apreço pela democracia, várias emissoras cancelaram os debates para prefeitos em diversas capitais. Globo, Record, RedeTV!, entre outras redes, cancelaram debates com candidatos a prefeito em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia, Belo Horizonte, Salvador, Teresina e Recife. 

O argumento é de que a pandemia da Covid-19 impede a realização de encontros presenciais e que promover eventos a distância poderia criar distorções, como a conexão de internet de um candidato no meio de uma intervenção. No entanto, se observarmos a situação que está posta nas eleições municipais, fica muito claro que o objetivo é outro.

Por que as redes de TV cancelaram os debates?

Embora possamos sempre questionar a validade das pesquisas eleitorais, o fato é que a grande mídia pauta toda sua cobertura jornalística com base nelas. Os principais institutos têm apontado um cenário eleitoral favorável aos candidatos dos partidos do Centrão, oligarquias tradicionais (que controlam currais eleitorais e esquemas de caixa 2 para se eleger) e candidatos fundamentalistas. 

Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia e Teresina, por exemplo, contam com a liderança de candidatos ligados ao Centrão, que hoje é a principal base parlamentar de apoio a Bolsonaro. Esse grupo de partidos inclui, por exemplo, o DEM de Rodrigo Maia e o PSD de Gilberto Kassab.

Em outras cidades como Fortaleza e, principalmente, São Paulo, candidatos ligados ao fascismo de Bolsonaro ou ao fundamentalismo religioso estão na frente das pesquisas. Esse candidatos, órfãos de uma agremiação ligada ao presidente, estão em diversos partidos, mas principalmente no Republicanos, partido da Igreja Universal e aliado de primeira hora no acobertamento dos crimes de Bolsonaro.

A questão é que este é o cenário que os colunistas econômicos, os liberais brasileiros mais querem. O loteamento das prefeituras entre oligarquias, fundamentalistas e candidatos de “centro” alinhados com os bancos. 

A realização de debates colocaria em risco e abriria espaço para as candidaturas de oposição ao fascismo crescerem. Isso se mostra perceptível nos casos de São Paulo e Goiânia, por exemplo.

Após o primeiro debate na Rede Bandeirantes, o candidato da coligação PSOL/UP/PCB, Guilherme Boulos, obteve o maior crescimento nas pesquisas por um candidato até agora na cidade, se isolando no terceiro lugar e ameaçando tirar um dos dois candidatos da direita (Russomano ou Bruno Covas) do páreo no segundo turno.

Em Goiânia isso se mostra mais uma vez. O candidato da Unidade Popular, Fábio Júnior, ocupa o sexto lugar nas pesquisas realizadas até agora. No primeiro – e possivelmente único – debate realizado, Fábio foi considerado por vários setores da imprensa como um dos melhores candidatos. 

Além desses casos, em várias outras cidades onde as candidaturas antifascistas têm chances reais, como Florianópolis ou Belém, a ausência de debate favorece candidatos ligados ao Centrão e às oligarquias locais.

Unidade Popular e outros partidos de esquerda são excluídos do debate

Outra tática da mídia burguesa utilizada – essa mais tradicional – é simplesmente a exclusão de partidos de esquerda sem representação no Congresso neste momento do debate. O argumento é a legislação eleitoral que permite isso.

A tática vem sempre acompanhada do velho discurso de que “temos muitos partidos e muitos candidatos, isso atrapalha o debate”. Mas, afinal, as redes de TV dedicam grande parte da sua grade para entrevistar ministros do governo fascista, banqueiros, “investidores”, economistas “imparciais”, que ficam o dia todo defendo a política neoliberal. Por que eles não podem dedicar duas horas de sua programação, num dia do ano, para ouvir o outro lado, o lado de quem defende os direitos dos trabalhadores?

A legislação sobre debates eleitorais é outra aberração. A eleição é para prefeito e vereador, por que, então, é o fato de ter ou não 5 parlamentares que define quem vai ou não participar do debate? 

O caso da Unidade Popular é ainda mais escandaloso. O partido de esquerda registrado apenas em dezembro de 2019 nem sequer pode participar das eleições gerais de 2018 e mesmo assim essa legislação se aplica. A UP foi excluída de debates em cidades como Teresina, Recife e João Pessoa, sendo impedida de confrontar as ideias de seus concorrentes.

Objetivo das emissoras é garantir seus interesses e dos seus financiadores

Os comentaristas dessas emissoras gostam de posar de “imparciais”, contrários a “velha política”, condenam as famílias que se perpetuam no poder municipal, mas na hora da eleição fazem de tudo para favorecer esses grupos. A Rede Record, controlada pela Igreja Universal, cancelou o debate no Rio e em São Paulo para proteger os candidatos Crivella (Republicanos-RJ) e Russomano (Republicanos-SP). 

Crivella é odiado por 70% da população do Rio e possivelmente não será reeleito. Russomano sempre se caracterizou por perder na eleição por ter posturas claramente antipovo. Para impedir que isso aconteça, a Record cancelou os debates. Para a revista Fórum, Guilherme Boulos afirmou que “ao invés de fugir do debate, ele [Russomano] mandou cancelar. Foi o que aconteceu com a Record”. 

O caso da Rede Globo é igualmente emblemático. A emissora diz que não tem como fazer o debate presencial pelo risco de contaminação da Covid-19, mas desde agosto já retornou com a gravação de novelas. Para mostrar “disposição democrática”, a Globo sugeriu que apenas os quatro primeiros colocados nas últimas pesquisas antes do debate participassem, o que foi negado pelos partidos. Sobre isso, na internet o candidato a prefeito de Teresina pela UP, Pedro Laurentino, ironizou: “melhor nem ter eleição. Manda o Ibope nomear os prefeitos”. 

A outra possibilidade seria realizar debates a distância, via plataformas de videoconferência. A Globo se negou, afirmando que poderia gerar distorções. Mas durante a semana, os comentaristas da mesma emissora acharam um absurdo que na disputa presidencial dos EUA não se substituísse o debate presencial por um à distância. Ou seja, o debate à distância só vale quando é do interesse da emissora.

Ausência de debates dificulta acesso às informações 

O fato é que o que acontece nessas eleições de 2020 é o que sempre ocorreu nos processos eleitorais brasileiros. Toda a máquina governamental, midiática e econômica é girada para manter tudo como está, para assim garantir governos que apliquem a política da burguesia nas cidades. 

No próximo mandato, inclusive, os novos prefeitos terão decisões importantes para tomar. A privatização da água e saneamento e a “Reforma” Administrativa para acabar com direitos de servidores são os principais exemplos. Com isso, está mais do explicado o porque de não haver mais debates. Para a mídia o importante não é a democracia, mas sim os lucros dos banqueiros, empresários e as boquinhas das suas igrejas e oligarquias.

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