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Os zumbis politizados de George Romero

ENTRE OS EUA E O VIETNÃ – Romero tenta criar no espectador um senso de urgência por ver seu país sendo destruído por uma força hostil aparentemente invencível para emular o terror de quem é vítima dessa destruição na vida real. (Foto: Arquivo/Reprodução)

Quando os zumbis se voltam contra esses militares, Romero consegue fazer o espectador torcer pelos monstros, torcer pela criatura contra o criador, ao ataque coletivo contra a hierarquia autoritária.
Gabriel Borges

SÃO PAULO (SP) – Hoje em dia, os zumbis estão presentes de muitas formas na cultura pop que a juventude consome diariamente através da TV, dos videogames e dos livros. No entanto, toda essa onda começou lá em 1968, quando o diretor independente George A. Romero iniciou sua trilogia clássica sobre as criaturas com o filme “A Noite dos Mortos-Vivos”, usando os zumbis como metáfora pra criticar a sociedade americana, o racismo, o consumismo e inúmeras outras questões sociais que poucos tinham coragem de tratar naquela época. Assistir aos filmes de George A. Romero, além do entretenimento com boas histórias contadas com um baixíssimo orçamento, é também um estudo sobre diversas mazelas que o capitalismo submete o povo, às vezes nos convertendo em verdadeiros mortos-vivos.

George A. Romero fez sucesso com suas produções independentes que, desafiando grandes estúdios de Hollywood, encantaram o público com histórias muito bem contadas, com baixo orçamento, qualidade técnica impressionante e uma maestria no gênero ao qual se dedicou: o terror. No entanto, a verdadeira genialidade do diretor foi ter ressignificado o conceito do morto-vivo (já existente antes no cinema americano em filmes clássicos como O Zumbi Branco, de 1932) para tecer críticas extremamente ácidas e poderosas à sociedade e à política americanas em seus mais diversos aspectos. Apesar de estar bem longe de ser um comunista, Romero expõe como o capitalismo e a sociabilidade que ele cria destroem a consciência das pessoas, hipnotizando-as com o consumismo, com a guerra e com os preconceitos raciais. Embora seja característica presente em toda sua filmografia, a dica aqui se concentrará na trilogia original dos mortos-vivos, que se inicia com o clássico A Noite dos Mortos Vivos (1968), e segue com Despertar dos Mortos (1978) e Dia dos Mortos (1985).

A Noite dos Mortos-Vivos: e se a Guerra do Vietnã fosse nos EUA?

Milhares de homens estão andando pelo país causando destruição por onde passam, matando mais de um terço da população como se não fosse nada. Os generais do Exército estadunidense negam qualquer responsabilidade por terem liberado radiação por todo o país de propósito, comprometendo a área rural e fazendo as pessoas terem medo de sair de casa.

Parece um retrato da Guerra do Vietnã, conflito em que os EUA agrediram covardemente o povo livre do Vietnã, lançando bombas venenosas e ceifando a vida de milhões de pessoas. Mas a arte tem a prerrogativa de usar da ficção para criar uma versão alternativa da realidade, e assim o fez George A. Romero, só que usando zumbis.

O enredo do filme que marcou época como um clássico do terror é bastante simples: um satélite que voltava de Vênus é destruído propositalmente pela NASA, deixando cair em uma região rural dos EUA dejetos radioativos que fazem com que os mortos se levantem de seus túmulos e saiam andando por aí. A protagonista Bárbara, que veio de longe para prestar homenagem ao seu pai em um cemitério, acaba se deparando com um desses mortos-vivos, foge para uma casa e se junta ao um grupo de pessoas que também se refugiava da ameaça.

A destruição que os generais estadunidenses causam nos outros países agora assola seu próprio país. Romero tenta criar no espectador um senso de urgência por ver seu país sendo destruído por uma força hostil aparentemente invencível para emular o terror de quem é vítima dessa destruição na vida real. Os zumbis de Romero nesse filme podem ser vistos como uma metáfora do próprio Exército estadunidense, que na vida real é tão carniceiro, tão destrutivo, tão desumano quanto mortos-vivos canibais.

Mas enquanto o mundo acaba lá fora, dentro da casa onde os protagonistas se refugiam há um conflito tão perigoso quanto: um conflito por poder. Apesar dos mortos-vivos, o conflito que mais toma o tempo da história aparece aqui, quando Ben (um homem negro, destemido e extremamente racional) é confrontado por Harry (um homem branco, autoritário e extremamente arrogante) sobre qual a melhor forma de se defender dentro da casa. Harry se recusa a escutar o que o homem negro propõe, mesmo sendo obviamente a melhor ideia, e há aqui uma simulação da própria realidade racial nos EUA, em que enquanto o homem branco usa uma suposta autoridade racial para impor o que pensa, o homem negro precisa primeiro se fazer ser escutado para então conseguir ter voz.

Não há como não falar do final poderosíssimo do filme; portanto, quem quiser evitar saber o que acontece pode pular o parágrafo seguinte.

Após o ataque de uma multidão de zumbis, Ben é o único sobrevivente, resistindo a quem queria o seu fim tanto fora como dentro da casa. Ele adormece e de manhã o exército americano, agora literalmente, aparece para teoricamente salvar os sobreviventes da região. Já não há mais mortos-vivos, apenas pessoas como as que vemos todo dia. Mas quando os soldados, todos brancos, se aproximam da casa e veem a figura de Ben surgindo na janela a pedir socorro, a primeira reação do militar é dar um tiro em sua cabeça. Em um contexto de violência racial extremamente acirrada, inclusive com o filme se passando no mesmo ano em que Martin Luther King foi assassinado, essa cena final é verdadeiro soco no estômago. O protagonista sobreviveu a zumbis e a companheiros de refúgio desagradáveis, mas não sobreviveu aos militares que, ontem e hoje, sempre atiram primeiro e analisam a situação depois quando se trata de um homem negro.

ESTRANHAMENTO DE MARX – Os protagonistas humanos fictícios não são diferentes dos mortos-vivos e nem da nossa vida no capitalismo: estão enclausurados numa sociedade consumista, achando que a verdadeira felicidade é o consumo e a posse da maior quantidade possível de meios de entretenimento e autossuficiência. (Foto: Reprodução/Arquivo)

Despertar dos Mortos: Será que o morto-vivo é muito diferente do que o capitalismo faz com as pessoas?

Dez anos depois de A Noite dos Mortos Vivos, Romero lançou seu segundo clássico, focado definitivamente em uma visão urbana do apocalipse zumbi iniciado no primeiro filme. E quando vemos um shopping cheio de pessoas vagando sem nenhuma perspectiva, indo e voltando eternamente por vitrines e mais vitrines, fica bem evidente para onde o diretor quer nos levar.

Nesse filme, os mortos-vivos já tomaram conta dos EUA e da humanidade; só restam poucos focos de sobreviventes. Um grupo formado por 4 pessoas consegue fugir de um ataque com um helicóptero e consegue se refugiar dentro de um shopping center. No entanto, uma horda de zumbis é atraída instintivamente para dentro do estabelecimento, desenvolvendo uma ideia que já estava presente no primeiro filme, de forma bem mais tímida: esses mortos-vivos não têm inteligência, mas agem conforme instintos do que eles costumavam fazer em vida. Por isso, os monstros desse filme são vistos subindo e descendo de escadas rolantes, experimentando roupas e chapéus e sendo atraídos para vitrines.

Da mesma forma os protagonistas também conseguem se proteger dentro de lojas trancadas, tendo todo um universo de produtos e mercadorias à sua disposição para enfrentar os mortos-vivos e ainda não ficarem entediados. Mais uma vez Romero é afiadíssimo na sua representação artística da realidade. Os protagonistas humanos fictícios não são diferentes dos mortos-vivos e nem da nossa vida no capitalismo: estão enclausurados numa sociedade consumista, achando que a verdadeira felicidade é o consumo e a posse da maior quantidade possível de meios de entretenimento e autossuficiência.

Mas conforme os protagonistas vão conseguindo se isolar da ameaça dentro do próprio shopping, a verdade vem à tona. Tudo não passa de uma ilusão e o shopping, representação da sociedade do consumo, é uma prisão. A personagem Francine constata que eles pensam ser livres, mas na realidade estão presos. O personagem Peter, em determinado momento, se cansa dos brinquedos que tem à sua total disposição e começa a se deprimir. Se antes a única diferença entre os protagonistas e os mortos-vivos era de que eles entendiam o porquê estavam naquele shopping e como usufruir daqueles produtos, agora já não há mais diferença e talvez eles mesmos tenham se transformado em mortos-vivos, mesmo que não literalmente (ainda…).

Para além desses elementos, o filme não deixa de tratar das questões sociais que foram características de seu antecessor. Mais uma vez, estamos diante de um protagonista negro e uma protagonista mulher. Essa última, inclusive, representando um ideal de independência com relação ao marido, em vários momentos questionando o seu direito de decidir sobre seu próprio corpo (uma breve passagem que evoca a questão do aborto e de homens decidindo sobre ter ou não filhos sem a mulher participar da conversa) e de aprender a dirigir o helicóptero do marido para não ter que depender dele para sobreviver.

Trata-se de uma discussão por meio da linguagem cinematográfica do quanto o capitalismo necessita destruir a consciência própria do povo para conseguir lucrar por meio do consumo desenfreado e impensado. Fora desse shopping que mais parece uma prisão, por mais que pareça ser perigoso, está a liberdade.

VIOLÊNCIA HUMANA VISTA DE FORA – Quando os zumbis se voltam contra esses militares, Romero consegue fazer o espectador torcer pelos monstros, torcer pela criatura contra o criador. (Foto: Arquivo/Reprodução)

Dia dos Mortos: A violência de um morto-vivo explicada pela sociedade em que ele viveu

No terceiro filme, Romero penetra a fundo no subconsciente de seus mortos-vivos para tentar entender por que eles são tão violentos. Mais uma vez a proposta da história é bastante simples: um grupo de cientistas opera uma base subterrânea mega protegida a fim de realizar experimentos nos zumbis para tentar entendê-los, e um grupo de militares foi escalado para protegê-los.

A premissa se complexifica quando descobrimos que o Doutor Mattew “Frankenstein” está ensinando ao zumbi apelidado de Bub práticas humanas, como a música, as boas maneiras e uma espécie de lógica de recompensa por bom comportamento. A demora do processo irrita os militares que começam a questionar sua tarefa e descambam para a total violência contra os cientistas quando descobrem seus métodos.

A grande sacada de Romero aqui é mostrar que um morto-vivo, quando estimulado com humanidade e não com violência, pode se tornar bom e pacífico como Bub. O contraste está mais uma vez em relação aos militares que não aceitam que uma criatura tida como inferior receba outro tratamento que não a violência. Se é verdade que os mortos-vivos agem conforme seus instintos mais subconscientes e que eles se forjam pela maneira como foram tratados enquanto vivos, fica exposta aqui a violência do cotidiano na sociedade que forma homens e mulheres também violentos até o mais íntimo de sua consciência.

Bub representa para Romero o ideal de um homem que, apesar de militar em vida, quando não é alimentado pela violência de uma sociedade completamente fundada no belicismo, pode ser extremamente doce e simpático. Bub, mesmo sendo um zumbi, é muito mais humano que os militares, sobretudo representados pelo Capitão Rhodes.

Quando os zumbis se voltam contra esses militares, Romero consegue fazer o espectador torcer pelos monstros, torcer pela criatura contra o criador, ao ataque coletivo contra a hierarquia autoritária. E o que torna tudo ainda mais interessante é que os zumbis desse filme se organizam em conjunto para o ataque mirando exatamente nos militares, ou seja, identificaram quem é seu principal inimigo para o atacar. O melhor exemplo disso novamente é Bub, que ataca o Capitão Rhodes para defender o cientista, que o tratou tão bem.

Por fim, apresentados os três filmes, podemos dizer que a trilogia dos Mortos-Vivos de George A. Romero é um exemplo espetacular de como a arte pode ser mobilizada para expor as contradições da sociedade em que ela foi feita. Os zumbis politizados de Romero são um exagero ao nível do absurdo da própria condição humana sob o capitalismo, educada na violência, na alienação do pensamento, do medo do diferente, e do ódio. Falta um elemento apenas nessa equação: que existe uma saída real, concreta e não fictícia: apenas com uma sociedade que supere o capitalismo, isto é, o socialismo, os homens e as mulheres poderão dar livre vazão às potencialidades de sua condição humana.

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