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A indústria pornográfica como extensão da prostituição

IDEOLOGIA BURGUESA – Os ramos comerciais que tratam de fetiches e da objetifiação sexual, independente do quão é ou não é explícito, se mostram como agentes primários de controle do consciente coletivo e de naturalização do individualismo e mercantilização do sexo. (Foto: Reprodução/Metrópoles)

“Concepções errôneas são típicas de um feminismo liberal, que não passa de pequenas mudanças na educação e no trabalho, ainda dentro do capitalismo, e apenas mascara e encobre às crueldades que o sistema sujeita todos os dias às mulheres pobres, negras, indígenas e trans, por exemplo.”
Sarah Cavalcante Motta
Movimento de Mulheres Olga Benário

GOIÂNIA (GO) – A atemporalidade de Engels em “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” ao defender a tese de que a exploração do patriarcado à mulher seria uma das mais antigas do mundo, e que teria nascido em conjunto com a noção de propriedade privada, é inegável. Sem dúvidas, a opressão do homem pelo homem iniciou-se com a opressão da mulher pelo homem.

Apesar da dominação não ter nascido no sistema capitalista, e nem terminar nele, a estrutura patriarcal só inova – ou melhor dizendo, só reformula – as formas de opressão às mulheres. Com o advento da mídia tecnológica, privada e acessível por qualquer um, uma dessas novas maneiras de estender os lucros da prostituição é a multibilionária indústria pornográfica.

Esse ramo, que faz bilhões de dólares ao ano, e que cresceu ainda mais com o isolamento social na pandemia, é nociva para as mulheres. Primeiramente, é indiscutível o tráfico de mulheres para a atividade: dados indicam que cerca de 1,4 milhões de mulheres são escravas sexuais ao redor do mundo.

Muitas meninas, jovens e mulheres são forçadas a tomar esse caminho sofrem psicologicamente desde cedo: mais de 90% delas foram abusadas quando crianças. Mulheres pobres e marginalizadas são as principais vítimas da prostituição e da pornografia.

Ainda mais, essa indústria que é voltada quase inteiramente para os homens já provou causar incontáveis consequências psicológicas e físicas extremamente negativas e danosas a eles. Há o vício, a disfunção, a depressão, a frustração e, principalmente, a tendência à violência e desrespeito com outras mulheres. Alexandra Kollontai, há cem anos atrás, já falava do comprometimento da igualdade entre homens e mulheres com incentivo à prostituição: “Um homem que compra favores de uma mulher não a vê como uma camarada ou como uma pessoa com direitos iguais. Ele vê a mulher como dependente dele e como uma criatura desigual de uma ordem inferior que é de menor valor para os de condição operária. O desprezo que ele tem pela prostituta, cujos favores ele comprou, afeta sua atitude com todas as mulheres. O desenvolvimento posterior da prostituição, ao invés de permitir o crescimento do sentimento de camaradagem e solidariedade, fortalece a desigualdade de relações entre os sexos.”

É indubitável que essa situação se repete com o consumo do conteúdo sexual. Na pornografia, em que a objetificação da mulher é intensa, têm-se uma ditadura de padrões exigidos ao seu corpo, que beira à extrema infantilização: sem estrias, celulites ou pelos; a magreza, além da sexualização dos seios femininos.

Além de recusar a natureza biológica do corpo do sexo feminino, o pornô ainda contribui para uma aversão e tabus em relação à amamentação em público e também à menstruação. A indústria pornográfica e da prostituição nada passam de instrumentos de alienação, fetichização e objetificação da mulher.

Como uma ideologia burguesa dominante que encoraja a pornografia, a burguesia conta com uma parcela de mulheres burguesas que defendem esse ramo. Há também a parcela que critica a pornografia e a prostituição, mas como um meio de assegurar uma ascensão social de sua classe pequeno-burguesa em ramos comerciais em crescimento econômico semelhantes não tão explícitos como as duas anteriores.

Além de mulheres que são chefes e diretoras desses meios, há aquelas que ingenuamente defendem nudez e sexualização como uma forma de “empoderamento, libertação, celebração do corpo feminino”.

Os ramos comerciais que tratam de fetiches e da objetifiação sexual, independente do quão é ou não é explícito, se mostram como agentes primários de controle do consciente coletivo e de naturalização do individualismo e mercantilização do sexo.

Essas concepções errôneas são típicas de um feminismo liberal, que não passa de pequenas mudanças na educação e no trabalho, ainda dentro do capitalismo, e apenas mascara e encobre às crueldades que o sistema sujeita todos os dias às mulheres pobres, negras, indígenas e trans, por exemplo.

Este ramo do feminismo não é capaz de romper com os instrumentos que causam, gerenciam, estabelecem e ampliam a opressão da qual elas “combatem”.

O liberalismo incentiva uma exposição do próprio corpo nas redes sociais, em festas como uma forma de “reafirmação”. Algumas ainda por cima, defendem uma “pornografia feita de mulheres para mulheres”.

Essas táticas não estabelecem um dialogo e uma luta que seja capaz de contrapor a visão patriarcal já estabelecida há anos que controla homens e mulheres, pelo contrário, apenas confunde sobre as reais intenções do movimento. Isso não poderia ser mais sexista: desconsiderar o que a ideologia burguesa dita e impõe no corpo das mulheres diariamente, sem nenhum compromisso na luta para a destruição dela.

Nesse sentido, por essas ideias serem extremamente palatáveis para o patriarcado e para a burguesia, é comum elas terem maior aceitação e serem de fácil acesso e propagação. Com isso, vemos o crescimento de meninas e jovens sendo influenciadas nas mídias como Instagram, TikTok e Youtube em vídeos de moças burguesas – as quais não são marginalizadas e nem oprimidas por sua classe – incentivando outras a venderem fotos e vídeos sensuais online, com promessas indiretas de dinheiro fácil com a “quebra de padrões”, com um discurso de “colocar o patriarcado contra ele mesmo ao tirar dinheiro de homens”.

Ainda mais, há a popularização dos “relacionamentos sugar”, o qual se trata de favores sexuais em troca de bens materiais, ou seja, a prostituição de luxo com um nome moderno, deixando claro que, no sistema capitalista, só se muda a época, entretanto as classes dominantes só remanejam as velhas formas de oprimir aos trabalhadores e minorias em uma nova fase de acumulação.

Isso se trata de mais nada que a cultura do estupro, na qual a mulher é refém para ser usada como quiser pelo o rico que a sustenta. Portanto, Engels nunca deixou de ser atual ao defender em “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” que “as relações conjugais burguesas são uma farsa, pois a mulher é tratada como propriedade privada do homem burguês que a vê como objeto e substituível.”

Nas palavras de Lênin, “A experiência de todos os movimentos libertadores atesta que o sucesso de uma revolução depende do grau de participação das mulheres”. Nesse sentido, é imprescindível lutar com essas mulheres e não incentivar essas práticas cruéis, que não têm espaço na moral e na prática comunista.

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