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A pandemia para uma trabalhadora da saúde

Foto: reprodução

Amanda Bispo

MAUÁ – Entrevistamos uma trabalhadora da saúde na cidade de Mauá, que relatou como tem sido a pandemia da Covid-19 para quem trabalha nessa área. A entrevistada, que pediu para ser identificada como Ana, tem 55 anos, há 30 trabalha no setor de saúde em Mauá e hoje é auxiliar de enfermagem em uma das poucas UPAs do município. 

Como é a realidade para quem trabalha na linha de frente contra a pandemia?

Ana: A realidade é o medo e este medo tem crescido. Alguns trabalhadores pedem afastamento, mas a prefeitura não aceita o pedido. […] 

A gente se cuida como pode, mas não temos estrutura na UPA: nossos parentes chegaram a comprar insumos porque o que a Prefeitura forneceu apenas era pouco e parou de ser fornecido com o início das eleições,  a viseira que recebemos é muito frágil, as luvas ressecam as mãos e fazem as nossas unhas quebrarem, tive que comprar um borrifador e levar álcool 70% e álcool gel de casa porque na UPA é contado, os aventais são de um plástico extremamente frágil e facilmente rasgam, parecem de cabeleireiro, as roupas que usamos somos nós quem fazemos, tanto que a de cada um é de uma cor de acordo com o gosto pessoal. Os materiais ficam com a gerente e ela vai soltando aos poucos, já ouvi dizerem que a verba quem manda é o Governo Federal, mas quando dinheiro chega ele some, porque eles só compraram os materiais uma vez.

O número de casos tem crescido ou diminuído?

Ana: Há algumas semanas os casos não param de crescer, são cada vez mais pacientes. Na observação, na pediatria, no isolamento e na emergência temos leitos com Covid e na observação ainda corre o risco de contaminar outras pessoas por não ser isolado. 

As pessoas chegam na recepção sem máscara e com falta de ar,  é difícil garantir que todos ali tomem cuidado para que os trabalhadores não se contaminem. Em alguns casos são gritos de “Tão passando mal! Tão passando mal”, você vai e socorre, depois quando vê a pessoa está positivo para o vírus. Dai você reza, quando você vê já pegou. É ai onde o medo bate.

Além da pandemia tem a preocupação com outros casos, as outras emergências que chegam na UPA não param de aparecer, o que dificulta ainda mais. Faltam funcionários, pois não abriram concurso, muitas pessoas estão de férias compulsórias porque não queriam dar as férias antes e agora várias pessoas precisam tirar ao mesmo tempo.

Vocês possuem algum suporte psicológico?

Ana: Nenhum. Ninguém vai perguntar se o funcionário está bem, se a mente está sã. Só quem nos apoia são os colegas, se depender de gerência ou secretaria a gente está largado. Eu nunca ouvi falar, “Fulana precisa fazer tratamento com psicólogo e teve apoio da prefeitura”, pelo contrário. 

Tenho uma colega que se contaminou e ficou muito mal, chegou a ser internada mas os médicos deram alta para tratamento em casa. Ela estava bem debilitada e fui buscá-la, a levei para casa e todos os dias ia na casa dela, fazia comida, lavava roupa, cuidava da casa e dela. 

Ela foi se recuperando, mas isso mexeu com o psicológico dela ao ponto de ela ir à secretaria pedir afastamento. Ela ainda ficou sem receber… imagina na pandemia você ficar sem receber, né? Mas depois de tudo isso ela lutou para mudar de local no trabalho e agora trabalha em um outro serviço público. Ela não tinha mais condições de trabalhar em UPA. Essa minha amiga também é auxiliar de enfermagem e tem por volta dos 62 anos, eu e ela pedimos afastamento no início da pandemia e não nos deram, mesmo com laudo médico. 

Então nenhuma das duas deveria estar trabalhando na pandemia? Vocês são grupo de risco?

Ana: Eu e ela tínhamos relatório médico de especialistas. Graças a Deus até hoje não peguei e espero não pegar, porque tenho comorbidade. Eu sou cardíaca, já tive infarto, AVC, acredito que por conta de estresse.

Quando levei a carta do cardiologista ao médico do trabalho pedindo para me afastar, ele  disse que eu só poderia pegar um atestado de 15 dias. Eu e minha colega pedimos e não foi aceito. Logo no início da pandemia uma outra colega nessa mesma situação veio a falecer de COVID-19. 

O que aconteceu com ela?

Ana: Ela era auxiliar de enfermagem, tinha acabado de se formar enfermeira e tinha problemas pulmonares. Pediu para sair do trabalho e ir ao médico e não deixaram porque ela era a única enfermeira. Ela foi à noite, ficou internada, foi transferida para São Bernardo do Campo e lá morreu. 

Agora em dezembro nós perdemos a controladora da entrada de uma das UPAs. O filho dela se contaminou e ficou muito mal, ninguém sabe se foi ela quem transmitiu para ele. Ela cuidou dele, depois se contaminou, ficou internada na Santa Casa e veio a falecer. Eu fiquei sabendo do falecimento de colegas do SAMU, no hospital Nardini, no CAPS álcool e drogas, na UPA Magini e por aí vai. Vários que se foram, um monte… Eu conheço a maioria. Quando acontece assim, bem perto da gente, você começa a se balançar, por mais forte que seja.

E como você lida?

Ana: Eu procuro pensar positivo, torcer para chegar logo a vacina para nós. Tento cuidar da saúde, tomar vitamina, bastante líquido, porque alguns estudos mostram que a falta de vitamina D ajuda o vírus e nós trabalhamos de noite e dormimos de dia, temos falta dessa vitamina. A gente trabalha por amor e trabalha pra caramba, o que passa na televisão é só balela, ninguém sabe o que a gente passa lá dentro. Cada um que morre, ainda mais colegas que você conhece, cara… mexe… mexe…. é a base de vela, é agradecer a deus, a cada dia que a gente volta pra casa e não traz a doença junto. É pesado ver os outros morrerem.

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