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Política econômica aprofunda recessão e prepara novas crises

CRISE. Mais de 14 milhões de famílias brasileiras vivem na extrema pobreza, maior número desde 2014 (Foto: EFE)

A bolha financeira que vai se formando na bolsa de valores não é sinal de recuperação. É, ao contrário, a preparação para a próxima crise. Uma crise que a política de Bolsonaro e Guedes não apenas alimenta como também reduz os mecanismos para enfrentá-la.

Por Beto Silva | Rio de Janeiro


BRASIL – A forma criminosa como Bolsonaro tem conduzido o governo durante a pandemia da Covid-19 faz com que o Brasil seja um dos países mais afetados do mundo. Ao falso dilema inicial entre saúde e economia, Bolsonaro respondeu sendo um desastre nos dois campos. Além dos mais de 240 mil mortos, a economia nacional vive uma de suas piores crises, com 26 milhões de desempregados ou subempregados e perspectiva de recessão de mais de 4%. No entanto, apesar desse quadro limite, a bolsa de valores de São Paulo (B3, antiga Bovespa) fechou o ano de 2020 com recorde histórico de 119 mil pontos, quase 15% acima do patamar de fevereiro de 2020, antes da pandemia.

Como pode a economia real ir tão mal e a bolsa de valores ir tão bem? A resposta a essa questão evidencia como o livre mercado capitalista e a política de cortes de gastos do ministro Paulo Guedes não apenas são incapazes de recuperar a economia como, na verdade, preparam novas crises. 

Com a paralisação econômica estreitam-se os espaços de valorização do capital. Sem perspectivas de venda da produção, não há investimento. Até o tradicional porto seguro do rentismo, a dívida pública e outros títulos de renda fixa, está fragilizado pela queda da taxa de juros. Nessa situação, bancos, fundos de investimentos e grandes administradores de riqueza migram para o mercado acionário em busca de maiores rendimentos.

E aí acontece a profecia autorrealizável. A própria migração de riqueza financeira para a bolsa aumenta o preço das ações, dando uma falsa impressão de segurança e gerando um ciclo de quase euforia que se retroalimenta. A bolsa sobe não porque há expectativa de melhora da atividade econômica, mas porque, na falta alternativas rentáveis, aumentou a procura por ações. Apesar disso, os grandes meios de comunicação proclamam a alta da bolsa como sinal de recuperação e os gestores dos fundos recebem generosos bônus de desempenho.

Ajuste Fiscal aumenta recessão

Enquanto isso, a política de cortes de gastos do ministro Paulo Guedes sabota a economia nacional. Numa situação de recessão com alto desemprego e capacidade produtiva ociosa, apenas o Estado tem capacidade de gasto para tirar a economia da estagnação. Como a experiência internacional tem demonstrado, os países que adotam políticas de cortes de gastos e privatizações são os que têm pior recessão e mais lenta recuperação.

O programa econômico para recuperação deveria constituir novas empresas estatais em setores estratégicos e fortalecer as que já existem, instituir o emprego como um direito universal e planejar ativamente sua relação com o mercado externo (tanto o comércio quanto a conta de capitais). Porém, os mecanismos de ação estatal que deveriam estar sendo fortalecidos e ampliados estão, ao contrário, sendo desmantelados. A propósito, a continuidade da crise, mesmo com taxa de juros baixas, mostra a impossibilidade de autorregulação dos mercados e evidencia a necessidade de planejamento e direção social da economia. 

A migração de capital para a Bolsa torna o país ainda mais refém e vulnerável ao jogo político do capital financeiro. Como a valorização acionária é desprovida de base real, avaliações de “especialistas” e notas (ratings) das agências de classificação de risco tornam-se decisivas. Esse poder é utilizado tanto no jogo diário de manipulação das cotações, quanto para interditar o debate sobre a política econômica. O poder de veto torna-se particularmente explícito nos anos eleitorais, quando a bolsa oscila ao sabor das pesquisas de intenção de voto, claramente “punindo” a sociedade sempre que um candidato de esquerda aumenta suas chances de vitória.

A dinâmica de valorização impõe também a exigência permanente de uma “meta”, frequentemente uma reforma econômica, sobre a qual os agentes do mercado possam especular. Quanto mais subirem os índices da bolsa, mais o governo precisa prometer a próxima “reforma” para alimentar falsas promessas e manter o delicado equilíbrio sobre o qual se sustenta o mercado. Foi assim que se fizeram as reformas trabalhista e previdenciária, se aprovou o teto dos gastos, etc. Cada um desses ataques à economia nacional e aos trabalhadores veio precedido e acompanhado de intensa especulação da Bolsa.

Finalmente, o governo avança com a proposta de permitir a existência de contas em dólares no Brasil. Essa medida, que reduzirá drasticamente a capacidade de administração da moeda nacional, facilitará também a saída para o último refúgio do capital quando a crise atingir a bolsa: a fuga para o dólar, deixando para trás uma economia devastada.

Portanto, a bolha financeira que vai se formando na bolsa de valores não é sinal de recuperação. É, ao contrário, a preparação para a próxima crise. Uma crise que a política de Bolsonaro e Guedes não apenas alimenta como também reduz os mecanismos para enfrentá-la.

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