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Pacote anticrise de Biden contraria receituário neoliberal

CRISE. Política de austeridade e estado mínimo desmontou sistema de saúde nos EUA (Foto: Reuters)

Pacote de socorro do presidente norte-americano joga pela janela a ideologia do Estado mínimo, cultivada por décadas tanto pelos políticos democratas quanto pelos republicanos

Por Celina Guimarães
Correspondente nos Estados Unidos


INTERNACIONAL – O pacote de socorro do presidente norte-americano Joe Biden vai muito além do cheque de mil e quatrocentos dólares e do crédito de outros trezentos, no imposto de renda, para cada filho menor de idade que uma família tenha. Ele joga pela janela a ideologia do Estado mínimo, cultivada por décadas tanto pelos políticos democratas como pelos republicanos. É bom lembrar que foi o “democrata” Bill Clinton que deu o golpe de morte no que ainda restava da rede de amparo social erguida no governo Roosevelt, o presidente que ficou famoso por criar a seguridade social e tantos outros programas, fortemente pressionado pelos anarquistas e comunistas da época.

Biden não é progressista. Ele é um conservador e talvez mais pragmático do que era o chefe dele, Barack Obama. Primeiro presidente negro do país, Obama era um conciliador por natureza. Fugia do confronto. Biden, velha raposa do congresso dos Estados Unidos, viu os políticos reduzirem pela metade o pacote de estímulo que Obama queria aprovar na pós-crise de 2008/2009. Obama apostava na conciliação, no convencimento de setores menos reacionários do partido republicano. Ficou a ver navios. Quando deixou a Casa Branca, boa parte dos eleitores que esperavam mudanças que nunca vieram se bandearam para a campanha de Donald Trump.

Essa é a política americana. Um pastiche sempre tentando fazer de conta que não existe um embate básico e fundamental no capitalismo: a luta de classes. E a classe trabalhadora, sem ter quem a represente, pula de um lado para outro, como fez com a eleição de Trump e voltou, em parte, a fazer agora, com a eleição de Biden. O atual presidente sabe que tem que dar uma resposta a esse eleitorado que está desesperado, sem emprego, com salários historicamente baixíssimos, sem perspectiva. E também aos milhares que foram às ruas, em julho/agosto do ano passado, contra o racismo estrutural e estruturante das forças policiais. Por isso colocou não apenas uma vice negra no poder, mas todas as políticas adotadas até aqui têm os negros e latinos no centro das preocupações. O pacotão de quase 2 trilhões tem ajuda específica para agricultores negros, por exemplo. Tem também ampliação do acesso ao seguro de saúde subsidiado pelo governo, auxílio moradia e alimentação e apoio financeiro para as escolas públicas. Ou seja: renda, saúde, educação e moradia.

Sindicatos resistem à retirada de direitos

Depois de décadas de decadência e perda de espaço, os trabalhadores dão sinal de que já é hora de um grande basta. No estado de Montana, no começo deste mês de março, o sindicalismo se organizou e levou a melhor na disputa dentro da assembleia legislativa local. Aqui nos Estados Unidos, um dos grupos mais conservadores e ativos do país, patrocinado pela milionária família Koch, promove uma lei estadual chamada, ironicamente talvez, de “Direito de Trabalhar”. Ela elimina as deduções automáticas para sindicatos e já foi aprovada nos estados de Indiana, Michigan, Wisconsin, West Virginia e Kentucky entre 2012 e 2017. É uma disciplina e um método desses grupos: atuar nos estados e comer pelas beiradas. A receita de bolo vem prontinha dos grupos conservadores e é entregue aos legisladores estaduais para aprovação.

Diante da perspectiva do rolo compressor, os sindicalistas de Montana se prepararam bem para a luta. Primeiro, consultaram os colegas dos outros estados, que perderam suas batalhas, para saber quais foram os principais erros e como poderiam fazer diferente. Munidos de informação e capitalizando a insatisfação dos trabalhadores diante da vitória de Donald Trump no estado, eles organizaram o contra-ataque e impediram que se repetisse ali a manobra adotada em outros lugares. Mantiveram os trabalhadores do setor público e do privado unidos em uma só causa. Depois, pressionaram os representantes eleitos como nunca. Deu certo. A lei foi derrotada com sobra de votos.

No congresso, em Washington, a situação é diferente. Aparentemente, Joe Biden tirou algumas lições do processo que viu de perto em 2009 e não cedeu. As pesquisas de opinião mostravam que 70% dos eleitores estavam com ele, a favor do pacote vultoso. O projeto passou na câmara e no senado sem voto algum dos republicanos. Mas, assim que a medida foi assinada na Casa Branca, alguns republicanos começaram, imediatamente, a tentar levar o crédito pela lei. Ou seja, existe uma mudança profunda em curso. A austeridade, o estado mínimo, o receituário que durante décadas foi aplicado e apregoado ao mundo como caminho único e inevitável levou uma porretada, em março de 2021, nos Estados Unidos.

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