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Pobreza menstrual, uma interdição e um fenômeno multifatorial

COSTURANDO FLUXOS – Um projeto do Movimento de Mulheres Olga Benario que debate a pobreza menstrual e traz uma solução sustentável e popular. (Foto: Reprodução/Jornal A Verdade)

“Nasce o “Costurando Fluxos”, um projeto social que luta pela equidade de gênero, pela sustentabilidade e contra a pobreza menstrual. Um projeto do Movimento de Mulheres Olga Benário e das Promotoras Legais Populares de Mogi Das Cruzes.”
Mayra Lize

MOGI DAS CRUZES (SP) –Chhapaudi”, uma palavra nepalesa que significa “aquela que carrega uma impureza”, é uma tradição que bane ou interdita mulheres da sociedade quando essas estão menstruadas e que, até o presente momento, já matou quatro jovens hindus, mesmo após ser proibida pela Suprema Corte do Nepal em 2005.

Parwati Bogati tinha 21 anos, morreu asfixiada na conhecida “cabana da menstruação”, um galpão insalubre, distante dos vilarejos, sem banheiro e eletricidade. Ela acendia uma fogueira para se proteger do frio.

Tulasi Shahifue tinha 18 anos e morreu envenenada por uma picada de cobra. Sarmila Bhul, 15 anos, foi encontrada morta na cabana onde praticava a tradição. Roshani Tiruwa, também com 15 anos, morta por asfixia após acender uma fogueira.

No Brasil não temos o Chhapaudi, mas as coisas não são muito diferentes, do imaginário popular às instituições simbólicas e legais, a menstruação e os corpos que menstruam seguem sendo perseguidos por ideias e práticas de interdição. Isto é, de banimento, de retirada de dignidade ou status político. Um exemplo dessa interdição que acomete essas pessoas que menstruam é a pobreza ou precariedade menstrual

O Que é Pobreza Menstrual

Costuma-se dizer que pobreza menstrual é o fato das pessoas não conseguirem acessar itens de higiene menstrual: absorvente, coletor, papel higiênico, sabonete. De fato, isso é pobreza menstrual, mas não define por completo esse fenômeno, ou interdição. Assim como outros fenômenos e interdições que existem na sociedade, a pobreza menstrual é multifatorial, é a combinação simbiótica de vários fatores e, portanto, não parte apenas de um ponto, mas de muitos outros. E que fatores são esses? Podemos dizer que esses fatores são culturais, sociais, econômicos e políticos.

Fatores Culturais e Sociais

É extensa a quantidade de crenças, costumes, discursos e mitos acerca da menstruação, não apenas na sociedade brasileira, mas no mundo e em toda a história da humanidade.

O Chhapaudi é um exemplo de um fator cultural, ou seja, de uma crença, com um costume, com um discurso criado e imaginado a partir de um mito. Através disso, creem que mulheres menstruadas são impuras, por isso as banem socialmente neste período, o discurso perpetuado é de que esse é um ato necessário, uma forma de proteção. Porém, tudo isso não passa de um mito, uma tentativa da cosmovisão mítico-religiosa de tentar compreender e lidar com um acontecimento concreto e fisiológico.

Ainda há outros mitos comuns no nosso cotidiano e que remontam ao tempo de nossas avós: não andar descalço, não beber água gelada, não lavar o cabelo, não comer peixe, não ter relações sexuais e muitos outros.

Esses fatores culturais são, em si, mesmos proibições ao corpo que menstrua, são maneiras de limitar o direito ao corpo e a liberdade de fazer com ele o que se bem entende. Além de serem uma das razões pelas quais se associa a menstruação ao impuro, ao sujo, ao vergonhoso e pelas quais se percebe que o Estado não garante e implementa educação menstrual e sexual nas escolas.

Para se ter uma ideia, uma pesquisa realizada em 2018 pela instituição “Sempre Livre”, da Johnson&Johnson, junto a “Kyra Pesquisa e Consultoria”, constatou que 57% das mulheres brasileiras se incomodam e se sentem sujas durante seu período menstrual; 40% se sentem inseguras e se “sentem pouco atraentes”, 54% de mulheres entre os 14 e 24 anos sabem pouco, ou não sabem nada, do que se passa em suas menstruações e como manejá-las.

Somado ao desconhecimento dos fatores culturais, nos deparamos ainda com fatores sociais imensamente problemáticos. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra e Domicílios Continuada do IBGE, em 2016, 15,2 milhões de mulheres não tinham acesso à água tratada; 26,9 milhões não tinham coleta de esgoto e 1,6 milhões não tinham banheiro em suas casas.

É uma questão de lógica perceber que o acesso pleno ao saneamento básico, isto é, coleta de esgoto, água tratada e banheiros, é uma questão de saúde pública, de direito à moradia e a qualidade de vida. Esses são princípios contemplados pela carta magma, dessa forma, tudo aquilo que afeta a qualidade de vida das trabalhadoras, até mesmo no manejo da menstruação, seja pela má qualidade ou inexistência de políticas para essa questão, também afetam diretamente a saúde pública e como o Estado observa essa gestão de saúde para a população.

Além do impacto e da importância do saneamento básico na vida das mulheres, podemos também afirmar que a evasão escolar de meninas em razão de seus ciclos menstruais, seja porque não têm acesso a itens menstruais ou porque nas escolas os banheiros não são adequados, também tornam-se uma questão de saúde pública. Segundo a Plano Internacional, 49% das meninas faltam na escola porque estão menstruadas.

A situação feminina carcerária também é uma questão de saúde pública quando o assunto é menstruação, segundo a autora Nana Queiroz em seu livro “Presos que Menstruam”. Miolo de pão, papelão, jornal e tecidos são usados nas penitenciárias femininas brasileiras para conter o sangue menstrual. Isso porque em trinta dias, o Estado só fornece oito absorventes descartáveis para cada mulher, quantidade irrisória que além de não abranger o tempo de troca, a durabilidade e a intensidade de cada ciclo, atropela o direito da mulher encarcerada no Brasil, país que ocupa a quarta posição no ranking de países que mais encarceram mulheres.

Fatores Econômicos e Políticos

Diante dos fatores econômicos e políticos, o cenário brasileiro piora. As mulheres já se encontram em desvantagem em todos os âmbitos da sociedade, como Beauvoir expressa “os homens sempre detiveram todos os poderes concretos”, nos segmentos economicos-políticos da sociedade atual, ainda se mantém firme a desigualdade de gênero.

O Brasil é o país que mais tributa itens menstruais no mundo. Gênero e tributação têm sido um debate que mostra aquela primeira, porém incompleta, definição de pobreza menstrual, isto é, absorventes com preços tão exorbitantes, que uma mãe de família ignora e opta por comprar um litro de leite, um quilo de fígado.

Incidem sobre os absorventes impostos e tributações como ICMS, PIS e COFINS, impostos de proporções federais e estaduais e cuja soma das alíquotas é de 30,54% de tributação. Se em uma vida fértil gastamos R$6.000,00 em absorventes descartáveis, pagamos então R$1.832,40 apenas em impostos, valor maior que um salário mínimo.

Ao mesmo tempo, a baixa representatividade e participação das mulheres na política institucional se põe como um fator político imensamente problemático. De acordo com a “ONU Mulheres”, apenas 15% da população feminina ocupa as cadeiras do Congresso Nacional; 13,5% as cadeiras das câmaras municipais e 12% as cadeiras das prefeituras: números percentuais baixos, e isso mesmo após a minirreforma eleitoral de 2009 que estipulou 30% de reserva de vagas para mulheres dentro de suas legendas.

Dessa maneira, a questão política do movimento de mulheres que se impõe é: quem, além das trabalhadoras, irá lutar pela dignidade menstrual em sua totalidade e complexidade para todas e todos?

Mais por práxis que por intuição, sabe-se que serão as trabalhadoras e outras pessoas que menstruam, em todas as faces, sexualidades, identidades e raças – dentro da classe proletária – que lutarão por saneamento básico, por reforma tributária, por representatividade e participação e, acima de tudo, por socialismo, educação, políticas públicas e por projetos sociais que orientam o manejo digno do período menstrual e enfrentam a pobreza menstrual em toda a sua complexidade.

Costurando Fluxos

Enfrentar a pobreza menstrual é uma luta socialista, feminista e ecológica. Viu-se que a pobreza menstrual é um fenômeno social com multifatores em confluência, cujos fatores se complementam e influenciam um ao outro. Viu-se, também, que ela se configura como um fenômeno que também interdita, proíbe e limita o direito pleno ao corpo menstruante. Mais do que tudo, viu-se que pobreza menstrual se trata de uma violação à dignidade e que seu enfrentamento implica, fundamentalmente, a defesa, a garantia e a luta pela dignidade menstrual, pelo direito de menstruar sem ser “amaldiçoada”, “impura”, impedida e envergonhada.

Nesse sentido e, indo muito além desse sentido, nasce o “Costurando Fluxos”. Um projeto social que luta pela equidade de gênero, pela sustentabilidade, contra a pobreza menstrual e pelo socialismo. Um projeto do Movimento de Mulheres Olga Benario e das Promotoras Legais Populares (PLPs) de Mogi Das Cruzes.

Esse é um projeto de mulheres que são professoras, assistentes sociais, psicólogas, estudantes, costureiras, trabalhadoras, companheiras. Um projeto que confecciona e distribui absorventes de tecido para mulheres e outras pessoas menstruantes em situação de vulnerabilidade menstrual.

Por que Absorventes de Pano?

A luta ambiental também é uma luta de classe, principalmente quando o mundo encontra-se em uma crise climática sem precedentes. Assim, da mesma forma que a soberania alimentar é um ato político, já que envenenam os pratos das brasileiras e brasileiros todos os dias, poder manejar a menstruação também pode ser um ato político, principalmente através de absorventes sem dioxina, um subproduto do processo de branqueamento feito à base de cloro nas fibras sintéticas e não-sintéticas dos descartáveis, altamente inflamável; mutagênica e teratógena, isto é, cancerígena e que desencadeia anomalias congênitas; sem rayon, mais conhecido como seda artificial, uma das primeiras fibras sintéticas usadas na indústria têxtil e feita à base de dissulfeto de carbono, uma substância cujo impacto no organismo humano foi descoberto por epidemiologistas e toxicologistas como Esther Schimit, Alice Hamilton e Adele Cohn, médicas ocupacionais, que em suas pesquisas comprovaram que a constante exposição ao dissulfeto desencadeou uma série de doenças neurodegenerativas nos trabalhadores que manipulavam essa substância, que não desencadeia apenas a insanidade, mas também seca a vagina, provoca câncer do colo do útero, endometriose, candidíase e, nos absorventes internos, libera fibras que machucam a parede uterina, gerando bactérias e, finalmente, a síndrome do choque tóxico, que leva a óbito ou à amputação; sem pesticidas, parfurm, parabenos, substância que a pesquisa da ginecologista espanhola Enriqueta Barranco comprovou que aumenta o revestimento endometrial, isto é, nos faz menstruar mais; benzofenomas (que provocam endometriose) e sem lubrificantes.

Um ato político assim como a educação menstrual, oficinas, rodas de conversa e formação menstrual e sexual que o projeto almeja realizar ao fim desse tempo pandêmico e sombrio que o mundo vive.

Um ato político que não exclui os descartáveis, pois tem muita lucidez de saber que aboli-los é incompatível com a atual realidade material, mas que entende que dignidade menstrual também é construir possibilidades diversas de menstruar.

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