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Enquanto a apropriação do fruto do trabalho for privada, ficaremos doentes

Pedro Kardec
Militante da UJR e Diretor da Ames Teresina

Obra retrata trabalho e sofrimento de mulheres em oficina de costura. Imagem: Reprodução.

PIAUÍ – Ao examinar nosso passado evolutivo e nossa história como caçadores-coletores igualitários, cooperativos e solidários na comunidade primitiva, se mostra falsa a ideia de que os seres humanos, por sua própria natureza, são competitivos, agressivos e individualistas. Nós, seres humanos, temos todas as aptidões psicológicas e sociais para viver de maneira diferente e a desigualdade não é inevitável.

A depressão é considerada uma das doenças com maior ocorrência no mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). Segundo a organização, 4,4% da população mundial sofrem da doença. No Brasil, 5,8% da população é afetada pela depressão, o que significa mais de 11,5 milhões de pessoas. Em relação à ansiedade, o Brasil é recordista mundial, com 9,3% da população, mais de 18,6 milhões de pessoas.

O Atlas de Saúde Mental 2017 (Mental Health Atlas, 2017) da OMS revela que, embora alguns países tenham feito progressos na formulação e no planejamento de políticas de saúde mental, ainda há uma escassez em todo o mundo de profissionais de saúde treinados nessa área e falta investimento em instalações de saúde mental baseadas na comunidade.

Os números são um escândalo, revelam um problema de saúde pública de primeira ordem. Mas, diferente do que se costuma afirmar, eles não “falam por si mesmos”.

Saúde e alienação do trabalho

A dinâmica da alienação do trabalho se converte em desesperança, angústia e perda no sentido da vida. Tudo isso pode ser explicado pelo aprofundamento da crise estrutural do capital, que se vê encurralado mais uma vez pelas crises cíclicas e por um mundo modernizado. A necessidade da aplicação de políticas de austeridades por parte da burguesia para manter sua dominação, se faz cada vez mais corriqueira, num cenário onde os países centrais detém a força sobre os países periféricos e ditam o desenvolvimento destes. Com toda a escassez dos países periféricos, acaba por deixar a condição de vida da maior parte da população estagnada, isso acaba com a esperança diária de qualquer pessoa. Para suprir essa questão, o sistema do capital apresenta como solução a austeridade política contra a classe trabalhadora.

Em relação a estas razões o psicólogo Jay Watts escreve:

“Fatores psicológicos e sociais são pelo menos tão significativos e, para muitos, a principal causa do sofrimento. Pobreza, desigualdade relativa, estar sujeito ao racismo, ao sexismo, demissão e a uma cultura competitiva aumentam a probabilidade de sofrimento mental. Governos e empresas farmacêuticas não estão tão interessados nesses resultados. Da mesma forma, há pouca vontade política de relacionar o aumento do sofrimento mental com desigualdades estruturais”

Isso significa que além de todo o desequilíbrio colocado em um sistema que tem como primazia a exploração do homem pelo homem, a relação de trabalho junto à estrutura do Estado reproduz preconceitos que irão dificultar ainda mais o desenvolvimento da “minoria populacional”, que não se enquadra nos padrões socialmente estabelecidos. O machismo e o sexismo irão dificultar a equidade entre os gêneros, colocando as mulheres em várias jornadas diárias, com sobrecarga emocional e expostas ao assédio no cotidiano. A comunidade LGBT, que fica com empregos de servilismo e subempregos, fica cada vez mais à margem da sociedade, sendo mais brutal a situação da comunidade trans, as quais têm pouca ou nenhuma chance de se inserir em empregos formais, se submetendo muitas vezes a prostituição.

Somos seres sociais, de tal forma em que o outro se torna a condição fundamental na expressão da identidade. “[…] quando o homem se defronta consigo mesmo, também está se defrontando com outros homens” (Marx, Trabalho Alienado, 1844). Como coloca Marx, é diante do outro que o homem tem que reconhecer a si mesmo e o outro no processo de construção da identidade. Em outras palavras, é na sociabilidade com o outro que encontramos nossa identidade.

É na construção orgânica e coletiva, na luta diária; é escancarando a miséria humana e a falência do sistema do capital que podemos, assim, criar um contraste combativo diante do sucateamento e adoecimento do nosso povo. Dessa forma, a alienação precisa ser deposta materialmente — uma vez em que ela representa a produção em seu estrito senso, na materialidade da exploração em que se fundamenta o capitalismo. E isso só ocorrerá através dos indicativos anteriores, na construção da consciência e percepção do mundo em sua totalidade, entendendo que enquanto a apropriação for privada, a vida também será — privada de satisfação, privada de sossego, privada de seu trabalho produzido, privada da liberdade de escolha — acorrentada ao trabalho assalariado.

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