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O falso dilema entre morrer de fome ou de covid

GENOCÍDIO. Mais de 300 mil brasileiros já morreram pela irresponsabilidade de Bolsonaro na pandemia (Foto: Sérgio Moraes/Reuters)

O governo Bolsonaro diz que o lockdown e medidas mais rígidas para conter o avanço da pandemia vão acabar com a economia e aumentar o desemprego. Para ele, “é melhor o povo morrer de covid do que de fome”. Mas será mesmo inevitável ter que fazer essa escolha?

Felipe Annunziata | Redação Rio


BRASIL – O Instituto Datafolha divulgou em março uma pesquisa de opinião onde “apenas” 54% da população via o governo do fascista Bolsonaro como principal culpado pela descontrole total da pandemia e o colapso do sistema de saúde no Brasil. Desde então, muitas pessoas de classe média, militantes progressistas, lideranças de esquerda, influenciados pelas linhas editoriais dos grandes jornais burgueses, começaram a questionar como era possível que quase metade do povo não visse Bolsonaro como o principal culpado pela crise.

Logo se multiplicaram tuítes, colunas em jornais, análises políticas nas redes sociais, etc., chamando atenção para uma suposta ignorância do povo em relação a real situação do país. Em geral, como sempre nesse tipo de opinião, o povo pobre é apresentado por esses “analistas” como acomodado, conformado ou mesmo sem empatia.

O grande problema desses posicionamentos é que sempre têm como objetivo diminuir a capacidade racional do povo pobre. Em geral, os argumentos sempre vêm acompanhados de clichês racistas ou xenofóbicos. É verdade que há aqueles mais responsáveis, que depositam parte desse comportamento à política genocida do governo Bolsonaro, que desestimula todas as medidas de combate à covid.

Mas será que essas análises são verdadeiras? O povo brasileiro é ignorante e sem empatia? O nosso povo está acomodado diante das quase 300 mil mortes provocadas pelo coronavírus?

O falso dilema da pandemia: morrer de fome ou de covid?

Para responder essa questão basta olharmos nossa história. Em 1904, na então capital do país, o Rio de Janeiro, milhares de trabalhadores se levantaram numa revolta popular para derrubar o governo autoritário do então presidente Rodrigues Alves. A sublevação ficou conhecida como Revolta da Vacina, isto porque o estopim foi a aprovação pelo governo da vacinação obrigatória contra a varíola, que naqueles tempos assolava as grandes cidades do país. O projeto havia sido idealizado pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz.

Hoje, distorcendo os fatos da época, muitos falam que a revolta foi fruto da ignorância do povo pobre. Na verdade, Rodrigues Alves queria erradicar a varíola não para atender a necessidade da saúde pública, mas para tocar seu projeto de elitização do Rio de Janeiro, destruindo cortiços para a abertura de grandes avenidas luxuosas. A vacinação cumpriria apenas o papel de criar condições sanitárias satisfatórias para que as elites pudessem viver na cidade, pois os ricos não queriam morar numa cidade com varíola e febre amarela.

Naquele período, muitos trabalhadores eram ex-escravizados, que conquistaram a liberdade poucos anos antes, na abolição de 1888. O povo pobre do Rio só conhecia um tipo de Estado: aquele que amarrava os negros no tronco para o açoite.

Hoje, a situação não é tão diferente. Nosso povo tem medo de morrer de covid, assim como tem medo de morrer de fome. Da mesma forma que Rodrigues Alves com a varíola, em 1904, Bolsonaro e as elites “liberais” apresentam apenas essas duas alternativas.

De um lado, o governo diz que o lockdown vai acabar com a economia e criar o desemprego. A bandeira deles é que “é melhor morrer de covid, do que de fome”. Por isso, o fascista Bolsonaro zomba de quem está internado em UTI’s, desestimula o isolamento e o uso de máscara.

A imprensa dita liberal, ataca do outro lado dizendo, ainda que veladamente, que “é melhor morrer de fome do que de covid”, afinal rico não morre de fome, mas pode morrer de covid. Por isso, desde o fim do auxílio emergencial se vê nas páginas dos jornais e na TV o argumento de que “não é possível ter auxílio emergencial sem ter ajuste fiscal”.

Alinhado com esse discurso, o Congresso Nacional, apoiado também por Bolsonaro, aprovou um auxílio de R$ 150 a R$ 375 e, em troca, promulgaram uma PEC que proíbe concursos públicos e aumento de salários dos servidores (incluindo médicos, enfermeiros e outros profissionais que estão na linha de frente da pandemia).

Abandono

Muitas pessoas têm caído na falsa contradição por Bolsonaro e os liberais da mídia. O fato é que a grande maioria do povo não mantém o isolamento social por falta de condições materiais, e não porque ache que o vírus não é importante.

Historicamente, somos ensinados que morrer cedo é normal para quem é pobre e vive em condições precárias: devemos “aceitar a morte” devido aos tiroteios nas favelas, aos acidentes de trânsito, à fome ou aos milhares de acidentes de trabalho que acontecem todos os dias. Do Estado burguês não podemos esperar nada de bom, a não ser o abandono e chance de não conseguir uma UTI.

Essa desesperança é utilizada pelo fascismo para promover a morte. Os liberais se aproveitam desse sentimento para promover os interesses do mercado financeiro. No fim, mesmo que adversários, esses campos são aliados da mesma causa: o aumento da exploração da classe trabalhadora.

Morte não!

Precisamos retomar o espírito que guiou a luta dos profissionais da saúde e do povo em geral pela criação do SUS. Se a direita fascista e liberal quer forçar o povo a escolher entre morrer de fome ou de covid, que digamos bem alto: “nosso povo não precisa morrer!”.

O povo quer vencer a covid, mas quer também vencer a fome e a miséria, e não vamos alcançar isso aceitando as condições impostas pelos banqueiros e os fascistas. Por isso, as redes de solidariedade, as greves pela vida e por salários dignos, a luta contra a carestia são fundamentais. Apenas com a participação popular, apenas com a luta do povo, poderemos vencer essa pandemia.

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