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quarta-feira, 25 de maio de 2022

Cazaquistão passa por onda de protestos em meio à crise econômica

Protesto no centro de Almaty, maior cidade do Cazaquistão no último dia 5. Foto: Vladimir Tretyakov/AP

População do Cazaquistão se revoltou contra o aumento do gás natural. Mobilizações exigem o fim do governo e melhores condições de vida. Potências imperialistas buscam manter a exploração das riquezas da ex-república soviética. 

Felipe Annunziata | Redação Rio

INTERNACIONAL – Após a duplicação do preço do gás natural por parte do governo, a população do Cazaquistão entrou em revolta. Trabalhadores do país da Ásia Central saíram às ruas para exigir mais direitos sociais e alterações na Constituição e no sistema político. 

O Cazaquistão foi uma república soviética e, desde o início da URSS, era um centro político importante do poder soviético. Durante a II Guerra Mundial, centenas de milhares de cazaques foram para as linhas de frente no enfrentamento ao nazismo. 

Cazaquistão: país entregue ao capital imperialista

Com a extinção da URSS, as empresas estatais foram entregues a oligarcas locais e ao capital russo, chinês e estadunidense. Hoje, grande parte da indústria de gás natural é controlada por monopólios norte-americanos e chineses. No campo da mineração, empresas europeias detêm grande parte da produção. 

O Cazaquistão é visto como um país prioritário para o capital chinês. Por fazer fronteira com o extremo oeste da China, o país é um dos centros do projeto Cinturão e Rota. Este é um programa do capital chinês que prevê grandes somas de investimento em infraestrutura em países da Ásia e África em troca de altos endividamentos e dependência da tecnologia e produtos chineses.

Direitos sociais e políticos da população também foram suprimidos após o fim da URSS e o país caiu sob o controle político de um oligarca local, Nursultan Nazarbayev. que apenas saiu do poder em 2019. Durante seu governo ditatorial, Nazarbayev perseguiu os movimentos comunistas e de esquerda do país.

Revolta começou com petroleiros de empresa estadunidense

Segundo o jornal turco Evrensel, a revolta popular começou, no último dia 4, com uma mobilização dos petroleiros da cidade de Janaozen, onde está sediada uma empresa ligado ao monopólio estadunidense Chevron. Eles reivindicavam, além do congelamento do preço do gás, o aumento de 100% do salário, melhorias nas condições de trabalho e liberdade sindical. 

Em seguida, os petroleiros da Chevron, foram seguidos pelos mineiros da multinacional europeia AcerlorMittal, na região de Karaganda. Da mesma forma, trabalhadores de várias cidades grandes, como Almaty e Nur-Sultan (antiga Astana), entraram em protesto.  

Repressão das forças de seguranças cazaques à população na cidade de Aktobe no último dia 5. Foto: reprodução

Governo reprime violentamente os protestos

Com a ampliação das mobilizações, intensificou-se o caráter político dos atos. O governo foi forçado a recuar no aumento do gás natural. Por sua vez, a população começou a tomar prédios públicos e a exigir a renúncia do governo e mais direitos políticos. Organizações de esquerda, como o Partido Comunista e o Movimento Socialista do Cazaquistão, estão há anos na ilegalidade. 

No entanto, o governo do presidente Kassim-Jomar Tokayev não aceita qualquer tipo de diálogo ou a demissão dos políticos ligados ao antigo presidente Nazarbayev. Na prática, mesmo tendo renunciado, Nazarbayev ainda manda no governo cazaque. Em cadeia nacional, Tokayev disse que deu ordens para “atirar para matar” no que ele chamou de terroristas.

Imperialismo quer controlar mobilizações

Com o avanço dos manifestantes e a repressão do governo, imediatamente potências imperialistas do mundo começaram a se posicionar. A Rússia, junto com outros países, enviou tropas para reprimir a população a pedido do governo cazaque. A China disse que apoiará no que for necessário o governo repressor do país asiático. 

Por sua vez, líderes das potências imperialistas europeias como Emmanuel Macron, da França, pediram “diálogo”. Os EUA mantêm uma postura passiva diante do interesse de monopólios estadunidenses em acabar com os protestos. 

A única autoridade norte-americana a se posicionar foi o porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, que afirmou que os EUA “ficarão atentos” à atuação das tropas russos em território cazaque. 

Kassim-Jomar Tokayev, atual presidente do Cazaquistão anuncia entrada de tropas da Rússia e outros países no país. Foto: reprodução

Situação no Cazaquistão é diferente de outras ex-repúblicas soviéticas

Nos últimos anos, algumas ex-repúblicas soviéticas viveram crises políticas insufladas por potências ocidentais. Em 2008, a Otan sinalizou que aceitaria o ingresso da ex-república soviética da Geórgia no bloco ocidental, o que ajudou a estourar um conflito armado entre Rússia e Geórgia. 

Em 2014, a Ucrânia foi vítima de um golpe de Estado liderado por forças fascistas apoiadas pelos EUA, que queriam pôr o país sob controle da OTAN. Ano passado, foi a vez de Belarus, onde manifestações lideradas por forças reacionárias tentaram o mesmo. 

No entanto, a situação do Cazaquistão é diferente. Além de ter boa parte de sua economia controlada pelo capital imperialista do ocidente, o país já se encontra em uma aliança militar com a Rússia. Também as forças progressistas desse país não identificaram ação do imperialismo na origem da revolta, ao contrário do que ocorreu na Ucrânia e em Belarus. 

Outro ponto importante é que interessa aos EUA e à Europa a manutenção do atual regime no Cazaquistão. É ele quem vem, nos últimos 30 anos, mantendo os interesses e os lucros dos monopólios imperialistas no país da Ásia Central. No entanto, mesmo tendo caráter popular e classista, a ausência de lideranças e organizações políticas na condução do movimento cria uma fragilidade, tornando a revolta suscetível a influência estrangeira. 

*Contribuíram para esta matéria Igor Barradas, do Rio de Janeiro, e Guilherme Pereira, de Kursk (Rússia).

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1 COMENTÁRIO

  1. “Também as forças progressistas desse país não identificaram ação do imperialismo na origem da revolta, ao contrário do que ocorreu na Ucrânia e em Belarus.”

    Parte mais importante, pra mim! Parece então que não é mais uma “revolução colorida” financiada pela CIA, mas sim uma revolta legítima de trabalhadores.

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