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segunda-feira, 4 de julho de 2022

A invisibilidade feminina no ensino de arte no Brasil

Mural artístico feito por mulheres na Casa de Referência Helenira Preta II em Mauá, SP.

Sabemos que ainda há um longo caminho de democratização a ser pavimentado para que as mulheres possam livremente pisar e cravar o nome na história da arte brasileira, mas sabemos que as primeiras sementes da contestação artística decolonial foram lançadas por mãos firmes de mulheres que conseguiram quebrar as barreiras  que foram impostas.

Dalva França de Assis –  Artista visual e professora da rede de ensino público do Estado de São Paulo.


SÃO PAULO – Quando refletimos sobre os conteúdos que estão calcados na linha da história da arte nos livros e cadernos presentes na grade das escolas públicas e das universidades do Brasil, notamos algo que muito deveria incomodar as mulheres que estão nas posições de estudantes e professoras: percebemos a ausência de artistas do sexo feminino nas referências de uma história da arte escrita por homens europeus e dominada por “gênios” do sexo masculino que é canalizada de modo torrencial para as salas de aula da disciplina de arte de meninos e meninas nas escolas públicas.

     Com dados de uma pesquisa historiográfica realizada pela equipe do Instituto Tomie Ohtake (São Paulo) em 15 de fevereiro de 2021, um dos motivos da ausência feminina nos livros de ensino é fruto da hierarquia de gênero que rege o ensino de arte no Brasil desde a chegada da Missão Francesa no Brasil no ano de 1816. Com o intuito de formalizar um ensino de arte nos moldes europeus de arte, as escolas de arte criadas na época, demoraram para admitir mulheres em seu corpo discente o que resultou no tardio ingresso de mulheres na formação de artistas em território nacional e mesmo após o ingresso de mulheres na academia, segundo a pesquisa, a maioria se formava miniaturistas, pintoras de naturezas-mortas, de porcelanas e outros tipos de artes que não exigissem a representação do corpo humano, legando desta forma, um lugar longe da criticidade artística do mundo. Podemos somar a esta hierarquia de gênero outro fato agravante: a dominância das artes europeias regendo os nossos currículos. O fato de o Brasil nascer da exploração colonial portuguesa, pode explicar a razão da imposição da arte hegemônica na linha de ensino da educação. 

    Ainda segundo o artigo, as mulheres que protagonizavam apenas os nus nas galerias e museus da Europa, tinham suas produções artísticas cerceadas por um conglomerado de instituições comandadas por homens, por isso, de modo algum isso significava que elas não produziram e, principalmente, que suas obras não tiveram as qualidades que justificassem a sua inserção nos livros de arte. Quando as mulheres começaram a participar dos salões de arte, no final do século XIX, a crítica abordava sua produção em relação à de outras mulheres e, eventualmente, em relação à produção de artistas homens vistos como amadores. Assim criou-se uma categoria exclusiva que ficou conhecida como “arte feminina”. Com uma crítica machista voltada a identificação de características femininas expressas nas obras feitas por mulheres, como a pincelada leve, o olhar feminino, a delicadeza e outros termos que, sob a análise coerente, não se sustentam nas obras em si. Esse filtro isolava as qualidades estéticas das produções femininas e impedia que fossem avaliadas segundo os mesmos critérios utilizados na abordagem de obras feitas por homens, barrando desta forma o livre acesso das mulheres na linha histórica da arte nos países europeus e consequentemente a divulgação destas mulheres no ensino da arte de suas colônias.

        Devido a hierarquia de gênero que predominava as publicações de pesquisa de arte, homens brancos europeus tomaram para si a tarefa da escrita da história da arte criando desta forma um “monopólio” do fazer artístico mundial credenciando a cultura europeia como a linha a ser estudada e seguida. Por muitos anos o escritor austríaco Ernest Gombrich (1909-2021) e seu livro “A história da Arte” foi umas das únicas referências dos estudos de arte, o livro destaca a produção masculina como centro da origem da produção artística mundial. Outro escritor muito abordado nas academias, o russo Horst Waldemar Janson (1913-1982) também protagoniza a figura masculina em seu livro sobre a história da arte. Historicamente, devido o privilégio do sexo masculino nas cadeiras de produções literárias e pesquisas sobre o assunto, o que ficou para as mulheres artistas foram as sobras das páginas do esquecimento das instituições produtoras dos registros da arte. A esta violência acadêmica se agrega a ferramenta de manutenção de apagamento da vasta produção feminina nos meios acadêmicos.

    No Brasil era preciso que essa estrutura eurocêntrica começasse ruir para que em suas pequenas brechas as mulheres brasileiras pudessem finalmente protagonizar no rol de artistas dos referenciais imagéticos dos livros e cadernos de arte das secretarias de educação de nossas federações. Era preciso que um novo horizonte feminino despontasse à luz da claridade cimentada por Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, ambas educadas no exterior e criadas em fazendas escravagistas e inicialmente reprodutoras da arte hegemônica. A problemática que se encontra nos anais da semana de Arte Moderna de 1922 é um rico material onde podemos detectar a continuidade das relações patriarcais mesmo com a inserção (mínima) de mulheres no evento. Mas seria necessário um longo estudo para situar o lugar de fala dessas mulheres que pertenciam à burguesia e que ainda mantinha costumes segregativos em suas famílias.

Com o início da vigência da Lei nº 10.639 criada em 2003 a temática afro-brasileira se tornou obrigatória nos currículos do ensino fundamental e médio. A LDB ou Lei de Diretrizes e Bases da Educação define e regulariza a organização da educação brasileira com base nos princípios presentes na Constituição que rege os quatro direitos pedagógicos: ensinar, aprender, pesquisar e divulgar. E é com base nos documentos norteadores de nossa educação que as mulheres entram de forma discreta nos conteúdos da educação. Outro fator de extrema importância da criação da Lei nº 10.639 refere a liberdade da inserção das mulheres para o ensino de arte no Brasil, mais do que isso: a inserção das mulheres negras que produzem arte no país e no exterior.

   Há trinta anos seria impensável apresentar às meninas e meninos o grandioso leque de artistas como Artemisa Gentileschi (1593-1653) que foi ignorada por muitos anos nas academias, mas que produziu uma temática potente e feminista em pleno período barroco italiano.  As obras reconhecidas internacionalmente produzidas por Lygia Clark (1920-1988), Lygia Pape (1297-2004) e Maria Martins (1894-1973) rompem barreiras e são reconhecidas pela expressividade que só então era laureada aos artistas homens e Adriana Varejão (1964) que desconstruiu de forma consciente a cultura do lápis “cor de pele” dos meios acadêmicos de ensino.

Para as mulheres negras podemos reconhecer que a criação desta lei foi o começo do rompimento das tradições artísticas e culturais brancas que impediam e dificultavam (ainda dificultam) a inserção de mulheres negras produtoras de arte no país. Um pequeno estremecer na bolha elitista divulgadora da produção de arte, fez emergir do limbo do esquecimento acadêmico a notável Maria Auxiliadora da Silva (1935-1974) que trazia temas da influência africana para as suas telas. Tão importante como Maria Auxiliadora, as contemporâneas Rosana Paulino (1967), Priscila Rezende (1985) e Renata Felinto (1978) trouxeram à tona as inquietações e incômodos das mulheres negras que foram barbarizadas no processo colonizador do Brasil, trazendo finalmente o diálogo e o debate para dentro das salas de aula. 

    Sabemos que ainda há um longo caminho de democratização a ser pavimentado para que as mulheres possam livremente pisar e cravar o nome na história da arte brasileira, mas sabemos que as primeiras sementes da contestação artística decolonial foram lançadas por mãos firmes de mulheres que conseguiram quebrar as barreiras do analfabetismo e ignorância a que foram fadadas. Reivindicando justiça para a sua ancestralidade através das vozes femininas, a arte brasileira jamais será a mesma.

     Referência:

   A participação das mulheres na história da arte. Instituto Tomie Ohtake, 2021. Disponível em: https://arteref.com/opiniao/instituto-tomie-ohtake/a-participacao-das-mulheres-na-historia-da-arte/. Acesso em: 19/01/2022.

 

  

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