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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Encontro entre terreiros e ocupações de Belo Horizonte

O Encontro entre Terreiros e Ocupações de Belo Horizonte promoveu discussões sobre as conexões entre as ocupações urbanas e os terreiros de Umbanda e Candomblé.

Redação Minas Gerais


BELO HORIZONTE – No dia 12 de Fevereiro, na Ocupação Eliana Silva, aconteceu o Papo de Futuro: Encontro entre Terreiros e Ocupações de Belo Horizonte. O evento contou com a presença de Mãe Bamburilá e Mãe Gituagi do Quilombo Manzo Kgunzo Kaiango, e do Pai Pata Gicaoci do Terreiro Roça Branca em Floramar, bem como moradores da ocupação e aliados católicos, evangélicos e ateus. O objetivo do encontro foi discutir as conexões entre as ocupações urbanas e os terreiros de Umbanda e Candomblé.

As casas de matriz africana têm sido violentamente atacadas em Belo Horizonte e em outras cidades brasileiras. Em 2021, o número de denúncias contra intolerância religiosa cresceu 141% e a maioria das vítimas são mulheres negras de religiões de matriz africana e que ganham até um salário-mínimo. Nem o Manzo Ngunzo Kaiango, que é reconhecido pela Fundação Palmares como um Quilombo e um Terreiro de Candomblé, escapa da violência. Em 2011, por exemplo, a Prefeitura de Belo Horizonte despejou a comunidade e a obrigou a viver em um abrigo local. Até hoje a prefeitura não consegue esclarecer o motivo pelo qual realizou o despejo. Porém, com muita luta, a comunidade conseguiu retornar ao seu território. Além da violência promovida pelo Estado, vizinhos constantemente agridem os terreiros. Mãe Bamburilá e Mãe Gituagi relatam que em Santa Luzia, por exemplo, um vizinho chama a polícia contra a comunidade quando esta inicia os seus rituais.

Os terreiros têm sido expulsos da cidade por causa desta violência. Em outras palavras, as comunidades de matriz africana não têm direito à cidade. Mãe Bambulirá ressaltou que antes havia muitos terreiros nas vilas e favelas. Porém, para fugir dos ataques relacionados a intolerância religiosa, estes terreiros têm migrado para áreas rurais. Nestas regiões, a comunidade fica escondida do restante da população na tentativa de preservar o sagrado.

A quem interesse atacar os terreiros? Quem ganha agredindo mulheres, negras, da classe trabalhadora? Para responder essas perguntas, precisamos compreender a luta do povo negro no Brasil.

Casas de Matriz Africana e a Luta Contra a Escravidão

Já ouviu falar que “macumbeiro” faz mal para os outros e adora ao diabo? Se sim, você já ouviu alguma das mentiras espalhadas sobre casas de matriz africana. Mãe Bamburilá, Mãe Gituagi e Pai Pata Gicaoci explicaram que os terreiros são casas de acolhimento. Em outras palavras, o que rege as religiões de matriz africana é o cuidado com o outro e com a natureza. Por exemplo, pessoas doentes costumam ir lá para buscar ervas para melhorarem. Além disso, essas casas acolhem pessoas que são marginalizadas na sociedade, como a população LGBT. Ainda, enquanto o capitalismo está relacionado com a destruição da natureza para produzir cada vez mais bens industrializados, a comunidade de terreiro preserva o meio ambiente. Afinal, os rios, vento, floresta, mar e outros elementos da natureza estão relacionados com entidades sagradas na tradição africana.

O acolhimento promovido nas casas de matriz africana ocorre desde o início da luta contra a escravidão no Brasil. Os africanos escravizados no nosso país vieram de diferentes culturas e nações. Além disso, eles mobilizavam esta cultura para lutar contra os escravocratas. A capoeira, uma das manifestações populares mais conhecidas, era uma forma de luta usada pela população negra. Os terreiros também fazem parte dessa história de luta. O conhecimento e a sabedoria de origem africana foram preservados nas casas de matriz africana como uma forma de organizar a comunidade contra a opressão. Pai Pata Gicaoci, por exemplo, conta que durante a escravidão, as mais velhas faziam rezas para que quando o capitão do mato fosse bater em uma pessoa escravizada a sua mão congelasse (daí que nasce o mito de que pessoas do axé fazem “trabalho” para ferir as outras, o que na verdade é uma deturpação da resistência negra). Além disso, reunidos em terreiros, a comunidade negra livre acolhia pessoas fugindo da escravidão.

Por causa disso, os colonizadores e os escravocratas começaram a perseguir religiões de matriz africana, impondo desde o início o cristianismo como a única fé aceitável. Ressaltamos que o Frei Agostiniano, Eustáquio Gouvêa, que também esteve no evento, ressaltou que o cristianismo imposto era um cristianismo falso. Ele focava em criminalizar as pessoas que pensavam diferente para poder explorá-las. De acordo com o Frei, esse cristianismo colonizador, que considera tudo o que não é branco e europeu como algo do demônio, é completamente oposto ao amor de Cristo. E foi esse cristianismo que se expandiu no Brasil em conjunto com a perseguição as religiões de matriz africana.

Assim, retomamos a pergunta: quem ganha agredindo casas de matriz africana? A perseguição aos terreiros está ligada a tentativa de enfraquecer as resistências do povo negro e pobre do nosso país. Logo, quem ganha são as pessoas que constituem a classe burguesa do Brasil – o 1% dos mais ricos. No evento, Adriel Pereira, Coordenador Municipal do MLB e cantor de louvor evangélico, ressaltou que a Bancada Evangélica no Congresso Nacional apoia Bolsonaro. De acordo com ele, essa bancada não está focando em cuidar da população brasileira, mas tem enriquecido através da criação de redes nacionais de igrejas e apoiado a burguesia. Em outras palavras, ela tem representado o cristianismo colonizador e não o povo brasileiro.

POVO UNIDO. Leonardo Péricles junto de Mãe Bamburilá, Mãe Gituagi do Quilombo Manzo Kgunzo Kaiango, e do Pai Pata Gicaoci do Terreiro Roça Branca em Floramar.

Por fim, Léo Péricles, que também participou do evento, ressaltou que “um povo que não conhece sua história, é um povo oprimido.” Nós, povo brasileiro, preto, pobre, e trabalhador, de todas as religiões, temos que reconhecer a importância das religiões de matriz africana na nossa história. Só assim, conseguiremos avançar contra a exploração capitalista e criar um mundo justo e igual para todas as pessoas – o socialismo.

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