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terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Maria Firmina, professora e liderança do movimento abolicionista

Maria Firmina dos Reis atravessou todas as grandes rebeliões organizadas pelos escravizados de sua terra, da Balaiada à revolta do Viana de 1867, convivendo com a presença de quilombolas e fugitivos.

Marcelo Pavão


SÃO PAULO – Maria Firmina dos Reis nasceu na Ilha de São Luís, Maranhão, em 11 de março de 1822. Filha de Leonor Felipa, mulata alforriada, e de João Pedro Esteves, homem de posses e sócio do senhor de Leonor, Maria nasce acometida por uma enfermidade e é batizada apenas em 1825, na freguesia de Nossa Senhora da Vitória em São Luís.

Em 1847, aos 25 anos, idade mínima exigida pela lei da época para o exercício da docência, Maria é aprovada em um concurso público para ser professora de primeiras letras da Vila de São José de Guimarães, onde exerceu a profissão até 1881.
Vivendo em uma realidade de profunda opressão e exploração das mulheres e do povo negro, ainda escravizado pela chibata dos senhores brancos, Maria lutou para a transformação da realidade que a cercava.

Dando voz às mulheres da época, a autora publicou o romance Úrsula em 1859 – considerado o primeiro romance brasileiro escrito por uma mulher. Em Gupeva, publicado três vezes em folhetim em 1861-1862, 1863 e 1865, Maria retrata o drama da indígena Épica e seu romance com um marinheiro francês. No terceiro romance, A Escrava, publicado em 1887, se reafirma como autora abolicionista, descrevendo a solidariedade entre negros, brancos e indígenas na luta contra a escravidão e a resistência e coragem das mulheres libertas e escravizadas ao enfrentar homens autoritários e violentos planejando fugas e subvertendo a autoridade do capitão de mato e o senhor de escravos.

Em suas obras, destaca-se o protagonismo das personagens femininas, abordando o sofrimento vivido pelos escravizados, os castigos físicos, a falta de liberdade, a dor da separação entre mães e filhos vendidos como mercadorias, as desigualdades de um mundo violento e injusto.

Durante sua vida, Maria Firmina participou e influenciou a vida intelectual maranhense escrevendo para a imprensa local, publicando livros e poesias em revistas e conquistando o respeito por seu trabalho notório enquanto professora e autora, em uma época que as mulheres eram inferiorizadas e consideradas meros objetos de seus maridos.

Ainda no século XIX, distintas mulheres romperam com essas barreiras, desafiando a estrutura patriarcal e negando o papel tão somente de donas de casa. Maria Firmina foi uma dessas mulheres que lutou para que todas as outras pudessem ter voz e mostrou que o “sexo frágil” poderia se manifestar política e intelectualmente.

A luta pela educação igualitária para homens e mulheres ainda era incipiente na época. Apesar da escolarização feminina ter avançado, no séc. XIX era ensinado às meninas somente as tarefas domésticas e de cuidado com a família.

Inspirada em outras mulheres pioneiras nessa luta como Herculana Firmina Vieira de Souza, que em 1862 transgrediu a lei e dava aula de primeiras letras para uma turma mista, Maria Firmina abre uma escola gratuita para meninos e meninas em Guimarães, em 1880.

Segundo Nascimento Morais Filho, a escola mista de Maria Firmina dos Reis era “uma revolução social pela educação e uma revolução educacional pelo ensino, o seu pioneirismo subversivo de 1880”. Essa ação foi considerada pelos círculos locais como um escândalo, obrigando a professora a encerrá-la depois de dois anos e meio, mas que ressoava na luta das feministas brasileiras por uma educação igualitária e por mais direitos políticos.

HEROÍNA BRASILEIRA. Não existem imagens de Maria Firmina, apenas reproduções artísticas como esta. (Foto: Reprodução/ Tony Romerson Alves).

Maria Firmina dos Reis morreu em 11 de novembro de 1917, aos 95 anos, cega e pobre no município de Guimarães. Até hoje, não se conhece nenhum registro de seu rosto além de representações, sendo a autora retratada como branca por décadas; porém, sua luta continua a inspirar o movimento feminista e negro por seu pioneirismo e coragem, contra o racismo ainda pujante de um sistema com bases escravistas e contra o machismo que submete as mulheres à opressão e à violência.

Além disso, é um exemplo na luta por uma educação de qualidade, universal e gratuita, que enfrente as barreiras impostas pelas classes dominantes e seja voltada aos interesses do povo.

Maria Firmina dos Reis, presente!

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