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segunda-feira, 20 de maio de 2024

A realidade da terceirização no Hospital Mário Gatti em Campinas

A Rede Mário Gatti, autarquia da Prefeitura de Campinas responsável pela administração dos hospitais públicos e das UPAs, ampliou no fim do ano passado o contrato com o Cejam (Centro de Estudos e Pesquisas Dr. João Amorim) para receber trabalhadoras da Saúde terceirizadas.

Patricia Kawaguchi |MLC


CAMPINAS – Atualmente os hospitais Mário Gatti, Ouro Verde e as UPAs Campo Grande e São José têm trabalhadoras terceirizadas. No caso do Mário Gatti, as trabalhadoras concursadas que estavam no pronto atendimento adulto foram transferidas para outras áreas para serem substituídas por terceirizadas. “Nós não iremos perder os nossos trabalhos, mas é muito triste você trabalhar por muito tempo num setor, aprender como funciona, saber tudo como ocorre ali e de um dia pro outro falarem “tchau” pra você. A gente se sentiu no lixo”, desabafa Débora, enfermeira do hospital.

Paulo Mariante, do Conselho Municipal de Saúde, lembra que a terceirização é um projeto de longa data: “o que a gente vê desde o governo Jonas, uma destruição desse quadro de trabalhadores e trabalhadoras. Mas foi intencional, não foi por acaso, eles provocam a situação de calamidade, não faz concurso, não contrata e aí vem com a solução mágica que é a terceirização”.

A terceirização é uma forma de precarizar as condições e relações de trabalho e dificultar as lutas de trabalhadores e trabalhadoras por seus direitos, uma vez que não há garantia de estabilidade. A possibilidade de demissão a qualquer momento e por qualquer motivo – ou mesmo sem motivo – faz com que trabalhadores tenham receio de construir greves e paralisações. Além disso, as empresas terceirizadas, na maioria das vezes, contratam com salários menores do que a média e não é raro ver demissões em massa para em seguida a empresa anunciar vagas pagando menos.

Débora diz que “como uma funcionária da enfermagem, é muito triste ver o salário deles, é muito humilhante, o valor que eles ganham é muito pouco para quem estudou. Hoje eles ganham metade do que eu ganho e trabalham muito. Nós tivemos até um caso de uma pessoa da CEJAM que tentou o suicídio dentro do hospital”. Esse caso, sobre o qual não há muitas informações, é mais um exemplo chocante do impacto que a sobrecarga de trabalho causada pela terceirização causa na saúde física e mental das trabalhadoras.

Além de prejudicar os trabalhadores, a terceirização em serviços públicos também afeta a população com uma piora significativa da qualidade que, no caso da Saúde, coloca até vidas em risco.

Débora afirmou que os trabalhadores terceirizados não estão preparados, são recém-formados sem experiência que foram colocados para trabalhar no pronto-socorro, atendendo casos graves sem passar por um treinamento adequado. “A população está sofrendo bastante, o tempo de demora de atendimento está bem maior e é sofrido, né? Nós, como servidores públicos, somos servidores da população. Então a gente sente que a população tá sendo muito afetada”, complementa.

O Conselho Municipal de Saúde junto com o Movimento Popular de Saúde realizaram no dia 23 de janeiro um ato simbólico de abraço ao Mário Gatti com panfletagem, diálogo com transeuntes, agitação e palavras de ordem em defesa da saúde pública e dos direitos dos trabalhadores, terminando com uma corrente em volta do hospital. O ato contou com a presença de conselheiros e trabalhadores da Saúde, militantes do Movimento Luta de Classes e da Unidade Popular Pelo Socialismo, sindicatos aliados e outros movimentos sociais.

Movimentos sociais se somaram à manifestação (Foto: Patricia Kawaguchi/MLC).

Já faz tempo que o Conselho Municipal de Saúde alerta sobre o processo de sucateamento da saúde pública em Campinas, que abre caminho passo a passo para a privatização. Os problemas não são poucos: “falta de profissionais nas unidades, equipes com muito mais população pra atender do que deveriam, farmácias fechadas por falta de profissional, medicamentos importantes que as pessoas precisam de uso contínuo pra diabetes, pra hipertensão, por exemplo, faltando também na nossa rede”, denuncia Nayara Oliveira, do Conselho.

Ela reforça a importância da participação popular nos conselhos: “a gente tem feito justamente que os conselhos locais também se fortaleçam junto com os conselhos distritais, junto com o conselho municipal, que seja uma coisa inclusive ascendente. Hoje nós temos cem conselhos locais em Campinas, foram recentemente eleitos e algumas das pessoas estavam aqui hoje inclusive nesse ato, essa manifestação contra a privatização é um processo que a gente vem debatendo com a população”.

Paulo Mariante aponta que “já tá beirando uns nove, dez anos que secretário municipal de saúde não vai mais na reunião no conselho, isso é demonstração do desrespeito deles, eles não têm coragem de sentar numa reunião do conselho pra ouvir o que a população tem a dizer. É pra isso que existe conselho, é pra população se expressar, que é o fundamental”.

É fundamental que trabalhadores e a população se unam para defender a saúde pública, contra a política de precarização e privatização. Para avançar nessa luta devemos ocupar os conselhos, construir rodas de conversa, atos e manifestações. Nenhum direito a menos! Defender a saúde pública é defender a vida do povo pobre!

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2 COMENTÁRIOS

  1. Absurdo essa terceirização, conheci de perto a ortopedia do ouro verde, estive dias lá tratam os pacientes com descaso, tanto que a cirurgia que teve incherto de osso tirado da bacia, e a enfermeira questionando que não tinha curativo pra fazer, não foi capaz de ler o prontuário, cadê fiscalização pra ir a noite lá principalmente onde estagiárias sem comprometimento tratam as pessoas com descaso

  2. Estou pela cejam e, realmente as coisas nao estao faceis, ganhar um salario de 2100 para atender a porta vermelha no mario gatti. Onde a media de paciente sao de 30 por noite, emergenciais. Azul, que passam em torno de 400 pra bem mais pra nao ter funcionario, passando raiva, nervoso e sendo hostilizado, nao fica viavel, sim ,amamos o que fazemos, porem, temos que trabalhar.por isso, aceitamos o salario baixo, houve oportunidade de trabalhar no mario gatti. Porem, nao tem clima, nao tem um bom gerenciamento, e com isso quem sofre sao os pacientes.

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