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quarta-feira, 24 de abril de 2024

Bruno Paes Manso: “Alguém queria Marielle morta. Foi uma questão política.”

No último dia 24 de julho, a Polícia Federal divulgou o depoimento de Élcio Queiroz, piloto do carro utilizado nos assassinatos da ex-vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. Queiroz, ex-integrante da Polícia Militar do Rio de Janeiro, deu detalhes de como ele e o também ex-PM Ronnie Lessa, entre outros membros do “Escritório do Crime”, cometeram esses covardes homicídios. O depoimento possibilitou avançar nas investigações sobre quem e por que mandaram matar Marielle. O jornal A Verdade entrevistou Bruno Paes Manso, jornalista e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, autor do livro “A República das Milícias”, lançado pela editora Todavia, em 2018. 

Cadu Machado | Redação


A VerdadeFaz cinco anos dos assassinatos de Marielle e Anderson. Por que as investigações demoraram tanto para avançar depois da prisão dos assassinos?

Bruno Paes MansoPor um lado, tem o que os próprios promotores e investigadores dizem: foi um crime praticado por policiais, que conhecem a investigação. Então, eles sabem como despistar, a ponto de colocar falsos culpados na história, simular grampos, retiram e dificultam a captação de imagens, destroem as placas, jogam a arma no mar. Então, você tem um grupo que sabe como é feita a investigação e, por isso, também sabe o caminho para dificultar. 

Segundo, tem uma história de convivência de corporações com os grupos que mataram Marielle. Com o caso Marielle, a gente fica sabendo de um grupo que matava há dez anos impunemente, responsável por uma série de mortes que aconteceram e que nunca foram investigadas e só começaram a ser por causa da investigação sobre Marielle.

Então, você tem uma máquina muito comprometida. Imagino que até os investigadores compromissados tenham dificuldade de trabalhar em um lugar onde você não sabe quem é amigo e quem é inimigo. Isso em um contexto do Rio de Janeiro, que envolve autoridades ligadas a grandes capos (chefes) do jogo do bicho, pessoas muito influentes na polícia e com ligações com as milícias.

E, terceiro, você tem muitos suspeitos, tem muita gente capaz de fazer isso. Além de um desinteresse, porque muitos suspeitos hoje estão no Governo. Descobrindo, você atinge muita gente.

Você acha que a lentidão das investigações tem relação com quem poderia ser acusado?

É, eu acho que a motivação da demora é por envolver pessoas poderosas. O depoimento do Élcio Queiroz para a Polícia Federal já é uma quebra de um pacto de silêncio que existe desde a época da ditadura militar. Mais de 400 mortes e milhares de torturas, mas poucos foram os que falaram. Esse pacto de silêncio é muito respeitado entre os paramilitares, grupos armados radicais ligados ao Estado e à polícia. É muito difícil você ter um depoimento entregando os mandantes.

No caso do Élcio Queiroz, ele rompe esse pacto de silêncio, assume o caso e dá detalhes de como foi o crime, o que já é um grande avanço. Isso já é bem importante porque o caso não foi a júri ainda e temia-se que eles próprios fossem inocentados. Então, você já tem uma confissão e um detalhamento do crime.

O tal do Macalé, que surge no depoimento do Élcio Queiroz, era um miliciano de Oswaldo Cruz, na região da Zona Norte do Rio, que foi citado na CPI das Milícias como chefe das desta que é uma região de domínio do Domingos Brazão [foi deputado estadual no RJ e hoje é conselheiro do TCE] e do Chiquinho Brazão.

Isso é uma hipótese que já tinha sido levantada. O Marcelo Freixo já suspeitava que a morte da Marielle poderia ter sido uma represália por causa de duas operações da Polícia Federal, que aconteceram ainda nos desdobramentos da Lava Jato, em 2017. 

O ministro da Justiça, Flávio Dino, diz ter certeza que foi um assassinato político. Você também pensa que a motivação principal é política?

Sim. Marielle estava fora de todas essas mortes que aconteceram. O Falcon, que era presidente da Portela, o Geraldo, o Escafura, o Bid, irmão do Maninho, tem um monte de gente que morre na mão do “Escritório do Crime”, e todo mundo morrendo em decorrência das disputas do crime, era uma guerra de máfia, uma briga por poder. Você tem agora um ex-vereador que foi morto [Zico Bacana], mas ele também estava completamente envolvido nessa cena miliciana. 

Me parece que o “Escritório do Crime” era um grupo especializado para matar para os bicheiros, que fugiu das características dos homicídios do Rio. Talvez com alguma ideia de passar algum tipo de mensagem. 

Não tinha por que matar uma vereadora, a não ser o que simbolizaria essa morte. É um crime claramente relacionado a uma mensagem, a um grupo e ao que esse grupo representava. Não tem nada a ver com o submundo do crime.

Não foi por grana. Foi uma questão de alguém que queria ela morta, um pedido. Um pedido que foge dos negócios. Então me parece uma questão política. 

Queiroz descreve uma cadeia de assassinatos em seu depoimento. Você pode falar um pouco mais sobre essa indústria da morte no Rio de Janeiro?

No Rio, isso ganhou um patamar novo com o Adriano Magalhães da Nóbrega [morto pela PM da Bahia em 2020], que é o ex-capitão do Bope que o Bolsonaro defendia e cujos familiares eram empregados no gabinete de Flávio Bolsonaro. Adriano começa a articular essa inteligência.

A partir da sua prisão, em 2005, ele percebe que a carreira dele na polícia fica comprometida e vai trabalhar para a família Garcia, uma família de bicheiros, em que os capos Miro e Maninho tinham morrido e o espólio da família passa a ser disputado. Adriano é contratado por um dos lados e essa guerra familiar é muito cheia de mortes, traições e tudo mais.

Adriano entra nesse nicho porque os bicheiros que tinham conseguido dividir o Estado do Rio de Janeiro territorialmente e chegar a uma paz estavam envelhecendo e perdendo o poder. Então os filhos começam a brigar e aí você tem uma nova disputa por poder. Adriano entra nessa como um matador especializado, fazendo esse “Escritório do Crime”, e vem outras pessoas, de outras corporações, fazendo a mesma coisa que o Adriano. Ronnie Lessa, por exemplo, vai trabalhar como segurança do Rogério de Andrade.

Como avalia a relação entre Estado, milícias e controle do território? 

O Brasil nunca esteve tão próximo a uma máfia, a um Estado influenciado e tomado pela máfia, como no Rio de Janeiro. O Estado hoje, no Rio, depende muito do voto dos territórios onde grupos paramilitares milicianos controlam. Então você tem esse clientelismo, essa troca de favores. E por causa disso, eles acabam sendo muito influentes nas votações e no dia a dia dos territórios, agenciando os seus próprios negócios e não sendo fiscalizados.

É possível haver ligação entre o assassinato de Marielle e a família Bolsonaro?

Bolsonaro e a família dele estão ligados numa outra esfera de banditismo, muito vinculada à rachadinha, aos esquemas de gabinete. Eles não se envolviam com os negócios milicianos, não era uma fonte de recurso da família. Ao mesmo tempo, essas esferas se relacionam porque as ideologias são muito próximas. Além da própria ligação da família do Adriano com o gabinete de Flávio Bolsonaro.

Mas a coisa que mais me incomoda nisso foi a fake news [de que ela teria envolvimento pessoal com traficantes] lançada quando Marielle estava morta, ainda dentro do carro. A gente sabe que Carlos Bolsonaro é um comunicador importante, né?! Eu não estou dizendo que foi Carlos quem fez essa fake news, mas, quando ela morre, já começam a botar o plano em ação.

E agora o Élcio colocou na delação que o Ronie Lessa falou para várias pessoas que iria matar a Marielle. Falou pro Élcio num churrasco em dezembro [de 2017]. Portanto, é legítimo fazer a pergunta pro Carlos Bolsonaro: “Como vocês são vizinhos e o cara contava para todo mundo e depois você participou da campanha contra Marielle quando ela estava morta, será que você não ficou sabendo de nada? Não? Ah, beleza! Não estou te acusando, tá… Era só uma dúvida…”.

Entrevista publicada na edição nº 277 do Jornal A Verdade.

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