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sexta-feira, 21 de junho de 2024

Felipe Luther: “Na greve, me senti pertencente a um movimento de luta de classes”

O jornal A Verdade entrevistou Felipe Luther, morador da favela Parque da Cidade, no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro. Aos 25 anos, Luther começou a trabalhar na Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), no Rio de Janeiro, para ajudar no sustento dos seus quatro filhos.

Em 2014, participou da grande greve na limpeza urbana, quando, por oito dias, mais de dois mil trabalhadores entraram em greve. Mesmo sem o apoio do sindicato, a categoria, com muita disposição de luta, conquistou 37% de aumento. Esta experiência transformou a consciência de Luther, que hoje milita no Movimento Luta de Classes (MLC) e relata a seguir um pouco de sua experiência.

Esteban Crescente |  Rio de Janeiro


A Verdade – Como foi o processo da greve da limpeza urbana em 2014?

Felipe Luther – Em janeiro daquele ano, a categoria estava passando por um esgotamento. Havia perda de benefícios e direitos, como auxílio-creche, auxílio-educação, triênio, etc. Outra pauta importante era o Plano de Cargos e Salários (PCCS Comlurb), que, desde 1999, estava aprovado, mas muito dele ainda não tinha sido aplicado. Era um ponto que iria melhorar financeiramente, mas também dar oportunidade para um desenvolvimento dos trabalhadores que se empenharam anos para ter uma progressão dentro da própria carreira e se tornarem encarregados, supervisores e até gerentes.

Naquele ano, nosso salário estava bem defasado, o salário-mínimo tinha aumentado, mas este aumento não chegava pra gente. Juntava-se a isso a falta de maquinário para dar apoio a atividades e diminuir a quantidade de lesões que trabalhadores vinham tendo. Também faltavam condições de segurança do trabalho, sem Equipamento de Proteção Individual (EPI) e trabalhadores alocados debaixo de viadutos, em contêineres. Além disso, não havia um plano de saúde e ocorriam muitos acidentes de trabalho.

Toda esta situação e o sindicato nada fazia. Os trabalhadores, então, realizaram um ato de reivindicação na Major Ávila, que é a Central Administrativa da Empresa Comlurb, mas a empresa se negou a negociar e declarou que éramos um bando de arruaceiros. No primeiro dia, tinham 50 trabalhadores, no segundo, mais de 100. Elegemos uma comissão de trabalhadores, mas nada foi decidido pela empresa.

Vendo esta situação, fomos para a porta da Prefeitura do Rio de Janeiro fazer um ato. Chegando lá, a única resposta foi por meio de nota veiculada nas TVs pelo então prefeito Eduardo Paes, dizendo que éramos arruaceiros. Procuramos a direção do nosso sindicato e eles falaram a mesma coisa. Tudo isso nos revoltou e nos deu ânimo para um processo de paralisação. No quarto dia de mobilização, já éramos mais de dois mil trabalhadores na rua. Ainda havia muitos trabalhadores dentro das gerências com medo, pois ocorriam muitas ameaças de retaliação.

Esta greve durou oito dias. No quarto dia, já conseguimos mostrar nossa força com impacto na mídia e na sociedade. A Justiça decretou a ilegalidade da greve, mas, após oito dias, conseguimos uma mesa de mediação com Ministério Público do Trabalho. Ao mesmo tempo, tivemos a sorte de nossa greve atravessar o Carnaval, atingindo muitos turistas. E ainda teve a chuva de alguns dias, que deu mais força para nossa pressão.

O resultado de toda esta luta foi um ganho de 37%. Grande vitória da categoria, que ousou lutar. Infelizmente, não atingiu todos os profissionais. Foram contemplados os varredores de rua, mas não os motoristas, operários, vigilantes e cozinheiros da empresa. Eram 22 mil trabalhadores na época. Sete mil foram contemplados na mesa de negociação e também tivemos a promessa de rediscussão do Plano de Carreira. Até hoje, ainda lutamos pela aplicação de muitas das pautas. Já em 2015 e 2016, fizemos nova greve para reivindicar estas demandas. 

Como a greve impactou sua consciência? 

Pra mim, a greve foi um marco porque finalmente me senti pertencente a um movimento de luta de classes e no dever de continuar isso pra mim, pra minha família e meus companheiros. Possibilitou que eu pudesse enxergar quais eram os motivos das greves, adquirir consciência de classe. Isso me deixou motivado a continuar este movimento, não só na minha categoria, mas também em outras categorias. A greve não é só um instrumento para se reivindicar melhores salários. Além do ganho financeiro, de melhores salários, a greve também é um mecanismo em que a gente, junto, pode melhorar uma série de reivindicações coletivas.

Entrevista publicada na edição nº279 do Jornal A Verdade.

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