UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sexta-feira, 19 de abril de 2024

A importância da luta sindical por um transporte público de qualidade e barato

Após o aumento da tarifa de ônibus em BH e região metropolitana, trabalhadores rodoviários falam sobre a importância do sindicato.

Por Movimento Luta de Classes


BELO HORIZONTE – O prefeito de Belo Horizonte Fuad Noman (PSD), amigo pessoal dos empresários do transporte, e Romeu Zema (Novo), governador fascista de Minas Gerais, aumentaram a tarifa de ônibus de BH e região metropolitana no apagar das luzes de 2023.

A justiça burguesa se mostrou ao lado dos empresários e da prefeitura, mantendo o aumento após diversas ações judiciais. Vários movimentos sociais, entidades, usuários e trabalhadores se reuniram no segundo dia de 2024 para organizar a luta contra mais esse aumento, mesmo após as empresas receberem um repasse de mais de R$ 500 milhões há seis meses atrás.

O transporte público na capital mineira e sua região metropolitana é caótico: a) ônibus lotados, b) constantes defeitos nos veículos, c) ausência de trocadores e d) de direitos para os motoristas. O Jornal A Verdade entrevistou os motoristas Pedro e Carlos* que estão se organizando para tomar o sindicato que está há anos nas mãos dos empresários.

Jornal a Verdade – Há quanto tempo vocês trabalham como rodoviários e como era o sindicato?

Carlos – Quando eu ainda era adolescente, eu passava no ponto final de uma linha que fazia meu bairro. Eu, muito novo, me via ali no meio dos motoristas e cobradores, todos de calça azul escuro e camisa azul claro, com seus sapatos pretos engraxados.

Nossa, aquilo ali pra mim era um sonho! Acabei realizando meu sonho em pouco tempo, depois de muita insistência. Comecei minha atividade como rodoviário no ano de 1989 como cobrador de ônibus, e com o tempo fui alcançando outras profissões dentro da empresa.

Na época, o sindicato representava realmente os trabalhadores rodoviários. Tocou várias lutas e algumas delas foram a do ticket-refeição, do pagamento de dobras e de horas extras. Foram tantas as conquistas!

Olha, eu posso dizer que o sindicato na época era nosso porto seguro. Tínhamos uma relação muito boa. O finado Hamilton de Moura tinha essa preocupação com os trabalhadores.

Pedro – Eu trabalho como rodoviário e motorista há 27 anos, mas nunca fui sindicalista. Eu entrei numa época que o sindicato de BH e região metropolitana ainda era unificado e era respeitado no Brasil inteiro. Depois, conhecendo mais comecei a engajar na política e conheci quem era o Hamilton de Moura (presidente).

Ele entrou na década de 90, tirou o presidente que já estava lá há muito tempo. Naquela época estava nessa mesma situação que está hoje, de conchavo com as empresas, e o trabalhador era quase que escravizado.

As empresas tremiam quando o sindicato dos rodoviários falava que os trabalhadores iriam parar. Sempre que eu precisei do sindicato, foi muito prestativo, com muitas informações. Os delegados de base de cada empresa iam com a prancheta para filiar a gente e falar de todos os direitos e deveres, além de distribuir o livrinho da convenção coletiva.

A assessoria jurídica era presente e forte quando acontecia algum acidente ou problema. Recentemente, aconteceu que um motorista foi agredido por um policial e o sindicato demorou a se fazer presente e somente pagou a fiança do motorista, mesmo o motorista não tendo culpa. Se fosse na época do Hamilton, a categoria iria parar e os policias seriam processados pela assessoria jurídica com certeza.

A gente trabalhava 6 horas e 50 min de carga horária máxima (com 30 minutos de intervalo), tinha mais tempo para estar com a família e para estudar, além da presença dos cobradores para ajudar com cadeirantes ou durante a própria direção do ônibus.

Tinha menos trabalhadores afastados por problema de saúde física, estresse, ansiedade, etc. Quando eu entrei como cobrador, eu recebia dois salários e meio, tinha vale alimentação, plano de saúde excelente, plano odontológico, passe livre. Hoje eu trabalho de motorista, fazendo a função de cobrador e meu salário não chega a dois salários e meio. Olha como está defasado. Sem contar que tenho que pagar um plano de saúde que retira parte do meu salário para pagar as consultas.

JAV – E como é o sindicato hoje?

Carlos – A situação do sindicato no dia atual é simplesmente uma extensão das empresas. Você tira um exemplo: hoje tem o Sr. Rubens Lessa** que é proprietário de empresas de ônibus e presidente de sindicato que fiscaliza as próprias empresas que ele é proprietário. Isso é o mesmo que colocar um lobo pra tomar conta de um galinheiro.

Pedro – O nosso sindicato hoje em dia é um sindicato totalmente inerte. É composto em sua maioria pela mesma diretoria que fez parte da gestão de um ex-presidente sindical e ex-vereador de BH, suspeito de matar nosso maior líder que estava prestes a retomar o sindicato.

Agora nossos direitos estão acabando aos poucos. Infelizmente, a máfia do transporte dividiu o sindicato (entre BH e região metropolitana), exatamente para enfraquecer a categoria. A atual diretoria não faz questão de fazer associação com o trabalhador, não informa o trabalhador. Ao invés de fazer as assembleias no sindicato, faz assembleias em covil de torcidas organizadas justamente para amedrontar os trabalhadores.

Estão fazendo também assembleias itinerantes que não tem local fixo para o trabalhador comparecer e votar. Eles vão nas garagens e nas estações e colhem assinatura de quem eles querem.  Eles não pegam a assinatura das pessoas que são contrárias às propostas. A categoria está pedindo socorro.

JAV – Você enxerga a possibilidade de recuperar o caráter combativo do sindicato e retirá-lo da imobilidade?

Pedro –  No final da década de 80, eu tinha 16 anos e trabalhava no centro numa padaria. Eu vi muita gente no orelhão querendo ligar para as empresas para reclamar que não tinha ônibus. Eu fiquei extasiado com a força que tinha a categoria. E ficou assim durante uns 3 dias. Ficou parado mesmo. Eu sempre fiquei com aquilo na cabeça. Poxa que força que tem né, o sindicato.

Eu vestia a camisa de uniforme e saia para trabalhar com orgulho. Quando a gente tem um sindicato que luta pela categoria, a gente trabalha com mais prazer. A gente era bem remunerado, tinha um plano de saúde excelente.

Olha, para ser sincero, eu acho que é possível recuperar esse caráter combativo somente com um trabalho sério de conscientização do rodoviário, de recuperação da sua autoestima. Fazer com que ele saiba da sua importância para a sociedade e fazer um trabalho político constante. Mostrar para ele que ele é um trabalhador. Ele é da classe trabalhadora.

Às vezes o patrão coloca na cabeça do trabalhador que tá fazendo um favor dando um emprego pra ele. Mas não é assim. A gente tá vendendo nossa força de trabalha pelo salário. E o empresário a cada dia está explorando mais e mais o trabalhador. E sempre falando que tem gente pior que ele e desempregada. E ele acaba ficando cabisbaixo, até porque tem um sindicato que não o representa.

Só na base da conscientização e da informação, retomar o trabalhador para a luta, coisa que o sindicato não tá fazendo. É um sindicato da desinformação, que trabalha junto com os empresários. É um sindicato patronal, infelizmente. É como se fosse uma subsede do sindicato das empresas.

Uma das principais explicações de o sindicato estar desse jeito foi o desligamento da Liga Operária que era nosso apoio político. Ela que fazia essa campanha política, mostrava para o trabalhador qual era a sua classe; mostrava que tinha que ser uma classe lutadora, mostrava as injustiças que os patrões queriam cometer.

Ou seja, armava o trabalhador no sentido de informações e estava junto do trabalhador em todas as lutas. Quem não se lembra dos “linguições” nos corredores das avenidas Antônio Carlos e Cristiano Machado ou mesmo no próprio centro.

A liga operaria estava por trás dessas campanhas políticas de conscientização do trabalhador e mostrava para a classe que esta é uma peça fundamental nesse sistema podre que é o capitalismo. Ela é a parte mais explorada.

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A luta para barrar o aumento da tarifa de ônibus em BH e região metropolitana deve ser realizada em unidade entre usuários e trabalhadores. Por um lado, as empresas recebem subsídios milionários e aumentam a tarifa recorrentemente. Por outro lado, estas mesmas empresas cortam os direitos dos trabalhadores, aumentam a jornada de trabalho, retiram os trocadores, reduzem as frotas e não realizam a manutenção dos ônibus.

Tudo isso sem transparência das contas. Isso significa aumento dos lucros ano após ano. Nada de novo sob o capitalismo. Somente com o Movimento Luta de Classes na linha de frente do sindicato dos trabalhadores rodoviários, lutando pela construção do socialismo, juntamente com a organização da Unidade Popular em cada bairro de Belo Horizonte e Região Metropolitana será possível garantir um transporte público de qualidade para toda a população.

*Para segurança dos entrevistados, foram utilizados nomes fictícios.

** Rubens Lessa é presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros Metropolitano (Sintram).

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