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sábado, 18 de maio de 2024

A tragédia de Sacco e Vanzetti

A tragédia de Sacco e Vanzetti, livro clássico do escritor Howard Fast, conta a história de dois operários italianos condenados à morte pela Justiça dos EUA, falsamente acusados de assaltarem uma fábrica. Obra ilustra a injustiça do Estado burguês e a solidariedade internacionalista dos trabalhadores, que denunciaram em todo o mundo a farsa do imperialismo estadunidense

Thiago Santos* | Recife (PE)


HISTÓRIA – A jornada rumo à libertação total da classe trabalhadora da exploração desumana do capitalismo é feita de muitas histórias, de lutadoras e lutadores, heroínas, heróis e mártires, que fizeram da vida um instrumento à serviço da causa. Foram muitas as ocasiões em que a classe dos que tudo têm condenaram à morte injustamente figuras humanas de tipo especial, demonstrando o verdadeiro caráter do sistema de exploração em que vivemos.

O 1º de Maio é um exemplo disso. Nessa data, trabalhadores do mundo inteiro celebram a coragem, a determinação, a firmeza e a entrega sem limites à causa de Augusto Spis, George Engel, Adolf Fischer e Albert Parsons, mortos na forca, condenados por terem organizado greves operárias pela redução da jornada de trabalho em 1886, em Chicago, Estados Unidos.

A greve geral conduzida por eles mobilizou operários de mais de cinco mil fábricas, alcançando mais de 350 mil trabalhadores e resultando na vitória da limitação da jornada em oito horas, conquista que, depois, espalhou-se para várias partes do mundo, levando, junto com a conquista, a memória dos heróis conhecidos como “mártires de Chicago”.

Seis anos depois da condenação, o governador do estado mandou reabrir o processo e concluiu que os enforcados não tinham cometido qualquer crime. Na verdade, “tinham sido vítimas inocentes de um erro judicial”. O verdadeiro objetivo da farsa que foi aquele julgamento era condenar o movimento grevista e as suas lideranças. Foi um julgamento político reacionário, uma das maiores farsas judiciais da história dos EUA. Mas não foi a única…

A luta de Sacco e Vanzetti

Em 14 de julho de 1921, os operários Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, imigrantes italianos, foram condenados à morte na cadeira elétrica. Presos em 05 de maio, próximo à cidade de Boston, foram acusados de terem participado do assalto a uma fábrica ocorrido em 15 de abril em South Braintree, cidade localizada no Estado de Massachusetts, nos Estados Unidos. No assalto, duas pessoas foram mortas.

Mais de 100 pessoas prestaram depoimentos declarando que os acusados não estavam na cena do crime. Acontece que uma onda de manifestações organizadas, tanto por comunistas (que haviam fundado o partido nos EUA em 1919) quanto por anarquistas, assustava a burguesia capitalista do país, que alegava que o avanço das reivindicações poderia retirar os privilégios alcançados por uma pequena parcela da sociedade norte-americana às custas da exploração capitalista de milhões.

A presença de imigrantes italianos entre os líderes das manifestações operárias era o ingrediente que faltava para transformar as prisões de Sacco e Vanzetti na resposta que as autoridades precisavam dar à burguesia.

Os imigrantes e militantes do movimento operário presos injustamente foram os “bodes expiatórios”, vítimas da reação burguesa, do preconceito de classe e de nacionalidade.

A sessão norte-americana do Socorro Vermelho Internacional e o Partido Comunista dos EUA denunciaram a farsa por meio de comícios em todo o país. Em Nova York, cerca de 100 mil trabalhadores fizeram uma paralisação de protesto. Piquetes foram organizados na frente da sede do governo estadual.

Em Paris, o Partido Comunista Francês organizou uma grande manifestação em frente à embaixada norte-americana. Mobilizações contra as condenações ocorreram na Itália e em outros países da Europa, como Suíça, Holanda, Espanha, Portugal e Inglaterra. Na América Latina, houve protestos no México, Chile, Argentina, Panamá e até no Brasil.

A defesa pediu outro julgamento e chegou a conquistar o adiamento da execução. O jornal soviético Pravda escreveu sobre o caso. O jornal do Partido Comunista Alemão disse se tratar de “uma primeira vitória”. Mas a Suprema Corte de Massachusetts indeferiu os pedidos de absolvição em maio de 1926. Em abril do ano seguinte, a sentença foi confirmada.

Mentiras e injustiças

Na madrugada do dia 23 de agosto de 1927, dois inocentes foram executados na cadeira elétrica. Nicola Sacco escreveu ao seu filho Dante: “Lembre-se sempre dos dias de alegria e não use tudo apenas para você, desça um degrau e ajude sempre os mais fracos que gritam por ajuda, ajude as vítimas e os perseguidos, porque eles serão os seus melhores amigos”. Ao entrar na sala de execução, Bartolomeu Vanzetti proferiu suas últimas palavras: “Sou um homem inocente. Agora desejo perdoar algumas pessoas pelo que fizeram contra mim”.

Mais de 100 mil pessoas, a maioria operários, compareceram ao velório. Cerca de 200 mil pessoas participaram do cortejo fúnebre, que foi chamado de Marcha da Tristeza. Houve protestos e comícios no Brasil, em várias cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Manifestações pelo mundo afora celebraram a memória e inspiraram os trabalhadores a lutar contra as injustiças, à medida que denunciavam o martírio dos operários ítalo-americanos assassinados. Os nomes deles foram colocados em fábricas, escolas e até em uma rua de Moscou, para manter viva a memória dos mártires.

Ao comitê de solidariedade, antes da morte, ambos escreveram juntos uma última carta, onde se lê: “Decidimos escrever essa carta para expressar nossa gratidão e admiração por tudo o que vocês fizeram em nossa defesa durante estes sete anos, quatro meses e onze dias de luta (…) Apenas dois de nós vão morrer. Nosso ideal viverá em milhões de pessoas. Nós vencemos. Conservem nosso sofrimento, nossas dores, nossos erros, nossas derrotas e nossa paixão como um tesouro para batalhas futuras e para a liberdade final. Saudações aos nossos amigos e camaradas da Terra. Vida longa à Liberdade!”.

Somente depois de 50 anos da execução, o governador de Massachusetts reconheceu os erros do julgamento e concedeu indulto póstumo a Sacco e Vanzetti.

Muitos autores escreveram sobre o caso, mas quem melhor transmitiu a força da resistência popular, a determinação do comitê de defesa, a vasta campanha internacional e nos EUA pela libertação dos dois inocentes foi o escritor norte-americano Howard Fast, na obra intitulada “A tragédia de Sacco e Vanzetti”, publicada nos EUA pela primeira vez em 1948. Fast captura o leitor para o ambiente angustiante do corredor da morte, retrata a ansiedade da defesa jurídica diante os últimos embates pela anulação da pena capital e descreve com detalhes os piquetes, as pessoas, os fatos e a imensa força moral dos personagens principais.

Guardar a memória dos mártires e heróis

Os mártires de Chicago, assim como Sacco e Vanzetti, foram vítimas da manipulação do sistema de Justiça para promover a violência da classe exploradora contra a classe dos explorados. Trata-se de um mecanismo muitas vezes utilizado contra as pessoas que lutam contra as injustiças: José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima, conhecido como Padre Roma (1768-1817), que participou da Revolução Pernambucana de 1817 e foi condenado à execução por não delatar os nomes dos revolucionários; Joaquim da Silva Rabelo ou Frei Joaquim do Amor Divino, o Frei Caneca (1779-1825), foi condenado à morte  por se rebelar contra o domínio Imperial Português no Brasil; Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes (1746-1792), foi condenado à forca por lutar por um país independente.

Mas a verdade resiste e nenhuma farsa jurídica é maior que a luta, o heroísmo, o exemplo e a memória dos nossos mártires, heroínas e heróis que seguem animando a luta no Brasil e no mundo inteiro pelo fim da exploração capitalista e a construção do mundo novo, do poder popular e do socialismo.

O autor e a história

Howard Melvin Fast nasceu em Nova York, em 1914. Tinha quatro irmãos e era o terceiro filho de um casal de imigrantes. Sua mãe, Ida, era uma inglesa de família lituana, de origem judaica, que faleceu quando Fast ainda era criança. Seu pai, Barney, era ucraniano.

Durante sua infância pobre no norte de Manhattan, Fast conviveu com italianos, irlandeses e afro-americanos, sentindo na pele como funcionava o racismo e toda sorte de preconceito e discriminação.

Para completar a renda familiar, começou a trabalhar ainda jovem. Foi entregador de jornais e conseguiu emprego na unidade do Harlem da Biblioteca Pública de Nova York. Assim surgiu a sua afinidade com a literatura. Lia grandes quantidades de livros, retirados da biblioteca pública. Começou a escrever para jornais e publicou seu primeiro romance em 1933, aos 18 anos.

Na década de 1930, identificou no Movimento Comunista a resposta para todas as injustiças de que fora vítima e testemunha durante a vida difícil na periferia e tornou-se militante do Partido Comunista dos EUA. Sua obra passou a ser fortemente influenciada pelas ideias comunistas, o que lhe rendeu um processo no ano de 1947 por “desacato ao Congresso”. Na década de 1950, novamente alvo de perseguição ideológica, cumpriu uma pena de três meses de prisão. Em 1953, Howard Fast foi agraciado com o Prêmio Stálin da Paz. Sua obra mais famosa é Spartaco, publicada em 1952 para retratar a guerra contra o Império Romano a partir da história do líder do levante.

*Thiago Santos é presidente da Unidade Popular em Pernambuco

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