No acumulado dos últimos 12 meses, a inflação passou de 5% no Brasil. O preço dos alimentos subiu ainda mais, devido à especulação promovida pelos monopólios do setor agrícola. Só a reforma agrária e a nacionalização da terra podem enfrentar essa crise.
Rafael Freire | Redação
O aumento de quase 17% nas tarifas de energia elétrica residencial puxou a inflação no Brasil para mais de 5% no acumulado dos últimos 12 meses. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) apontou ainda para um aumento nos custos do consumo domiciliar: ovo de galinha (15,4%), café moído (10,8%) e arroz (8%) – itens básicos na mesa das famílias da classe trabalhadora brasileira – foram alguns dos que mais subiram de preço. Combustíveis aumentaram quase 3%; educação e habitação foram os que mais subiram entre todos os grupos de produtos e serviços medidos pelo IPCA: estão na casa dos 4,5% ou um pouco a mais.
O consumo diário de proteínas é fundamental para a saúde humana, em especial, para o desenvolvimento das crianças. Porém, só no ano de 2024, segundo o IBGE, houve uma elevação de mais de 20% no preço da carne bovina, levando a um consumo ainda maior de carne de frango e de ovos. Agora, o cenário se agrava com a alta do preço do ovo de galinha, para muitos chamado de “bife do olhão”. Fato é que, hoje, muitas famílias pobres consomem apenas arroz e feijão pelo menos três dias da semana.
Para Claudia Scarpelin, pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), vinculado à Escola Superior de Agricultura da USP, “o principal fator que tem impactado nos preços dos ovos é a baixa oferta no mercado interno”. Só para os EUA, houve um aumento de 22% nas exportações de ovos nos últimos 12 meses. E isso é uma tendência, não apenas uma circunstância passageira.
Alguns economistas burgueses, no entanto, querem atribuir todo o peso à alta dos preços dos alimentos a fatores climáticos. Sim, certamente as variações nos preços também são resultado do aumento dos custos de produção em face do aumento das temperaturas.
Quando as temperaturas amenizam, os preços também caem um pouco, mas jamais retornam aos patamares anteriores. Os capitalistas tratam sempre de manter sua margem de lucros crescente, ainda mais se estamos falando do setor agrícola brasileiro, cuja principal característica é ser monopolizado por um número pequeno de famílias ou grupos financeiros.
O presidente Lula, porém, não consegue se decidir e chegou a botar o nome da galinha na roda. “A galinha não está cobrando caro. Ainda não encontrei uma galinha pedindo aumento do ovo. A coitadinha sofre, ainda canta quando põe o ovo, mas o ovo está saindo do controle. Uns dizem que é o calor, outros dizem que é a exportação. Eu estou atrás”, comentou em discurso no dia 07 de março num evento oficial do Programa de Reforma Agrária¹.
Posse da terra
São mais de 500 anos de exploração da terra e da força de trabalho neste solo com o objetivo de enriquecer as elites econômicas, fosse no tempo da Coroa Portuguesa e do nascente capitalismo na Europa; fosse no período em que essas elites atendiam pelos nomes de latifundiários ou ruralistas; seja agora, com a “modernização” do campo, na era do “agronegócio pop”.
Como diz o Programa da Revolução Socialista Brasileira do PCR, ao falar sobre a desindustrialização da economia nacional: “Além do controle dos monopólios e da oligarquia financeira sobre a indústria, o comércio e a agricultura, outras características se aprofundaram nas três últimas décadas na economia brasileira, em particular a subordinação do país às potências imperialistas e às corporações internacionais e a consolidação do Brasil como país exportador de commodities²”.
E mais: “O avanço do capitalismo no campo se deu convertendo grande parte da velha estrutura agrária numa economia capitalista voltada para o mercado externo. Ou seja, não houve em nosso país a destruição da velha economia agrícola por meio de uma reforma agrária, mas sim a modernização das grandes propriedades rurais e a formação de uma burguesia agrária moderna”.
De acordo com o último Censo Agropecuário (2017), a agricultura familiar é a base da economia de 90% dos municípios brasileiros com até 20 mil habitantes, sendo responsável por mais de 70% dos brasileiros ocupados no campo, que produzem, por exemplo, 70% do feijão nacional, 34% do arroz, 87% da mandioca, 46% do milho, 38% do café e 21% do trigo.
“Por isso, só é possível solucionar os problemas dos camponeses com a socialização das grandes empresas que atuam na agricultura, a nacionalização da terra e a substituição dos exploradores, da grande burguesia e da oligarquia latifundiária, pela administração dos operários e dos camponeses, dos que produzem e geram riquezas. Estes devem administrar a grande agroindústria e realizar uma reforma agrária que dê terras para quem precisa, garantindo todo apoio para a produção familiar e buscando construir novas agroindústrias socialistas e cooperativas para ampliar a produção e produzir o que o povo realmente necessita”, sentencia o documento do PCR.
Matéria publicada na edição impressa nº 309 do jornal A Verdade