Homenageado no Galo da Madrugada desse ano, o ‘Dom da Paz’, como era conhecido, defendia o Carnaval como uma festa popular, representante de nossa cultura e resistência e um momento de confraternização e alegria para a classe trabalhadora.
Clóvis Maia- Redação Pernambuco
CULTURA- O Galo da Madrugada, considerado o maior bloco de Carnaval do mundo, criado em 1978, marca o início oficial do Carnaval pernambucano. Representante maior dessa manifestação cultural, o Galo, que é erguido na Ponte Duarte Coelho, coração do Recife, e simboliza os dias de folia na capital pernambucana.
Esse ano o galo recebe o título de Folião Fraterno e homenageia ao arcebispo emérito de Olinda e Recife, Dom Helder Câmara e Nise da Silveira, médica psiquiatra alagoana que foi pioneira no uso da arte como tratamento de pessoas com problemas mentais.
A estátua do calunga é assinada por Leopoldo Nóbrega, artista plástico e ceramista, responsável pela montagem do Galo desde 2019 e Germana Xavier, produtora cultural, arquiteta e designer, e foi feita esse ano totalmente com material reciclado, como redes de pesca, tampas de garrafas PET, CDs, DVDs, conchas do mar, entre outros.
Na ornamentação, as partes que compõem a estátua de 32 metros de altura e 8 toneladas, foram confeccionadas por meio de oficinas de arte terapia com pessoas em condição de rua, reproduzindo as práticas da homenageada Nise da Silveira, bem como associações de artesãos e bairros populares, reforçando a ligação com o tema: o amor ao próximo, a solidariedade, respeito e cuidado para com nossos irmãos e a empatia, características vividas na prática pelos homenageados e características da fraternidade.
“Alegria não é pecado”
Dom Helder Câmara não era só um defensor do Carnaval, mas também um folião autêntico. Nascido em Fortaleza, justamente em 7 de fevereiro, o fundador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e defensor dos direitos humanos em plena ditadura militar, abraçou a história e as lutas do povo pernambucano como parte de sua história.
Essa ligação com Pernambuco se iniciou em meados de abril de 1964, em plena tensão social promovida pelas ameaças (concretizadas) de um golpe militar. Dom Helder, que já possuía um trabalho com os mais necessitados, aprofundou e desenvolveu ainda mais sua atuação ao lado da classe trabalhadora, estabelecendo a sua residência, na Igreja das Fronteiras, no Recife, como um local de referência e porto seguro para com os perseguidos, fosse pela fome, pela violência do estado ou pela pobreza.
Comunicador popular e exímio agitador social, usava das suas crônicas, poesias, homilias para defender suas ideias e espalhar uma mensagem de alerta e de esperança. Foi durante seu programa “Um olhar sobre a cidade”, na Rádio Olinda, em 1 de fevereiro de 1975, que Dom Helder fez uma das mais importantes análises sobre o Carnaval de rua e a relação social do mesmo. Perseguido pela ditadura militar, chamado de “o bispo vermelho” e censurado pelo AI5, que simplesmente proibia qualquer menção a seu nome na imprensa local, o bispo convocou o povo a aproveitar a festa:
“Carnaval é a alegria popular. Uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de amor por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval (…) É verdade que na quarta-feira a luta recomeça, mas ao menos se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!”.
Em outra ocasião, ainda no ano de 1964, por meio de uma circular enviada aos fiéis, o Arcebispo defendia que queria “ver a alma do povo refletida num frevo”. O religioso não aceitava o fato dos cristãos se colocarem contra uma manifestação cultural, achando “um erro criar nas crianças e nos jovens a impressão de que alegria é pecado”. Dom Helder entendia das agruras e dificuldades dos mais pobres e sabia da importância de um momento de interação e alegria, sobretudo naquele momento de tanta repressão e perseguição política, especialmente pelo seu trabalho nas periferias do Rio de Janeiro desenvolvida desde o início dos anos 50, antes de se mudar para o Recife.
“Brinque, meu povo!”
Se o Carnaval foi trazido pelos portugueses, no século XVII, foi no meio do povo que a festa foi ressignificada e adotada pela classe trabalhadora. É também nessa festa que podemos ver as contradições e a luta de classes apresentadas de forma escancaradas.
A todo tempo vemos a tentativa de apropriação da produção cultural, a falta de assistência e apoio aos artistas locais ou a elitização desses espaços, mostrando como nossa elite tenta lucrar com a cultura popular a todo momento.
É nesses dias de festa e de contradições que notamos a dinâmica tecido social brasileiro. O rico no camarote, enquanto o pobre vende sua água e cerveja para colocar a comida na mesa. Os políticos usando do espaço para se promover, enquanto patrocinam também a repressão ao jovem preto, muitas vezes querendo apenas curtir um dos poucos momentos onde se é possível brincar sem gastar uma grana que não se tem.
Ao mesmo tempo em que as elites querem tomar para si essa festa do povo, a cultura popular resiste. Os afoxés e trios elétricos na Bahia, os desfiles das escolas de samba no Rio e São Paulo, o Boi-Bumbá no Norte, os blocos de rua e as marchinhas dão as características desse festejo e continuam, mesmo muitas vezes sem receber se quer apoio do poder público.
Era essa resistência e alegria proporcionada nesses quatro dias de festa que era defendida por Dom Helder. A possibilidade de sonhar com um mundo mais leve, uma sociedade mais justa e melhor, ideais inclusive, assumidamente cristãos. O Carnaval faz parte de nosso jeito de ser, por isso deve ser visto como ele é: um momento de alegria em meio a tantas pressões, violência e injustiças nessa sociedade tão desigual que é o capitalismo. O ‘Dom do Amor’, como ficou conhecido Dom Helder, acertou demais quando afirmou que o carnaval é a alegria do povo. Aproveitemos essa festa, que é nossa. E, se o Carnaval é bom, imagina ele depois da revolução.
