190 anos após a tomada do poder pelo povo na Revolução Cabana, as raízes da dominação colonial continuam a alimentar a violência agrária e a destruição ambiental no Pará.
Marcos Jobson e Kleverson Cordeiro | Pará
LUTAS DO POVO BRASILEIRO – Nos grandes meios de comunicação e em determinadas instituições de ensino, a História do nosso país é contada pelas lentes do colonizador e das classes dominantes. Por isso, é comum que parte da população não conheça as lutas travadas no nosso país. Trata-se de um processo de alienação que corresponde à lógica de dominação ideológica do capitalismo: quanto menos o povo conhecer a sua real história e suas lutas, mais enfraquecida será a sua resistência e organização. Entre tantas lutas fundamentais, como a Balaiada, Revolta dos Malês, Canudos, Quilombo dos Palmares, etc., destacamos a Revolução Cabana.
Contexto
A Independência do Brasil, em 1822, não estabeleceu uma Nação livre e realmente soberana ao povo. Os ideais de cidadania e liberdade chegavam apenas àqueles que detinham o poder, especialmente o poder econômico. As classes oprimidas, como os escravizados, indígenas, trabalhadores, demais comunidades e povos, ainda eram submetidos ao mesmo sistema colonial de exploração.
A elite da província do Grão-Pará aderiu à independência com vistas a garantir seus próprios interesses e poder local, enquanto a população passava por um processo de profunda pauperização. Com isso, diversos militares de baixa patente e setores da população se aglutinaram em um movimento de revolta contra a precarização da vida. Durante o mês de outubro de 1823, houve vários confrontos com as elites, o que levou à prisão de cerca de 300 revoltosos no presídio São José Liberto e mais 256 no porão do navio de guerra Brigue Palhaço. Todas essas pessoas presas no navio foram assassinadas por asfixia após o derramamento de cal no porão da embarcação.
Contudo, essa repressão não conseguiu terminar com o movimento cabano. No dia 07 de janeiro de 1835, a revolta popular confrontou mais uma vez as classes dominantes, com a tomada do palácio do governo e do arsenal de armas, iniciando cinco anos de revolta popular com a tomada do poder pelo povo e sua interiorização na Amazônia até 1840.
Capitalismo na Amazônia
O Brasil tem uma história marcada pela colonização, escravização e exploração dos territórios e do povo. Desde o início da invasão portuguesa, uma das principais formas de manutenção do poder das classes dominantes foi a violência. Tais marcas podem ser vistas ainda hoje na realidade amazônica.
Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), no território amazônico ocorreram 44% de todos os casos de violência agrária no país no período de 1985 até 2023. Principalmente após a ditadura militar fascista, quando houve um avanço da agropecuária no país, fazendo com que esse setor seja um dos maiores responsáveis pela violência, exploração aos trabalhadores e destruição da natureza.
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) aponta que, em 2024, no Estado do Pará, houve o maior índice de desmatamento da Amazônia e, em 2023, o estado foi responsável pela maior emissão de gases do efeito estufa do Brasil inteiro, sendo que 91% destes gases possuem origem na exploração causada pela agropecuária.
É evidente, portanto, que os problemas socioambientais vividos na Amazônia, atualmente, são a continuidade da estrutura colonial contra a qual o povo cabano já lutava em seu tempo. Agora, sob outras formas, no estágio imperialista do modo de produção do capital, essa estrutura atua com concentração de terras, violência no campo, transformação dos animais e da natureza em mercadoria e com a superexploração da classe trabalhadora.
A luta pela terra
Projetado pelo renomado arquiteto Oscar Niemeyer, a pedido do então governador do Pará, Jader Barbalho, o Memorial da Cabanagem foi concebido para ser a peça central das comemorações do sesquicentenário (150 anos) da Cabanagem. A data simbólica do início da revolta, 07 de janeiro de 1835, foi escolhida para a inauguração do monumento em 1985.
Dias antes da inauguração, em 04 de janeiro, uma operação policial militar foi deflagrada na localidade de Vila Nova, na região do Piriá, no nordeste do Pará. O alvo era Quintino Lira, conhecido como “Gatilheiro”, um líder comunitário e pequeno agricultor que, à sua maneira, personificava a resistência cabana no contexto da época. Ele era acusado de liderar um grupo que enfrentava, com armas, a grilagem de terras e a violência de pistoleiros na conturbada região.
Sob o comando do cão de guarda do Estado, Cordovil, uma tropa da Polícia Militar fortemente armada cercou a casa onde Quintino estava. A ação não teve nuances de negociação ou prisão. Quintino Gatilheiro foi executado com dois tiros de fuzil. A ordem para “encerrar as ações dos guerrilheiros” partiu diretamente do governador Jader Barbalho, conforme revelado por investigações e reportagens da época. O termo “guerrilheiro” era usado pelas autoridades para criminalizar a legítima defesa e a resistência de posseiros.
Portanto, em 07 de janeiro, quando o governador discursava sobre a bravura e o espírito libertário dos cabanos do passado, o sangue de Quintino, o cabano do presente, ainda estava fresco. Os manifestantes presentes à inauguração gritaram palavras de ordem e fizeram um contundente paralelo histórico. Eles apontavam que o mesmo Estado que celebrava a revolta como um fato histórico museificado, “seguro”, continuava, na prática, a reprimir e exterminar os descendentes políticos daqueles lutadores: os camponeses pobres, os posseiros, os que ousavam defender seu pedaço de chão contra os poderosos de sempre.
Povos da Amazônia resistem
Apesar de todas essas mazelas enfrentadas pelo povo, é fundamental ressaltar que a História do Brasil também é a história das lutas populares desde o período da invasão portuguesa, assim como hoje também há resistência contra a invasão capitalista dos territórios.
Em resposta ao Ferrogrão, projeto que visa a ampliar o escoamento de soja e milho do Estado do Mato Grosso, ligando-o ao Pará, no dia 16 de novembro de 2024, indígenas construíram o 7º Grito Ancestral do Povo Tupinambá, paralisando os transporte fluvial no rio Tapajós em protesto à ferrovia que pretende cortar os territórios onde vivem mais de 2.500 indígenas e que abriga diversas unidades de conservação. A manifestação foi construída por 400 indígenas para dizer que não vão aceitar que passem por cima de seus territórios em nome do lucro.
Outra importante luta dos povos foi a ocupação da Secretaria de Educação do Estado do Pará, contra a lei 10.820/2024, que visava a acabar com o ensino modular indígena e retirar o direito à educação dos povos. No dia 14 de janeiro de 2025, lutadores e lutadoras indígenas de mais 30 etnias ocuparam a Secretaria e, após 28 dias de ocupação acompanhada de intensas mobilizações de rua e greve dos trabalhadores e das trabalhadoras da educação, a lei foi revogada, impondo uma vitória popular sob a oligarquia do governo Hélder Barbalho, que, mesmo utilizando diversas vezes as forças repressivas do Estado, não conseguiu superar o poder do povo organizado.
Além disso, a cúpula dos povos reuniu diversas organizações para a luta em defesa do meio ambiente e dos povos. Importantes manifestações ocorreram, tal como o protesto na área restrita da COP 30, denunciando a falta efetiva de participação do povo no evento e também contra os grandes projetos em terras indígenas. Houve também a Marcha Mundial pelo Clima, no dia 15 de novembro de 2025, que reuniu mais de 70 mil pessoas, e a Marcha Global Indígena, manifestações de rua que denunciaram a privatização de rios e o avanço do capitalismo na Amazônia.
Na conjuntura atual, com os ataques dos EUA à Venezuela e à América Latina como um todo, precisamos encarnar a luta cabana. Assim como os indígenas, os pobres, negros e negras confrontaram o governo da província do Grão-Pará, esse legado ainda vive nas lutas atuais. Os mesmos cabanos que lutaram contra a escravidão, hoje lutam contra a escala 6×1. Aqueles que lutaram contra os portugueses, hoje devem lutar contra o imperialismo dos Estados Unidos e, sobretudo. Os cabanos e cabanas de 1835 construíram uma luta revolucionária no Brasil contra o Estado colonial e hoje devemos construir a luta pelo socialismo contra o Estado burguês.
Matéria publicada na edição impressa Nº 328 do jornal A Verdade