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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Lelé, o arquiteto que defendeu uma construção civil a serviço do povo

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Inspirado na construção civil soviética, João Filgueiras “Lelé” de Lima mostrou que é possível usar a arquitetura para melhorar a vida do povo trabalhador.

Pedro Feriotti | São Paulo (SP)


Cultura – Poucos setores são mais violentos com o trabalhador do que a construção civil, atrás somente dos motoristas de caminhão como profissão mais letal do Brasil. Dados do Ministério Público do Trabalho estimam que 450 pessoas morrem por ano nessa área, sofrendo com quedas de altura, soterramento e choques elétricos, entre outros perigos.

Historicamente, o canteiro de obras é marcado pelo baixo grau de desenvolvimento — ou seja, o trabalho realizado é muito braçal e pouco automatizado. Esse cenário é composto por operários em jornada exaustiva e sob risco constante: carregando materiais pesados; manuseando ferramentas perigosas; trabalhando nas alturas, muitas vezes com equipamentos precários; etc. Para a burguesia, porém, é aceitável sacrificar a vida de algumas centenas de operários para manter seus lucros enormes.

Um exemplo valioso na tentativa de tornar essa atividade mais segura e eficiente — e menos exaustiva e perigosa — foi o trabalho do arquiteto João Filgueiras de Lima, também conhecido como Lelé (1932-2014). Para ele, a arquitetura não se limitava ao desenho dos edifícios, mas também na responsabilidade em pensar na construção com eficiência e dignidade, tanto para os trabalhadores quanto para o restante da população, que precisa de moradia, hospitais, escolas e centros de lazer para suas necessidades, e não para o benefício das grandes empresas.

A inspiração soviética

Construção de prédio pré-fabricado na Ucrânia soviética nos anos 1960 (Foto: Arquivo/TsDKFFA Ukrayiny)

Lelé começou sua carreira profissional na década de 1950, durante a construção da nova capital do país, Brasília. Ao observar de perto a situação precária dos trabalhadores, ele notou a principal contradição do projeto: apesar da grande promessa de modernidade e crescimento do país, isso era feito na base da brutal exploração dos chamados “candangos”, operários que migraram por todo o Brasil para trabalhar na criação do novo Distrito Federal.

Esse contexto de precariedade do canteiro, junto com a necessidade de uma construção rápida e com poucos recursos, levou Lelé até o Leste Europeu para entender como os socialistas da União Soviética estavam lidando com a necessidade de reconstruir cidades no pós-Segunda Guerra Mundial.

E foi justamente lá onde essa lição estava sendo mais bem aplicada.

O cenário da construção soviética passava por um processo de industrialização em massa, levando a verdadeiras “fábricas” de casas, escolas e hospitais. Componentes estruturais e paredes passaram a ser fabricados para chegarem quase prontos e serem “montados” nos canteiros, desenvolvendo na construção civil a lógica de uma linha de montagem. Assim, o trabalho do pedreiro ficava menos penoso, mais rápido e com menos desperdício de material.

Além disso, lá se concretizava a ideia de fazer a arquitetura servir à função social para todo o povo, e não apenas para o luxo de poucos ou para a elaboração de monumentos isolados.

A construção prática dos ideais socialistas

De volta no Brasil, Lelé buscou maneiras de aplicar melhorias nas condições de trabalho na construção civil e na qualidade das obras públicas. Ele entendia que isso deveria ser feito pela gestão pública e por meio de um sistema amplo para replicar as soluções de forma eficiente e em grande escala, já que as necessidades da população brasileira são grandes.

Com essa visão política, ele passou a desenvolver grandes exemplos nessa direção. Um deles foi a criação de fábricas de componentes para drenagem urbana e contenção de encostas, incluindo muros de arrimo, canaletas e escadas drenantes para conduzir as águas e evitar enchentes e alagamentos, aplicados principalmente em favelas. Essa experiência ficou conhecida como “fábrica de cidades”, já que era pensada principalmente para espaços públicos e vias.

Hospital Sarah Kubitschek em Brasília/DF (Foto: Divulgação/Rede Sarah)
Hospital Sarah Kubitschek em Brasília/DF (Foto: Divulgação/Rede Sarah)

Sua maior contribuição na idealização de fábricas foi a parceria na área da saúde com os hospitais da Rede Sarah em Brasília, Salvador e Rio de Janeiro. Foi uma experiência única no mundo, com a criação de uma fábrica própria em Salvador para a rede de hospitais, sendo produzidos desde os componentes da estrutura dos edifícios, mobiliários e acabamentos construtivos até os equipamentos hospitalares e cirúrgicos.

Na fábrica, conhecida como CTRS (Centro de Tecnologia da Rede Sarah), os trabalhadores passam por diversos processos de capacitação, além de transitar entre diversos setores para entender os demais processos e romper com a lógica do trabalho alienado, onde o operário isolado em uma etapa não se identifica com o produto finalizado do qual fez parte.

Esse modo de pensar a construção, influenciado por Lelé e outros arquitetos, deixou grandes legados no uso da pré-fabricação das partes de edifícios. Por meio dessa técnica, diversas “peças” de concreto são produzidas em série nas fábricas, onde os operários trabalham protegidos do sol e da chuva, e há redução no desperdício de materiais. Isso também acelera a atividade do canteiro, pois a montagem é feita com peças que já estão prontas, ao contrário do método comum em que tudo é produzido no próprio terreno.

Um dos casos mais emblemáticos da pré-fabricação em obras públicas aconteceu na área da educação com a “Fábrica de Escolas” para o Estado do Rio de Janeiro nos anos 1980 e 1990, durante a gestão de Leonel Brizola.

As fábricas produziam diversas “peças” de concreto em série, para que as escolas fossem levantadas mais rapidamente no canteiro de obras. Nelas, tanto a parte pesada da construção — vigas, pilares e lajes — quanto os elementos de vedação das fachadas e itens de proteção solar das janelas eram produzidos nessa linha de montagem na indústria.

Não só isso, também eram fabricados itens de mobiliário externo como bancos e muretas de contenção, e até coberturas dos ginásios esportivos. Isso mostra que uma fábrica deste tipo consegue produzir todos os componentes de forma inteligente e coordenada, pensando na qualidade do edifício e na rapidez da produção.

Com a fabricação desses componentes em série, é possível replicar de forma muito mais eficiente, rápida e econômica as soluções construtivas. Essa forma de produzir e construir tem um enorme potencial para nosso país, onde há uma alta demanda por moradia, saúde, educação, locais de lazer, cultura e esporte. As experiências apresentadas mostram que é possível erguer grandes quantidades de edifícios rapidamente para atender com qualidade às necessidades da população, que hoje mora em locais precários, enfrenta problemas diários com alagamentos e falta de drenagem urbana, e só tem acesso a escolas e hospitais com vários problemas nas edificações.

Os limites da construção sob o regime capitalista

Porém, toda a capacidade de Lelé encontrou sérias limitações. Grandes construtoras privadas viram a lógica de produção defendida por ele como uma séria ameaça aos seus lucros. Para elas, é mais vantajoso manter funcionários de baixa qualificação do que investir em tecnologia de produção e qualificação dos profissionais — pois, assim, conseguem uma maior extração de mais-valia dos trabalhadores para aumentar seus lucros.

Além disso, essas companhias preferem que obras públicas sejam lentas e demorem muitos anos para ganharem aditivos de contrato, se beneficiando até mesmo com o atraso dessas obras.

Acostumadas a pagar salários baixos e lucrar ainda mais por meio da corrupção, as empresas privadas consideram a pré-fabricação e a eficiência como ameaças aos seus privilégios. Assim, utilizaram de toda sua influência política e seu lobby poderoso para sabotar os programas construídos por Lelé em parceria com a gestão pública, alegando “concorrência desleal” entre o Estado e a iniciativa privada.

Isso deixa evidente que só um governo socialista é capaz de criar obras públicas de qualidade e com condições dignas para os trabalhadores, aumentando sua capacitação e desenvolvendo tecnologias para atender suas necessidades. Somente um sistema comandado pelo próprio povo tem condições para impedir que interesses privados falem mais alto que os interesses coletivos.

Que a produção de tudo sirva para atender às nossas necessidades, e não ao lucro de um punhado de parasitas que preferem corrupção, desperdício e ineficiência para manter esse sistema de desigualdade e exploração que é o capitalismo.

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