Sob o pretexto de cooperação militar e combate ao crime, os Estados Unidos avançam sobre os recursos naturais da América Latina, mirando especialmente as reservas brasileiras de terras raras.
Bia Reis e Cadu Machado (Com Redação)
INTERNACIONAL – Vivemos um agravamento das contradições fundamentais do sistema capitalista, que, em sua fase final, o imperialismo, está marcado pela dominação do capital financeiro (bancos e monopólios industriais), como definiu Lênin.
A sanha das potências imperialistas por dominar recursos e territórios pelo mundo, como forma de aumentar a exploração, recompor suas taxas de lucro, garantir matéria-prima e mão de obra baratas, recursos naturais estratégicos e mercados consumidores, leva a um cenário internacional de crescente disputa direta entre essas potências.
Terras raras
A América Latina ocupa um lugar estratégico nessa disputa. Como denunciado anteriormente pelo jornal A Verdade, a ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, a ex-deputada Cilia Flores, estão diretamente ligados ao controle do petróleo, recurso indispensável em qualquer cenário de guerra.
É inegável o papel estratégico do petróleo na guerra, já que não é possível sustentar operações militares sem combustível para tanques, aviões e navios. No entanto, outro conjunto de recursos se tornou fundamental para a guerra moderna: as terras raras. Esses minerais são indispensáveis para a produção de tecnologias militares avançadas, como drones, mísseis de alta precisão, satélites e aviões de caça.
As chamadas terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos presentes na fabricação de celulares, computadores, baterias, carros elétricos, turbinas eólicas e, de forma decisiva, em equipamentos militares e sistemas de comunicação. Por isso, são frequentemente chamadas de vitaminas do mundo tecnológico.
Apesar do nome, elas não são terras nem propriamente raras. O termo “terra” vem de uma antiga classificação da química, relacionada à forma como esses elementos aparecem na natureza. Já o termo “raro” não se refere à escassez absoluta desses elementos, pois muitos deles são relativamente abundantes, mas pela dificuldade do processo produtivo, especialmente do refinamento.
A separação desses elementos exige tecnologia avançada, grandes investimentos e provoca sérios impactos ambientais. Por isso, poucos países dominam todas as etapas da cadeia produtiva, da extração ao processamento final.
Disputa interimperialista
Atualmente, a China ocupa uma posição dominante no setor. O país responde por cerca de 70% da produção mundial de terras raras e controla aproximadamente 92% do processamento desses minerais. Isso faz com que os Estados Unidos e outros países imperialistas dependam fortemente do fornecimento chinês para manter suas indústrias civis e, principalmente, militares.
A busca por terras raras, por parte dos EUA, se intensificou devido ao alto consumo desses minerais nas armas de guerras usadas no Oriente Médio – desde o genocídio ao povo palestino, passando pelos ataques de Israel ao Líbano e agora, e agora, especialmente, nos bombardeios contra o Irã. As terras raras são essenciais nos componentes de mísseis, drones, radares e aviões.
Nesse contexto, o Brasil se torna um alvo central da disputa, já que concentramos em nosso território cerca de 20% das reservas mundiais de terras raras, além de possuir grandes reservas de petróleo, enormes aquíferos de água doce e outras riquezas naturais estratégicas.
Mais uma vez, o controle dos recursos naturais brasileiros é disputado e se torna o centro de conflitos internacionais por sua dominação, enquanto a população arca com os impactos sociais e ambientais, além da perda de soberania sobre recursos tão importantes e estratégicos.
A nacionalização e estatização dos recursos naturais, o controle popular sobre sua exploração e o uso dessas riquezas para atender às necessidades sociais, como saúde, educação, transporte e moradia, significa colocar essas riquezas a serviço do povo. Somente assim, será possível romper com a lógica de dependência e exploração que marca a história da América Latina e construir um caminho de desenvolvimento voltado aos interesses dos trabalhadores.
Traidores da Pátria
O senador Flávio Bolsonaro (PL) discursou, no último dia 28 de março, num evento reacionário no Texas, Estados Unidos, intitulado Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC). O filho mais velho do capitão Jair Bolsonaro, que cumpre pena por tentativa de golpe no Brasil, entre outros crimes, também age contra seu próprio país ao “oferecer” numa bandeja as riquezas minerais brasileiras ao país governado pelo ditador Donald Trump. Mais uma prova de traição à Pátria por parte dos fascistas.
“O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras-raras e minerais críticos”, disse o entreguista Flávio, que é pré-candidato à Presidência da República. E completou: “Sem essas terras raras para a fabricação dos processadores dos computadores, o sistema militar que mantém a superioridade americana cairia nas mãos de adversários”, afirmou o “patriota” muito preocupado com a defesa da potência estrangeira que sua família idolatra.
Já o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD) – outro pré-candidato reacionário à Presidência que pretende leiloar o Brasil – tenta viabilizar um acordo com o Governo Trump para acesso a essas riquezas dentro do território goiano. Mais um traidor da Pátria.
E os negócios estão em estágio avançado. No dia 18 de março, aconteceu, em São Paulo, um seminário para 200 participantes – sem nenhuma representação do Governo Federal e sem acesso à imprensa –, promovido pela Câmara American de Comércio (Amcham). O Governo Estadunidense afirma ter mapeado cerca de 50 localidades com potencial de exploração comercial. O encarregado de negócios da Embaixada dos EUA no Brasil, Gabriel Escobar, classificou o país como uma “superpotência subestimada”.
Presença militar dos EUA
Aprofundando suas ações militares na América Latina desde o sequestro do presidente venezuelano, em 03 de janeiro, os EUA têm buscado acordos formais no continente, além de aumentado o sufocamento ao povo cubano. “Cuba será a próxima e faremos isso com a região inteira”, disse Trump. (Ver mais na pág. 9)
No dia 07 de março, presidentes de 12 países latino-americanos se encontraram, em Miami, com Donald Trump para formalizar a criação do chamado Escudo das Américas. “Neste dia histórico, nos reunimos para anunciar uma nova coalizão militar para erradicar os cartéis criminosos que assolam nossa região”, disse Trump.
Estavam presentes os presidentes de Argentina, El Salvador, Paraguai, Equador, Panamá, Honduras, Guiana, Bolívia, Trinidad e Tobago, Costa Rica, República Dominicana e Chile. Mais outros cinco países fariam parte do acordo.
Segundo levantamento feito pelo Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), não se sabe, ao certo, quantas bases militares os EUA mantêm na América Latina, mas seriam cerca de 80. O Brasil não abriga nenhuma.
O Paraguai e Tríplice Fronteira
No final de março, o Governo Paraguaio sancionou uma parceria militar com os EUA, o chamado Acordo do Estatuto das Forças (Sofa, na sigla em inglês). Junto a outras iniciativas já aprovadas pelo Governo Argentino – como a instalação de uma base ianque no país e a autorização para entrada de tropas estrangeiras – a nova medida atinge diretamente a Tríplice Fronteira sob o desgastado argumento do combate ao crime organizado. A Casa Branca ameaça classificar as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como grupos terroristas, a fim de legitimar agressões militares contra o Brasil.
Vejam os privilégios que os militares estadunidenses receberão no Paraguai:
– Aeronaves, embarcações e veículos do Governo dos EUA estarão isentos de inspeções.
– Aeronaves, embarcações e veículos operados pelo Departamento de Guerra dos EUA poderão entrar, sair e circular livremente.
– Exército dos EUA terá o direito de realizar treinamentos, exercícios e “atividades humanitárias”, tendo os militares liberdade para entrar e sair do país sempre que desejarem.
– Autorização para que as Forças Armadas estrangeiras operem seu próprio sistema de comunicação, sem qualquer controle interno do Paraguai.
Resistência popular
Diante desse cenário, cresce também a resistência dos povos do mundo contra o imperialismo e as guerras. A luta heroica do povo palestino, as manifestações populares contra as ameaças e intervenções na Venezuela, a firme resistência do povo cubano diante do bloqueio e das agressões dos Estados Unidos, a luta do povo iraniano contra os bombardeiros e os protestos que se espalham por diversos países contra as guerras, incluindo, os Estados Unidos, mostram que os povos não aceitam ser sacrificados pelos interesses da burguesia internacional e das potências imperialistas.
No dia 28/03, cerca de 10 milhões de pessoas saíram às ruas de mais de 3 mil cidades estadunidenses no protesto intitulado No Kings (Sem Reis), contra as políticas do ditador Donald Trump. Além das palavras de ordem contra o ICE (polícia assassina de Trump para oprimir os imigrantes), os manifestantes deixaram explícito seu rechaço às agressões contra o povo iraniano e contra a escalada no custo de vida, gerada especialmente após mais esta nova guerra no Oriente Médio.
Em um momento de crescente risco de guerra mundial, é fundamental que os povos e classe trabalhadora compreendam seu papel histórico. A única esperança para impedir o avanço do fascismo e conquistar a paz está na organização e na luta popular anti-imperialismo. Somente o povo organizado pode derrotar a guerra e abrir caminho para um mundo de paz e liberdade.
Editorial publicado na edição impressa nº 331 do jornal A Verdade