UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sábado, 28 de março de 2026
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A advocacia popular na defesa dos explorados e oprimidos

Para a construção da luta popular, a advocacia pode ter papel importante. É certo que transformação da vida dos oprimidos não virá por meio do Direito ou de um processo judicial, porém a advocacia popular pode ser valiosa aliada, dando condições para o aprofundamento das lutas e utilizando o Direito como mais um campo de enfrentamento aos grandes ricos.

Leonardo Silva | Núcleo de Advocacia Popular – MLC


SOCIEDADE – A luta ideológica, responsável pela disputa dos corações e das mentes, insere ilusões no seio do povo com o intuito de impedir a organização revolucionária dos trabalhadores. A “meritocracia” enquanto critério para “vencer na vida” e o “empreendedorismo” como solução para a exploração são exemplos disso. Com o trabalho jurídico não é diferente.

É comum que se trate o trabalho do advogado como profissão de elite, ligada às instituições de poder político e, por isso, mais próxima da burguesia do que do proletariado.  A verdade, porém, é de precarização do trabalho, com a negação de direitos trabalhistas, baixos salários, desemprego e crescentes casos de problemas de saúde mental.

A “uberização” da advocacia se dá por meio de plataformas digitais, que, aproveitando-se do alto número de desempregados e autônomos, oferecem serviços de intermediação entre escritórios e esses profissionais, chamados de correspondentes jurídicos, que, por necessidade, acabam realizando audiências, fazendo protocolos, escrevendo petições e recursos por valores absurdos. A média de recebimento por audiência – que pode durar horas – fica entre R$ 50,00 e R$ 70,00, sem contar a taxa cobrada pela plataforma.

A situação não é muito diferente nos grandes escritórios, que, como verdadeiros monopólios, dominam grande parte do mercado. De acordo com a plataforma Indeed, a remuneração média no Brasil para um advogado recém-formado é de R$ 2.873,00 (menos de dois salários mínimos). Esse baixo salário, muitas vezes, não vem acompanhado de direitos trabalhistas em razão das contratações como associados ou pessoas jurídicas (PJ). Assim, o que se encontra na advocacia capitalista são extensas jornadas de trabalho, pressão por resultados e, em troca, pobreza e ausência de direitos.

 

Trabalho classista

Para o enfrentamento à precarização do trabalho, à violência policial, aos despejos indignos, à situação dos presídios e, no geral, para a construção da luta popular, a advocacia pode ter papel importante. É certo que transformação da vida dos oprimidos não virá por meio do Direito ou de um processo judicial, mas pela tomada do poder pela classe trabalhadora organizada. Porém, a advocacia popular pode ser valiosa aliada, dando condições para o aprofundamento das lutas e utilizando o Direito como mais um campo de enfrentamento aos grandes ricos.

Por isso, em 2024, o Movimento Luta de Classes (MLC) em São Paulo criou o Núcleo de Advocacia Popular (NAP), que reúne profissionais de diferentes cidades para lutar ao lado dos movimentos sociais, aprendendo com eles, bem como organizando a categoria para obter melhores condições de vida.

As reuniões do NAP-MLC ocorrem quinzenalmente, de forma virtual em razão das diferentes cidades em que residem os membros. Nos encontros, é realizado um trabalho de formação política a partir do marxismo-leninismo – com leituras do jornal A Verdade e de obras que relacionam a luta política ao Direito – e o debate prático, com organização e divisão de tarefas, acerca dos processos. Há advogados especializados em diferentes áreas, como Direito Penal, Civil, Trabalhista, Tributário, Sindical e Administrativo, de forma que cada camarada aprende com os demais, formando um coletivo sólido em defesa dos movimentos sociais. 

O resultado da construção dessa luta vem sendo colhido. Desde a organização, o NAP-MLC conseguiu, por exemplo, a suspensão do despejo da Casa Laudelina de Campos Melo, situada no bairro do Pari, em São Paulo capital, construída pelo Movimento de Mulheres Olga Benario e que atendeu mais de dez mil mulheres vítimas de violência.

As solturas de companheiros e companheiras presos injustamente enquanto lutavam pelo povo são outro grande exemplo de vitórias que vieram desse trabalho, em apoio à luta política. A libertação dos companheiros presos nas Batalhas da Alesp e dos Ferroviários, seriamente agredidos pela Polícia Militar; a soltura e o arquivamento da investigação contra Matheus, militante da União da Juventude Rebelião, preso pelo porte de uma tesoura de unha em manifestação contra o aumento do preço das passagens – e acusado de tentativa de abolição do Estado; e a revogação das medidas cautelares e o arquivamento da investigação contra uma companheira presa por se manifestar contra a militarização das escolas. Um saldo bastante positivo desse trabalho.

E não é só. O Núcleo de Advocacia, em junho de 2025, após ampla luta popular – com a ocupação da Secretaria de Habitação da Prefeitura de São Paulo – conseguiu ainda a suspensão da reintegração de posse da Ocupação Chaguinhas, situada no Centro de São Paulo, organizada pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), e que abriga famílias que perderam suas casas por conta das enchentes e dos despejos ilegais ocorridos no Jardim Pantanal.

 

Socialismo como realização da justiça

Nos bancos das faculdades de Direito, muito se discute acerca do conceito de justiça. No ensino passado pela burguesia, fala-se que a efetivação da justiça é a aplicação das leis, sem questionamentos acerca dos interesses políticos que comandam as decisões no geral. 

 Mas a vida no meio do povo nos ensina que não há justiça enquanto o povo passa fome. Não há justiça enquanto famílias vivem nas ruas após despejos de imóveis que ficarão abandonados. Não há justiça no genocídio e prisão da juventude negra e periférica com as mesmas armas que matam o povo palestino. Se o Direito serve aos grandes ricos, então nada tem a ver com justiça.

Da mesma forma, as faculdades de Direito ensinam que o Estado é neutro, criador de um sistema de justiça do qual o advogado é parte, com a única finalidade de resolver os conflitos sociais e promover a conciliação entre as classes sociais para o benefício de todos.

Porém, a luta popular e o estudo do marxismo-leninismo esclarecem que “o Estado é um órgão de dominação de classe, um órgão de opressão de uma classe por outra, é a criação da ‘ordem’ que legaliza e consolida esta opressão moderando o conflito de classes” (V. I. Lênin, O Estado e a Revolução).

Não há neutralidade. O Estado é uma forma de organização da opressão feita pelos ricos e para os ricos. É o Estado que institui as polícias que matam os filhos dos trabalhadores diariamente; que prende nossos camaradas em presídios sujos, desumanos; e que despeja famílias vulneráveis do único teto que conseguiram construir. Nessa luta de classes que se acirra a cada dia, é hora de os advogados tomarem o lado dos seus, o lado da classe trabalhadora.

Apenas com a organização do proletariado e a tomada do poder será possível falar em mudança profunda desse cenário. A construção do socialismo, com o fim da fome, da miséria, do desemprego e da violência, é a realização da justiça. E a advocacia deve ser parte disso.

A experiência do trabalho do NAP-MLC mostrou que a advocacia popular e socialista deve ser construída para lutar ao lado dos demais seguimentos da classe trabalhadora da qual os advogados fazem parte. É possível criar dezenas de núcleos de advocacia popular pelo Brasil. Porém, isso demanda um grande trabalho de organização e atenção dos núcleos dos movimentos sociais. Essa é nossa tarefa, camaradas.

Estudantes expulsam fascistas e impedem evento golpista na UFPR

DCE da UFPR organiza estudantes em ato antifascista para barrar evento que promovia anistia para o fascista Bolsonaro e sua corja de golpistas. O evento foi cancelado e estudantes foram duramente reprimidos pela polícia militar 

María Victoria e Felipe Tubiana | CURITIBA (PR)


JUVENTUDE – No dia 21 de agosto, estudantes da UFPR foram surpreendidos pela divulgação de uma palestra intitulada “Como o STF tem alterado a interpretação constitucional?”, organizada pelo vereador de extrema-direita Guilherme Kilter (NOVO), que tinha o claro intuito de descredibilizar as ações do STF frente ao julgamento e punição aos fascistas do 8 de Janeiro, em especial o fascista Jair Bolsonaro.

Na própria divulgação do evento, o palestrante exibia foto com camisetas com os dizeres “Free Bolsonaro” (Bolsonaro Livre, em inglês) e “Fora Moraes”, referindo-se ao juiz do STF, Alexandre de Moraes.

Ao saber do evento, o DCE da UFPR, dirigido pelo Movimento Correnteza e outras forças políticas, convocou um ato antifascista em frente ao Prédio Histórico da UFPR, chamando todos os estudantes e entidades estudantis da universidade a denunciar o evento golpista e antidemocrático.

 

Fora fascistas da UFPR

No final da tarde, dezenas de estudantes e membros de movimentos sociais foram chegando para o ato. Do lado de fora do prédio, estudantes puxavam palavras de ordem. Depois de uma hora, ocuparam o local, formando uma corrente em frente ao salão onde aconteceria o evento. A agitação política se intensificou e os “palestrantes” foram recebidos pelas palavras de ordem “Recua fascista, recua!”, “Sem Anistia” e “Eu quero ver Bolsonaro na prisão”. 

Graças à grande mobilização, o evento foi cancelado, mas os fascistas e sua equipe insistiram em permanecer no prédio. Começaram a insultar e ameaçar os estudantes, empunhando celulares com o intuito de fazer filmagens para seus famosos “cortes”. “Um segurança ameaçou quebrar meu braço, estou com o ombro todo machucado e todo roxo”, relatou Gabriel, estudante de Geografia e coordenador estadual do Movimento Correnteza.

Após a gigantesca pressão dos manifestantes, um dos provocadores foi expulso e colocado para fora da universidade. Enquanto isso, outro se escondeu em uma das salas do prédio. Aos prantos, ele alegou, falsamente, que havia sido sequestrado, com o objetivo de obter ajuda da polícia militar. 

 

Repressão policial

Apesar de não ter autorização para entrar na universidade, a polícia invadiu o prédio e reprimiu com truculência os estudantes. Usando balas de borracha, spray de pimenta e bombas de efeito moral contra a manifestação pacífica, atingiu várias pessoas. Um jovem negro, estudante de Ciências Sociais, foi arbitrariamente espancado até desmaiar, levado à delegacia e detido injustamente.

“Eles me pegaram com o escudo, me seguraram pela mochila e me jogaram no chão, me segurando pelas costas. Só pararam de me bater quando falei que era assessora parlamentar. Foram vários os tiros de chumbo, pois houveram estilhaços, só depois percebi o sangue”, relatou Ana Clara, estudante de Filosofia.

Mais uma vez, a polícia mostrou para que serve: ser o aparato de repressão e de violência de classe do Estado, para defender o interesse de fascistas provocadores e antidemocráticos ao invés de proteger os direitos da classe trabalhadora e dos estudantes. Depois da pressão do DCE junto à Reitoria, o estudante detido foi acompanhado pela equipe da universidade e solto no mesmo dia.

O ato foi concluído com uma enorme plenária, que denunciou a violência policial e declarou a vitória do movimento estudantil, que expulsou os fascistas da UFPR delimitando claramente que na UFPR fascista não se cria! 

Itaú promove demissão em massa de mil trabalhadores

Modelo híbrido de trabalho impõe exigência desumana por produtividade à funcionários do banco Itaú.  Trabalhadores se organizam para lutar contra as demissões injustificadas e a exploração

MLC | São Paulo


TRABALHADOR UNIDO – O Itaú Unibanco (o maior do país) registrou um lucro recorde de R$ 41,4 bilhões no começo deste ano. Mesmo assim, realizou uma demissão em massa de aproximadamente mil trabalhadores neste mês de setembro. A justificativa: “incompatibilidade” entre a marcação de ponto e a atividade registrada nas plataformas de trabalho durante o período de atuação remota ou híbrida. A ação gerou indignação entre os funcionários do banco e o Sindicato dos Bancários de São Paulo, que denuncia a falta de transparência e o impacto desumano da medida em um cenário de alta lucratividade da empresa.

 

Demissão sem aviso

Os trabalhadores desligados relataram que não foram notificados ou advertidos previamente sobre qualquer problema de produtividade. Muitos foram pegos de surpresa, sendo chamados em reuniões matinais com seus coordenadores para receber o comunicado de desligamento e, na sequência, encaminhados para os procedimentos de desvinculação.

Foi apurado que o plano inicial do Itaú envolvia o desligamento do dobro de funcionários, cujas atividades foram classificadas como “ociosas” no modelo remoto. No entanto, não foram divulgados os critérios exatos utilizados para selecionar o grupo de demitidos.

Os relatos dos trabalhadores demitidos escancaram uma realidade contraditória: muitos afirmam ter trabalhado em horários estendidos, incluindo noites, feriados e finais de semana, sem folgas compensatórias. Além disso, alguns haviam recebido recentemente avaliações de desempenho positivas, premiações por mérito e até promoções, o que torna a justificativa de “baixa produtividade” ainda mais questionável.

 

“Modelo Itaú”

Essa movimentação não é isolada. Nos últimos anos, o Itaú tem implementado uma série de mudanças em sua política de trabalho, dentre elas:

Final de 2021: Inicia estudos para o retorno ao trabalho presencial. No ano seguinte, já foram realizados alguns testes e adotaram um modelo voluntário, onde as equipes poderiam eventualmente trabalhar junto no presencial.

Maio de 2023: Corte de cerca de 150 funcionários de sua empresa de tecnologia ZUP Innovation.

Setembro de 2023: Banco implementa o regime de trabalho híbrido, exigindo a presença física no polo de trabalho pelo menos duas vezes por semana. Este modelo, conhecido popularmente como “Modelo Itaú”, tornou-se uma referência no mercado.

Setembro de 2024: Um novo corte, similar ao mais recente, mas ocorreu de forma mais discreta, também sob o argumento de “falta de ética dos trabalhadores em relação ao preenchimento do ponto com a jornada”.

 

Lucro recorde

A razão para essas demissões é a busca incessante por lucros cada vez maiores para os investidores do banco. Somente na última década, o lucro líquido do Itaú é estimado em quase R$ 300 bilhões.

Para ilustrar seu crescimento financeiro: em 2013, o lucro líquido reportado pelo banco foi de R$ 15,6 bilhões. Já em 2014, esse valor cresceu para R$ 20,6 bilhões (mais de 32%). No começo deste ano, Itaú Unibanco apresentou mais um novo recorde de lucro líquido entre os bancos brasileiros, atingindo R$ 41,4 bilhões, um crescimento de 16,2% em comparação ao ano anterior.

Paralelamente à redução de custos com pessoal, os trabalhadores que permaneceram no banco relatam um clima de intensa pressão por resultados, com a gestão afirmando que a reposição dos funcionários cortados não será necessária, mantendo prazos e metas já considerados inatingíveis.

 

A resposta do Sindicato

O Sindicato dos Bancários de São Paulo classificou a medida como uma “ilegal exposição de centenas de trabalhadores”. Em 11 de setembro, o Sindicato realizou uma plenária online que reuniu mais de 400 trabalhadores demitidos.

Durante a atividade, foram anunciadas as próximas ações, que incluem o ingresso de uma ação judicial por quebra do Acordo Coletivo por realizar uma demissão em massa sem negociar com o sindicato e uma ação por danos morais, reforçando que somente a categoria unida em prol da luta é capaz de mudar essa realidade.

 

Ocupação do antigo Dops resiste em Belo Horizonte

Sede do antigo DOPS-MG, ocupada por movimentos sociais em abril e transformada em Memorial dos Direitos Humanos, resiste à reintegração de posse e ataques da polícia militar em Belo Horizonte

Renato Campos Amaral | Comissão Independente do Memorial Ocupado (MG)

A ocupação do Memorial dos Direitos Humanos de Minas Gerais, na sede do antigo DOPS, em Belo Horizonte, completou 5 meses. Em 1º de abril de 2025, movimentos sociais organizados pelo Partido Comunista Revolucionário (PCR) e pela União da Juventude Rebelião (UJR) ocuparam as dependências do antigo Departamento de Ordem Política e Social para lutar pela abertura definitiva daquele espaço como memória dos que tombaram na luta contra a Ditadura Militar fascista no Brasil. 

Assim como na luta armada contra o regime militar, onde os revolucionários raptavam embaixadores para a troca de presos políticos de várias organizações, o PCR e a UJR fizeram a ação e convidaram as organizações políticas e demais movimentos sociais a se incorporarem à ocupação do Memorial para ampliar a luta por memória, verdade e justiça. 

Fruto disso, foi criada a Comissão Independente do Memorial Ocupado, que vem garantindo a manutenção da ocupação e os enfrentamentos que temos com o governo do Estado, dirigido pelo fascista Romeu Zema (NOVO). Esta comissão é composta por companheiros e companheiras com histórico na pauta dos direitos humanos, sindicalistas e historiadores que pesquisam o tema.  

O Memorial tem quatro andares, sendo o primeiro abaixo do nível da rua e onde se encontra a carceragem. Todos os andares funcionaram como espaços de tortura, compartilhados entre o DOPS  e o DOI-Codi.

Nestes cinco meses de ocupação, vencemos o cerco de um mês e meio da polícia militar e iniciamos as visitas mediadas ao local, onde apresentamos o prédio aos visitantes e explicamos o funcionamento macabro que a ditadura dava àquele espaço. 

A grande repercussão desta luta nos meios de comunicação deve-se à grande pressão popular. Com muito apoio político, conseguimos derrubar a reintegração de posse do governador contra nosso Memorial e, com isso, estabelecer uma mesa de conciliação no Tribunal de Justiça de Minas Gerais. 

Este processo das visitas mediadas se expandiu com o fim do cerco da PM. Atualmente, recebemos no Memorial Ocupado professores, estudantes, ex-presos políticos e a população em geral. Ao todo, já recebemos 4.800 pessoas inscritas pelo formulário para visitação. Entre as visitas, destaque para a ministra dos Direitos Humanos Macaé Evaristo e vários parlamentares comprometidos com a causa, bem como da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

Diariamente, militantes do PCR, da UJR, da UP e demais movimentos se revezam na manutenção e cuidados com o espaço. Desta forma, o prédio abandonado pelo governo cumpre função social dado por força dos comunistas, socialistas, anarquistas, democratas, progressistas e demais defensores dos direitos humanos.

Mesmo sendo já uma realidade, a luta pelo Memorial dos Direitos Humanos continua. É preciso impedir o governo Zema de fechar o prédio, vendê-lo e apagar esta importante memória. Nossa luta é para que o Estado assuma as obras necessárias para a adequação do prédio nos moldes do projeto museológico já elaborado por professores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), além de garantir que a gestão do espaço tenha participação ativa dos movimentos ocupantes e familiares das vítimas da ditadura. Continuamos aqui, resistindo na luta por memória, verdade e justiça.

Não são “acidentes”: a pandemia da morte no trânsito

“Quem tem mais pressa

Que arranje um carro

Pra andar ligeiro

Sem ter porque

Sem ter pra onde

Pois é, pra quê?”

(Sidney Miller, “Pois é, pra quê?”. 1968)

Maria Ferreira e Júlia Andrade


BRASIL – Os acidentes de trânsito matam 1 milhão e 200 mil pessoas por ano, segundo o Relatório Mundial sobre a Situação da Segurança Viária, da OMS. As lesões no trânsito são a primeira causa de morte entre crianças e jovens de 5 a 29 anos no mundo. Do total de mortes, 93% ocorrem em países de baixa/média renda, que concentram apenas 60% dos veículos.

No Brasil, o trânsito é uma das principais causas externas de morte e figura no Atlas da Violência ao lado de categorias como “armas de fogo”. Segundo dados do Ministério da Saúde, sinistros de transporte terrestre mataram nos últimos anos, em média, 45 mil pessoas/ano, o que representa algo como 123 mortes por dia, todos os dias do ano. Estima-se uma média de 300 mil feridos graves anualmente no Brasil, ou seja, mais de 821 pessoas que têm parte de seu corpo seriamente comprometida em sinistros de trânsito todos os dias. 

Os números médios de óbitos ultrapassam, por exemplo, 30 vezes o número de mortes anuais por dengue no país (1.356 óbitos, em 2024), o número de homicídios cometidos com armas de fogo (32.749, em 2023) e se aproximam do total de mortes por homicídio, que foram 45.747, em 2023. Mesmo assim, as vítimas desses acidentes seguem invisibilizadas na agenda pública.

Apesar da dimensão da tragédia, o tema é tratado como fatalidade, um “mal natural”. O uso da palavra “acidente”, aliás, reforça a ideia de imprevisível, inevitável, sem causa aparente. O termo mais adequado é “sinistro de trânsito”, pois reconhece que essas ocorrências são previsíveis e, portanto, evitáveis. A persistência do termo “acidente” serve para esconder responsabilidades (do governo e dos grandes empresários) e ocultar suas causas: infraestrutura precária, modelo de cidade excludente, negligência estatal e a lógica da produção capitalista, um sistema que mata.

É comum vermos na mídia que os sinistros de trânsito são culpa de “falha humana”. Humanos falham, vejam só! Se cansam, têm pontos cegos e diferentes tempos de reação. Condições humanas naturais e previsíveis, aprofundadas pela precariedade da vida sob o capitalismo. Assim como a chuva não é culpada por enchentes, mas sim a ausência de planejamento urbano e sistemas de proteção, os “erros humanos” não devem isentar o Estado e os ricos empresários da responsabilidade. Mortes em vias sem calçadas ou faixas de pedestre, jornadas exaustivas com metas irreais para caminhoneiros e carreteiros e a falta de segurança em veículos populares revelam que essas tragédias são resultado de decisões políticas e econômicas, e não apenas de falhas individuais.

Há, de fundo, uma normalização cruel: quantas mortes por dia são aceitáveis para manter o modelo de mobilidade atual? Quantas vidas são sacrificáveis para que a fluidez do tráfego e a produtividade do capital não sejam interrompidas?

Os sinistros não são eventos isolados, mas expressões concretas cotidianas das contradições do modo de produção capitalista aplicadas às cidades e estradas do Brasil. São sintomas de um modelo que privilegia o capital, a circulação de mercadorias e a reprodução da força de trabalho em detrimento da vida, das necessidades e da mobilidade segura dos trabalhadores.

 

A mobilidade na história do Brasil 

A história da mobilidade urbana brasileira reflete essa lógica. Nos anos 1930, houve uma onda de estatização/municipalização do transporte sobre trilhos, porém, na década de 1950, durante os governos de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, chegam as indústrias automobilísticas no Brasil, e com elas o incentivo do governo ao rodoviarismo e ao transporte individual. 

Após 1964, a ditadura militar cumpre o papel de quebra do sistema ferroviário, desativando trens regionais e bondes urbanos em diversas cidades. Os militares aumentaram em 282% a malha rodoviária brasileira, em empreitadas como a construção da Transamazônica e outras BRs, que, além de violar territórios indígenas, marginalizaram o transporte ferroviário e hidroviário. 

Nos anos 1990, com o avanço do neoliberalismo, as linhas de trens que permaneceram sofreram novo ataque. A Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA) operava trens de passageiros intermunicipais e interestaduais: em 1996, sua malha compreendia cerca de 22 mil quilômetros de linhas (73% do total), mas foi privatizada no governo FHC, passando a operar apenas na carga de mercadorias, sendo oficialmente extinta em 2007. O transporte sobre trilhos é mais eficiente, menos poluente e mais seguro, mas foi – e segue sendo – desmontado em nosso país para beneficiar o transporte individual, tornando as cidades mais violentas, excludentes, letais e submetidas ao interesse dos muito ricos.

 

Os riscos do transporte individual

O transporte público coletivo é sucateado e transformado em mercadoria, com horários escassos e tarifas cada vez mais altas. Com isso, milhões de trabalhadores migraram para o uso da moto, veículo mais barato, rápido – e também o mais letal. Motociclistas respondem por quase metade das mortes no trânsito brasileiro; suas mortes cresceram mais de 10 vezes nos últimos 30 anos. Quem mais morre? Jovens, negros, trabalhadores periféricos. Soma-se a isso o fato de 53,8% dos proprietários de motos no Brasil não terem habilitação adequada. 

No SUS, os impactos são brutais: em 2020, 61,6% das internações por sinistros foram de motociclistas. Em hospitais, a sobrecarga é evidente – como no Regional de São José (SC), onde mais de 80% dos traumas atendidos em 2024 foram causados por sinistros com motos. Escolher a moto, nesse contexto, não é liberdade, é exposição ao risco. Fruto de uma política que nega transporte público digno e transfere para o indivíduo o peso da mobilidade, mesmo que isso custe sua vida.

Outro exemplo: a velocidade máxima nas vias não é definida pela segurança da travessia de uma criança ou idoso, mas pela lógica da produtividade. A pressa do capital impõe risco à vida. Um corpo humano pode aguentar impactos de até 30 km/h. A velocidade influencia diretamente a ocorrência e gravidade dos sinistros de trânsito. Quanto maior a velocidade, menor a margem de segurança para manejar imprevistos e maior o potencial de lesões graves ou fatais. Ao dobrar a velocidade do veículo, a energia do impacto quadruplica: uma colisão a 60 km/h é 4 vezes mais severa do que a 30 km/h. Em alta velocidade, o campo de visão se reduz, o tempo de reação e a condição de frenagem diminuem, tornando a colisão mais provável e letal. A alta velocidade é o maior fator de risco para sinistros de trânsito, seguido pelo uso de álcool e outras drogas. O terceiro fator é o uso do celular pelo motorista, que aumenta em 400% a chance de colisões. A banalização destes três comportamentos ceifa todos os dias a vida do nosso povo e deve ser combatida.

 

Existe saída!

Em benefício do lucro de um pequeno grupo de empresários da indústria automobilística, de distribuição e revenda de combustíveis, das construtoras e do setor rodoviário, agências internacionais estimam que o Brasil pode gastar mais de 2% do seu PIB com “acidentes”. Incluindo gastos do SUS com internações, consultas, tratamentos e reabilitação de vítimas, valores de perda de produção, custos previdenciários, perda de cargas, entre outros, pelo menos R$ 50 bilhões são investidos anualmente. 

O custo da insegurança viária não abarca a incalculável dor das famílias que perdem quem amam. Por isso, a Unidade Popular pelo Socialismo defende em seu programa a reestatização das estatais privatizadas, fim dos leilões do petróleo, a revisão das concessões dos portos, aeroportos e estradas brasileiras entregues a empresas privadas e estatização de todos os meios de transporte coletivo. O direito de ir e vir não pode ser submetido ao lucro e só existe se houver o direito de chegar com vida!

Em memória de Welfesom Campos, Ana Letícia, Leandro Souza, Ademilson Miltão e de todas as vítimas desse sistema assassino, registramos esta denúncia e este compromisso: não aceitaremos que a morte dos nossos seja normalizada. Não aceitaremos que ela seja tratada como destino. Lutaremos até transformar essa realidade!

 

Referências:

Global Status Report on Road Safety – OMS, 2018.

Atlas da Violência – IPEA 2025.

Impactos Socioeconômicos dos Acidentes de Transporte no Brasil de 2007 a 2018 – IPEA 2020.

Custos dos Acidentes de Trânsito no Brasil – IPEA, 2025. 

Ministério da Saúde. Base de dados das mortes causas externas. 

Pelo direito ao aborto legal e seguro a todas as pessoas que gestam

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No domingo (28/09) o povo foi às ruas manifestar em defesa da garantia do direito ao aborto legal na America Latina e no Caribe. A luta não se restringe às mulheres cis mas é uma pauta fundamental para todos os corpos que gestam

Felipe Fly | São Paulo


LUTA POPULAR – A luta pela legalização do aborto deve ser pleiteada por toda a população, uma vez que se trata da garantia da dignidade humana, prevista pela nossa constituição e é portanto, de interesse social que se faça ser cumprida.

Ainda assim, sabemos que o regime político burguês hoje imprime diversas exceções e arbitrariedades às leis e à garantia da democracia, de modo que seus interesses de classe e sua ideologia atrasada e reacionária prevaleçam a todo custo.

Dentre as diversas identidades de gênero que compõem a nossa sociedade, é nítido a posição privilegiada que é resguardada ao homem cisgênero, sobretudo o branco. Não à toa é este o perfil majoritário dos deputados que foram favoráveis ao PL do estupro e que defendem a criminalização do aborto.

É também essa a parcela da população que está nos melhores postos de trabalho, que recebe os melhores salários, mesmo havendo outras identidades ocupando um cargo equivalente.

Mais pobres são sempre os mais afetados

Grandes mobilizações vêm denunciando a importância de que a legislatura esteja à altura do povo, isso significa legislar pelos interesses da maioria, que é uma população pobre, que não tem acesso à realização de abortos seguros, e que numa situção de necessidade vê nos abortos clandestinos a sua única opção e acaba muitas vezes por falecer no procedimento ou em decorrência de complicações do mesmo.

É importante destacar que a vulnerabilidade que leva à necessidade de recorrer ao aborto clandestino é fruto de uma sociedade capitalista que explora o povo até as últimas consequências, obrigando a maior parcela da população a viver numa situação constante de fome e miséria, enquanto capitalistas donos de bancos e de grandes empresas seguem acumulando riquezas e exportando capitais.

Notemos ainda, que para que a situação de violência sexual aconteça, outras responsabilidades do Estado foram negligenciadas, como a ausência de políticas de educação sexual nas escolas, pouca iluminação nas vias públicas, precária malha de ônibus e metrôs nas regiões periféricas e alto índice de impunidade aos estupradores.

Aborto legal é direito de todes

É preciso salientar que são diversas as identidades que podem gestar e que devem ter direito à liberdade de decidir sobre seu corpo, e que devem ter sua dignidade garantida pelo Estado. Unir a luta de todas as identidades em defesa do aborto legal e seguro é fundamental para a conquista da pauta e para o avanço do debate em relação aos direitos reprodutivos.

Transmasculinidades, identidades não-binárias, pessoas intersexo são algumas dessas identidades que, assim como mulheres cis capazes de gestar, precisam do acesso ao aborto legal, e sofrem diretamente um prejuízo pela ausência de hospitais que garantam o abortamento seguro, legal e gratuito.

Quase totalidade das pessoas trans em na cidade de São Paulo depende da sua força de trabalho para sobreviver (dados do mapeamento realizado pela prefeitura junto a CEdEC) e portanto não pode arcar com um aborto seguro por conta do valor.

Isso somado a já precariedade dos abortos clandestinos, sofremos ainda com o despreparo geral do atendimento à saúde para nossos corpos cotidianamente. Se considerarmos a pauta do aborto um ataque às mulheres, apenas, estaremos violando corpos trans duas vezes.

Por isso, vamos às ruas com toda a nossa militância em defesa do direito reprodutivo a todos os corpos. Nenhuma criança, cis ou trans, deve ser responsável por outro ser. Nenhuma criança deve ter seu corpo violado. E toda a pessoa que gestar, deve ter o direito de decidir sobre o seu corpo, sobretudo numa situação de violência.

Condenação de Bolsonaro e seus generais é uma vitória na luta contra o fascismo

O ex-presidente Jair Bolsonaro e seus generais que compuseram o “núcleo crucial” do golpe foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por sua liderança na conspiração que visava um golpe de Estado no Brasil.

Redação


EDITORIAL – Foram necessários longos dois anos e oito meses, desde o dia 08 de janeiro de 2023, para que fossem finalmente julgados os principais responsáveis pela conspiração que pretendia dar um golpe de Estado no Brasil. No último dia 11 de setembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou os criminosos que planejaram anular o resultado das Eleições de 2022 e impor uma nova ditadura militar fascista no país.

O chefe da quadrilha, o ex-presidente Jair Bolsonaro, pegou a pena mais longa: 27 anos e 3 meses. Farão companhia a ele no xadrez os generais Walter Braga Netto (condenado a 26 anos), Augusto Heleno (21 anos) e Paulo Sérgio Nogueira (19 anos), o almirante Almir Garnier (24 anos), o tenente-coronel e delator Mauro Cid (condenado a 2 anos em regime aberto), o ex-ministro da Justiça Anderson Torres (24 anos) e o deputado federal e ex-chefe da Abin Alexandre Ramagem (16 anos). Juntos, eles compuseram o chamado “núcleo crucial” do golpe.

Essa é a primeira vez, no Brasil, que golpistas – entre eles membros da cúpula das Forças Armadas – são sentenciados por atentarem contra as liberdades democráticas. Não é, portanto, qualquer coisa, especialmente num país cuja história é repleta de golpes ou tentativas de golpe, sem que nunca seus organizadores tenham sentado no banco dos réus.

Assim, a condenação de Bolsonaro e de seus principais cúmplices deve ser vista como uma importante vitória do povo brasileiro, que só foi possível graças às denúncias, manifestações, protestos e lutas travadas nos últimos anos contra o fascismo, nas quais a militância do PCR e da Unidade Popular (UP) estiveram presentes e cumpriram um papel de destaque.

Além disso, é uma merecida justiça aos milhares de mortos pela violência policial; às centenas de indígenas vítimas da fome e do abandono; aos mais de 33 milhões de famintos; às mulheres vítimas de feminicídio; aos negros, humilhados pelo racismo; às pessoas LGBTIA+, vítimas do preconceito e do ódio; e aos milhões de trabalhadores que perderam seus direitos e ficaram desempregados. Os crimes de Bolsonaro e seus ministros durante a pandemia não entraram nesse julgamento, mas, certamente, não serão esquecidos.

Fascismo é o governo da morte

Para além do ex-capitão, vermos agora generais sendo julgados e condenados por seus crimes é um acerto de contas – ainda que simbólico e insuficiente – da nação com a ditadura militar, que, por 21 anos (1964-1985), perseguiu, prendeu, sequestrou, torturou e assassinou impunemente milhares de pessoas, especialmente os comunistas, muitos deles ainda desaparecidos.

Por isso, defendemos que a luta pela punição dos golpistas de hoje caminhe junto com a luta pela punição dos golpistas de 1964, estejam eles vivos ou mortos, pois precisam ser lembrados pelo que realmente são: torturadores, estupradores, sequestradores e assassinos. Sem enfrentar a violência do passado, sem promover memória, verdade, justiça e reparação às vítimas da ditadura, o país nunca se verá livre das ameaças de um novo golpe fascista.

Durante o governo de Bolsonaro e de seus generais, o povo brasileiro comeu o pão que o diabo amassou: o salário mínimo sofreu o maior arrocho em 30 anos, o desemprego cresceu, o preço da gasolina, do gás de cozinha e dos alimentos disparou e mais de 33 milhões de pessoas voltaram a passar fome todos os dias.

Bolsonaro promoveu uma reforma da Previdência que acabou com o direito à aposentadoria, criou o “orçamento secreto” para dar dinheiro do povo ao corrupto Centrão, destruiu leis trabalhistas e programas sociais, cortou verbas do SUS e das universidades, privatizou empresas estratégicas e permitiu que a Amazônia e o Pantanal fossem violentados pela ganância do agronegócio e das mineradoras.

Na pandemia, o fascista tratou a Covid-19 como se fosse uma “gripezinha”, fez piada do sofrimento das pessoas, demorou a comprar a vacina e cometeu a maldade de negar até oxigênio aos hospitais. Toda essa desumanidade levou à morte de mais de 700 mil pessoas, e, até hoje, milhões de brasileiros sentem a perda de seus pais, irmãos, avós, companheiros e amigos.

Mas, como diz a sabedoria popular, “aqui se faz, aqui se paga”. Não é a questão principal se a atual condenação dessa quadrilha de fascistas não tenha sido exatamente por todos esses crimes. O mais importante é a sua derrota, o fato de terem sido condenados, mesmo se achando intocáveis.

Sem anistia para os golpistas!

Porém, a luta contra o fascismo e o golpismo continua. Eles foram condenados, mas ainda não estão atrás das grades. Além disso, seguem atuando livremente nas Forças Armadas, nas polícias e no Congresso Nacional, e continuam sendo financiados pelo agronegócio, por milionários mercadores da fé e pela grande burguesia nacional e internacional.

Devemos seguir nas ruas exigindo a prisão de todos os organizadores e financiadores do 8 de janeiro e impedir que os golpistas continuem atuando livremente. Afinal de contas, quando um pobre é condenado, ele vai direto para a cadeia. Por que quando é rico é diferente? Que justiça é essa?

Além disso, os corruptos deputados do Centrão se articulam para votar com urgência um projeto de anistia para os envolvidos nos atos terroristas de 8 de janeiro de 2023 e livrar Bolsonaro do xilindró. Porém, quando se trata de votar leis para melhorar a vida do povo e diminuir as injustiças sociais, aumentar o salário mínimo, acabar com a escala 6×1 ou taxar as grandes fortunas dos bilionários, esses mesmos deputados fingem que não é com eles.

Lênin, o líder da grande revolução socialista de 1917 na Rússia, tinha mil vezes razão quando dizia que essa democracia burguesa é “uma democracia limitada, falsa e hipócrita, um paraíso para os ricos e um engano para os explorados e para os pobres”. Enquanto esse sistema não for substituído por um governo operário e popular, nenhuma mudança profunda ocorrerá a favor de quem vive do próprio trabalho.

Ganhar o povo para a revolução

Os fascistas dizem agora que são vítimas de perseguição política e que não há mais liberdade no Brasil. Mas a verdade é que estão mais preocupados com seus privilégios e interesses pessoais do que com o futuro do país e a vida do povo. A liberdade que eles defendem é a dos ricos explorarem os pobres. Se declaram patriotas, mas desfilam com uma bandeira dos Estados Unidos na Avenida Paulista e não pensaram duas vezes antes de implorar a seu amo Donald Trump que atacasse a economia brasileira com taxas absurdas e organizasse uma intervenção militar para salvar Bolsonaro.

Por isso, não podemos descansar ou acreditar que está tudo resolvido. Infelizmente, há partidos e organizações políticas que se dizem socialistas, mas defendem que não é hora de radicalizar, pois isso significaria “fazer o jogo do fascismo e do imperialismo”. Alegam que é necessário uma “política ampla” e que a burguesia nacional, a mesma classe que promoveu, junto com as Forças Armadas, todos os golpes ao longo da nossa história, é uma importante aliada da democracia e do desenvolvimento nacional. Agindo assim, defendendo a união dos trabalhadores com os patrões, esses partidos impedem o avanço da consciência revolucionária das massas e enfraquecem a causa da revolução socialista.

A derrota sofrida pelos fascistas precisa ser consolidada com o movimento de massas promovendo atos e manifestações, pressionando para que não haja conciliação nem perdão e exigindo a reversão imediata de todas as reformas antipovo, o fim do pagamento da dívida pública, a taxação das grandes fortunas, mais verbas para a Saúde e a Educação, o fim do genocídio contra o povo palestino e o rompimento das relações comerciais do Brasil com Israel, reforma agrária, moradia para todas as famílias sem-teto, aumento de 100% no salário mínimo, a redução da jornada de trabalho e o controle do preço dos alimentos.

Ou seja, é preciso apresentar mais amplamente ao povo um programa revolucionário, com firmeza e energia, pois assim a luta contra o fascismo e pelo socialismo será decidida a favor da classe trabalhadora.

Matéria publicada na edição impressa nº321 do jornal A Verdade

Comunistas brasileiros lutaram para derrotar o fascismo na Europa

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Em meio a vitória da União Soviética, que perdeu mais de 27 milhões de vidas para esmagar o nazismo de Hitler, a contribuição dos comunistas brasileiros é parte da história muitas vezes esquecida.

Guilherme Arruda | Historiador


HISTÓRIA – Neste ano, a humanidade celebra os 80 anos da vitória sobre o nazifascismo. Nos esforços dos povos do mundo para derrotar a ameaça de Hitler, a pátria socialista comandada pelo Partido Bolchevique ofereceu os maiores sacrifícios: mais de 27 milhões de cidadãos soviéticos, entre civis e militares, morreram na Segunda Guerra Mundial. Só quando o Exército Vermelho finalmente adentrou em Berlim, impondo pesadas baixas à Alemanha, é que a besta nazista se rendeu.

Nessa luta, tomaram parte também trabalhadores e revolucionários de diversos outros povos que deram uma destacada contribuição para o esforço de guerra contra o Eixo, a aliança militar composta pelas potências fascistas (Alemanha, Itália e Japão). É o caso do Brasil.

Em nosso país, a agitação antifascista do Partido Comunista do Brasil (PCB) foi determinante para que o governo de Getúlio Vargas finalmente declarasse guerra à Alemanha, em agosto de 1942, após três anos de vacilação. Além disso, vários militantes comunistas se voluntariaram para fazer parte da Força Expedicionária Brasileira (FEB), contingente de 25 mil soldados enviado à Europa para lutar contra as tropas alemãs e italianas.

Ao comemorar os 80 anos da vitória contra o nazifascismo, é indispensável que relembremos a contribuição do povo brasileiro – e dos comunistas – para essa luta, que salvou a humanidade e manteve viva a esperança de um futuro socialista para os operários e camponeses de todo o mundo.

Pressão contra o Governo Vargas

Às portas da Segunda Guerra Mundial, o Brasil vivia debaixo de uma ditadura chamada de Estado Novo, que havia se iniciado após um golpe de Estado, em 1937. Desde 1935, o país já vivia sob um estado de sítio, utilizado pelo presidente Getúlio Vargas para reprimir a classe trabalhadora e os comunistas. Porém, após a decretação do Estado Novo, o regime político começou a caminhar para o fascismo. Foram canceladas as eleições, o Congresso Nacional foi fechado e se outorgou uma Constituição de inspiração nitidamente fascista. Vargas se aproximou politicamente da Alemanha e da Itália e copiava os gestos de Adolf Hitler e Benito Mussolini, líderes daqueles dois países.

Nesse contexto, quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu, em 1939, o presidente do Brasil se recusava a tomar posição contra as agressões dos Estados fascistas, que subjugavam uma nação atrás da outra sob a justificativa da suposta “superioridade racial” e com o objetivo de anexar cada vez mais territórios para sua esfera imperialista. Vivíamos uma “neutralidade” conivente com os crimes contra a humanidade.

Em 1941, Hitler declara seu objetivo de acabar com a União Soviética e de escravizar seu povo. As tropas nazistas invadem a nação socialista. Com isso, forçar o Governo Vargas a declarar guerra à Alemanha se tornou uma das prioridades dos comunistas brasileiros, mesmo nas difíceis condições da ilegalidade. Recorreram, então, à sua principal arma: a mobilização das massas.

Fundada na década de 1930 por uma aliança entre jovens comunistas, como Irun Sant’Anna e outros estudantes democratas e antifascistas, a União Nacional de Estudantes (UNE) foi protagonista de uma ampla movimentação na sociedade pelo rompimento das relações diplomáticas com a Alemanha, a Itália e o Japão. A campanha envolveu panfletagens, passeatas e também a ocupação do Clube Germânia, entidade da comunidade alemã no Brasil, simpática ao nazismo. A sede do clube se transformou na sede da UNE, uma conquista da luta. Mais detalhes sobre essa história podem ser lidos no livro “O Poder Jovem”, de Arthur Poerner. Ao fim, Getúlio Vargas acabou encurralado pela forte pressão social e declarou guerra à Alemanha em agosto de 1942.

Comunistas na FEB

Após a declaração de guerra, os comunistas não se deram por satisfeitos com essa primeira vitória política. Seguiram insistindo que o Brasil também deveria colaborar materialmente com o esforço de guerra, por meio do envio de tropas para o front. Para isso, mobilizaram seu aparato de agitação e propaganda, buscando convencer os brasileiros da importância de contribuir. Seja em revistas legais, como a Seiva, ou jornais clandestinos, como A Classe Operária, nenhum número da imprensa comunista ia às ruas sem um apelo para a criação de uma divisão nacional para enfrentar Hitler.

Assim dizia o editorial do nº 18 da Seiva, lançado em julho de 1943: “A participação direta do Brasil no conflito, com o envio de tropas para a frente de batalha, será […] uma das condições essenciais para ganharmos a paz”. No mês seguinte, os comunistas e seus aliados antifascistas foram vitoriosos mais uma vez. Em agosto daquele ano, foi criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que, no segundo semestre de 1944, chegou à Europa para dar combate aos exércitos fascistas. Seus participantes ficaram conhecidos como “pracinhas”.

Muitos jovens e operários do Partido Comunista se alistaram na FEB, mas seu número exato não é conhecido. Por segurança, eles não declaravam sua militância em uma organização ilegal. No entanto, sabe-se de dois importantes dirigentes comunistas do nosso país que integraram a Força: o voluntário Jacob Gorender, que havia sido secretário de redação da Seiva, e o tenente Salomão Malina. Este último foi condecorado com a Cruz de Combate de Primeira Classe por sua bravura. Dando sua contribuição para a derrota final do Eixo, as tropas brasileiras se destacaram nas batalhas de Monte Castello e Montese, na Itália.

Comunistas na resistência 

Além dos membros da FEB, houve ainda outros comunistas brasileiros que combateram o nazismo na Europa de armas na mão. Isso porque, antes mesmo do início da Segunda Guerra Mundial, o Partido Comunista organizou o envio de voluntários (alguns deles militantes, outros apenas simpatizantes da causa antifascista) para lutar na Guerra Civil Espanhola.

Desde 1936, a Espanha vivia um conflito iniciado por uma tentativa de golpe de Estado fascista. Em solidariedade à República, dezenas de milhares de militantes de todo o mundo constituíram as Brigadas Internacionais para enfrentar as tropas do general golpista Francisco Franco, que era apoiado por Alemanha e Itália. Segundo as pesquisas da historiadora Thaís Battibugli, 16 deles eram brasileiros – a maioria deles, participantes do Levante de 1935 em nosso país.

Lamentavelmente, em 1939, a República foi derrotada e um regime fascista – que só acabaria em 1975 – foi instaurado na Espanha. Os bombardeios criminosos da força aérea alemã, que atingiam intencionalmente civis inocentes, como as vítimas do massacre de Guernica, registrado na célebre pintura do comunista Pablo Picasso, foram a principal arma dos fascistas para destruir a democracia espanhola.

Derrotados, os membros das Brigadas Internacionais foram transferidos para campos de concentração na França, também conquistada pela máquina de guerra nazista. Contudo, desejosos de seguir lutando, dois comunistas brasileiros fugiram do confinamento e se somaram à Resistência Francesa. Um deles, o tenente cearense David Capistrano, foi rapidamente preso. Por sua vez, Apolônio de Carvalho tornou-se um grande líder dos maquis, os guerrilheiros antifascistas franceses.

Legado da luta antifascista

As cerca de três mil baixas, entre mortos e feridos, da FEB e da Força Aérea na Segunda Guerra Mundial foram a cota de sacrifício do povo brasileira em prol da libertação de milhões de homens e mulheres em todo o mundo. Quando retornaram ao Brasil, muitos pracinhas se filiaram ao Partido Comunista, convencidos que ficaram da importância de lutar contra a injustiça por todos os meios. “Vencida a mais terrível das guerras, trazíamos um novo mundo de esperanças”, lembra Apolônio de Carvalho em sua autobiografia “Vale a pena lutar” (1997).

Todas essas histórias demonstram que o povo brasileiro também colaborou com a destruição do nazismo, principal inimigo da humanidade daquele período. Demonstram ainda que os comunistas tiveram um papel decisivo para que esse esforço antifascista chegasse até as últimas consequências, de armas na mão. Como explica mais uma vez Apolônio, seja no Brasil seja na União Soviética, esteve no centro desse protagonismo “uma orientação político-partidária que irmanava os programas de luta de nossos povos – objetivos semelhantes, os mesmos inimigos – numa mesma trincheira comum”. Passados 80 anos, é preciso seguirmos fiéis ao programa comunista de luta para derrotar, mais uma vez, os fascistas que ameaçam a liberdade e a vida da classe trabalhadora.

Matéria publicada na edição impressa nº320 do jornal A Verdade

A logística do Jornal como um trabalho coletivo e político

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Com mais de 25 anos de circulação, o jornal A Verdade se consolida como o único periódico popular de alcance nacional no Brasil, expandindo sua presença para novas cidades. A logística do jornal é parte fundamental desse resultado.

Larissa Mayumi e Maria Alice Galvão | Comissão de Logística (SP)


JORNAL – O jornal A Verdade é impresso e distribuído há mais de 25 anos e cresce sua tiragem e seu alcance. Está presente em todas as regiões do país. É o único periódico popular com alcance nacional. A cada edição, chega a novas cidades nos interiores, litorais e nas periferias das grandes cidades.

Para garantir esse alcance, existe um trabalho por vezes invisível: separar, contar e enviar os jornais através dos Correios e transportadoras, inclusive, de avião. Quando chega aos estados e cidades, ainda há a tarefa de buscar os pacotes e organizar a distribuição para que chegue às mãos dos brigadistas. Essa logística não pode ser subestimada, pois é ela quem garante que a política do Jornal chegue a cada militante e apoiador.

Afinal, o que é a logística?

Em um país continental como o Brasil, a logística é essencial para a circulação de mercadorias e movimenta milhões em lucros para empresas privadas. Os Correios, maior empresa do setor, é uma empresa estatal que atende todo o território nacional e, justamente por isso, é constantemente ameaçada de ser privatizada. A distribuição do nosso Jornal faz parte desse cenário, pois depende dessas empresas e é diretamente impactada pelas condições de trabalho dos que atuam nelas.

Construir vínculos com os trabalhadores que atuam nesse processo e apresentá-los à imprensa revolucionária é, portanto, uma tarefa importante – parte fundamental da organização cotidiana do povo pelos comunistas. Afinal, queremos que os trabalhadores realizem seu trabalho de forma consciente, e não alienada.

Vando de Azevedo, responsável pelo envio dos jornais da transportadora de São Paulo para outros estados, resume bem esse sentimento: “Acompanho todas as edições. Estamos remando para o mesmo lado, a gente é da mesma força. A minha missão é fazer [o jornal] chegar no país inteiro!”.

Em Sertãozinho, uma cidade operária no interior do Estado de São Paulo, os brigadistas do Jornal criaram um correio vermelho¹ para entregar os jornais aos operários e trabalhadores. Eles se organizam para rodar a cidade de bicicleta nos horários de intervalo do trabalho, no raiar do dia e até mesmo tarde da noite. “Sempre entrego o jornal em uma hamburgueria, para uma das trabalhadoras, e, em menos de duas semanas, outros trabalhadores começaram a se interessar pelo jornal, querendo ajudar a construir nossa luta”, relata Breu, brigadista do Jornal.

A importância da Comissão de Logística

São Paulo trabalha com a maior tiragem de A Verdade entre os estados do Brasil. Para dar conta desta demanda, criamos uma Comissão de Logística responsável por organizar a distribuição e garantir o envio dos jornais para mais de 50 cidades paulistas e para estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Antes da chegada dos jornais, a comissão realiza uma preparação: propõe a cota de exemplares para cada região do estado; confere os endereços de envio; prepara todo o material e a mobilização necessários para o dia da chegada dos jornais da gráfica, etc.

Os jornais chegam à Capital, onde uma equipe cuida da contagem e separação dos volumes. É fundamental garantir a regularidade dessa equipe, com o objetivo de especializar e profissionalizar os militantes. Ao repetirem o processo, as pessoas acumulam experiência, identificam erros e acertos com mais facilidade e podem propor novos métodos de trabalho, otimizando o tempo para que os jornais sejam enviados às cidades. O objetivo é que os jornais cheguem em até 24 horas a cada uma das 50 cidades e, no máximo, em 48 horas estejam nas mãos de todos os militantes.

Nos lugares mais organizados, a distribuição é feita por meio de banquinhas montadas nos centros das cidades ou em locais de grande circulação, como em frente a estações de trem e metrô, e em universidades, como a UFABC e a Unicamp. Nesses pontos, os jornais são contados, e os militantes retiram suas cotas. As banquinhas também realizam a venda de exemplares e, em muitos casos, expõem e vendem livros das Edições Manoel Lisboa.

Durante a distribuição, os brigadistas fazem agitações com megafones e caixas de som, divulgando as denúncias da nova edição do Jornal entre o povo. Isso ajuda a criar o clima de que uma nova edição acabou de chegar e mostra a importância de difundirmos o quanto antes as ideias defendidas naquela nova quinzena. Em algumas cidades, o dia da chegada é tão importante que nenhuma outra atividade é marcada além da distribuição.

O Jornal como organizador coletivo

Vladimir Lênin, principal líder da Revolução Socialista na Rússia, compreendia o jornal como uma ferramenta central de organização política¹. Para ele, não se tratava apenas de informar, mas de construir um instrumento que unificasse a linha política e orientasse a ação dos militantes e das massas. Inicialmente, o jornal Iskra cumpriu esse papel, depois outros, até chegar ao Pravda (em russo, “Verdade”), instrumento decisivo para os bolcheviques organizarem o Partido e amplos setores operários para a tomada do poder, em 1917.

Tamanha era a importância do jornal para Lênin, que ele chegou a mudar seu local de exílio para garantir a melhor direção e recebimento do Pravda (Lênin, sua vida e sua obra – Edições Manoel Lisboa), defendendo que sua distribuição fosse feita com a mesma agilidade dos jornais da burguesia. O jornal deveria chegar ao povo o quanto antes, porque cada edição significava uma intervenção direta na luta de classes.

Inspirado nesse legado, o jornal A Verdade deve buscar cumprir esse mesmo papel no Brasil de hoje: ser o organizador coletivo do Partido e dos movimentos populares. E, para isso, a logística é fundamental. A estrutura construída ao longo dos anos para garantir que o jornal chegue rapidamente a centenas de cidades em todo o país não serve apenas à sua própria circulação, pode se tornar uma base logística que fortalece o conjunto da organização.

Nas últimas eleições parlamentares, por exemplo, foi graças a essa rede que conseguimos distribuir mais de 4 milhões de panfletos no Estado de São Paulo. Essa mesma estrutura serve aos movimentos, às campanhas de arrecadação, às campanhas de solidariedade e às grandes mobilizações de rua.

Luta ideológica

A distribuição do jornal também é um trabalho de fortalecimento ideológico. Em uma sociedade dominada pela ideologia burguesa, cada exemplar entregue é uma disputa política. Receber o jornal a tempo permite que o militante se aproprie da linha política do Partido e se fortaleça com suas palavras de ordem para atuar de forma consciente.

“Temos exemplos de companheiros que estavam afastados ou doentes, e mesmo durante a pandemia, que demos um jeito de o jornal chegar até eles. Isso fortalece muito, pode resgatar vários companheiros. Levar a cota individual é uma missão especial”, afirma Jorge Ferreira, da redação em São Paulo.

Onde houver dificuldade na chegada do jornal, é ali que devemos investir tempo e criatividade. O trabalho de separar, embalar, enviar e distribuir não pode ser visto como uma tarefa secundária. Pelo contrário: é parte central da construção de uma organização forte, com unidade de ação e consciência política.

Leia, distribua, venda e fortaleça o jornal A Verdade!


  1. Trecho do artigo Por onde começar?, em que Lênin apresenta de forma precisa esta ideia:

Um jornal, todavia, não tem somente a função de difundir ideias, de educar politicamente e de conquistar aliados políticos. O jornal não é somente um propagandista e agitador coletivo, mas também um organizador coletivo. Sobre este último aspecto, pode-se comparar o jornal com a estrutura de andaimes que envolve o edifício em construção, mas permite adivinhar seus traços, facilita os contatos entre os construtores, ajudando-lhes a subdividir o trabalho e a dar conta dos resultados gerais obtidos com o trabalho organizado. Através do jornal e com o jornal se formará uma organização permanente, que se ocupará não somente do trabalho local, mas também do trabalho geral sistemático, que ensinará a seus membros a acompanharem atentamente os acontecimentos políticos, a avaliar a importância e a influência de diversos estratos da população, a elaborar quais métodos permitem ao partido revolucionário exercitar sua influência sobre os mesmos. Até mesmo as tarefas técnicas de assegurar ao jornal fornecimento regular de recursos e uma distribuição eficiente obrigará a criar uma rede de distribuidores e correspondentes locais de confiança do partido único, que deverá manter-se em contato vivo uns com os outros, conhecer a situação geral, habituar-se a executar regularmente uma parte do trabalho para toda a Rússia, a experimentar as próprias forças organizando hora esta, hora aquela ação revolucionária. Esta rede será o esqueleto exatamente da organização de que aqui precisamos: suficientemente grande para estender-se por todo o país; suficientemente ampla e variada para efetuar uma rigorosa e detalhada divisão do trabalho, suficientemente temperada para saber cumprir inflexivelmente o seu trabalho em todas as circunstâncias, em todas as reviravoltas e em todos os imprevistos […].

Matéria publicada na edição impressa nº320 do jornal A Verdade

Mulheres lutam pelo fim do genocídio na Palestina

O número de palestinos mortos pelo regime nazi-sionista pode alcançar a trágica marca de 200 mil. Dentro desta realidade devastadora, as mulheres são alvos do genocídio, correspondendo a 24,5% dos assassinatos cometidos por Israel na Palestina desde 2023.

Alice Morais | Natal (RN)


MULHERES – Segundo estudo da revista The Lancet, o número de palestinos mortos pelo regime sionista pode chegar a 200 mil, contabilizando os números de assassinatos não registrados. Segundo a Federação Árabe-Palestina no Brasil (Fepal), as mulheres equivalem a 24,5% dos assassinatos cometidos por Israel desde 2023. Em tempos de guerras e crises, as mulheres são as mais afetadas.

Isso acontece porque, no sistema capitalista, as mulheres se tornam subjugadas aos interesses dos ricos (em sua maioria homens). E, se são elas as principais responsáveis por manter a família, são também as mais afetadas pela perda de empregos, deslocamentos forçados e falta de acesso a recursos.

E mais: como forma de garantir a sujeição das mulheres, elas são estupradas e violentadas sexualmente. “Estupros foram cometidos principalmente por oficiais israelenses mulheres, que inseriram objetos nos órgãos genitais de palestinas detidas. Também documentamos um caso de estupro coletivo por dois soldados diferentes, duas vezes, em uma mulher palestina em um centro de detenção. Ela disse que foi filmada durante o ataque”, denunciou Kifeya Khraim, numa Comissão da ONU.

O assassinato das palestinas não é uma mera casualidade, mas parte de um projeto em curso de eliminação do povo, uma tática de guerra utilizada por Israel para concretizar o extermínio. Daí as razões pelas quais as mulheres estão tão presentes nas estatísticas sobre assassinatos e carestia em Gaza.

Porém, a História nos mostra que sobretudo as mulheres não abaixam a cabeça diante das injustiças e opressões. O Movimento de Mulheres Olga Benario e a Unidade Popular (UP) têm se somado aos atos que denunciam os crimes de Israel.

“Construímos o Comitê Cearense de Solidariedade ao Povo Palestino com outras forças políticas e camaradas da comunidade muçulmana, como a Karine Garcêz, que fundou o Comitê. Sabemos que não basta nos posicionar, precisamos agir. Mesmo distantes, pressionamos o governo brasileiro (que ainda mantém relações com Israel) e dialogamos com o povo, mostrando como esse massacre nos diz respeito, que o mesmo imperialismo estadunidense que oprime a Palestina nos ataca aqui também”, afirma Andressa Oliveira, militante do Movimento Olga Benario no Ceará.

Ir às ruas denunciar o genocídio mostra a solidariedade entre os trabalhadores do mundo e o repúdio do povo a essa barbaridade. A luta continua pelo fim das relações Brasil-Israel e a libertação do povo palestino. Mostrar repúdio e revolta popular nas ruas é a única forma de fazer a pressão contrária ao imperialismo e reafirmar o direito dos povos do mundo à soberania e à liberdade.

Matéria publicada na edição impressa nº320 do jornal A Verdade

Feminicídios brutais expõem violência na Bahia

Em pleno Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e combate à violência contra a mulher, a Bahia foi palco de uma sequência de feminicídios.

Coordenação do Movimento Olga Benario (BA)


MULHERES – No último mês, em pleno Agosto Lilás, feminicídios brutais ocorridos na Bahia ganharam repercussão nacional. Alexsandra Oliveira (45 anos), Maria Helena Bastos (41 anos) – ambas professoras da rede pública – e Mariana Bastos (20 anos), filha de Helena, saíram juntas para passear com o cachorro em uma praia turística de Ilhéus (BA) e foram encontradas mortas com facadas pelo corpo. Quatro dias depois desse triplo feminicídio, outra mulher foi vítima, em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador: Laina Santana (37 anos) foi assassinada a marretadas pelo marido na frente das filhas de 5 e 12 anos. Na Bahia, desde janeiro deste ano, já foram 63 casos de feminicídios registrados.

O Governo Federal estabeleceu a campanha Agosto Lilás, na qual atividades de conscientização e combate à violência contra as mulheres são promovidas, em referência à Lei Maria da Penha (Lei Federal nº 11.340/ 2006), que foi sancionada em agosto de 2006. Essa lei, no entanto, ainda está longe de ser aplicada pelos governos de forma integral e de acordo com a urgência apresentada diante da violência alarmante contra as mulheres. O Brasil é o quinto país no mundo mais violento para as mulheres.

O crescimento da violência contra a mulher também tem se expressado dentro das universidades baianas, que sequer contam com um espaço de recepção, acolhimento e atendimento psicossocial a todas as mulheres da comunidade universitária que tenham sofrido qualquer tipo de violência.

Na Universidade Federal da Bahia (UFBA), o Movimento de Mulheres Olga Benario constrói, junto com estudantes independentes, a Frente Feminista, que tem sido procurada por diversas alunas em situação de violência física, psicológica, sofrendo ameaças por ex-parceiros, mesmo com medida protetiva. Elas ainda são obrigadas a conviverem com seus ex-parceiros agressores dentro do ambiente acadêmico, que até pouco tempo não tinha qualquer equipamento para garantir a segurança dessas estudantes. Hoje em dia, graças à pressão da Frente Feminista, a equipe de segurança da UFBA passou a mapear e acompanhar os trajetos das estudantes para fazer valer a medida protetiva dentro do espaço universitário.

Não à toa, a Bahia é o terceiro estado do nosso país que mais assassina e violenta mulheres, aponta o Atlas da Violência do Ipea. Com 417 cidades, a Bahia conta com apenas 15 delegacias da mulher (DEAM) em todo o estado. Segundo o Portal Transparência do Governo Estadual, o orçamento de 2025 destinado à Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) é de R$ 35 milhões. Enquanto isso, só para a Polícia Militar, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) aprovou um orçamento de R$ 4 bilhões, ou seja, 115 vezes maior do que para o investimento em políticas públicas e aparelhos que poderiam prevenir a violência e salvar a vida de milhares de mulheres.

Além do mais, não bastasse enfrentar a violência machista, são as mulheres, mães, negras e periféricas que choram a morte de seus filhos assassinados pela Polícia no estado onde a PM é a mais letal do Brasil: em média, cinco pessoas por dia são assassinadas, sendo 97% pessoas negras e 60% jovens.

A crescente onda de feminicídios brutais e o aumento da violência contra as mulheres é expressão direta do aprofundamento da crise geral do capitalismo e o avanço do fascismo. Feminicídios ainda matam quatro mulheres por dia no país. Somado a isso, o Brasil registrou mais de 71 mil estupros de mulheres em 2024 – o equivalente a 196 casos por dia.

Em meio à luta contra a violência, a fome, por emprego, moradia e melhores salários, cresce o sentimento de repúdio ao capitalismo e o desejo de mudança não só nas mulheres, mas em toda a classe trabalhadora. Essa sociedade não nos serve porque lucra com nossa miséria e morte.

Por isso, nós, do Movimento de Mulheres Olga Benario, fazemos de todos os dias, dias de luta pela verdadeira libertação das mulheres. Já são mais de 30 ocupações de mulheres realizadas para denunciar a violência machista e acolher as vítimas.

Matéria publicada na edição impressa nº320 do jornal A Verdade