A primeira edição do jornal A Verdade foi lançada em dezembro de 1999, com a manchete “FHC: o professor que virou um grande fazendeiro”. Foram 1.500 exemplares que circularam em cinco estados. Desde então, as ideias defendidas por A Verdade vêm obtendo cada vez mais apoio. O número de leitores cresceu a cada mês e hoje o jornal circula em 20 estados. A tiragem foi crescendo ano a ano e atingiu, em abril, 18.500 exemplares.
Este crescimento permitiu que, após 22 anos, o jornal A Verdade passasse a ser quinzenal. A partir de agora, serão duas edições por mês.
E há mais novidades: A Verdade ganhou um novo projeto gráfico e seu site www.averdade.org.br, após sofrer ataques dos inimigos da democracia, tem novo visual para facilitar a leitura. Em junho, terá ainda um aplicativo para baixar no celular.
Pode parecer pouco para alguns. Mas não é. Enquanto jornais da burguesia deixam de circular e passam a existir somente na internet, A Verdade lança agora duas edições impressas por mês no Brasil. Ademais, A Verdade é um jornal a serviço da classe explorada e oprimida, a imensa classe operária, as massas trabalhadoras. Suas páginas não são vendidas às grandes corporações internacionais e nacionais nem defendem os interesses do capital financeiro, das mineradoras ou do agronegócio. É um jornal dos trabalhadores que luta pela emancipação dos pobres, pelos direitos das mulheres, pela justiça social, democracia popular e socialismo.
Ergue sua voz contra o racismo e em defesa dos povos indígenas e denuncia todos os crimes cometidos pelo Estado burguês. Os princípios de A Verdade são baseados no marxismo-leninismo, no fim da exploração de classes, na solidariedade e fraternidade entre os irmãos trabalhadores e os povos de todo o mundo.
A Verdade é um jornal que se sente honrado em desafiar e lutar contra os poderosos interesses da classe capitalista e pelo fim da escravidão assalariada. É um jornal socialista no seu conteúdo e na sua forma, pois é feito com base na cooperação de centenas de companheiros e companheiras. Leva à prática os princípios definidos pelo grande revolucionário e criador do socialismo científico, Karl Marx: “A função da imprensa é ser o denunciador incansável dos opressores. (…) O dever da imprensa é tomar a palavra em favor dos oprimidos a sua volta. O primeiro dever da imprensa é minar todas as bases do sistema político existente”.
Mas a vitória de A Verdade se transformar num jornal quinzenal não caiu do céu. Foi fruto de um trabalho coletivo e planejado. Um importante Ativo Nacional de Agitação e Propaganda foi realizado no mês passado com dezenas de militantes, além dos ativos estaduais que se seguiram. Semanalmente, a Redação Nacional se reúne, debate as matérias, distribui entre os editores e prepara a próxima edição.
Como tem apoio entusiasta de seus leitores, A Verdade conta ainda com diversos colaboradores que escrevem textos e mandam fotos. Além disso, A Verdade dispõe de centenas de brigadistas, militantes do PCR, da UP e dos movimentos sociais que garantem que ele chegue às mãos do povo.
A Verdade quinzenal é uma vitória da imprensa popular e socialista, uma vitória de todos que nessa caminhada trabalharam para que este sonho se tornasse realidade, uma vitória principalmente para os oprimidos e explorados que terão um jornal ainda mais incansável na denúncia dos opressores, sempre erguendo a bandeira da revolução e do socialismo.
Com A Verdade quinzenal, semearemos mais e organizaremos mais operários e operárias no exército que construirá uma nova sociedade, na qual não haverá pobreza, nem corrupção, fascismo ou exploração. Apesar do fascista e dos generais, A Verdade quinzenal triunfou. Avante, camaradas!
Trabalhadores na audiência de julgamento do registro da UP no TSE, em outubro de 2019 – Foto: Jorge Ferreira / Jornal a Verdade
Jorge Ferreira
Era manhã de uma quinta-feira de outubro de 2019 quando os servidores do Tribunal Superior Eleitoral tiveram que lidar com com uma situação incomum: algumas dezenas de trabalhadores desejavam assistir uma audiência de julgamento. A lotação do plenário com cerca de duzentas confortáveis cadeiras não era o problema, mas os visitantes não estavam com “vestimentas adequadas” que os permitisse estar diante dos ministros.
Naquele dia, homens e mulheres que diariamente acordam cedo e utilizam transporte público lotado para trabalhar, que pegam no pesado para sobreviver, colocaram suas melhores roupas, seus melhores sapatos, alguns cortaram o cabelo, outros usaram o melhor perfume. Era dia de festa. Após dois longos anos e um milhão e duzentas mil assinaturas recolhidas nos trens, nos bairros populares, nas portas de fábrica, e, apesar das dificuldades, registradas em cartórios de vários estados em todas as regiões do país, havia chegado o dia que iniciaria o julgamento do registro da Unidade Popular pelo Socialismo na mais alta corte eleitoral do Brasil.
Com a emoção transbordando em sorrisos largos, representando todos aqueles abnegados trabalhadores que entregaram suas poucas horas livres para cumprir a tarefa histórica de constituir o partido dos pobres, do povo trabalhador, entraram no prédio do TSE para assistir a audiência que reconheceria a legitimidade de todo o processo. Entretanto, a poucos metros do plenário principal do Tribunal, a chefe dos seguranças alerta que não será possível que os visitantes adentrem no local por não estarem vestidos adequadamente. “Onde está escrito isso?”, foi o primeiro questionamento do advogado Thiago Santos.
Thiago Santo, advogado da Unidade Popular, intervindo para garantir o acesso dos trabalhadores ao plenário – Foto Jorge Ferreira / Jornal a Verdade
Daí em diante iniciou-se uma luta contra o tempo. Há poucos minutos de iniciar o julgamento, nem mesmo o presidente do partido, Leonardo Péricles, morador de ocupação, havia conseguido entrar no plenário justamente por estar somente com camisa social, mas sem terno e gravata. “Veja bem, argumentava Thiago Santos, essas pessoas estão justamente com suas melhores roupas, não há ninguém vestido de forma inadequada”. As mulheres que estavam de calça jeans, ao ver o tempo passando e a recusa da chefe dos seguranças, começaram a improvisar saias com cachecóis. Os homens já não mostravam os dentes, uma pequena angústia tomava conta.
Em meio ao embate jurídico da legalidade da exigência de terno e gravata entre o advogado do partido e os servidores, alguns seguranças sensibilizados prometeram irem até o vestiário verificar se tinham terno reserva para emprestarem ao visitantes, mas já alertaram que não haveria para todos. Pouco antes de iniciar a sessão, o advogado do partido conseguiu que a questão fosse levada até a presidente da Casa, à época ministra Rosa Weber. Alguns instantes antes de iniciar o julgamento a entrada foi autorizada.
Foto Jorge Ferreira / Jornal a Verdade
Nesse dia, o procurador eleitoral Humberto Jacques apresentou parecer favorável, e o relator do processo, ministro Jorge Mussi, proferiu votou favorável ao registro alegando que “não poderia ser diferente, já que o partido cumpriu todas as exigências normativas”, entretanto o julgamento foi suspenso por um pedido de vista de um dos ministros, só sendo retomado, aprovado e registrado em dezembro do mesmo ano.
Mas foi exatamente naquele dia, 24 de outubro de 2019, que pela primeira vez o plenário do Superior Tribunal Eleitoral foi ocupado por pessoas sem terno e que, como retrata um grande filme, também não usam “Black Tie”.
Talvez tenha sido duro para os ministros da burguesia olharem de frente homens e mulheres que vivem do próprio suor. Para a Unidade Popular foi um dia histórico, mais um capítulo da emocionante luta pela libertação de milhões de trabalhadores brasileiros.
Fazia frio na tarde dessa quarta-feira, dia 12 de agosto, quando Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) organizou na cidade de São Bernardo do Campo um ato contra os despejos de famílias pobres durante a pandemia e em defesa do direito à moradia digna. O ato fez parte de uma agenda nacional de mobilizações que levou às ruas centenas de famílias, em diversas cidades brasileiras, levantando a bandeira do Despejo Zero, uma campanha nacional que unifica movimentos sociais e outros apoiadores na luta pelo fim dos despejos durante a crise da Covid-19.
A manifestação reuniu famílias de vários bairros de São Bernardo do Campo, cidade que sofre com uma política sistemática de despejos por parte do Prefeito Orlando Morando (PSDB), de Diadema, Santo André, Mauá, Francisco Morato, São Matheus e de várias regiões da Capital, além de outros movimentos que se somaram à essa luta, como o Projeto Meninos e Meninas de Rua (PMMR), o Coletivo Democracia Corinthiana, a Torcida Guerreiros do Tigre do São Bernardo F.C., o Movimento de Mulheres Olga Benário, etc. Para Gabriela Mousse, da Democracia Corinthiana: “Eles agem assim [despejos e repressão ao povo pobre] porque se sentem livres para fazer o que querem, não há motivo nenhum para ações desse tipo. Claro, o governo já é fascista e tá rolando uma pandemia, para eles fica mais fácil, por isso temos que ocupar as ruas com mais frequência”.
Foto: Manuelle Coelho / Jornal a Verdade
Alguns trabalhadores vieram de longe, é o caso de Cirilo Conceição, que viajou cerca de 80 quilômetros para poder participar do ato: “Sou de Francisco Morato, uma cidade abandonada pelos governantes. Governantes corruptos e omissos que permitiram que meu filho viesse a falecer. Quem me apoiou não foi nenhum governante, foi o povo, foi o MLB. Convidamos vocês a abraçarem essa causa porque essa é a causa de todos nós trabalhadores, estudantes, que pagamos aluguel, que somos despejados. O governo é o culpado disso, o governo não tá nem aí pra nós, eles querem é matar nossos filhos. Eles abandonam nossos bairros, na minha rua um carro não foi capaz de entrar pra prestar socorro ao meu filho. Eu abracei e vou continuar abraçando o MLB, essa ferramenta dos trabalhadores para lutar por uma moradia digna”.
Foto: Jorge Ferreira / Jornal a Verdade
A marcha, que contou com mais de cem pessoas, ocorreu no fim da tarde e foi da Igreja Matriz, no centro da cidade, até o Paço Municipal, em uma caminhada pacífica de mais de uma hora, mantendo o distanciamento social, o uso de máscaras e todos os cuidados relativos à pandemia da Covid-19 e sem qualquer tipo de conflito, sendo inclusive apoiada pela maior parte da população que transitava pela cidade, de carro, de ônibus ou a pé. Segundo Daniela, que constrói o MLB no bairro Detroit, em São Bernardo: “Essa manifestação é muito importante, estou aqui não só por mim, mas pelas minhas filhas e pela minha comunidade. Aprendi com o MLB que nós precisamos lutar, assim como fizeram os escravos, que se revoltaram e hoje são libertos. Mas ainda existe uma escravidão pra gente vencer e por isso estamos na luta”.
A organização do ato realizou um acordo com a Guarda Civil Municipal (GCM) e com a Polícia Militar, para que a manifestação fosse encerrada no Paço Municipal com uma assembleia das famílias que cobravam o seus direitos. No entanto assim que os primeiros militantes do movimento entraram no Paço, carregando uma faixa com os dizeres “Despejo Zero, Morar é um Direito”, a GCM descumpriu o acordo e atacou covardemente três Coordenadoras do MLB que carregavam a faixa, desferindo empurrões, socos e utilizando spray de pimenta sobre as mulheres; rapidamente um conjunto de famílias se aproximou, afastou os políciais e organizou um cordão de isolamento para impedir novas agressões.
Ao todo foram mobilizadas cerca de 30 viaturas entre GCM e Polícia Militar com o objetivo de impedir a continuação do ato através de uma ação agressiva e completamente desproporcional, descumprindo um acordo feito minutos antes, alegando que o movimento estava proibido de adentrar o Paço Municipal carregando qualquer tipo de bandeira ou faixa e demonstrando o caráter repressivo do Estado contra os trabalhadores, os pobres e os lutadores sociais que cada dia fica mais intenso no Brasil. As famílias conseguiram assegurar o direito de realizar sua assembleia no local e em alguns minutos de diálogo e de muita agitação política contra as injustiças do sistema capitalista, o sistema dos ricos que durante a pandemia promove o crescimento do patrimônio dos bilionários exploradores e o empobrecimento geral daqueles que vivem do próprio trabalho, decidiram encerrar a manifestação, prometendo que voltarão às suas cidades e bairros e organizarão ainda mais pessoas para lutar pela Reforma Urbana e pelo Socialismo. Segundo Thais Gasparini, uma das Coordenadoras Estaduais do MLB agredidas pela GCM: “Essa repressão, esse uso da violência para calar quem se manifesta é um espelho do que acontece na periferia, em que essa mesma GCM é utilizada pra derrubar as casas do povo pobre. Isso precisa acabar, por isso nos manteremos firmes na luta, cada dia maiores, combatendo a exploração, a especulação imobiliária e a política dos ricos, dos latifundiários e dos banqueiros”.
Para Arnor, membro do MLB do bairro do Divinéia, em São Bernardo: “O ato foi muito bom, muito bonito, temos que seguir lutando. Já precisamos marcar a próxima passeata”.
No capitalismo, as guerras são fruto da concorrência entre as classes dominantes de diferentes nações pelo domínio do planeta. Na Primeira Guerra Mundial, formaram-se dois blocos imperialistas opostos: Tríplice Aliança (Impérios Alemão, Austro-Húngaro e Turco-Otomano) e a Tríplice Entente (Impérios Inglês, Francês e Russo).
O sol nasce vermelho
Algo novo, entretanto, surgiu durante a Primeira Guerra Mundial: a revolução socialista de outubro de 1917, na Rússia; nova cisão ocorria no mundo, agora dividido em dois sistemas adversos: o capitalismo e o socialismo.
Os dois blocos capitalistas passaram a ter um objetivo comum: a destruição do primeiro Estado operário-camponês da história, em vista da restauração do capitalismo em escala global. Foi com este propósito que o bloco vencedor investiu na economia alemã 15 bilhões de marcos em seis anos (1924-1929).
Quando o nazismo se apossa da Alemanha e explicita seu intento de domínio mundial, as potências capitalistas dominantes não tratam de combatê-lo. Ao contrário, fecham os olhos às suas agressões e até incentivam o monstro nazista a direcionar seu ataque contra a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
Em 1939, a URSS propôs à Inglaterra e França um pacto para ações militares conjuntas se os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), bloco nazifascista, iniciassem a guerra na Europa. Não houve rejeição formal, mas nenhum passo foi dado por parte dos países capitalistas para concretizar o pacto. Ao contrário, França e Inglaterra firmaram com Alemanha e Japão acordos de não-agressão. Deixada sozinha, em agosto de 1939, a URSS assinou com a Alemanha um tratado de não-agressão. Os dirigentes sabiam que, mais cedo ou mais, tarde Hitler romperia o acordo, mas conseguiram ganhar um tempo valioso para transferir parte de suas indústrias para o leste do grande território soviético, bem como reforçar sua capacidade de defesa militar.
De 1938 a 1941, Hitler ocupou Áustria, Checoslováquia, Polônia, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Noruega, Grécia, Iugoslávia e finalmente a própria França. Na Europa central e oriental, a Alemanha adquiriu imensa quantidade de material de combate, meios de transporte, matérias-primas, materiais estratégicos e força de trabalho, tornando-se forte o suficiente para atacar a URSS.
Hitler, no livro MeinKampf(Minha Luta), proclamou: “…tratando-se de obter novos territórios na Europa, deve-se adquiri-los principalmente à custa da Rússia”.
A invasão hitlerista foi impiedosa. “Fuzilavam em massa as pessoas (mulheres, crianças, idosos, montavam campos de morte, deportavam para trabalho forçado na Alemanha. Por onde passavam, não deixavam pedra sobre pedra”. Era a política do extermínio. “Eu tenho o direito de destruir milhões de homens de raça inferior que se multiplicam como vermes” (Hitler).
Em resposta, o governo, o Partido Bolchevique e o povo soviético lançaram a palavra de ordem: “Morte aos invasores fascistas, tudo para a frente! Tudo para a vitória!”. Às fileiras do Exército Vermelho se integraram milhões de homens. Criaram-se também inúmeros regimentos de milícia popular, contando com dois milhões de combatentes.
Formou-se ainda na retaguarda uma força guerrilheira massiva. A dedicação e bravura do povo soviético comoveram o mundo e foram decisivas para quebrar a resistência capitalista (EUA, Inglaterra, França). Formou-se finalmente o bloco aliado, antifascista, a frente única dos povos pela democracia.
Caíra por terra a ideia de Hitler de que a ocupação da URSS seria um passeio uma “guerra relâmpago”. Os nazistas não imaginavam a resistência que encontrariam nas principais cidades: Leningrado, Stalingrado, Kiev e Moscou, entre tantas. Homens, mulheres, idosos e crianças se ergueram como muralha inexpugnável.
Os feitos do povo soviético repercutiram no mundo inteiro, levando um jornal burguês como o STAR, de Washington, a publicar: “Os sucessos da Rússia na luta contra a Alemanha hitleriana revestem-se de grande importância não só para Moscou e o povo russo, como também para Washington, para o futuro dos Estados Unidos. A história renderá homenagens aos russos por terem suspendido a guerra relâmpago, pondo em fuga o adversário”.
Em junho de 1942, os invasores avançam, mas encontram uma barreira instransponível em Stalingrado. Durante sete meses de combate, os invasores perderam 700.000 soldados e oficiais, mais de mil tanques, dois mil canhões e morteiros, 1.400 aviões. Os invasores eram tecnicamente superiores, mas, em novembro de 1942, os números já se invertiam em favor dos soviéticos. Os alemães estavam com 6.200.000 soldados, os soviéticos com 6.600.000; 5.000 tanques invasores contra 7.000 soviéticos; 51.000 peças e morteiros contra 77.000.
Na derrota do Stalingrado, os nazistas perderam 1,5 milhões de soldados e oficiais. “… Do ponto de vista moral, a catástrofe que o exército alemão sofreu nos acessos de Stalingrado teve um efeito sob o peso do qual ele não pôde mais reerguer-se”. (A segunda guerra mundial, B.Lideel Hart)
Depois, ocorreu a vitória do Cáucaso e se iniciou processo de expulsão em massa dos ocupantes nazistas. “A União Soviética pode orgulhar-se das suas heroicas vitórias”, escreveu o presidente dos EUA, Franklin Roosevelt, acrescentando: “…os russos matam mais soldados inimigos e destroem mais armamentos do que os outros 25 estados das Nações Unidas no conjunto”.
O final de 1943 marca a virada na frente soviética e na Segunda Guerra em geral. O movimento contra o nazifascismo se consolidou e se ampliou em todo o planeta.
Em junho de 1944, com o exército alemão batido em todas as regiões da URSS, as tropas anglo-americanas desembarcaram no Norte da França, dando início à frente ocidental proposta pelo governo soviético desde o início da invasão.
Pode-se dizer que a essa altura a guerra estava decidida, diante da derrota alemã na Rússia. O próprio Winston Churchil, primeiro-ministro britânico, reconhece o papel fundamental dos soviéticos, no discurso pronunciado na Câmara dos Comuns, em julho de 1944: “….Considero meu dever reconhecer que a Rússia mobiliza e bate forças muitíssimas maiores que as enfrentadas pelos aliados no Ocidente, que, há longos anos, ao preço de imensas perdas, ela suporta o principal fardo da luta em terra”.
Um exército libertador
Apesar de imensas perdas, o Exército Vermelho avançou no encalço dos alemães pela Europa Oriental adentro, fustigando os nazistas e auxiliando as forças populares da resistência a derrotarem os ocupantes e seus colaboradores internos. Repúblicas democrático-populares foram instaladas com os partidos comunistas à frente na Polônia, Hungria, Iugoslávia, Checoslováquia, Romênia e Bulgária.
“Para Berlim!” era a palavra de ordem do exército libertador. Não foi um passeio. A resistência nazista, embora enfraquecida, produzia encarniçados e sangrentos combates. Os russos vitoriosos não mataram, não pilharam, não se vingaram dos crimes cometidos pelo exército alemão no solo soviético. Ao contrário, alimentaram os famintos, organizaram a assistência médica, o funcionamento dos transportes, a distribuição de água e de energia elétrica. A 2 de maio de 1945, o Comando Supremo alemão assinou o ato de capitulação incondicional das forças armadas, com a bandeira da URSS tremulando no alto do parlamento alemão, em Berlim. No dia 09 de maio, houve um imenso ato em Moscou em comemoração ao fim da Grande Guerra Patriótica (como os soviéticos denominaram sua participação na Segunda Guerra Mundial) e, desde então, até hoje, celebra-se na Rússia esta data como o Dia da Vitória.
Sob novos céus
Terminada a guerra na Europa, era preciso voltar-se para a Ásia. O Japão, aliado dos nazistas dominava milhões de pessoas na China, na Coreia, nas Filipinas. Apesar de as forças armadas dos EUA e da Inglaterra virem imprimindo sucessivas derrotas, as forças japonesas ainda eram numerosas e fortes. De vez em quando, elas atacavam as fronteiras da URSS e torpedeavam navios soviéticos em alto-mar.
No dia 8 de agosto de 1945, a União Soviética declarou guerra ao Japão e começou a ofensiva. Nesse mesmo dia, o primeiro-ministro japonês, Teiichi Suzuki afirmou: “…A entrada da URSS na guerra hoje de manhã põe-nos definitivamente numa situação sem saída e torna impossível continuar a guerra” . Estava certo. No final do mês, o Exército nipônico havia perdido 677 mil soldados e oficiais: 84 mil mortos e 593 mil prisioneiros.
Ao contrário do que muitos pensam, e a historiografia burguesa busca difundir, não foram as bombas estadunidenses lançadas no início de agosto contra Hiroshima e Nagasaki que provocaram a capitulação japonesa. A guerra continuou normalmente depois do ataque bárbaro e covarde. A rendição resultou do destroçamento do exército nipônico pelas tropas soviéticas.
Se alguém duvida, leia o testemunho do general Chenault, que chefiou as forças dos EUA na China: “…A entrada da URSS na guerra contra o Japão foi o fator decisivo para o fim da guerra no Pacífico, o que sucederia mesmo sem o emprego de bombas atômicas. O rápido golpe desferido pelo Exército Vermelho sobre o Japão fechou o cerco que pôs finalmente o Japão de joelhos”.
O Exército Vermelho contribuiu ainda para a expulsão dos nazistas da China e da Coreia. O sacrifício do povo soviético foi inestimável. Mas valeu a pena porque livrou a Humanidade da besta nazista. Foi também a vitória do socialismo que saiu da Segunda Guerra triunfante em toda a Europa Oriental e na China.
Por todos, valeu a carta de agradecimento enviada pelo povo coreano a Josef Stalin, comandante supremo das forças soviéticas: “… Os combatentes soviéticos chegaram não como conquistadores, mas como libertadores. Emancipada da escravidão, a nossa pátria respirou livremente. O céu apareceu-nos radioso. A nossa terra floresceu. Jorraram canções de liberdade e felicidade…”.
José Levino, historiador
Fonte de pesquisa: O Grande Feito do Povo Soviético e do Seu Exército. VassiliRiábov, Edições Progresso, Moscou,1983.
Enquanto milhões de brasileiros estão em isolamento ou distanciamento social devido à pandemia da Covid-19, o capitão reformado Jair Bolsonaro e seus puxa-sacos vivem um imenso isolamento político. A reprovação a seu governo já alcança quase 70%, suas Medidas Provisórias, sem apoio, caducam no Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que não é função do presidente desrespeitar governadores e prefeitos. Nos embates que travou com o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, ficou em minoria nas reuniões do seu Ministério. Teve que levar um de seus filhos para dentro do Palácio Planalto para poder conseguir ouvir diariamente: “Pai, você é o rei”.
E os fatos mostram uma dura realidade: após quase um ano e meio no governo, o capitão reformado, apesar de controlar um Orçamento Federal de R$ 4 trilhões, não construiu nenhum hospital público nem universidade. Tampouco ampliou o acesso da população ao saneamento ou construiu casas populares. O desemprego e o número de famílias vivendo na extrema pobreza cresceram enormemente no seu desgoverno. Usou todo o dinheiro público para enriquecer os especuladores, os banqueiros e permitir a remessa de bilhões de dólares do Brasil para os EUA.
O povo brasileiro, vendo que o capitão reformado é incompetente, antidemocrático e totalmente subserviente ao EUA, passou a reprovar seu governo em todas as regiões. Segundo o Instituto Datafolha, 17% de seus eleitores se arrependeram de ter votado nele.
Diante dessa crescente rejeição da população, o capitão reformado e seus filhos resolveram apelar para a velha política: recorrer às Forças Armadas, em particular ao Exército, para impor um regime ditatorial no país.
Assim, foram marcadas as carreatas e atos para o dia 19 de abril, dia que é considerado Dia do Exército. O Exército, seu comandante geral e o Alto Comando sabiam do ato e deram total permissão para que Bolsonaro e seus puxa-sacos o realizassem com dezenas de faixas encomendadas e com dezenas de assessores de deputados e de pessoas que ocupam cargos de confiança no governo, os conhecidos “aspones”.
No entanto, os atos foram um fracasso. Em São Paulo, dezenas de carros luxuosos, acompanhados de várias motos, algumas delas que custam mais de R$ 50 mil reais, foram verdadeiramente “ovacionadas”, isto é, receberam ovos e tomates dos prédios por onde passavam. Em Brasília, apenas algumas centenas de pessoas atenderam ao chamado de Bolsonaro e, se retirarmos os assessores da conta, fica uma ridícula minoria. Pior: após o ato, nove pessoas deram entrada em hospitais de Brasília com suspeita de Covid-19.
Pois bem, com o repúdio nacional à fala de Bolsonaro em frente ao Quartel General do Exército em Brasília, os generais passaram a dizer em off a jornalistas que não concordavam com aquele discurso defendendo um golpe militar e a volta do AI-5 e pediram ao capitão para “baixar o tom”. Na manhã desta segunda-feira, 20 de abril, um irritado e nervoso presidente, com suas mãos trêmulas (lembrando Hitler no filme A Queda), tentou desdizer o que tinha dito. Mas, revelando sua natureza fascista, parafraseou o rei Luís XIV, e declarou: “Eu sou a Constituição”.
Os fascistas e a grande a burguesia nacional e internacional olham a história do Brasil, observam os inúmeros golpes militares que aconteceram e acham que é fácil dar um golpe militar em nosso país e impor a censura à imprensa, torturar os que discordam, assassinar e esconder os corpos dos patriotas e democratas ou jogá-los no mar. Pensam que assim terão a paz dos cemitérios dizendo que o “Brasil vai pra frente, ame-o ou deixe-o” e que a ditadura militar é o melhor regime para governar um povo rebelde, como é o brasileiro.
Mas, senhores e senhoras fascistas, ensina a filosofia dialética que, se houve tantos golpes militares assim no Brasil é porque nenhum conseguiu se manter eternamente. Ou melhor, todos foram derrotados nas ruas pelos trabalhadores, pelas mulheres, pelos jovens, pelo povo brasileiro. Duvidam? Então terão que ouvir novamente nosso povo nas ruas desfilando e cantando: “Amanhã vai ser outro dia!” ou “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta!”.
Passeata em São Paulo contra a Reforma da Previdência. Foto: A Verdade
Por Wanderson Pinheiro e Leonardo Péricles
1 – O Brasil e a questão internacional
O chamado neoliberalismo se aprofundou no Brasil nos anos 1990, primeiro no Governo Collor e depois durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso. Na verdade, tratou-se de uma maior submissão das economias nacionais com abertura dos mercados, iniciada no Chile e na Argentina, diante de um crescimento da exportação de capitais e maior domínio do capital financeiro internacional sobre as economias nacionais latino-americanas. Foi um período de ampla hegemonia dos EUA, encoberto sob o discurso da globalização.
A queda brusca dos impostos de importação e exportação, o fim do controle de capital e a isenção de impostos para a sua movimentação, a adoção de uma política cambial ancorada no dólar, o achatamento salarial dos trabalhadores e a privatização das principais empresas estatais foram as medidas centrais que tiveram consequências estruturais perversas para a economia nacional.
No entanto, o que se desenvolve de fato são as características do imperialismo capitalista, com o aprofundamento da financeirização do capital monopolista e uma gigantesca exportação de capitais por diversas vias. O capital se expande permanentemente, destruindo as economias nacionais, promovendo o desemprego e a redução salarial, para extrair mais-valia extraordinária e, assim, buscar manter sua taxa de lucro. Neste sentido, falar apenas contra o neoliberalismo e aceitar o capitalismo é propor aceitar a exploração dos trabalhadores, a manutenção da escravidão assalariada e sua expressão política, a democracia burguesa.
Além da política neoliberal praticada pelo imperialismo dos EUA, sofremos uma ação neocolonialista brutal, com a “elite nacional” sendo subornada e praticando a corrupção. Este fato foi evidenciado no processo de privatização, tendo boa parte dos recursos sido desviada para o “caixa 2” das campanhas eleitorais de 1998, mantendo FHC no governo.
Outro objeto de controle da nação foi a dívida pública. Com o aumento dos juros para conter a inflação, os novos financiamentos recebidos do FMI aumentaram em muito as dívidas externa e interna, ampliando a dependência do Brasil ao capital financeiro dos EUA. A abertura financeira ocasionou ainda o aumento da dívida interna, pois era extremamente favorável para o capital financeiro especular com a alta de juros (a taxa Selic atingiu 45,67% ao ano, em 1997), com controle do câmbio e livre movimentação de capitais.
Resumindo: ocorria uma espoliação financeira terrível devido à política de total submissão às ordens do dito “Consenso de Washington” praticada pelo governo brasileiro.
Essa abertura gerou também a quebra de milhares de empresas nacionais. As pequenas e médias empresas foram as mais atingidas, mas também grandes empresas foram à falência, iniciando o processo de desindustrialização nacional. Porém, um setor com maior acúmulo de capital, a grande burguesia interna, que fez o acordo com a burguesia estadunidense, teve lucros crescentes e caminhou para expandir seus negócios para o exterior. Setores como o do agronegócio, da construção civil e dos frigoríficos, tornaram-se grandes empresas internacionais e, a partir desse acordo, passaram a expandir-se para a região do Mercosul.
Outros setores foram se associando ao capital estrangeiro, seja na aquisição das importantes empresas estatais que foram privatizadas (setores de minério, siderúrgico, energia, etc.) ou de indústrias e serviços privados para o investimento dos capitais internacionais. Tornaram-se, assim, um setor submisso ao capital internacional e aos ditames da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Entre os anos de 2003 a 2010, vivenciamos o Governo Lula e, de 2011 a meados de 2016, o Governo Dilma. Foi um período de hegemonia petista, considerado por alguns como desenvolvimentista ou neodesenvolvimentista, mas teve como base a diversificação da dependência nacional, principalmente em relação ao crescimento das exportações para a China, pautado também pelo investimento público feito nas empresas públicas e privadas, e pela ampliação do consumo da população com base numa grande oferta de crédito.
Esse processo de consumo levou a um relativo desenvolvimento da indústria naval, da construção civil, do agronegócio e da pecuária, propiciando o crescimento do lucro da grande burguesia e do capital financeiro. Porém, sendo um desenvolvimento com base no crescente endividamento e submetido aos interesses da grande burguesia nacional e mundial, terminou por esgotar-se com o aprofundamento da crise do capitalismo mundial.
Na verdade, o governo praticou uma política neodesenvolvimentista, mas manteve a hegemonia do capital financeiro, aprovando leis em seu benefício, como a lei de garantia de empréstimos com descontos em folha. A “Carta aos Brasileiros”, no início do primeiro mandato de Lula, foi, no fundamental, uma mensagem ao mercado financeiro internacional em que o presidente se comprometia a manter todos os acordos anteriores, não mexer no processo das privatizações, manter o controle da inflação, garantir o pagamento da dívida pública com altos juros e ampliar seus benefícios. Isso significou, na prática, a manutenção da política neoliberal.
Além de não ter revogado nenhuma das corruptas privatizações do Governo FHC, o PT realizou novas: privatizou portos, aeroportos e rodovias, além de fazer leilões de campos de petróleo para empresas estrangeiras. Porém, com o pré-sal (considerado o bilhete premiado), alterou o regime de exploração, mantendo os leilões em outros termos. Assim, a Petrobras foi um poderoso instrumento para desenvolver a política neodesenvolvimentista, promovendo investimentos em refinarias e alavancando a indústria naval brasileira e a construção civil. No entanto, o PT não reverteu a abertura de capital da Petrobras e esta permaneceu influenciada pesadamente pelos acionistas internacionais e pelo mercado.
A crise da era petista se iniciou em 2014, no final do primeiro Governo Dilma. A crise econômica chegou ao Brasil e ficou evidente que a política neodesenvolvimentista não conseguiu resolver os problemas estruturais do país, principalmente por não suspender o pagamento dos juros da dívida pública e manter a espoliação do capital financeiro e a dependência em relação ao agronegócio. Por outro lado, a relação com a China, que trouxe a ampliação da venda de commodities a níveis altos e a abertura para importação de produtos de toda ordem, gerou uma maior desindustrialização e dependência do setor externo. Essa troca desigual trouxe enormes benefícios para a grande burguesia do agronegócio, da mineração, da pecuária, da construção civil, etc., mas, como sempre, bastou uma oscilação do mercado internacional para tudo ir abaixo.
Realmente, a crise mundial se aprofundou com reduções seguidas de crescimento da economia chinesa. A China, mesmo possuindo enormes monopólios e rivalizando o comércio internacional com os EUA, não ficou de fora da nova crise de superprodução relativa que dificultou a realização de seu capital mundialmente. É importante notar que essa crise e a disputa de mercados continuam a se desenvolver, ameaçando agora entrar num período mais profundo, como afirmou recentemente a OMC. Sem ter como exportar mais mercadorias e com o superacúmulo de capital, a China avança a financeirização da sua economia.
Vejamos o que se sucedeu de 2007 a 2015. A China chegou a crescer 13%, em 2007, e o mercado de commodities brasileiro teve uma alta considerável. Em 2010, a China teve mais uma queda no seu PIB para 10,4%. Em 2015, relatório do FMI dizia que a China diminuiria o crescimento para 6,8%, a menor taxa anual do país dos últimos 25 anos. A queda da economia brasileira foi quase automática. Dilma Rousseff, que tomou posse para o segundo mandato no dia 1º de janeiro de 2015, permaneceu no posto apenas um ano e meio.
A crise ocasionada pela redução da produção da China fez cair enormemente o preço das commodities e reduziu os lucros da grande burguesia. Sendo pragmática, a burguesia, que há pouco havia colocado o gorro “comunista” na cabeça para adular o imperialismo chinês, pulou do barco e abandonou Dilma, definitivamente afastada do cargo em agosto de 2016.
O impeachment de Dilma teve ainda um elemento geopolítico. Os EUA usaram todo o seu poder para manter o país como sua área de influência, pois, mesmo sabendo que o PT atendia ao capital financeiro e pagava religiosamente a dívida pública, o avanço da crise do capitalismo mundial exigia ainda mais submissão. Vale salientar que a UP, ao mesmo tempo em que estava em processo de construção, esteve nas ruas lutando e denunciando este golpe.
Da mesma maneira, resistindo à quebra da sua hegemonia em nível internacional, os EUA lançaram o Tratado Transpacífico (TPP), que tinha como objetivo enfraquecer a China. Porém, após a eleição de Trump, os EUA se retiraram do TPP e adotaram como tática acordos bilaterais. Depois, abriram uma guerra comercial direta com a China, levantando barreiras às mercadorias chinesas, o que dura até hoje.
Assim, os EUA intervieram no Brasil com o objetivo de retirar o PT do governo para garantirem no poder um aliado subserviente. Financiaram e corromperam o judiciário brasileiro, apoiaram a fabricação da “Operação Lava-Jato”, que levou Lula à cadeia e promoveu a eleição de Bolsonaro. Da mesma maneira, os EUA disputam a Venezuela, com ações de bloqueio econômico e ameaça de invasão, e a Bolívia, onde promoveram um golpe fascista. Aparentemente, existe uma disputa entre forças reformistas liberais e o neoliberalismo fascista no continente, que tem como pano de fundo as disputas entre as duas propostas para conduzir o mundo capitalista.
Também era importante para os EUA ter o Brasil, principal país da América do Sul, como sua área de influência estratégica. Tendo como objetivo central na América Latina a derrubada do Governo Maduro e não obtendo sucesso pela via “pacífica”, intensificou o bloqueio econômico e buscou envolver o Brasil e a Colômbia numa aventura imperialista contra a Venezuela. Trata-se claramente de uma estratégia neocolonialista, que visa a usar tropas de outros países, mas mantendo o objetivo de conquista e ainda lucrando com a guerra.
A China é hoje a segunda potência econômica mundial e busca acumular forças na disputa pela hegemonia no planeta, fato que leva ao acirramento de contradições interimperialistas. Antes apenas exportadora de manufaturas, a China está alcançando o mais elevado grau de tecnologia, uma enorme acumulação de capital e intensificando a fase de exportação de capitais. No momento, essa exportação ocorre por meio do financiamento de infraestrutura nos países em desenvolvimento, investimentos financeiros, compra de títulos do Tesouro estadunidense, empréstimos e investimento direto.
O processo de exportação de capitais parece ser a ponte para uma defesa militar das áreas de influência econômica. Por isso, a China tem hoje o segundo maior gasto militar do planeta e já instala bases militares internacionais, sendo que a primeira foi estabelecida na África. Na América Latina, a China tem grandes investimentos, sendo o principal parceiro comercial de diversos países, inclusive do Brasil. Por isso, investem pesadamente em grandes porta-aviões, jatos, armas nucleares, e já superam os Estados Unidos em alguns aspectos tecnológicos.
Para termos uma noção, o país asiático investiu no Brasil, do ano de 2007 a 2018, US$ 57,9 bilhões em 145 projetos voltados principalmente para o setor de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica. Os investimentos, no último ano, foram especialmente diretos, sendo 50% realizados em empresas construídas a partir do zero. Mas 42% foram investimentos em fusões e aquisições. Segundo o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, a China está aumentando a abertura do setor financeiro, de serviços, da agricultura, mineração e manufatura. Estima-se que o investimento chinês no próximo ano ultrapasse os US$ 10 bilhões.
A China mantém os investimentos mesmo no Governo Bolsonaro e, embora reaja às declarações do filho dele de forma dura, o pragmatismo do capitalismo chinês projeta grandes investimentos nas áreas de a) energia, da ordem de R$ 24,7 bilhões em quatro projetos (hidroelétrica, termonuclear e transmissão); b) ferrovias, R$ 29,1 bilhões em quatro projetos (2.800 km); c) óleo e gás, R$ 117,5 bilhões em quatro projetos; d) portos, com R$ 5,9 bilhões em 16 projetos; e) aeroportos, R$ 2,1 bilhões em dois projetos.
Por outro lado, embora Trump afirme que apoia Bolsonaro e ambos troquem elogios ideológicos em público, os EUA não fazem nada do ponto de vista financeiro para apoiar o governo brasileiro. O investimento dos EUA no Brasil foi pequeno em 2019: o valor foi de US$ 2,2 bilhões, menor que o de 2017, quando o montante correspondeu a US$ 2,9 bilhões. Os compromissos firmados se restringiram a acordos antinacionais e militares, como a entrega da Base Espacial de Alcântara, no Maranhão, e um acordo que transforma o Brasil numa força auxiliar do Comando Sul dos EUA, tornando-se um aliado extrarregional da OTAN. Ou seja, um acordo militar subserviente, que coloca o Brasil como mais uma base de operação militar dos EUA na região.
Como vemos, Bolsonaro segue cegamente o imperialismo norte-americano, pois, como fascista que é, em um país de economia altamente dependente e submissa como é o Brasil, seguirá a linha fascista de Trump para apoiar-se internacionalmente no império dos EUA. Bolsonaro é um representante da grande burguesia[1] e dos militares fascistas, que se declaram abertamente submissos ao capital estadunidense, não possuindo sequer um verniz de nacionalismo.
2 – Desenvolver a consciência das massas populares, aumentar o isolamento de Bolsonaro e criar as condições para derrubar o governo
O 8 de março foi a última grande manifestação nacional antes da pandemia. Foto: A Verdade
Diante da crise do coronavírus e da projeção de uma crise econômica mais profunda nos próximos meses, setores da própria burguesia (como evidenciou editorial recente do Financial Times) falam que os governos devem ajudar a economia promovendo investimentos e renda para os mais pobres, ou seja, praticar uma política antiliberal para ajudar a cobrir os prejuízos da própria burguesia. Bolsonaro, no entanto, insiste em manter o arrocho salarial, cortar salário dos servidores e seguir a retirada de direitos a ferro e fogo. Assim, quer ser mais realista que o rei e promover a política neoliberal dos banqueiros e do capital financeiro estadunidense a todo custo.
Por tudo que fez desde o início do governo, como retirada de direitos dos trabalhadores, congelamento dos salários, desemprego e venda do patrimônio público, Bolsonaro tem um enorme desgaste, que tende a crescer com o aprofundamento da crise do coronavírus e a demissão de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde. As mortes que se multiplicam evidenciam que a retirada dos recursos públicos da saúde foi um crime de lesa-humanidade. Também a insistência de Bolsonaro contra o isolamento social e de que a Covid-19 é apenas um “resfriadinho” trarão consequências desastrosas para a população. Hoje já temos quase 70% da população contra esse governo.
Porém, não vivemos em uma democracia popular, em que a maioria do povo é que decide. Vivemos debaixo de um governo de fascistas que tem como principais ministros generais da ativa e da reserva. Também é um governo que representa os interesses da grande burguesia, que é uma ínfima minoria da sociedade e, por isso, teme o movimento operário e popular e tende ao fascismo, principalmente em momentos de crise.
Portanto, não devemos subestimar a possibilidade de o atual governo, sob o pretexto de o país viver uma calamidade pública, promover um golpe e decretar um estado de sítio. Para isso, os fascistas não precisam de apoio da maioria da população, basta contar com apoio das Forças Armadas e de uma parcela reduzida da população disposta a ir às ruas nos seus luxuosos carros. Lembremos ainda que o governo dos EUA, aliado de Bolsonaro, pratica uma política fascista que impulsiona correntes desta natureza na Europa e na América Latina.
Em almoço realizado na sede da FIESP, no último dia 03 de fevereiro, para os 250 maiores industriais de São Paulo, com a presença de Bolsonaro, o presidente da entidade, Paulo Skaf, afirmou que “O Brasil não está dando certo. O Brasil já deu certo”, declarando, assim, o apoio da grande burguesia ao fascista. Este apoio é firmado especialmente na política de Paulo Guedes, que promoveu a reforma trabalhista, a reforma da Previdência e dá continuidade, em meio à crise do coronavírus, a propostas como a Carteira de Trabalho Verde e Amarela e a retirada de direitos dos servidores públicos. Assim, o apoio ao fascista está condicionado à agenda de retirada de direitos que assegure a maior extração de mais-valia dos trabalhadores.
O fascista também tem o apoio da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), representada por João Martins, que também é parte da minoria dos exploradores e representa a grande burguesia agrária. Em setembro de 2019, momento em que Bolsonaro fez um ridículo discurso na ONU exaltando a ditadura militar de 1964, Martins afirmou que Bolsonaro o representou, fazendo excelente discurso: “Defendeu a soberania nacional, esclareceu equívocos sobre a Amazônia e ressaltou o importante papel do Brasil na produção mundial de alimentos e na preservação do meio ambiente. Também afastou a tese de que o governo está colocando o mundo contra o agro brasileiro, defendendo não apenas o setor, mas toda a nação”.
Vale lembrar que esse foi o momento em que a Amazônia estava em chamas e que o agronegócio foi um dos principais responsáveis por este crime contra a natureza. Mas vejamos que, apesar da reafirmação do apoio da grande burguesia, os meses vão se passando e fica evidente a cada dia que o governo Bolsonaro vem se enfraquecendo e perdendo apoio popular. Porém, será defendido para que fique no poder por essa minoria enquanto for útil para a grande burguesia.
Nesse momento, apresentam-se algumas propostas políticas para retirada de Bolsonaro da presidência. O impeachment é uma delas. No entanto, com um Congresso Nacional altamente reacionário e antipopular como o atual, a única forma de forçar o impeachment seria a realização de grandes manifestações nas ruas. Mas, no momento, devido ao crescimento do número de mortes pela Covid-19, esta possibilidade não é viável. Desse modo, apostar que um Congresso Nacional que aprova leis contra os trabalhadores vai aprovar o impeachment sem o povo nas ruas é ignorar o papel das massas na luta política e propagar ilusões parlamentaristas.
Outra proposta apresentada é apelar para que Bolsonaro, que faz planos para governar 20 anos, renuncie. É como pedir para o diabo virar anjo. Alguns desses setores chegam até mesmo a afirmar que o general Mourão seria um “mal menor”. Esse é o caso do governador do Maranhão, Flávio Dino, do PCdoB: “Claro que Mourão não é do meu campo ideológico. Mas, se Bolsonaro entregar o governo para ele, o Brasil chegará em 2022 em melhores condições”.
Trata-se de um ledo engano e demonstra uma gigantesca ilusão de classes, uma total traição ao povo e sua história. Mourão é um general, representante ainda mais direto dos interesses do setor ultraconservador e fascista das Forças Armadas. Como Bolsonaro, Mourão defende a tortura, tenta falsificar a história escondendo os crimes cometidos pelas Forças Armadas e pela grande burguesia durante a Ditadura Militar, sendo, portanto, um defensor do aumento da repressão contra o povo e a classe trabalhadora.
Dessa maneira, nossa tática de aprofundar o desgaste deste governo, manter e impulsionar a palavra de ordem “FORA BOLSONARO! POR UM GOVERNO POPULAR!” é, sem dúvida, a mais correta. Primeiro, porque é a palavra de ordem que está na boca do povo. Foi gritada por milhares de mulheres de todas as correntes políticas no 8 de março, sendo esta a última manifestação nacional contra o fascismo. Segundo, taticamente, no momento de avanço da pandemia do coronavírus em que nos encontramos, devemos ter como principal atuação a solidariedade aos trabalhadores e trabalhadoras para enfrentar essa barbárie nas periferias e denunciar o caráter antidemocrático e antipopular do governo. Terceiro, devemos ampliar os panelaços nas periferias, sendo esta uma forma de protesto importante, criada no fogo da batalha e capaz de desgastar o governo, dialogando com a consciência da classe trabalhadora, dizendo que o governo com sua política aumenta a fome e a miséria e só governa em prol da classe rica e dos EUA.
Assim, prepararemos o terreno para derrubar o Governo Bolsonaro pelas mãos do povo e fortaleceremos uma alternativa popular para o desfecho dessa crise, qual seja, a construção de um poder popular e do socialismo, única saída verdadeira para termos um país livre e independente. Da mesma forma, romperemos com as ilusões do reformismo e da pequena burguesia de que derrotarão o fascismo no âmbito institucional promovendo um impeachment ou mesmo pedindo, por favor, para que Bolsonaro renuncie.
3 – Derrotar o imperialismo capitalista é uma tarefa fundamental
Solidariedade internacionalista a Cuba e à Venezuela. Foto: G1
Precisamos ter a consciência de que enfrentamos o fascismo internacionalmente. Por isso, a classe trabalhadora, em nível mundial, é nossa principal aliada na luta contra os imperialismos e pelo socialismo. Não basta levantar a bandeira contra a política neoliberal e passar a defender o neodesenvolvimentismo, pois o capitalismo é brutal em todas suas formas e tem como único objetivo despejar a crise nas costas da classe trabalhadora.
O capitalismo desenvolvimentista não é alternativa ao neoliberalismo, pois ambos são exploradores da mais-valia dos trabalhadores. Nosso objetivo deve ser destruir o capitalismo, e não apenas a política neoliberal dos EUA. Os neodesenvolvimentistas cumprem o papel de abrir caminho ao fascismo e são a outra face da moeda do capitalismo.
Prova disso foi o que ocorreu na Segunda Guerra Mundial, quando os EUA e a Inglaterra, tidos como democratas naquele período, deixaram a chama nazifascista bater-se contra a pátria socialista, só dando apoio na Frente Oriental depois de perceberem que a URSS sairia vitoriosa, e com grande chance de que seriam também vítimas do nazismo.
Quem é socialista e comunista tem como principal obrigação defender a classe trabalhadora e defender seus interesses presentes e futuros. Portanto, devemos trabalhar em nível internacional para que a classe trabalhadora não seja levada a uma luta interimperialista, mas que lute por sua libertação, pois, como internacionalistas que somos, fazemos parte do mesmo exército do mundial do proletariado.
Os trabalhadores e o povo da Venezuela estão na linha de tiro do imperialismo estadunidense, portanto, nossa solidariedade aos venezuelanos e nossas ações principais devem ser no sentido de derrotar esse imperialismo fascista e expulsá-lo da América Latina. Apoiamos, como internacionalistas, a classe trabalhadora que luta contra o imperialismo, mas que também luta pelo socialismo. Defendemos que esta classe possa, no processo revolucionário em curso, tomar consciência e declarar o caráter socialista da revolução. Não podemos aceitar sermos instrumento nem do imperialismo dos EUA, nem do imperialismo chinês e russo, uma vez que estes investem financeiramente na Venezuela, visando a mantê-la como área de influência econômica e geopolítica, gerando, de fato, igual dependência e exploração para os trabalhadores.
A revolução socialista é a única forma de derrotar definitivamente o imperialismo e a exploração dos trabalhadores. Essa luta é a luta do presente, atual e estratégica para a classe trabalhadora. Quem pensa o contrário, não faz mais que defender a manutenção da exploração do homem ou considerar este objetivo algo utópico. Para que os trabalhadores possam decidir seu destino e sua autodeterminação é fundamental fazer uma revolução proletária.
Trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo, uni-vos!
Wanderson Pinheiro e Leonardo Péricles, membros do Diretório Nacional da Unidade Popular (UP)
[1] Apesar das visíveis disputas políticas de Bolsonaro com outros representantes da grande burguesia, como Dória e a Globo, no fundamental, não divergem quando se trata de aumentar a exploração sobre a classe trabalhadora e a retirada de direitos – como vimos no caso da Reforma da Previdência, da PEC dos Gastos e no Pagamento da Dívida Pública, dentre outras medidas antipopulares.
São Mateus tem colagem lembrando nomes e referências na luta do Povo Negro no Brasil e no Mundo
Foi realizado no bairro do Vila Flávia, São Mateus, Zona Leste de São Paulo, na semana do 20 de Novembro uma ação de colagem de nomes e referências negras na história da luta do povo negro e referências da periferia. Jovens do bairro espalharam nomes de homens e mulheres da luta antiracista como Luis Gama, Marielle Franco, Luisa Mahin, da luta anticapitalista como Angela Davis, Carlos Marighella, além de muitas referências como Emicida, Negotinho, Mano Brown, Mestre Moa, e homenagem a crianças mortas pelo Estado como a menina Ágatha Félix, de 8 anos, morta pela PM do RJ, e do menino Lucas Eduardo, de 14 anos, morto em Santo André pela PM de SP.
O mês de Novembro é um mês de agitação e propaganda sobre a luta do povo negro mas também de reforçar a importância da organização para enfrentar um sistema e um governo que tem aprovado medidas para aumentar o genocídio diretamente, autorizando ainda mais a impunidade da PM, ou indiretamente, privatizando o SUS, que atende em maior parte a população negra, precarizando o trabalho, feito em maior parte pela população negra. Esses e outros fatores que fortalecem ainda mais o racismo estrutural, ferramenta de submissão econômica e cultural do sistema capitalista. Para fazer frente de forma efetiva a quem nos mata e proteger nossa população e juventude negra de forma efetiva, precisamos lembrar nesse mês de Novembro de nos organizar em um movimento popular de porte nacional, mantida pelas forças e recursos do povo e movido pelos interesses da luta da classe trabalhadora no Brasil.
Lucas Nascimento Coordenador Nacional do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas / MLB SP
Durante a manhã dessa sexta-feira (22), Mauá, município do ABC paulista, amanheceu com os ônibus na garagem, e manifestações no terminal central: trabalhadores da Suzantur, transportadora turística privada responsável pelas linhas de ônibus da cidade, declararam greve contra a revogação contínua de direitos.
P. O.*, trabalhador da Suzantur e integrante do turno da tarde, alegou que a mobilização entre os trabalhadores começou quando um motorista não recebeu o depósito do vale salarial, benefício garantido pelo contrato. Contudo, esse fato foi apenas o estopim: os motoristas da Suzantur sofrem com a falta de pagamento dos salários, assédio moral, horas extras compulsórias e expedientes sem pausa para o banheiro no cumprimento das dezenas linhas que a cidade de Mauá possui.
Além da falta de pagamento de salários, recusa do depósito de benefícios, M. Q.*, trabalhador do turno da manhã, declarou ao Jornal A Verdade que as condições de trabalho pioram diante das jornadas extensas. “Cheguei a trabalhar durante vinte dias seguidos. Aqui não tem respeito”.
Apesar do posicionamento da empresa, que caracterizou a paralisação como “indevida”, a greve foi vitoriosa, e garantiu que o depósito do vale salarial ocorresse. Os ônibus voltaram a circular a partir das 14h.
*Os nomes dos trabalhadores que concederam depoimentos ao Jornal A Verdade foram alterados.
Gabriela Torres – Movimento de Mulheres Olga Benário
SÃO PAULO – Neste domingo, 17, milhares de pessoas foram à avenida Paulista, no centro de São Paulo, em solidariedade ao povo boliviano e contra o golpe de Estado sofrido por Evo Morales. O ato foi chamado pelo Comitê Brasileiro de Solidariedade ao Povo Boliviano Contra o Golpe, e contou com a presença de crianças, estudantes e trabalhadores da comunidade boliviana residente, além do apoio de muitos brasileiros.
As bandeiras boliviana e Whipala, símbolo da plurinacionalidade do país e da cidadania dos povos originários, foram firmemente tremuladas por todo o ato. Palavras de ordem também marcaram a manifestação, destacando o repúdio ao golpe de Estado, a resistência popular pela democracia, e denunciando o fascismo promovido por figuras da extrema direita do país, como a senadora (autoproclamada presidente) Jeanine Áñez e o empresário multimilionário Luis Fernando Camacho.
Através de um manifesto, distribuído no ato, o Comitê Brasileiro de Solidariedade ao Povo Boliviano Contra o Golpe afirma: “A luta do povo boliviano contra o golpe, contra Camacho, contra o fascismo, contra o racismo e a extrema direita, é uma luta que deve receber a solidariedade de todas as pessoas e da classe trabalhadora de todo o mundo que defendem as liberdades democráticas.” O manifesto também pontua: “Não reconhecemos como presidente da Bolívia a autoproclamada Jeanine Áñez, uma fraude, assim como Juan Guaidó, o autoproclamado presidente da Venezuela.”
O golpe na Bolívia representa uma ofensiva de setores extrema direita, aliada do imperialismo dos EUA e de grandes grupos empresariais e especuladores do mercado financeiro. Os diversos povos bolivianos que se erguem em defesa da democracia resistem ao golpe há semanas, como os lutadores do Chile, Equador e Haiti, que rechaçam ataques das elites do poder econômico. Com os últimos acontecimentos, desmancham-se as ilusões com o imperialismo, com a conciliação com grandes ricos e exploradores da classe trabalhadora. A real saída para a América Latina, cada vez mais, aponta para o poder popular.
Na manhã desse sábado, 14, centenas de pessoas tomaram o centro de Santo André para conclamar o Grito dos Excluídos e Excluídas do ABCDMR. O ato começou com um café da manhã coletivo, uma caminhada pela rua principal da cidade terminando com uma homenagem a brasileiros que deram a vida por uma nação mais justa e igualitária. O ato contou com adesão e organização de diversos movimentos sociais, ambientalistas, partidos de esquerda, movimentos populares do campo e da cidade, movimento estudantil, de mulheres, pastorais sociais e religiosas de diferentes matrizes e entidades sindicais.
O Grito dos Excluídos e Excluídas acontece há 25 anos e esse ano ecoou em mais de 200 cidades e em todas as capitais do Brasil. Esse movimento nasceu da necessidade de dar voz ao povo, às minorias e à população historicamente excluída pelo Estado burguês, que segue interesses de banqueiros lucrando com a miséria do nosso povo, deixando em segundo plano direitos básicos como: saúde, moradia, transporte, trabalho, informação e vida digna.
Foto Reinilson Câmara
“A vida em primeiro lugar! Este sistema não vale: LUTAMOS POR JUSTIÇA, DIREITOS E LIBERDADE” foi o lema do 25º grito dos excluídos. A marcha em defesa de direitos sociais e da luta contra o desemprego, levantou vários problemas estruturais como encarceramento em massa, genocidio da população negra, feminicídio, transfobia, lgbtfobia, cortes na educação e a “reforma” da Previdência, promovido pelo governo fascista de Jair Bolsonaro.
Também foi pauta do ato a questão do meio ambiente, por conta do aumento das queimadas, do avanço do desmatamento na Amazônia, dos crimes da Vale em Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais. Além disso, foi erguido a bandeira contra o projeto do centro logístico de Paranapiacaba, proposto pelo prefeito de Santo André, Paulo Serra (PSBD), que ameaça uma área de proteção ambiental com importantíssimo valor histórico nacional, turístico, paisagístico e de serviços ambientais como provisão de águas para a Represa Billings.
Por fim, o ato do ABCDMR terminou com homenagens aos verdadeiros heróis da pátria, que lutaram por um país mais justo e igual, por meio de uma intervensão cultural com fotos e palavras de ordem. Nomes como Marielle Franco, índio Galdino , Zumbi dos Palmares, Dandara dos Santos, Milton Santos, Elenira Resende, Carlos Mariguella, Chico Mendes, Carolina Maria de Jesus e Manoel Aleixo foram lembrados e homenageados.
Foto Cadu MachadoFoto Reinilson Câmara
Reinilson Câmara Filho – Unidade Popular pelo Socialismo
Na última quinta-feira (15) cerca de 147 famílias foram despejadas numa ação truculenta e violenta promovida pela Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro com ordens do governo estadual em Monte Alto, bairro do segundo distrito de Arraial do Cabo na Região dos Lagos. O Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas – MLB esteve presente no local no dia seguinte junto ao Jornal A Verdade para acompanhar a situação das famílias e prestar solidariedade e apoio. “Foram momentos de terror, eram mais de 40 viaturas, trator, helicóptero, drone, canhão de água, centenas de policiais encapuzados e armados até os dentes. Parecia que estávamos em guerra.” contou uma moradora. Outro morador continuou: “quando os policiais chegaram por volta das 5 horas da manhã, dissemos que tínhamos uma liminar da justiça garantindo que poderíamos ficar ali até que a prefeitura apresentasse uma outra solução de um local decente para essas famílias morarem. O comandante da operação se recusou a ver o nosso documento e tampouco nos deixou ver o documento que ordenava a realização daquela operação. Dali em diante começou o terror, jogaram bomba de gás lacrimogêneo, spray de pimenta, bala de borracha em todos, acertando inclusive grávidas, crianças e idosos sem a menor capacidade de resistência dos moradores. Daí em diante, destruíram nosso sonho. Passaram o trator por cima das 147 casas construídas com muito esforço coletivo por todos nós”.
Foto: Marcela Couri
A justificativa do governo para promover tal barbaridade, é de que aquela área pertence ao Parque Estadual da Costa do Sol e seria área de preservação ambiental. “Aqui só tem trabalhador, não tem bandido não. A gente não invadiu a terra não porque queremos destruir o meio ambiente. Só estamos aqui porque não temos outra opção.” disse uma moradora. Em áreas ao redor do “projeto” (como foi apelidado o local pelas famílias) existe um condomínio enorme, garagem náutica e um outro terreno de milhares de metros quadrados que pertencem à construtora Volendam, que tem carta branca para fazer o que quiser, sem se preocupar com as questões ambientais. “É necessário compatibilizar a preservação ambiental com o direito social do uso da terra. A dignidade da vida humana está prevista na legislação ambiental, e o direito à moradia digna foi reconhecido e implantado como pressuposto para a dignidade da pessoa humana, desde 1948, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos e consta na Constituição Federal de 1988”, disse Ana Paula, conselheira do parque e militante da Unidade Popular pelo Socialismo. Essa é a realidade de cerca de 7,7 milhões de famílias em todo o Brasil, que compõe déficit habitacional em nosso país. São milhões de pessoas que moram em situações precárias, de favor, não tem mais condições de pagar aluguel e se encontram em situação desesperadora. Por outro lado, vemos milhões de imóveis e terrenos que não cumprem nenhuma função social, servindo apenas à especulação para gerar lucro para os ricos donos das grandes construtoras. O grande questionamento que ficamos nesse caso é: por que a Volendam pode explorar e degradar o meio ambiente em grandes proporções no terreno ao lado para obter fabulosos lucros, mas quando as famílias buscam um local pra morar são tratadas com violência pelo estado?
Foto: Marcela Couri
O estado do Rio de Janeiro tem a polícia que mais mata e que mais morre, é onde 5 jovens negros e pobres foram assassinados na última semana sem enquanto iam para a escola, para o trabalho ou apenas se divertir com os amigos. Enquanto nosso sangue escorre pelo chão da favela, o governador anda de helicóptero mirando sua arma na gente. Esse caso é reflexo da política genocida promovida pelo Estado Capitalista, de guerra aos pobres, guerra aos negros e negras. No “projeto restinga” os moradores respiram resistência, luta e esperança. Muitos dos que não tem pra onde ir, seguem tentando reerguer as construções e sobrevivendo através da solidariedade dos moradores da região que fornecem abrigo em suas próprias casas, doam roupas, alimentos e ajuda. A decisão dos moradores do projeto é de que só vão sair de lá se a prefeitura apresentar uma alternativa digna, “todos aqui tínhamos a nossa casinha, humilde, mas conquistada com muito suor e luta! Não vamos aceitar menos do que isso!” disse um morador durante assembléia realizada.
Foto: Marcela Couri
O Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas – MLB segue acompanhando e prestando apoio a essas famílias. Acreditamos que morar dignamente é um direito humano e que se o Estado Capitalista prioriza os lucros acima da vida, queremos destruir esse Estado e construir no seu lugar um Estado dos trabalhadores, onde prioridade seja a vida digna, com emprego, moradia, educação, saúde, etc. Enquanto morar for um privilégio, seguiremos lutando pela reforma urbana e o socialismo!
A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) realizou a 9º Conferência Nacional de Educação Paulo Freire com o tema “Educação Libertária e Democrática: construindo o movimento pedagógico Latino-Americano” entre os dias 26 a 28 de junho em Curitiba. O objetivo do encontro foi debater os desafios e rumos da educação brasileira, sendo estabelecida greve nacional no dia 13 de agosto contra os retrocessos do governo atual.
Dentre as pautas discutidas, os educadores se debruçaram sobre o Plano Nacional da Educação (PNE), sancionado em 2014 e com validade de 10 anos, com o propósito de direcionar esforços e investimentos para a melhoria do quadro educacional brasileiro. O Plano é composto por 20 metas contemplando todos os níveis educacionais que, apesar de muito promissoras, apenas uma foi cumprida de acordo com o Inep.
Destaca-se a meta 1, que diz respeito a universalização e democratização do ensino básico tendo como finalidade atender 100% das crianças de 4 a 5 anos matriculadas na pré-escola até 2016, além de garantir 50% das crianças de 0 a 3 anos em creche até 2024. Segundo dados do Pnad, apenas 90% das crianças de 4 a 5 anos foram atendidas e somente 1/3 estão em situação de creche. Essa defasagem é vivenciada principalmente nas periferias, onde as filas de espera por vaga nas creches podem levar anos colaborando com a desigualdade enfrentada pelas mulheres na participação no mercado de trabalho.
A estagnação e não cumprimento das metas são resultados dos ataques que o sistema educacional brasileiro sofre constantemente. Prova disso é a emenda constitucional nº 95 implementada pelo governo Temer que congela, durante 20 anos, investimentos públicos direcionados a saúde e educação. Além do corte de 30% das verbas destinadas às universidades e institutos federais, anunciado recentemente pelo ministro da educação. As duas ações fazem parte de um projeto que confronta diretamente as diretrizes do PNE, uma vez que a falta de recurso penaliza o avanço das melhorias no ensino público.
Além disso, a militarização das escolas incentivada por Jair Bolsonaro, visa instituir um sistema onde a censura é peça chave, ferindo a efetivação da gestão democrática de educação proposta pela meta 19 do Plano. Na mesma linha, o descumprimento se fez presente quando aprovadas as mudanças no “Novo Ensino Médio” pelo Conselho Nacional de Educação, órgão vinculado ao MEC, que libera o ensino a distância totalizando 20 e 30% de carga horária, respectivamente no período diurno e noturno, acentuando ainda mais a defasagem no ensino público.
Essas ações com embasamentos apenas voltados aos interesses capitalistas, sem considerar a realidade do povo brasileiro, são responsáveis por colocar a situação educacional do país em risco. O desleixo com que se é tratado o ensino público foi demonstrado nos últimos dados coletados pelo IBGE, provando que a educação ainda não é para todos. Cerca de 40% da população com mais de 25 anos não chegaram a concluir o ensino básico, e daqueles que concluíram, o maior percentual está entre os brancos (55,5%) ao passo que entre os negros, o número cai substancialmente (40,4%). Considerando que a maior parte da população brasileira é negra, o acesso a educação no Brasil ainda é limitado e desigual pela negligência do governo em promover políticas públicas que incentivem o acesso à todos.
Analisando todo este quadro, os educadores presentes da 9ª Conferência apresentaram um manifesto repudiando as sucessivas contra-reformas liberais no setor educacional e o desmonte das políticas educacionais e sociais que atacam os direitos da população, especialmente da população mais marginalizada (mulheres, negros, índios e LGBTs). Além disso, também criticaram a proposta da Reforma da Previdência e as conseqüências que irá trazer principalmente para as professoras de rede pública, aumentando 10 anos a idade mínima para aposentadoria. Ao final do manifesto, os profissionais conclamam a luta incessante e o compromisso para com a educação, convocando todas as instituições de ensino para uma grande greve geral no dia 13 de agosto.
Diante dessa conjuntura, se fazem necessárias as críticas, a mobilização e organização dos estudantes, trabalhadores e servidores públicos em defesa do ensino de qualidade no país e contra a destruição da aposentadoria, como foram feito nos dias 15 e 30 de maio pela educação, e no dia 14 de junho na Greve Geral que mobilizou categorias ao redor do país e que foram responsáveis pelo fechamento de diversos pontos estratégicos das cidades.
Foto: Jorge Ferreira/Jornal A Verdade
“Numa palavra, a educação se tornou a grande esperança, a grande promessa da nacionalidade e da democracia. Com espanto, porém, vemos que, no atual governo, ela é apresentada como ameaça.” – afirmam ex-ministros em carta contra as políticas educacionais do governo Bolsonaro.
Inimigo da Educação, o governo Bolsonaro vem promovendo um verdadeiro sucateamento do ensino público no país. Em abril, através de sua conta no twitter o atual presidente fascista insinuou que os cursos de ciências humanas não mereciam investimentos, adiantando a pretensão de seu governo de cortar verbas do ensino superior. Mesmo com a revolta da população diante de tais alegações, pouco tempo depois, o governo através de seu Ministro da Educação, Abraham Weintraub, anunciou o corte de 30% nas verbas das universidades sem diálogo prévio com a comunidade acadêmica, impactando diretamente o funcionamento dos institutos federais. Na ocasião, o governo alegou que os cortes no ensino superior eram necessários para garantir o investimento na educação básica. Contudo, isso se mostrou como mais uma de suas mentiras contra a população mais pobre, ao estender o corte orçamentário para toda a pasta de educação, incluindo os programas de ensino infantil ao médio.
Frente a essa situação de completo desmonte das políticas educacionais do país, seis ex-ministros de governos anteriores se reuniram em um evento promovido pela Universidade Estadual de São Paulo (USP) e redigiram uma carta aberta em oposição às medidas do governo Bolsonaro. Na carta, José Goldemberg (1991-1992), Murílio Hingel (1992-1995), Cristovam Buarque (2003-2004), Fernando Haddad (2005-2012), Aloizio Mercadante (2012-2014) e Renato Janine Ribeiro (2015), expressaram sua preocupação com “as políticas para a educação adotadas na atual administração”, enfatizando que a magnitude dos cortes promovidos no último período “podem ter efeitos irreversíveis e até fatais”.
De acordo com eles, nessa gestão, a educação deixou de ser vista como prioridade nacional e passou a ser tida como uma ameaça, enfatizando a postura do governo em ignorar especialistas da área atuando de “forma sectária, sem se preocupar com a melhoria da qualidade e da equidade do sistema, para assegurar a igualdade de oportunidade”. Em outras palavras, a carta converge com as denúncias realizadas pelos movimentos sociais e estudantis frente aos ataques de Bolsonaro. Para Beatriz Baria, militante do Movimento Correnteza de São Paulo: “cortar investimentos dos institutos federais e da educação básica, determinar o fim das bolsas para pesquisadores, é mais uma forma desse desgoverno vergonhoso de atacar nosso povo. Somos nós, a juventude pobre, que vai ser impedida de ter uma educação de qualidade, pra encher os bolsos dos grandes grupos privados, que fazem da educação mercadoria, como a Kroton Educacional”.
A carta denuncia ainda a perseguição e a censura impostas pelos governos aos docentes, ressaltando a importância do “respeito à profissão docente, que não pode ser submetida a nenhuma perseguição ideológica […] Convidar os alunos a filmarem os professores, para puni-los, é uma medida que apenas piora a educação, submetendo-a a uma censura inaceitável”. Em outro trecho, reforçam: “a autonomia universitária é uma conquista que deve ser mantida para garantir a liberdade e qualidade na pesquisa, formação e extensão”.
Ao fim do texto, os ex-ministros propõem a “formação de uma ampla frente em defesa da educação” e anunciam a criação de um “Observatório da Educação Brasileira dos ex-ministros da Educação, que se coloca à disposição para dialogar com a comunidade acadêmica e científica, sociedade e entidades representativas da educação, com parlamentares e gestores, sempre na perspectiva de aprimorar a qualidade da política educacional”.
Jady Oliveira União da Juventude Rebelião
[1] Kroton Educacional: a maior empresa privada do mundo no ramo da educação, um conglomerado que monopoliza e atua em função da privatização do ensino privado, em detrimento da educação pública, gratuita e acessível.
RIO DE JANEIRO Um ano após a execução da Vereadora Marielle Franco pela milícia, a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ) – assim como Marielle uma política negra, de periferia e LGBT – teve a solicitação de escolta negligenciada pela omissão do Governador Wilson Witzel, do Partido Social Cristão, ao negar o pedido de proteção à vida da deputada que foi realizados após receber ameaças de morte.
Talíria recebe ameaças de morte desde 2016 quando foi eleita vereadora em Niterói/RJ. As ameaças vêm pelas redes sociais ou até por telefonemas feitos à deputada ou a sede de seu partido. A pouco mais de dois meses a polícia federal alertou ter encontrado na dark web informações sobre o planejamento de um atentado à vida da deputada.
Graças à investigação da PF, Talíria está sendo escoltada em Brasília, mas nas vezes em que retorna a Niterói, cidade na qual foi eleita e também onde recebeu as ameaças, anda desprotegida pois a solicitação enviada pelo presidente da Câmara dos deputados, Rodrigo Maia (DEM), foi negada pelo Governador Witzel, que nem sequer enviou uma resposta a Câmara.
Em abril deste ano a deputada foi chamada de “verme” pelo líder da bancada ruralista, Alceu Moreira (MDB-RS), durante uma audiência pública após reações da parlamentar às declarações do também deputado. Recentemente, após as denúncias de ameaças de morte, o filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), debochou em seu twitter dizendo que Talíria era hipócrita por se declarar desarmamentista e pedir escolta, alegando que a deputada deveria pedir “iluminação”.
A história da Professora Talíria em muito se confunde com a história de Marielle Franco. Ambas ameaçadas de morte e odiadas pelos conservadores, falsos moralistas e pelos milicianos. O que acontece é que em um país que possui cotas para que as mulheres enfim consigam ocupar o espaço político que é ocupado majoritariamente por homens brancos, héteros e ricos, existir duas mulheres negras, periféricas e LGBTs, que foram eleitas como as vereadoras mais votadas em suas respectivas cidades na primeira eleição que concorreram, é inaceitável.
É um atentado à democracia o estado do RJ não exercer seu papel e zelar pela vida de uma deputada que é ameaçada apenas por lutar pelos direitos das mulheres, dos negros, dos pobres e dos LGBTs. Sabemos as causas da omissão do governador reacionário Wilson Witzel, também sabemos de qual lado está o filho do presidente e amigo da milícia, Eduardo Bolsonaro, que ironiza as ameaças contra Taliria assim como ironizava as denúncias feitas por Marielle.
Mas não podemos esperar a morte de ninguém mais, muito menos de alguém que luta para defender o direito à vida de milhões de pessoas abandonadas pelo estado e massacradas pelo sistema capitalista.
Entre as principais mudanças apresentadas pelo governo Jair Bolsonaro para a segurança publica do país, está o projeto de Lei Anticrime divulgado pelo Ministro de Justiça e Segurança Publica Sérgio Moro.
Exército brasileiro assassina jovens negros inocentes na intervenção do RJ
O projeto que prevê alterações de 14 artigos do Código Penal e do Código Eleitoral não demonstra nenhuma novidade sobre as causas dos crimes, muito pelo contrário, coloca no centro da política de segurança pública o método da punição, única e exclusivamente como forma de redução da criminalidade.
Hoje já existe uma diferenciação dos
procedimentos de casos de homicídios envolvendo policiais em serviço. Por
exemplo: quando um policial comete um homicídio e alega legitima defesa, o
crime é juridicamente justificado como “morte por intervenção de agente de Estado”.
Esse procedimento hoje é conhecido como “Autos de Resistência”, e é responsável
por ser o principal argumento legal para justificar os assassinatos produzidos
pela policia, quase sempre sendo o processo arquivado. Porém, caso uma pessoa
comum mate e alegue legítima defesa, haverá um inquérito policial para apuração
do homicídio, que na maior parte dos casos termina em reclusão, ou seja, pena
de seis a vinte anos de prisão.
Nesse sentido, um dos principais eixos do
pacote apresentado está a excludente de ilicitude, nesse caso, mesmo que
o agente policial tenha praticado um homicídio, ele não será considerado um
criminoso, excluindo o ato ilícito. O Código Penal prevê três situações em que
se aplica a excludente de ilicitude: estado
de necessidade, legitima defesa e o estrito cumprimento do dever legal. Uma
das propostas que está no pacote de Sergio Moro é de flexibilização e ampliação
da excludente de ilicitude em favor de policiais.
Em situações em que a polícia precisa
executar uma prisão em flagrante, o ordenamento jurídico brasileiro autoriza o
policial em ação á exercer o estrito cumprimento do dever legal que é prender. Atualmente no Brasil, não
existe o dever legal de matar. Não
se justifica seguir atirando até causar a morte. Com a mudança proposta pelo
pacote, o texto de lei deixa claro: caso os policiais durante o trabalho
estiverem em situações de medo, surpresa
ou violenta emoção, e vierem a matar ou ferir alguém não poderão serem
punidos. Utilizando do pretexto da legitima defesa, o projeto formaliza e
amplia a violência e os assassinatos
praticados pela policia.
Um levantamento feito pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum
Brasileiro de Segurança Pública, mostrou que houve um aumento de 18% de pessoas
mortas por policiais de
2017 para 2018 (5.225 para 6.160 mortes ao ano), ressaltando que essas
mortes são as que estão registradas no balanço anual. O ultimo relatório produzido pela Anistia
Internacional demonstrou que as forças policiais brasileiras são as que mais
matam no mundo.
A redução da violência urbana foi
destaque nas eleições de 2018, demonstrando uma enorme preocupação da população
com a segurança publica. Lembrando que essa era uma das principais promessas e
bandeiras das campanhas de candidatos, como Bolsonaro, João Dória, Wilson
Witzel. E com razão o povo, principalmente mais pobre tem clamado por justiça e
segurança. Os princípios constitucionais, em especial a dignidade humana, têm
sido violados e o brasileiro sofre no seu cotidiano.
Herança da ditadura
“Força
auxiliar e reserva do Exército” a Polícia Militar foi criada em 1969 sob
decreto-lei em pleno período de ditadura. Desde então e mesmo após a
democratização do Brasil em 1988, esse braço violento do Estado continua
atuando como há mais de 50 anos. Mesmo sendo hoje uma força à disposição do
Estado, a submissão é ao Exército autoritário brasileiro. Surge uma antinomia,
pois ao mesmo tempo em que polícia vem de polis,
do grego, cidadão, cidadania,militar vem do latim miles, milícia. Entende-se inclusive porque a militarização vê no indivíduo civil
um inimigo. O modo operante despreparado da polícia dá-se através do excesso de
violência, truculência e arbitrariedades. A tortura, por exemplo, é uma prática
cotidiana, comum e normal nas ações policiais na periferia adentro.
Com
o projeto de lei de Moro haverá um aumento de forças paramilitares. Esse
cenário aprofunda a impunidade
policial e é a semente para o nascimento de milícias, que no atualmente é o
grupo que mais oferece risco a segurança e vida do povo brasileiro, inclusive com comprovações já apresentadas pela investigação do envolvimento
direto desse grupo de extermínio com o brutal assassinato da ex vereadora e
militante Marielle Franco.
O Conselho de Direitos Humanos da
ONU solicitou que o Brasil despendesse maiores esforços para combater a
violência e projetar um fim à Polícia Militar, responsável por milhares de assassinatos.
Tudo isso fica muito claro quando vemos policiais formarem grupos de
extermínios e esquadrões da morte (criados no regime militar), carregados
de discurso de ódio, agindo de forma
criminosa, truculenta e autoritária. É urgente e necessário por fim a
militarização da polícia, e pensarmos um outro modelo de segurança pública para
não mais vivermos o cotidiano da barbárie e da escravidão, pois os chicotes de
ontem são as balas dos fuzis dos opressores de hoje!
O fuzilamento de Evaldo dos Santos, músico, num bairro periférico do Rio de Janeiro enquanto passeava com sua família na tarde de um domingo, representa o avanço do estado fascista que já não se importa em manter a aparência de um estado democrático de direito.
Ato na paulista em homenagem a Evaldo, músico assassinado pelo exército com 80 tiros. Foto: Jorge Ferreira
Com indignação o povo assistiu o presidente da república, 6 dias após o assassinato, vir à público se manifestar sobre o caso, limitando-se a defender a instituição que disparou 80 tiros e ceifou não só a vida de Evaldo, mas também de Luciano Macedo, catador de recicláveis, que tentou ajudar a família a sair do veículo no momento da ação criminosa. Segundo o presidente: “O exército não matou ninguém!” Entretanto, é equivocado pensar que essa barbárie é consequência exclusiva da chegada da extrema direita ao Poder, muito menos apenas de resquícios da ditadura militar. Na verdade o estado policialesco nunca deixou de estar presente nas periferias do Brasil.
No mundo, o 1% da população mais rica tem mais riqueza que os outros 99% somados. Os 6 homens mais ricos do mundo tem mais posses do que a metade mais pobre, mais de 3,5 bilhões de pessoas. Esse abismo social é também a realidade do Brasil, que tem uma das maiores desigualdades do mundo. Neese contexto, ao povo negro é reservado apenas os piores postos de trabalho, os piores salários e os barracos das grandes favelas. A imensa maioria da população negra é extremamente pobre e vive sob todas as formas de vulnerabilidade.
O desemprego é enorme e o varejo do tráfico termina sendo um desses postos de trabalho reservados especialmente para a juventude negra das periferias. Mesmo cumprindo uma tarefa desse negócio que gera enormes lucros para a burguesia, que utiliza seus bancospra lavar esse dinheiro, e por estar na ponta, mais visível e sustentando fuzis nas mãos, os jovens negros são vítimas de um discurso de criminalização e de uma política repressiva e genocida que assassina 66 mil pessoas por ano no Brasil, um verdadeiro índice de guerra civil. 78% desses jovens são assassinados por conta da sua cor da pele, por serem negros.
“É que cada tempo histórico tem suas perguntas sobre o passado, pois cada conjuntura produz uma história para justificar o seu presente.” É assim que Marielle Franco começa a demonstrar em sua tese de mestrado a importância de compreendermos nosso passado recente e o processo de implementação do neoliberalismo que o Brasil passou nas últimas décadas. Apesar do estudo da vereadora assassinada se concentrar na política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro através das Unidade de Polícia Pacificadora, traz também importantes esclarecimentos sobre as causas do genocídio de negros e negras no país todo.
É verdade que desde a formação do estado brasileiro há uma política de extermínio daqueles que foram escravizados, e desde então diferentes ideologias foram utilizadas para perpetuar o poder na mão de uma minoria enquanto o povo dispõe de uma vida miserável. Mas também é urgente compreender as engrenagens da fase atual do capitalismo para traçarmos estratégias para a sua destruição. Nesse sentido que Marielle desmascara o estado penal vigente nas periferias como estrutura central do neoliberalismo no Brasil.
Nessa fase da crise do capitalismo, onde a elite econômica tenta enfiar goela abaixo reformas para aumentar seus lucros, mesmo que às custas da retirada de direitos trabalhistas e sociais, é necessário uma escalada no estado penal para conter aqueles que se encontram “excluídos” dessa sociedade. É por isso que na medida que os governantes avançam na destruição de direitos sociais, aumenta-se a repressão nas periferias, pois esses são os territórios tidos como inimigos do estado, que serve exclusivamente aos interesses da classe dominante.
A administração pública por sua vez, concentra esforços em passar a impressão que esse modelo de segurança pública, que invade casas, mata e tortura, se legitima em nome da proteção de toda sociedade. Essa é a tática da “guerra às drogas”, justificar o genocídio e o encarceramento em massa como necessário para manter a ordem.
Para tanto, o estado exerce papel crucial na manutenção do projeto de dominação. Se nos bairros ditos “nobres”, o estado se faz presente nas ruas bem asfaltadas, nos parques bem arborizados, e em todo conjunto de políticas que promovem o acesso à cidade, nas periferias esse mesmo estado se faz presente exclusivamente através das forças militares, seja pela polícia, pelo exército, ou mesmo por grupos milicianos.
Essa guerra aos pobres, transvestida de pacificação, não se justifica apenas com o sadismo de uma elite branca, mas sim por interesses econômicos. O estado, representante da burguesia, não contente com as reformas neoliberais, também está comprometido com o lucro dos megatraficantes, dos milicianos, da indústria armamentista, da especulação imobiliária, etc.
Justamente por incomodar aqueles que lucram com o extermínio da população negra e escancarar a as engrenagens desse sistema que Marielle Franco foi brutalmente assassinada.
Um ano depois de sua morte, os 80 tiros disparados pelo exército no carro de Evaldo e sua família nos traz à tona a urgência de apontar as raízes desse projeto genocida. Trata-se do modus operandi de um estado neoliberal, que manteve as mesmas práticas inclusive nos governos ditos progressistas, período em que o encarceramento mais do que dobrou. Se no Brasil o capitalismo é forjado no extermínio da população da periferia, que na sua maioria são negros e negras, o fim desse extermínio também depende da superação desse sistema perverso.
O RACISMO COMO IDEOLOGIA DE DOMINAÇÃO
Segundo Clóvis Moura, “o racismo não é uma conclusão tirada dos dados da ciência, de acordo com pesquisas de laboratório que comprovem a superioridade de um grupo étnico sobre outro. O racismo é uma ideologia deliberadamente montada para justificar a dominação de um grupo sobre outro. É, portanto, uuma ideologia de dominação.
Acontece que após a abolição da escravidão no Brasil, a elite do país determinada a manter seu projeto de domínio, costurou outras roupagens para sustentar o novo regime econômico. Nesse momento ganha destaque a concepção eugênica que correspondia a uma política de embranquecimento da população e a uma teorização sobre características de personalidade inerentes às raças.
Dentre elas, se destaca o papel do direito penal na formação do imaginário popular do negro como figura naturalmente criminosa. Ainda no período da primeira república, o código penal tipificava como crime o que ficou conhecido como lei da vadiagem. Num contexto de séculos de escravidão, foi como prender as pessoas simplesmente por elas serem negras. Essa política foi aprimorada ao longos das décadas, mas sem nunca perder o viés ideológico de dominação sobre os corpos marginalizados.
A Liga de Higiene Mental, por exemplo, braço do nazismo e do arianismo no Brasil, se destacou como defensora “científica” dessa tese e defendia, entre outras bandeiras, salários eugênicos (quanto mais clara a cor da pele, maior deveria ser o salário), recompensa para famílias que procriassem seres “superiores”, punição para os “inferiores”.
O higienismo social presente na segregação territorial até os dias de hoje, é oriundo das políticas da burguesia desde a formação da nação brasileira. A verdade é que esse país foi constituído sob uma ideologia burguesa e racista, que nega ao povo sua própria história, como estratégia política para perpetuar uma estrutura excludente.
Sendo assim, torna-se uma ingenuidade combater o racismo apenas através do viés acadêmico ou estritamente científico, muito embora não possamos de maneira nenhuma, negar o combate também nesse terreno. Mas a verdade é que a boa e velha luta de classes ainda é a forma mais eficiente de enfrentar o racismo no Brasil. Como afirma Clóvis Moura, “a questão racial é essencialmente política e não apenas científica.”
Para superarmos o sistema político existente, o capitalismo, será necessário travarmos as lutas pelos interesses imediatos da classe trabalhadora, composta na sua maioria por mulheres e negros. Mas isso não bastará. Será necessário, e esse é o nosso desafio, apresentar outro modelo de sociedade que seja capaz de substituir a engrenagem capitalista.
Um sistema político e social que dê conta de distribuir toda a riqueza socialmente produzida, pondo fim à propriedade privada dos meios de produção e a todas as desigualdades sociais existentes na atualidade. Esse sistema, essa sociedade, tem nome e chama-se Socialismo.
População venezuelana vai às ruas e impede o golpe orquestrado pelos EUA
Uma tentativa de golpe militar foi realizada na Venezuela na
manhã desta terça feira, 30/04, como o intento de derrubar o governo legítimo
de Nícolas Maduro. Esta ação contou com o apoio incondicional dos EUA que
propicia todo auxílio aos golpistas que são, na verdade, subservientes do
imperialismo e realizam um discurso de apoio à “Liberdade” no país, mas com o
intuito de fazer o roubo das riquezas nacionais.
Logo pela manhã Juan Guaidó, o promotor principal do golpe, realizou pronunciamentos anunciando a tomada de uma base militar localizada na região leste de Caracas, a Base Aérea La Carlota. Também propalava a obtenção de apoio militar das forças armadas, buscando causar um levantamento em outras bases militares. Guaidó pronunciou-se ao lado de Leopoldo Lopez que estava preso desde 6 de agosto de 2017, cumprindo pena de quase 14 anos, por praticar atos violentos. O “Autoproclamado” presidente, com apoio dos EUA, busca usurpar o poder sem possuir o voto democrático do povo, por meio de uma ação violenta contra a maioria dos venezuelanos.
No entanto, oficialmente, o presidente da Assembleia Nacional Constituinte Diosdado Cabello, desmentiu a tomada da Base Aérea e disse que apenas um reduzido grupo militar se sublevou para promover um golpe de Estado. “Não foi vulnerabilizada nenhuma instalação militar no país, eles estão nas ruas no Distribuidor Altamira e nós estamos dirigindo as operações desde a Base Aérea La Carlota”, afirmou.
Maduro também se pronunciou nas redes sociais afirmando que conta com o apoio e lealdade do comando do exército, que diz está comprometido com a constituição e a soberania nacional. Precisa no entanto estar mais preocupado com o apoio popular permanente nesse processo, visto que as ações da direita tentam alterar a correlação de forças também nas massas, mas ao que tudo indica sem sucesso até o presente momento.
Mike Pompeo, o secretário de Estado norte-americano, afirmou em um comunicado “hoje, o presidente [autoproclamado] interino Juan Guaidó anunciou o início da Operação Liberdade. O governo dos Estados Unidos apoia integralmente o povo da Venezuela em sua busca pela liberdade e pela democracia. A democracia não pode ser derrotada”. Destila assim seu apoio incondicional as ações militares para derrubar o governo e mostra disposição de intervir nos assuntos internos da Venezuela.
Ernesto Araújo, ministro de relações exteriores do Brasil, se reuniu em Washington, no dia 29, com Mike Pompeo e demonstrou uma total submissão ao governo dos EUA fazendo coro a politica norte-americana “O Brasil apoia o processo de transição democrática e espera que os militares venezuelanos sejam parte desse processo de transição democrática”, declarou. Logo Bolsonaro também se pronunciou no Twitter “O Brasil está ao lado do povo da Venezuela, do presidente Juan Guaidó e da liberdade dos venezuelanos”. É uma vergonha como copiam a linguagem da farsa americana sem o mínimo de pudor tratando a palavra “liberdade” como um mantra para encobrir a tentativa de um golpe militar absurdo.
As declarações conjuntas do Brasil com os EUA nesse processo devem ser repudiadas pelo povo brasileiro, pois não podemos ser bucha de canhão para o imperialismo. Os interesses do Brasil estão muito mais ligados a uma política de relações internacionais pacíficas, de integração latino americana baseada na colaboração entre os países iguais, na solidariedade e no internacionalismo proletário. O povo brasileiro sempre foi a favou da soberania das nações e o princípio da auto-determinação, onde cabe a cada povo decidir seus destinos.
Todo apoio ao povo venezuelano! Abaixo o imperialismo!
A Unidade Popular (UP), partido político em formação, é fruto da iniciativa de centenas de ativistas dos movimentos populares, militantes comunistas, estudantes e professores e da necessidade de construir uma alternativa de esquerda revolucionária ao atual cenário nacional. Após um ano e meio de muito trabalho, a campanha pela legalização da UP entra em sua reta final. Para falar sobre as novas tarefas da militância, A Verdade entrevistou Leonardo Péricles e Fernanda Lopes, membros da Direção Nacional da UP, que afirmam que para o país sair desta crise, precisa passar por uma profunda transformação econômica e social que dê vida digna para o nosso povo, e, por isso “a UP luta pelo poder popular e pelo socialismo”.
Da Redação
A Verdade – Por que a UP foi criada?
Leonardo Péricles – Houve, nos últimos anos, um verdadeiro esgotamento dos atuais partidos ditos de esquerda. Alguns foram cooptados, tomando o caminho de aliança com as grandes empresas, bancos e empreiteiras. Outros, tentando fazer frente a esta traição, não conseguiram dialogar com a classe trabalhadora. De tão estreitos que são, não conseguem se apresentar como alternativa. O resultado é que, hoje, poucos empunham a bandeira de luta por mudanças estruturais, ou seja, a luta revolucionária contra o capitalismo, que passa pela mobilização de amplos setores populares, de milhões e milhões de trabalhadores, mulheres e homens, negras e negros, LGBTs, jovens, indígenas, comunidades tradicionais, enfim, a luta da imensa maioria do povo brasileiro.
Esta é uma luta por quebrar os enormes privilégios dos super-ricos, da burguesia brasileira. É, portanto, uma luta muito dura e nós, da UP, não consideramos que ela possa ser feita por um iluminado ou de forma isolada, mas sim no campo da luta de massas, na vida política partidária, dos movimentos, e lideranças que se reúnem em torno das ideias populares. Daí o próprio nome Unidade Popular. Acreditamos que, a partir de um chamado decidido e pautado na força do movimento popular, se incorporarão a este projeto milhões de lutadoras e lutadores. Foi para fazer este chamado que nasceu a UP.
Como vocês veem a atual situação do País? Qual a saída para a crise do Brasil?
Fernanda Lopes – O Brasil vive uma grave crise econômica e política que se agrava a cada dia, com vários retrocessos democráticos, perdas de direitos e uma calamidade social. O desemprego já atinge cerca de 24 milhões de pessoas. Hospitais, postos de saúde, escolas e universidades estão abandonados. A violência aumenta e o povo teme por sua vida todos os dias, especialmente as mulheres. O ilegítimo governo de Michel Temer, que só tem olhos para as classes ricas, aprovou a chamada “PEC dos Gastos”, congelando por 20 anos os investimentos públicos em saúde, educação e moradia. Aprovou, em agosto de 2017, a Reforma Trabalhista, que retirou direitos históricos dos trabalhadores conquistados em décadas de luta, e ainda quer aprovar a Reforma da Previdência para que trabalhadores e trabalhadoras não se aposentem mais. Para sair desta crise, o País precisa passar por profundas mudanças. Somente uma profunda transformação econômica e social que dê vida digna para o nosso povo, emprego, saúde e educação de qualidade, moradia, transporte e terra para os camponeses resolverá os problemas atuais vividos pelo povo. Por isso a UP luta pelo poder popular e pelo socialismo.
Leonardo Péricles – Devemos lembrar também que vivemos uma das mais profundas crises econômicas da história do capitalismo, desde 2008, e que se manifestou com mais força no Brasil a partir de 2013. A solução para esta crise é pôr fim a um sistema que protege uma minoria de ricos. E o programa para isso já é conhecido: taxar as grandes fortunas; impedir a especulação imobiliária e garantir a função social do solo; suspender o pagamento da dívida pública, que nos suga quase metade do orçamento federal; exigir o pagamento dos devedores da dívida ativa dos municípios e estados; impedir a sonegação de impostos pelas grandes empresas, inclusive dos devedores da Previdência; reduzir a jornada de trabalho sem redução do salário para gerar mais empregos. Desta forma, bilhões de reais serão arrecadados e serão suficientes para resolver os graves problemas sociais que nosso país vive. Mas, ao lado de todas estas lutas, não devemos deixar de disputar a maioria da população para um projeto ainda mais profundo de transformações sociais, que é a derrubada do capitalismo e a implantação do socialismo, em que os meios de produção das riquezas estejam nas mãos da classe trabalhadora e possam servir para a vida, e não para o lucro.
Nenhum dos atuais partidos defende essas propostas?
Fernanda – A maioria dos atuais partidos está pautada pela institucionalidade, por um respeito sagrado aos limites impostos pela burguesia, ao invés de se pautar pela necessidade de superação do capitalismo. E isso exige muito enfrentamento, rupturas, uma verdadeira revolução política. Um dos papéis que a UP se propõe a fazer é demonstrar que os partidos dos ricos enganam o povo a todo momento. Procuramos demonstrar pelo discurso e pela prática que nem todos os que fazem política são iguais, que há uma política corrupta e burguesa, mas que existem também políticos revolucionários e uma política proletária. Não se trata de moralismo, mas sim de colocar as coisas no seu devido lugar.
Por que o socialismo é superior ao capitalismo?
Leonardo – Em um país riquíssimo como o Brasil, o socialismo daria condições para todas as pessoas se apropriarem dos bens e serviços de que necessitem para viver. Já debaixo do capitalismo, somos um país subdesenvolvido, com uma economia comandada pelos EUA e com uma desigualdade social que aumenta a cada ano. Hoje a realidade é que as cinco pessoas mais ricas do País detêm a mesma riqueza da metade mais pobre da população. O socialismo também permite que a tecnologia desenvolvida seja aplicada para melhorar a vida do conjunto da população, e não para aumentar os lucros dos capitalistas. Só o socialismo garante acesso universal à educação, saúde, moradia, segurança, lazer. Isto já foi provado por décadas na União Soviética e em outras experiências socialistas. Uma nova onda de grandes transformações sociais virá neste século 21, pois são insustentáveis as contradições do capitalismo. Só no ano passado, por exemplo, 82% da riqueza produzida no mundo foi apropriada por apenas 1% das pessoas! A maioria dos trabalhadores ainda não tem a consciência de que este mundo novo de felicidade é possível, mas o socialismo está no sonho de todo trabalhador e trabalhadora consciente. Ao socialismo interessa socializar a riqueza das grandes propriedades, aquela que pode resolver o problema da moradia nas grandes cidades, pois no capitalismo há mais casas e prédios abandonados do que gente sem habitação. Já as grandes fábricas e empresas, as grandes extensões de terra, estarão à disposição do Estado, dirigido pela classe trabalhadora para que esta decida a prioridade e a função social de cada coisa.
Como veem as declarações de membros do Alto Comando do Exército defendendo um golpe militar?
Fernanda – Nessa conjuntura em que a luta de classes se encontra bastante acirrada, vemos manifestações das diferentes classes sociais e agrupamentos sobre as possíveis saídas para a crise. Dentro da falta de perspectivas de parte da população, setores do alto comando do Exército a serviço do setor mais reacionário da burguesia, dos fascistas, tentam também se apresentar como alternativa. Lembremos que todo este espaço para que generais possam se pronunciar sobre golpes de Estado, contrariando a própria Constituição sem sofrerem nenhuma punição, é algo muito grave e que não podemos aceitar. É preciso levar a cabo as recomendações da Comissão Nacional da Verdade para que se punam os torturadores e assassinos da época da ditadura militar. Como disse a grande companheira Amelinha Teles, em entrevista publicada na última edição do Jornal A Verdade: “Não há democracia com corpos insepultos”. Sabemos que a impunidade do passado leva à impunidade do presente, pois hoje milhares de jovens negros e pobres continuam sendo torturados e mortos nas periferias de todo o Brasil nas mãos de agentes estatais, principalmente das polícias militares.
Qual o balanço da campanha pela legalização da UP?
Leonardo – Estamos há 15 meses colocando em prática um ousado plano de legalização de um partido político revolucionário que almeja o poder. Para coletarmos as 600 mil assinaturas que conquistamos neste período, fomos a praças, bairros, vilas, favelas, ruas, empresas, fábricas, escolas, universidades e seguramente falamos para mais de dois milhões de pessoas que foram abordadas ou que escutaram nossas agitações. Nosso discurso, aliás, não é só para pedir uma assinatura, mas para politizar, para denunciar os crimes das elites contra o povo e convocá-lo para a luta.
Neste último período, conseguimos perceber como poucos o sentimento de nosso povo, seu desejo por mudanças no Brasil e, neste sentido, tivemos ainda mais certeza de que nossa decisão de criar a UP foi acertada. E fizemos isso sem depender de um centavo da Odebrecht ou de qualquer outra grande empresa, banco etc. Sem depender também de nenhum figurão da política tradicional burguesa, dependendo apenas de nossa militância e de apoiadoras e apoiadores que têm os mesmos propósitos que nós.
Chegamos agora a um momento decisivo, pois temos pouco mais de seis meses para cumprir nosso objetivo, já que a legislação impõe um prazo máximo de dois anos. Apesar de enfrentarmos regras extremamente antidemocráticas para a legalização de novos partidos, durante este período, que estamos chamando de período especial, nossa militância decidiu se dedicar integralmente à realização desta grandiosa tarefa. Chegaremos até o final de maio com pelo menos 800 mil assinaturas coletadas no total e já demos passos importantes no cadastramento das fichas de apoio no sistema online do TSE e nos cartórios eleitorais. Em três estados a UP já alcançou o número mínimo de apoiamentos exigido e já podemos constituir seus diretórios estaduais provisórios. Estamos trabalhando para que nos próximos meses cheguemos a pelo menos nove diretórios estaduais legalizados, que é outra exigência. Além disso, temos recebido adesões de muitos ex-militantes de outros partidos e organizações políticas, e até de grupos políticos que não se sentiam mais representados pelos demais partidos existentes.
O que falta para a UP conquistar a legalização?
Fernanda – Tudo o que fizemos até aqui, apesar de muito importante, não basta, pois precisamos validar 487 mil assinaturas nos cartórios eleitorais de todo o Brasil. Neste sentido, entramos no sistema do TSE com cerca de 150 mil fichas nestes últimos meses e nossa campanha continua até a legalização. Para termos êxito, estamos fazendo também uma campanha de arrecadação de finanças, pedindo contribuição às pessoas que acreditam em nossa causa para que possamos ter um caixa que permita arcarmos com os gastos desta reta final. Precisamos da ajuda de todas e todos para que possamos concluir esta campanha de dois anos. Estamos muito confiantes de que venceremos!
Servidores da educação de Santa Luzia paralisam escolas e conquistam avanços após mobilização histórica contra o descaso da prefeitura. A maioria absoluta das escolas e UMEIs da cidade foi paralisada, total ou parcialmente, e com a luta os trabalhadores e conseguiram arrancar as primeiras conquistas da Prefeitura.
Edson de Moraes Neto | Santa Luzia – MG
No dia 12 de março de 2026 a educação municipal de Santa Luzia/MG praticamente parou. Em uma greve histórica, que resultou numa manifestação em frente ao centro administrativo da cidade, foram conquistadas algumas das diversas pautas há muito reivindicadas pela categoria.
Ao longo de anos de descaso das administrações municipais luzienses, a estrutura das escolas foi se degradando ao ponto de, em muitos casos, se tornar risco à integridade física de alunos e servidores. Em uma campanha de conscientização promovida nas redes sociais, foram vistos fios expostos ou emendados com fita adesiva comum, pisos quebrados, sanitários sem tampa, muro caindo, carteiras quebradas, enfim, uma degradação generalizada da estrutura física das escolas da rede. Também foram relatados diversos casos de descaso com a vida funcional dos servidores efetivos; problemas no enquadramento funcional das profissionais de Apoio (que atuam junto aos alunos Atípicos); diversos casos de assédio moral, especialmente contra servidores contratados via PSS (Processo Seletivo Simplificado), dentre tantos outros abusos.
Para além a pauta de reivindicações ainda abarca quase duas dezenas de itens. Um dos mais gritantes é a falta de pessoal para limpeza e alimentação, em especial após a implementação do Projeto Tempo Integral, onde os alunos passaram a almoçar na escola e, assim, sem a contratação de mais pessoal, houve sobrecarga de trabalho. Outra questão grave envolve a falta de itens básicos para limpeza dos espaços escolares e de utensílios adequados para o preparo dos alimentos. Porém, o ponto de maior tensão entre a categoria e a administração municipal é a revisão do decreto 4.357/24 que regulamenta o cumprimento do 1/3 de carga horária de planejamento do professor. Segundo regulamentação, somente este ano, algumas escolas convocarão seus profissionais em até 22 sábados. Para efeito de comparação, outras redes da Região Metropolitana de Belo Horizonte não chegam sequer a 10 sábados trabalhados no ano.
União e denúncia em Santa Luzia (MG): trabalhadores da educação ocupam as ruas em greve histórica. Foto: Portal Impacto
Este panorama, junto com o recente fortalecimento do Sinproluz (Sindicato dos Profissionais da Rede Municipal de Educação de Santa Luzia), foi capaz de realizar uma mobilização histórica da categoria. Convocada em Assembleia, a paralização desta quinta-feira (12/03), paralisou total ou parcialmente, a maioria absoluta das escolas e UMEI’s da cidade. Ao ver tal capacidade de mobilização e organização da categoria, a administração pública municipal mudou imediatamente sua postura. Antes recebia os representantes do sindicato e pouco ou nada se mostrava disposta a resolver. Com a consolidação do movimento grevista, mesmo após diversas tentativas de desmobilização da categoria (ataques de infiltrados, fake news, tentativas de jogar a comunidade contra os profissionais da educação…) a mudança de postura foi evidente: uma série de resoluções e encaminhamentos. Tudo fruto da greve!
Problema histórico das escolas da cidade, foi prometido pelo próprio prefeito Paulo Bigodinho (AVANTE) que os utensílios adequados para as cantinas seriam providenciados. Também foram montadas duas comissões: uma para debater as questões restantes das profissionais de limpeza e cantina das escolas e, outra para discutir sobre o tempo de planejamento. Ambas já com datas definidas. Para além, com registro em ata e com a assinatura de todos os presentes, ficou acordado por parte da administração municipal a coerção a qualquer tipo de perseguição ou assédio aos que se somaram no movimento grevista.
Porém, há de se ressaltar dois pontos primordiais: o primeiro é que ainda existem diversas questões que sequer foram discutidas com o executivo municipal e, portanto, sequer tem-se a promessa de resolução. O outro ponto é primordial, nenhuma conquista está definitivamente garantida. Tendo em vista este cenário a manutenção do estado de mobilização é fundamental pois, somente através da pressão exercida na greve deste dia 12/03 que a categoria foi capaz de iniciar seus ganhos e, para garanti-los precisará se manter alerta e mobilizada.
Grêmios Estudantis combativos são a base para o avanço da luta secundarista e a resistência contra o autoritarismo e a opressão escolar.
Vinícius Brainer e Daniel Tito
No sistema capitalista vigente, no qual os ricos e poderosos tomam todas as decisões sobre a sociedade em que vivemos e, consequentemente, sobre os rumos do nosso futuro, é comum nos depararmos com a ideia de que o povo não tem outra escolha que não seja aceitar essas injustiças. No entanto, a História nos mostra que o povo não aceita a opressão de cabeça baixa, mas a enfrenta por meio da luta popular. Em meio ao povo brasileiro, uma parcela da juventude se mostra incessantemente combativa: os estudantes secundaristas.
Os estudantes secundaristas foram fundamentais em grandes jornadas de lutas e conquistas que marcam a História do Brasil. Entre essas, destacam-se: a campanha “o petróleo é nosso”, que defendia a soberania nacional na extração do petróleo e garantiu a criação da Petrobras; a luta contra a Ditadura Empresarial-Militar fascista e pela redemocratização; a conquista da meia-entrada e a própria escola pública, universal e gratuita que conhecemos hoje. Em todas essas lutas, houve um elemento fundamental de politização, organização e empoderamento da juventude secundarista: os Grêmios Estudantis.
Para além de sustentar as grandes lutas e grandes conquistas do Movimento Estudantil, os Grêmios são os instrumentos que garantem as melhorias particulares de cada escola e cada comunidade, como a conquista de uma merenda de qualidade, da reforma de uma quadra, da demissão de um professor abusador, a climatização das salas de aula, etc. Ademais, a própria existência de uma organização estudantil em uma escola já cumpre um papel fundamental na construção de uma escola mais democrática, inclusiva e acolhedora para a juventude, pois descentraliza a autoridade e as decisões das figuras das diretorias, coordenadorias e supervisões, que muitas vezes podem ser autoritárias e opressoras. Um Grêmio consolidado e ativo estabelece o poder popular dentro da escola, dá voz aos estudantes e garante que a juventude tenha o seu direito digno de decidir sobre os rumos da sua escola. Afinal, a escola sem o estudante é apenas um prédio vazio. Por isso, para o Movimento Rebele-se, os Grêmios são a base que dá sustentação a um movimento estudantil combativo e influente.
Alguns exemplos de Grêmios que o Rebele-se ajuda a construir
Como exemplo de conquistas de direitos através das lutas, nós temos o Grêmio Amaro Luiz de Carvalho, do C.E. Amaro Cavalcanti, no Rio de Janeiro, que conquistou a abertura de uma biblioteca na escola a partir de um abaixo-assinado com 300 assinaturas. Outro grande exemplo foi a luta tocada pelo Grêmio CEPAP, do Colégio Pedroso, no estado do Pará, que em 2017 organizou diversos atos na Secretaria de Educação do Estado, denunciando a diretora autoritária da escola que atrapalhava que o Grêmio fizesse suas atividades e continuasse funcionando. Depois desses diversos atos, que vale ressaltar que tinham muito apoio dos estudantes, na SEDUC e diversas agitações dentro da escola, o Grêmio conseguiu expulsar a diretora e seguiu funcionando e organizando atividades.
Esses relatos representam um histórico de lutas e conquistas ainda maior, que se estendem desde a conquista da sala do grêmio até o passe-livre nas cidades.
Contra as perseguições! Vamos à luta!
Mas fato é que estamos vivenciando uma crescente onda de perseguição aos Grêmios Estudantis em todo o Brasil. Não é à toa. Como vimos, os Grêmios que ousam lutar, vencem. E é exatamente por esse motivo que diversas direções escolares começaram a tentar cada vez mais perseguir os Grêmios. Começam não deixando o Grêmio passar em sala, depois não podem organizar atividades na escola, em pouco tempo as reuniões do Grêmio são fiscalizadas por algum funcionário, e sem que sequer percebamos, o Grêmio é obrigado a fazer serviços para a direção escolar.
Livros sendo carregados de um lado para o outro; a fila da merenda que só é organizada pelos gremistas; limpezas em ambientes da escola… Tudo isso são situações em que diversos Grêmios se encontram hoje. Precisamos acabar com isso. É absurdo que os Grêmios sejam utilizados como funcionários públicos das instituições de ensino e deixem de cumprir com seu papel histórico de organizar os demais estudantes na busca pelos direitos através da coletividade.
Para além de controlarem os grêmios que foram criados independentemente pelos estudantes, as secretarias de educação de vários estados, como Rio de Janeiro, São Paulo e Pará, passaram a orientar diretamente a criação de grêmios nas escolas. É evidente que a intenção dos governos não é apoiar a atuação de grêmios livres e que reflitam as demandas estudantis, mas pelo contrário! Um grêmio aparelhado pelos governos estaduais cumpre muito bem o papel de frear o movimento estudantil, por vezes até melhor do que uma diretoria interventora.
Queremos Grêmios vivos, independentes das direções escolares. E para tal, o Movimento Rebele-se tem uma tarefa importante em estar mais próximo das diretorias dos Grêmios que já existem, formar centenas de novos Grêmios e, em cada escola, lutar pelo grêmio livre e combativo. Isso se faz debatendo sobre a importância do grêmio para a juventude e garantindo, nas batalhas do dia a dia, que o movimento estudantil fure a repressão das direções escolares e governos estaduais. Além disso, também se faz necessária a mobilização em defesa e pela ampliação da Lei federal do Grêmio Livre (Lei nº 7.398) que garante a livre organização dos estudantes.
Com determinação e coragem, faremos um novo tsunami de Grêmios fortes e rebeldes. Só a organização e a luta dos estudantes garantirão a nossa vitória!
O ensino de jovens e adultos (EJA) é uma modalidade de ensino que, mesmo com as limitações dentro do sistema capitalista, tem uma importância grande para a classe trabalhadora. Iniciativas do MLB e do Olga Benario em combater esse problema nacional mostra que é possível emancipar a sociedade por meio do saber e do conhecimento.
Misa Aribel| Redação Paraíba
OPINIÃO– Milhões de mulheres brasileiras tiveram o direito à educação interrompido pela pobreza, pelo trabalho precoce e pela divisão desigual do trabalho doméstico. Muitas delas abandonaram a escola décadas atrás para assumir tarefas domésticas que o capitalismo só delega às mulheres: trabalhar para ajudar a família, cuidar da casa, dos filhos e dos doentes, repetindo o mesmo ciclo vivido por mães e avós.
A dimensão desse problema pode ser observada nos próprios dados educacionais do país. Segundo a PNAD Contínua, o Brasil ainda possui cerca de 9,1 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que não sabem ler ou escrever, o que equivalente a 5,3% da população nessa faixa etária. Isso é fruto da desigualdade estrutural capitalista que atinge principalmente as camadas mais pobres da população, onde as mulheres, especialmente negras e periféricas, são maioria. Nesse processo, a Educação de Jovens e Adultos (EJA), instituída pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB) em 1996, representou um avanço dentro de um país tão grande como o nosso, marcado por profundas desigualdades.
O Ensino de Jovens e Adultos (EJA) surgiu exatamente para enfrentar essa lacuna histórica, sendo uma modalidade da educação básica voltada para pessoas que não concluíram os estudos na idade considerada “regular”, permitindo a conclusão tardia do ensino fundamental ou médio e melhorar a autoestima pessoal dando dignidade aos participantes.
Infelizmente, nas limitações do capitalismo, o programa está longe de cumprir seu papel. As taxas de evasão na modalidade chegam a ultrapassar 50%, oferecendo escolas mal equipadas, professores sobrecarregados, currículos que ignoram a vida real de quem trabalha e nenhuma estrutura de apoio para quem chega cansada depois de um dia inteiro de trabalho doméstico ou informal. Mesmo assim, é uma modalidade de ensino que tem sua importância e tem sido uma alternativa para muitos brasileiros, mesmo com as limitações que possui.
A prisão econômica da mulher adulta
A dependência econômica é um dos fatores que mais aprisionam mulheres em relações abusivas. Sem acesso à escolaridade e à qualificação profissional, muitas acabam restritas a trabalhos informais extremamente precários ou, em muitos casos, sequer conseguem gerar renda própria. A impossibilidade de sustentar a si mesmas e, frequentemente, aos filhos, faz com que a permanência no relacionamento — mesmo quando marcado por violência — pareça a única alternativa viável.
Nesse processo, a ausência de escolaridade também limita o acesso à informação e aos próprios instrumentos de defesa, o que torna a situação de opressão dessas mulheres ainda pior. Muitas mulheres desconhecem seus direitos, os mecanismos legais de proteção ou mesmo as redes de apoio disponíveis em suas comunidades. Essa desinformação contribui para naturalizar ainda mais situações de abuso e reforça a ideia de que a violência doméstica é um problema privado, que deve ser suportado em silêncio e de forma individual.
É aí que a luta coletiva se torna ainda mais necessária, pois é preciso reconhecer que o mercado de trabalho capitalista é segmentado por gênero e raça. Ou seja, a mulher sem acesso a formação básica sofre ainda mais. E é nesse processo que iniciativas como a da Escola Eliana Silva, do MLB, e das Ocupações do movimento de Mulheres Olga Benario são tão urgentes e necessárias, além de serem exemplos de que é possível combater o analfabetismo e a ignorância de forma prática e concreta.
O confronto inevitável com o capitalismo
A emancipação feminina não pode ser reduzida à inclusão individual no mercado de trabalho. O certificado de conclusão do ensino médio não socializa o trabalho doméstico, não aumenta o salário mínimo, não constrói creche e não elimina o racismo do processo seletivo. A educação é fundamental, mas precisa estar articulada a uma transformação coletiva das relações sociais, a luta revolucionária.
Creches públicas, transporte acessível e jornadas de trabalho dignas são condições básicas para que mulheres trabalhadoras consigam estudar e permanecer na escola, e isso só pode ser garantido por uma revolução social dos trabalhadores. É nesse processo que as experiências do MLB e do Olga Benario nos ajudam a ver que uma mudança é possível. Criada em 2018, a Escola Nacional Eliana Silva, do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) já formou inúmeras mulheres e jovens em idade escolar que estavam fora da escola, além de formar diversas lideranças dos movimentos sociais, a maioria deixados de fora dos processos de educação.
Emancipação e mulher comunista
Incentivar que mulheres trabalhadoras participem de espaços como esses é algo importante. Apoiar iniciativas que visam fortalecer e empoderar as participantes, também prova que essa é uma pauta necessária e que produz frutos para a transformação social. Voltar a estudar é um ato de coragem e também um ato político, especialmente quando articulado com espaços coletivos que oferecem acolhimento, formação e organização. Nessas ocupações, mulheres constroem redes de solidariedade, compartilham experiências e desenvolvem autonomia em meio a condições muitas vezes marcadas pela violência e pela vulnerabilidade. Não é fácil tomar coragem e retomar os estudos. Muitas das companheiras e companheiros que estão até em idade avançada se acham sem condições para retomar aos estudos. A vergonha e a falta de incentivo são comuns nesses casos. É nessas horas que o coletivo ajuda essas companheiras e companheiros a se empoderarem de vez.
Mais do que defender direitos no papel, a luta da mulher trabalhadora passa pela construção prática de apoio mútuo. Em articulação com o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) ou ao Olga Benario essas iniciativas conectam a luta por educação à luta por moradia e dignidade, fortalecendo o protagonismo feminino nas periferias de verdade. Trata-se de uma atuação coletiva que transforma a educação em ferramenta de libertação e reafirma que nenhuma mulher deve enfrentar sozinha os obstáculos impostos pela sociedade. Agora, imagina o poder na mão do povo para realmente decidir as formas de organizar a educação em país, a exemplo do que fez Cuba após a sua revolução? Essa realidade é possível. Urgente e necessária.
Após defender aumento de 100% do salário-mínimo e confisco de bens de todos os corruptos, pré-candidata da UP cresce em pesquisa eleitoral do instituto AtlasIntel.
Redação
BRASIL – Única mulher pré-candidata às eleições presidenciais, Samara Martins é a terceira mais citada entre as mulheres em pesquisa AtlasIntel; Intenções de votos na dirigente da UP crescem após mobilizações em todo o país contra a escala 6×1 e em defesa dos direitos das mulheres, mas ainda enfrenta invisibilização na mídia e em institutos de pesquisa.
A pré-candidatura de Samara Martins (UP) à Presidência da República segue em crescimento. Nesta terça-feira (28), a pesquisa AtlasIntel, encomendada pela Bloomberg, mostra a vice-presidenta da Unidade Popular pelo Socialismo pontuando mais uma vez entre os nomes da corrida eleitoral, mesmo enfrentando um processo de invisibilização pelos próprios institutos de pesquisa e da mídia.
Ainda sem o espaço merecido nos veículos de comunicação, algumas propostas da pré-candidatura de Samara Martins têm ganhado repercussão e encontrado a simpatia da classe trabalhadora brasileira, como a de desmilitarizar as polícias, além da obrigatoriedade dos políticos e seus familiares diretos utilizarem serviços públicos, como o SUS e as escolas públicas.
Nas últimas semanas ganhou uma repercussão especial a proposta da UP, apresentada pela pré-candidata, de aumentar em 100% o salário mínimo em 2027, principalmente após o vazamento dos planos da equipe econômica do candidato fascista Flávio Bolsonaro, de proibir aumentos acima da inflação do salário mínimo por 4 anos.
A realidade é que a pesquisa mostra o que já se vem apresentando nas ruas do país: que há sim uma disposição da classe trabalhadora e do povo pobre em defender um programa socialista para o Brasil.
Crescimento entre mulheres e jovens
Segundo o levantamento da AtlasIntel, no cenário de primeiro turno, Samara Martins atinge 2% e, na margem de erro, aparece empatada com Ronaldo Caiado (PSD) e o fascista Romeu Zema (Novo), ambos ex-governadores de seus estados. Ela ainda supera outros figurões da política brasileira, como Ciro Gomes (PSDB) e Aldo Rebelo (DC), e também o escritor de best-sellers Augusto Cury (Avante).
Entre as mulheres, Samara Martins pontua 3.5% e é a terceira colocada, ficando atrás apenas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Já entre a juventude (entre 16 e 24 anos), em que o voto é menos concentrado entre os pré-candidatos, a dirigente da Unidade Popular pelo Socialismo atinge 14.2%. Além disso, ela pontua em todas as categorias de Religião e em todas as regiões do Brasil, com destaque para o Sul, onde atinge 3.9%.
“Em poucos meses, temos visto a nossa pré-candidatura conquistar os trabalhadores em todo o Brasil, especialmente as mulheres. Isso é fruto da organização e mobilização dos núcleos da Unidade Popular pelo Socialismo, enraizados nos locais de trabalho, nos movimentos sociais e nas periferias”, diz Samara Martins.
Anteriormente, a pré-candidata da UP já havia pontuado em outras pesquisas relevantes, como a Quaest, divulgada em 15 de abril, o primeiro levantamento da empresa em que foi citada. Nesse levantamento, dentro da margem de erro, ela aparece empatada tecnicamente com Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), candidatos da extrema-direita que tem tido espaço na grande mídia.
Os dados da AtlasIntel mostram que a pré-candidatura de Samara Martins se consolida e cresce entre camadas fundamentais da sociedade brasileira, como as mulheres. Ainda assim, a única mulher na disputa precisa enfrentar uma invisibilização grande dos próprios institutos de pesquisa e dos veículos de comunicação.
No próprio levantamento da AtlasIntel, ela é colocada entre os nomes em apenas um dos três cenários de primeiro turno testados. É deixada de lado pelo instituto no primeiro cenário, que mantém nomes da direita como Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Aldo Rebelo e Augusto Cury, com os quais Samara já se colocou em pé de igualdade. O mesmo se repete no 3º cenário, em que é testado o nome de Fernando Haddad no lugar de Lula.
“Os resultados positivos das pesquisas para a nossa pré-candidatura mostram que a nossa política é justa e não há motivos para nos ignorar nos levantamentos e nos veículos de comunicação. Quem toma contato com o programa socialista da Unidade Popular logo reconhece que é o programa mais avançado para enfrentar as desigualdades no Brasil, acabar com os privilégios da burguesia e garantir o fim da exploração sobre os trabalhadores”, analisa Samara.
Samara Martins lidera entre quem não votou em 2022
Outro dado que expressa a relevância da pré-candidatura da Unidade Popular é o de que Samara Martins é a favorita daqueles que não confiaram o seu voto nem em Lula e nem em Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2022.
Segundo o levantamento, entre aqueles que não votaram na eleição passada, 28.4% declararam voto em Samara Martins, à frente de todos os outros pré-candidatos. Com isso, ela lidera de forma isolada nessa estratificação, consolidando uma alternativa socialista para além da polarização entre os programas do PT e do PL.
A pesquisa
A pesquisa AtlasIntel entrevistou 5008 pessoas e tem uma margem de erro de 1% para mais ou para menos com margem de confiança de 95%. Está registrada no TSE com o número BR-07992/2026
Quem é Samara Martins?
Samara Martins, 38 anos, é mulher trabalhadora, mãe, negra e porta-voz do programa da Revolução e do Socialismo, defendido pela Unidade Popular. Ela atua como dentista do SUS na estratégia Saúde da Família. Iniciou sua militância no movimento estudantil e, atualmente, atua no Movimento de Mulheres Olga Benário e é coordenadora nacional da Frente Negra Revolucionária, estando diretamente vinculada às lutas das mulheres, da população negra e da classe trabalhadora.
Dois meses após o novo acordo coletivo que acabaria com o trabalho aos sábados com a contrapartida de reduzir o horário das refeições dos operários para 30 minutos, a EssilorLuxottica, multinacional de lucro bilionário com planta em Campinas, interior de São Paulo, obriga os operários a continuar trabalhando em sábados alternados.
João Suzigan – Campinas (SP)
Trabalhador Unido – No chão da fábrica em Campinas, a escala 6×1 ainda é uma realidade, já que a empresa convoca arbitrariamente e usa uma estratégia perversa de escolher os setores que vão receber hora extra e os que não vão receber, pelo mesmo dia de trabalho.
Além disso, o assédio moral para cumprir horas extras é tanto que, caso não seja atingido um número mínimo para a operação do setor, torna-se obrigatório o dia de trabalho.
A situação tem gerado crescente indignação entre os milhares de trabalhadores que aprovaram em assembleia da sua categoria o fim dessa escala adoecedora e que hoje se desdobram para fazer a única refeição do turno de 8h em apenas 30 minutos.
Na prática, não houve redução da jornada e as condições de trabalho pioraram, conforme aponta Gisele*: “todo mundo aqui reclama de dor e vira e mexe alguém tem que fazer cirurgia por lesão de esforço repetitivo. A maioria do pessoal trabalha em pé o dia todo e o corpo não aguenta mesmo”, enquanto a família Del Vecchio, fundadora da empresa, vive luxuosamente há gerações, sem trabalhar e lucrando cada vez mais com tamanha exploração.
Monopólio na produção mundial
A EssilorLuxottica é a fusão de duas grandes empresas, com dezenas de fábricas espalhadas pelo mundo e quase 200 mil trabalhadores que produzem mais de 25% do mercado global de óculos, detendo marcas como Ray-Ban, Oakley, Chanel, Giorgio Armani, Vogue, Óticas Carol, entre outras, representando de acordo com a Forbes, 80% das marcas de luxo do mercado mundial de óculos de sol.
O lucro declarado em 2023 foi de 2,3 bilhões de euros (13 bilhões de reais), lucro este que foi extraído da força de trabalho roubada diariamente nos mais de 10 países em que a empresa está presente. Cabe lembrar que no modo de produção em que vivemos, as condições de trabalho são ainda piores nos países na periferia do capitalismo.
Veja o exemplo: nos Estados Unidos, França ou Itália a média salarial dos trabalhadores é de 2.600 dólares (R$13.000), enquanto as fábricas na Tailândia pagam de 300 a 600 dólares por mês (entre R$1.500 e R$3.000) e no Brasil em torno de 440 dólares (R$2.200), resultado de jornadas exaustivas, terceirização da produção e cada vez menos direitos e benefícios.
Categoria denuncia abusos
“Temos que trabalhar operando duas máquinas injetoras ao mesmo tempo porque muitos operadores que entram já desistem nos primeiros dias quando percebem as condições aqui, o risco de sofrer queimaduras mesmo sem receber adicional de periculosidade” relatou um operário que preferiu não se identificar
E conclui: “é muita coisa errada que a empresa faz, por exemplo, a função que está no meu contrato é de operador de produção, mas aqui a gente opera máquinas que é outra função de salário maior”
Marlene*, recentemente demitida sob a justificativa de baixa produção, “Esse nosso trabalho na produção é que nem uma escravidão, que a gente trabalha tanto, não descansa, e não sobra nada pra gente. Pra mim essa é a verdadeira escravidão”.
Vários operários relataram que só a greve resolveria essa situação imposta pela empresa. Como fizeram trabalhadores da EssilorLuxottica na França que em novembro do ano passado entraram em greve nacional de três dias em todas as fábricas e laboratórios do país, com a adesão de 9 mil pessoas exigindo aumento salarial e melhores condições de trabalho.
No Brasil, os operários e operárias podem arrancar vitórias assim como os trabalhadores da França, cruzando os braços e parando a produção, por mais dignidade, redução real da jornada, aumento do salário, fim do assédio moral e, principalmente, lutando pelo socialismo
***Todos os nomes são fictícios para evitar repressão por parte da empresa
Ação da PM ocorreu após retomada de fazenda por famílias Guarani-Kaiowá na região de Amambai, no Mato Grosso do Sul. Conflito entre os dias 26 e 27 de abril deixou ao menos cinco mortos, incluindo duas crianças.
Caio Potiguara | Macaé (RJ)
BRASIL – Um violento confronto entre forças de segurança do Mato Grosso do Sul e comunidades indígenas Guarani e Guarani-Kaiowá resultou em pelo menos cinco mortos, cinco presos e relatos de abuso sexual contra uma jovem, entre os dias 26 e 27 de abril de 2026. Os episódios ocorreram na região da Reserva Limão Verde, entre os municípios de Amambai e Coronel Sapucaia, na fronteira com o Paraguai.
De acordo com publicações de entidades de defesa dos direitos indígenas e lideranças locais, a crise teve início na noite de sábado (26), quando cerca de 80 famílias realizaram a retomada da Fazenda Limoeiro, área que faz divisa com a reserva e está sobreposta ao tekoha (território tradicional) Tapykora Kora, dentro da Terra Indígena Iguatemipeguá II, em processo de demarcação desde 2008.
Na manhã de domingo (27), a Polícia Militar e o Departamento de Operações de Fronteira (DOF) lançaram o que o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) classificou como uma “operação de guerra”. Os agentes atacaram a aldeia Limão Verde com tiros e bombas, sem apresentar ordens judiciais, segundo relatos.
Mortes e prisões
Em postagem feita ainda no domingo, uma página de apoio aos indígenas informou que a retomada do território Iguatemipegua terminou com cinco indígenas mortos, entre eles duas crianças, e cinco presos após a ação policial. A informação não foi confirmada oficialmente pelo governo do estado ou pela Polícia Militar até a última atualização desta reportagem.
A região concentra um dos mais longos e violentos conflitos fundiários do país. Os territórios reivindicados pelos Guarani-Kaiowá já foram aprovados em estudos de demarcação, mas seguem ocupados por fazendeiros e sofrem com a lentidão do processo burocrático federal.
Relatos de abuso sexual e falta de água
Em um dos posts mais graves, compartilhado na tarde de domingo (27), traz o relato de que uma jovem Guarani Kaiowá teria sido vítima de abuso sexual durante a operação policial na Aldeia Limão Verde. Segundo o texto, além do uso excessivo de força, a jovem sofreu agressões físicas e foi submetida à violência sexual! configurando, na avaliação de entidades, grave violação de direitos humanos.
Em outro relato, um indígena da aldeia afirmou ao Cimi: “Está muito ruim aqui. Chegaram com muito ódio, sem diálogo, estão atacando sem piedade. Pedimos socorro, nossas famílias, idosos, estão no rumo das bombas e tiros.”
As postagens também denunciam que as comunidades vivem em condições precárias, sem sequer acesso a água potável, e que lideranças indígenas vêm sendo criminalizadas sistematicamente.
A mesma lógica de sempre
O que aconteceu em Limão Verde é a expressão mais crua de um sistema que há séculos trata a terra como mercadoria e a vida indígena como problema. O capitalismo agroexportador brasileiro não se sustenta sem violência: ele exige cercas, títulos de propriedade, jagunços, polícia e juízes que deem cobertura jurídica à expulsão de quem veio primeiro.
Os latifundiários do Mato Grosso do Sul não agem sozinhos, eles agem com o Estado capitalista a reboque, com o Congresso Nacional blindando a grilagem e com a opinião pública acostumada a ver corpos indígenas como “custos do progresso”. Enquanto houver lucro em cima da soja, do boi e da cana plantados sobre territórios roubados, haverá polícia atirando em criança e jovem sendo estuprada dentro da própria casa. A barbárie de 27 de abril de 2026 não é um acidente. É o capitalismo funcionando exatamente como foi projetado.
Um dos momentos mais violentos de nossa história, a Guerra do contestado, é uma das páginas mais sangrentas de nosso país. Ao mesmo tempo é um marco na virada da organização da classe trabalhadora brasileira. Esse é o sexto capítulo da série exclusiva do Jornal A Verdade “A história oficial Versus as lutas do proletariado brasileiro”.
Natanael Sarmento| Redação Pernambuco
HISTÓRIA (Parte 06) – O período de 1911 a 15 foi marcado por disputas radicalizadas das oligarquias regionais. A política “salvacionista”, das intervenções do governo Hermes da Fonseca -1910/1914 expressavam essas disputas inclusive por meio de armas e bombardeios de capitais. As novas contradições surgidas com o desenvolvimento do capitalismo nas cidades e campos também conheceram revoltas populares, rebeliões e lutas de resistência da nascente operária que se organizava em sindicatos, federações, centrais e produziam seus jornais classistas.
Greve Geral do Pará (1914)
A primeira greve geral de operários do Brasil foi realizada no Norte do país, em 14 de abril de 1914, no estado do Pará. A crise econômica do capitalismo e início da Primeira Guerra imperialista atingem brutalmente os trabalhadores dos serviços ligados à produção do látex, estivadores, portuários, ferroviários, eletricitários. A redução de preços internacionais e queda das exportações foi acompanhada de aumento dos gêneros alimentícios, desemprego e atrasos salariais. No “declínio do “ciclo da borracha” a alta do desemprego e do custo de vida tornavam insuportáveis a vida daqueles trabalhadores. A vanguarda da classe operária se organizava em associações, sindicatos e federações, na luta de resistência sob influência anarquista-sindicalista.
A característica deste movimento foi atingir o coração da infraestrutura econômica indispensável à economia da borracha: Porto de Belém, Estrada de Ferro de Bragança e a energia da Pará Electric Railways and Lighting Company Ltd. Estivadores, portuários, ferroviários, maquinistas, sinalizadores, operadores, controladores de tráfego, bilheteiros, eletricistas se unem e mostram organização e força nessa memorável Greve Geral do operariado paraense. Os trabalhadores exigiam o pagamento dos salários atrasados, a redução de jornada de trabalho e o fim das perseguições aos sindicatos.
A despeito da repressão violenta patronal e do Estado, prisões e deportações, o movimento fortalece a Federação Operária do Pará (FOP). Belém foi o ensaio geral exemplar ocorrido três anos antes das grandes greves gerais de São Paulo de 1917 e 1919.
Contestado (1912-1916). “Pelados contra Peludos”
A “Guerra do Contestado” foi um genocídio de camponeses pobres na divisa do Paraná/Santa Catarina. Mais de 20 mil camponeses tiravam o sustento da terra e viviam em comunidades autossuficientes. Causavam prejuízo aos poderosos na escassez de mão-de-obra e davam prejuízo ao comércio local, ocuparam terras que se tornaram valorizadas à construção da ferrovia e despertou a cobiça dos latifundiários e outros exploradores do povo. Empresas estrangeiras como a madeireira Lumber & Company e a ferroviária “Brazil Railway Company” em conluio criminoso com latifundiários e governos estaduais e federais expulsam milhares de posseiros de suas terras, destroem suas comunidades camponesas e matam milhares de trabalhadores.
O Assentamento
Os assentamentos rurais chamados de “quadro santo” integravam a estrutura da “Monarquia Celeste” fundada pelo mítico beato José Maria. Começa em 1912, no Município de Curitibanos, nas terras concedidas do coronel Henriquinho de Almeida que era inimigo de Chiquinho Albuquerque o mais poderoso latifundiário da região. Milhares de camponeses pobres encontraram esperança de sobrevivência nos assentamentos – “quadros santos”. Experiência comunal com marca de misticismo eclético de catolicismo primitivo, monarquismo e sebastianismo que atraiu 20 mil seguidores e continuadores da “Monarquia Celeste” sob o lema: “quem tem mói, quem não tem também mói”.
Os produtos da terra e o uso da moenda era comunal. Satanizam o comércio e puniam a busca de lucro mercantil com pena de morte. O Profeta José Maria pronunciava o “fim dos Tempos” e alimentava esperanças com a volta do Rei Dom Sebastião. Na confusa mistura de elementos bíblicos e imitação da medieval organização do império Carolíngio de Carlos Magno e os “doze Pares da França”.
Reação
De olho nas terras e lucros futuros com as indenizações o coronel Albuquerque, à frente da prefeitura, manda telegrama ao Presidente da República denunciando a “ameaça monárquica”. A Companhia Lumber engrossa a pressão e protocola expediente no qual responsabiliza a União pelos prejuízos “que possam sofrer na região”. A força pública do Estado a serviço da burguesia ataca as “aldeias santas”. Os comandantes militares “doze pares” da “Monarquia Celestial” revidam. E invadem as cidades de Canoinha, Papanduva, Curitibano, Caçador, Calmon e Itaiópolis, queimam madeiras e depredam o prédio da Companhia Lumber. A madeireira arma exército privado com funcionários e jagunços contratados. A “guerra tem início”. Durante longo tempo as serrarias e oficinas ficam sem funcionar.
As comunas rurais da “Monarquia Celestial” jamais foram ameaça efetiva à República. Messianismo monárquico sim, contrário à República identificada como opressora, policialesca e cobradora de tributos. A questão era prejudicar interesses capitalistas de latifundiários e empresários locais e internacionais. Porque assegurava a todos os camponeses terra para plantar e meios de vida sem precisar dos patrões, dos comerciantes, da polícia e dos prefeitos ou de pagar impostos ao governo. Esse fato contraditava a “ordem social” capitalista.
Atacados, o “monge” José Maria organizou o deslocamento territorial da “quadra santa”. Centenas de mortos e feridos. Os aprisionados pela polícia tiveram os cabelos raspados. Os demais seguidores que permaneceram na luta, solidários, rasparam e se assumiram como “pelados” contra “peludos”, os ricos poderosos. José Maria realoca-se no município de Palmas, sítio de tensões e conflitos de terra. Combatem as tropas policiais de Santa Catarina. “Nós só queremos paz e uma terrinha para plantar feijão e milho para poder manter a nossa criação” pregava o beato, mas os pelados não tiveram paz.
José Maria funda o “quadro santo” no município de Irani. O governo do Paraná destaca o capitão João Gualberto com 400 homens para intimar José Maria a comparecer na Delegacia de Palmas. A cilada foi entendida pelos pobres posseiros. A polícia ataca com metralhadoras modernas e os camponeses se defendem com armas rústicas e facões. Nesse combate tombam José Maria e alguns líderes dos “doze pares”. A tropas policiais perderam muitos soldados, metralhadoras e munição.
Os camponeses enquanto esperavam a ressureição do José Maria reconstruíram novo “quarto santo. Resistiam. Foram cinco anos de lutas. Em 1916 morre Adeodato, último líder da resistência camponesa que sobreviveu à fome, doenças e enfrentou o Estado burguês e 1/3 do Exército que no seu servilismo classista antipopular recorreu a aviões e aos bombardeios aéreos para esmagar 20 mil camponeses dessa luta épica de resistência e verdadeiro genocídio.
Luta dos Coronéis
A “política de salvação” de Hermes da Fonseca não passava de troca de oligarquias, de coronéis afinados com o Governo Federal. Pura balela essa historiografia burguesa do capitalismo moderno e urbano em contraposição ao arcaico e rural, dualidade inexistente. No Ceará, o “salvacionismo” derruba o Presidente Nogueira Accioly da oligarquia mais antiga no poder regional. O interventor, Marcos Franco Rabelo, perdeu apoio do Partido Republicano Conservador e exonerou o Prefeito de Juazeiro Padre Cícero Romão Batista.
O coronel Floro Bartolomeu aliado do Padre Cícero viaja ao Rio e obtém apoio de Pinheiro Machado para o levante armado contra o governador de Marcos Rabelo, este apoiado pelo Governo Federal. A “Revolta dos Sertanejos” do Ceará liderada pelo Padre Cícero Romão Batista e outros coronéis locais vencem as batalhas contra as forças oficiais, cerca o Palácio e derruba Franco Rabelo. Os rebeldes “marretas” demonstraram a força e o coronelismo dominante do Ceará teve que fazer novo rearranjo com o governo federal, depois da derrota da imposição “salvacionista” de Hermes da Fonseca no Estado.
Ao mesmo tempo em que cresciam a repressão por parte do Estado e a disputa entre as elites, a classe trabalhadora também afinava suas formas de resistir. Com o acúmulo da experiência nos enfrentamentos e embates contra a burguesia nacional já estabelecida, era preparado também uma resposta classista para os próximos embates, assunto que aprofundaremos mais nos próximos capítulos de nossa série.
Realizado no último domingo (26), o congresso da Unidade Popular contou com um ato de lançamento da pré-candidatura de Samara Martins para a presidência da república e de Camila Falcão, para disputar a governadoria do estado esse ano.
Redação Pernambuco
Brasil- No último domingo (26/04) a Unidade Popular em Pernambuco realizou seu congresso extraordinário. A atividade ocorreu na sede do Movimento de Trabalhadores Cristão (MTC), no centro do Recife. Antecedido por congressos municipais em Petrolina, Caruaru, Carpina, Jaboatão e Recife, o congresso discutiu a conjuntura, lançou a nova edição da revista da CIPOML Unidade e Luta, elegeu um novo diretório estadual da UP e apresentou a sociedade pernambucana as pré-candidaturas de Samara Martins para a presidência da república e de Camila Falcão para o governo do estado. Com cerca de 70 delegados eleitos nos núcleos e congressos municipais em todo o estado, a necessidade de aumentar as lutas e a organização dos pernambucanos em Pernambuco foi tônica de todo o encontro.
Em um dos momentos mais emocionantes do encontro, Samara Martins assinou a ficha de filiação de diversas lideranças e novos filiados, entre eles, Edival Nunes Cajá, do Centro Cultural Manoel Lisboa, Nadja Mendes, filha de João Mendes Araújo, militante da Ação Libertadora Nacional- ALN, desaparecido político assassinado em 1972 pelo regime militar, e Amaro Araújo, que foi militante da ALN e hoje é uma das referências na luta pelos direitos humanos no Brasil. Amparo fez questão de lembrar: Eu me desfiliei do PSB depois que ele votou pelo impeachment da Dilma. E eu tinha jurado que nunca mais me filiaria a nenhum partido. Mas a prática da Unidade Popular me fez mudar de ideia. Eu comecei a miliar com 14 anos e não tenho vontade nenhuma de parar de lutar”.
“Mulheres de luta em ação”
Samara Martins, vice-presidente nacional da UP e coordenadora nacional da Frente Negra Revolucionária (FNR) participou de todo o congresso. Visitando o estado desde o anúncio de sua pré-candidatura, apresentou o informe sobre a conjuntura e reforçou o caráter coletivo das próximas batalhas a serem enfrentadas no Brasil: “reclamaram quando falamos que os políticos deveriam colocar seus filhos nas escolas públicas e se consultar no SUS. Reclamaram quando dizemos que o vestibular tem que acabar. E é isso que a Unidade Popular tem defendido, e não é de hoje. A nossa luta é para transformar de vez a nossa sociedade. E disso não abrimos mão”.
Já Camila Falcão é professora, membra da coordenação nacional do Movimento de Mulheres Olga Benario e do diretório nacional da UP, foi apresentada como pré-candidata ao governo do estado em Pernambuco. Camila, que foi presidente do DCE da UFRPE e da União dos Estudantes de Pernambuco (UEP) apresentou as principais pautas da Unidade Popular no estado, como o enfrentamento ao feminicídio e a violência contra as mulheres, o combate às privatizações como a da Compesa e do metrô, bem como o apoio às lutas dos trabalhadores pelo fim da escala 6×1 e a defesa de uma educação pública de qualidade. Camila também destacou que um grande desafio é fortalecer os movimentos sociais no estado e crescer ainda mais a UP no estado. “Os ricos tem partido. A classe trabalhadora também tem o seu. E esse partido é a unidade Popular. Hoje nós temos duas mulheres na governadoria e nada é feito para resolver o problema do feminicídio no estado. Porque essas duas mulheres representam os ricos e os empresários. Não basta ser mulher. Tem que ser mulher trabalhadora’, afirmou Camila.
Ao final do congresso, além do novo Diretório Estadual, foram aprovadas as propostas de organização e um calendário de luta para o próximo período.
Auditório do MTC lotado durante a abertura do congresso extraordinário da UP. Foto: Vitória Pereira (JAV/PE).
Samara Martins assina ficha de filiação de militantes históricos dos movimentos sociais durante a abertura do congresso estadual extraordinário da UP em Pernambuco. Foto: Vitória Pereira (JAV/PE).
Camila e Samara fazendo agitação durante o ato de apresentação das pré-candidaturas da UP. Foto: Vitória Pereira (JAV/PE).
O Jornal A Verdade entrevistou Hans Lisboa, membro do Comitê Pernambucano de Solidariedade com Cuba e apoiador das brigadas de solidariedade com o país caribenho. Hans esteve em Cuba em 11 ocasiões diferentes e, nessa entrevista, fala sobre as suas impressões sobre a ilha e as mobilizações que tem sido realizadas em todo o Brasil para denunciar as atuais ameaças dos EUA, que é culpado diretamente pela atual crise energética que enfrentam os cubanos.
Clóvis Maia | Redação Pernambuco
ENTREVISTA – As recentes ameaças promovidas pelo governo fascista de Donald Trump contra Cuba representam um dos momentos mais delicados na história do país socialista. A crise energética foi agravada ainda mais pelo bloqueio econômico que já dura mais de 60 anos. Hans Lisboa é membro do Comitê Pernambucano de Solidariedade com Cuba e participa das brigadas de solidariedade com Cuba. Para o jornal A Verdade ele fala um pouco dessa experiência de solidariedade e da urgência de denunciar a política do Estado americano contra o país caribenho.
Jornal A Verdade – Quando se fala de Cuba, geralmente fala-se mal. A propaganda contra o país é terrível. O que te motivou ir até a ilha e como foi tua primeira impressão ao chegar lá?
Hans Lisboa – Eu fui 11 vezes a Cuba. Na primeira vez eu tinha apenas 20 anos. Cuba passava por um momento muito bom, antes do chamado “período especial”. E o que me instigava a ir a Cuba foi justamente por ser um país diferenciado de todos os países aqui da América Latina. Claro que vivemos algumas experiências boas com Allende, no Chile, o Árbenz¹ na Guatemala, mas a história viva de um país socialista, verdadeiramente socialista, era Cuba. Isso me instigou a querer conhecer um pouco mais dessa realidade.
A primeira vez que estive lá, início dos anos 80, Cuba passava por um momento muito bom, ainda em plena vigência da União Soviética. Lá eu vi uma Cuba que era uma que eu gostaria que existisse até hoje. O país produzindo tudo, o sistema de transporte fluindo bem. Eu lembro que peguei trem para ir ao interior de Cuba, tudo funcionava a contento na época, foi maravilhoso. Passei 10 dias lá nessa primeira visita, inclusive no Hotel Copacabana, em Havana, que anos mais tarde sofreria um atentado promovido pelos grupos anticastristas, onde houve até a morte de um turista italiano.
Eu posso dizer que me apaixonei por Cuba. Jurei amor eterno. Na segunda vez que eu fui, a ilha já passava por um momento mais delicado. Foram duas viagens que eu fiz durante o chamado ‘Período especial’, de 90 a 2000. Nessas duas viagens eu vi uma outra realidade de Cuba, especialmente com o fim da União Soviética, o fim do subsídio ao país, a troca de açúcar por mantimentos entre os dois países, tudo isso tinha ruído. E Cuba precisou sobreviver como podia na época, além de passar por muita dificuldade. O país tinha que se adaptar à nova realidade.
Quer dizer, o bloqueio econômico é um inimigo feroz dos cubanos. Não é de hoje. Como eles faziam para enfrentar essas dificuldades, especialmente depois do fim da União Soviética?
Nesse período aí eu pude ver o quão o povo cubano é resiliente. Era muito difícil sobreviver naqueles tempos. Eu acho que um fator que fez com que as pessoas ainda acreditassem no país naquele período, isso por volta dos anos 2000, mais ou menos, eu pude notar duas coisas: Primeiro os ensinamentos que a revolução tinha passado para o seu povo. As pessoas viam que tinham que defender a Revolução. Era verdadeiramente pátria ou morte. As pessoas entendiam que não dava para voltar ao capitalismo. Se voltasse ao capitalismo, voltava toda aquela realidade anterior à Revolução. E um outro fator que impulsionou era Fidel Castro. Fidel Castro, como a maior liderança de Cuba, transmitia muita confiança, dava muita segurança para os cubanos naquela época. Então, era muito comum encontrar as pessoas fazendo a defesa de Fidel naquele tempo.
Mesmo com todas as dificuldades, ninguém esmorecia, e todos, era quase unanimidade, defendia a necessidade de manter o projeto da revolução. Evidentemente que o cubano, em algum momento, falava mal da situação, reclamava, ficava preocupado com o dia a dia, como é comum das pessoas. Mas, voltar para o sistema capitalista? A maioria dos cubanos não queriam de maneira nenhuma. E eram taxativos. ‘Melhoras as coisas? Sim. A gente tem que fazer a crítica para que as coisas melhorem, mas, voltar ao que era antes? Isso nunca!” era esse o sentimento que a gente sempre ouvia nas ruas.
Quando se fala de Cuba a imprensa só fala de pobreza, de miséria, esse papo batido da mídia hegemônica. Nesse conflito atual praticamente não se fala em nenhum veículo de comunicação sobre o bloqueio econômico, que dura mais de seis décadas. Essa nova ofensiva de Trump está agravando ainda mais a situação do bloqueio, sobretudo após a pandemia de covid. Como é que você enxerga essa manutenção do discurso anti-cuba e o agravamento dessa crise humanitária por lá?
Como eu disse, a situação de Cuba era muito boa. Com o fim da União Soviética acabaram aquelas trocas entre os países e Cuba teve que se adaptar à nova realidade. Foi aí que veio a questão do turismo, com a permissão de que algumas empresas estrangeiras instalassem seus hotéis em Cuba. Aí o país voltou a respirar. Foi um momento bom. Parecia que a partir daí a mídia iria, como se diz, maneirar mais na propaganda contra a ilha. Mas aí é que tá: o problema de Cuba é o bloqueio que o país vive, não o seu regime. E é isso que não querem que os povos mais humildes saibam. A mídia pensava que o socialismo iria acabar depois da morte de Fidel ou que o povo de lá é refém de seu governo. Essa é a ideia que a mídia tenta passar para a gente. Mas o que se vê em Cuba É uma coisa assim que transcende essa mentira.
Mesmo no ‘período especial’ eu tive a oportunidade de ir lá duas vezes, e não se via ninguém na rua, por exemplo, ninguém pedindo esmola, ninguém passando necessidades. Hoje, infelizmente, estive ano passado lá, e pude encontrar alguns pedintes, ver mais dificuldades, especialmente pela continuidade do bloqueio e pela pandemia que passamos, na qual Cuba enfrentou sozinha e corajosamente. No início dos anos 2000 ou na década de 90 isso era uma coisa que eu não vi. No início dos anos 2000, por exemplo, as pessoas nem dependiam mais da Libreta, aquela caderneta que marcava os produtos que as famílias recebiam.
Agora, mesmo com as dificuldades, em todo tempo sempre vi todo mundo na escola, todo mundo alfabetizado, as crianças em escolas e creches integrais, praticamente nenhuma violência no país inteiro, segurança, energia e água gratuitos. Isso a mídia nunca mostrou. E os turistas veem isso lá. E voltam para seus países fazendo essa propaganda, desmentindo as mentiras do imperialismo.
Você falou do “período especial”. E você pode observar o país em vários momentos distintos. A situação atual de Cuba é a mais delicada na história da ilha?
O período especial foi porque Cuba fazia trocas com a União Soviética. Vendia açúcar para a União Soviética e para os países do bloco socialista. Além do açúcar, vendia rum, outros produtos minerais como o níquel, o cobalto e mais alguns. Em contrapartida Cuba recebia petróleo da União Soviética e todo o suporte para a implementação das cooperativas em Cuba para do transporte, recebia trens da União Soviética, do Leste Europeu como um todo, então isso ajudava muito para a economia cubana. Tudo isso deixou de existir quando os países voltaram a ser capitalistas. Voltaram para Cuba essa visão do capitalismo selvagem.
Então, como o bloqueio persiste até hoje, não permitem que Cuba faça negócios utilizando o sistema SWIFT, por exemplo, obrigando o uso do dólar em espécie. Nessa época os cubanos tiveram que de readaptar para poder sobreviver. Com o sequestro de Maduro, realmente a situação escalonou de uma forma muito terrível. Se eu for comparar com o período especial, acredito que hoje seja bem pior.
Esse apoio que a Venezuela dispensava para Cuba e que foi cortada após o sequestro de Maduro ficou mais escancarada quando o Trump afirmou que deseja invadir a ilha. Mas em janeiro desse ano Trump declarou emergência nacional contra a ilha, classificando Cuba como um país terrorista. Essa não é só uma ameaça, como estamos vendo no caso do Irã, né?
Eu enxergo com muita preocupação esse momento, porque essas ações tresloucadas do presidente americano, de sequestro de um presidente da república, de tentativa de tomada de poder no Irã, e avisos constantes de que vai invadir Cuba tem que nos preocupar. Ninguém sabe o que pode sair da cabeça daquele maluco lá. Muita gente não sabe, mas Cuba só produz 40% do petróleo que necessita. Então precisa de outros 60%. Os painéis solares e toda a solidariedade que o mundo tem demonstrado com Cuba tem ajudado, mas com esses sucessivos apagões, evidentemente que a economia sofre bastante.
Eu vejo que a possibilidade de invasão à ilha, ou um possível sequestro do presidente Miguel Díaz-Canel, é muito difícil. Não que o Trump não possa fazer, não é isso. Mas eu não vejo que ele vai conseguir implementar isso sem haver resistência, primeiro pelos ideais cubanos, que estão enraizados no povo. O inconsciente coletivo, nessa hora, fala mais alto. Segundo, as forças armadas cubanas são muito, muito bem treinadas. Evidentemente que, se for comparar a força bélica dos Estados Unidos com a de Cuba, a dos EUA é infinitamente superior. Mas eu vejo aí uma guerra de guerrilha dentro de Cuba, onde muitos americanos iriam ter que voltar para suas casas dentro de um caixão. E será que a opinião pública americana iria querer assistir um novo Vietnã? Mas, como eu disse, se tratando desse fascista que está na presidência hoje, tudo é possível. Ainda mais agora que ele precisa desesperadamente de apoio interno para vencer as eleições que se avizinham. Se ele não conseguir maioria, pode até ser impichado.
Por último, apesar das dificuldades, temos visto que a solidariedade com Cuba se mantém e tem crescido. Fala um pouco de como tu enxerga essas movimentações de solidariedade e tua experiencia com as brigadas solidárias ao longo desses anos.
Olha eu participo de um grupo nacional de solidariedade a Cuba, voltados para as brigadas. A cada dois anos há um encontro nacional de solidariedade, pessoas ligadas ao Centro Cultural José Martí, os comitês regionais de solidariedade como o daqui de Pernambuco. Apraz muito conhecer essas pessoas e ver como que eles se dedicam à causa cubana. Tudo por conta da solidariedade que Cuba presta não só ao Brasil como ao mundo. Vejo sempre com bons olhos, a disposição dos companheiros Brasil afora em sair em defesa de Cuba. Isso é que nos dá esperança de que cuba vai sair dessa situação, inclusive é importante também a pressão que acontece todos os anos na ONU pelo fim do bloqueio. A resolução é unânime. Tirando os países de sempre, Estados Unidos e Israel, a maioria vota favoravelmente ao fim do bloqueio, então com todas essas ações de solidariedade a Cuba feitas no Brasil e no mundo Cuba há de vencer e seguir firme com o socialismo para que seja espelho para o mundo e espelho para o Brasil.
Vejo sempre com muitos bons olhos todo esse trabalho feito pelos grupos de solidariedade com Cuba aqui. Eu tenho que só parabenizar a todos os que participam, direta e indiretamente nessa luta. Lembrando que nós estamos com duas grandes campanhas agora, uma para levar painéis solares, com a conta da Câmara de Comércio Brasil-Cuba, e a outra para compra de medicamentos e alimentos e outros mantimentos para Cuba. Então vamos seguir nessa solidariedade e agradeço muito aos brasileiros que apoiam essa causa. Viva Cuba!
A colaboração na campanha para doação de remédios para Cuba está sendo feita no Pix:
¹Jacobo Árbenz Guzmán foi presidente da Guatemala. Sofreu um golpe militar em 1954, apoiado diretamente pela CIA após iniciar uma reforma agrária, sobretudo contra o monopólio de terras da empresa americana United Fruit.
² O Sistema SWIFT é uma rede global que conecta instituições bancárias de mais de 200 países. É uma forma segura de transferir recursos, muito usado para o turismo, por exemplo, mas Cuba, por conta do bloqueio econômico, sempre enfrentou dificuldade para acessar esse sistema, uma forma de dificultar o turismo na ilha.
³ O Período Especial em Cuba começou em 1989, com o fim da URSS e o fim do bloco soviético em 1991. O incentivo ao turismo internacional e o apoio da Venezuela com Hugo Chávez no início dos anos 2000 ajudou a mitigar a crise.
Ato em frente ao Memorial José Martí, localizado na Plaza de la Revolucíon, Havana. Foto: Hans Lisboa.
Hans Liosboa em frente ao Centro de Estudos Fidel Castro. O prédio era antes uma mansão de uma família aristocrática e tornou-se um espaço voltado a preservar e divulgar o pensamento do líder da revolução.
No último 14 de abril, dois dos seis acusados pelo assassinado de Mãe Bernadete foram condenados na Bahia, após quase três anos do assassinato da líder quilombola. O julgamento representa um avanço nas lutas sociais no país, mas ainda precisa ser concluído na garantia dos direitos humanos no Brasil.
Redação
SOCIEDADE- O Tribunal do júri popular em Salvador condenou no último 14 de abril dois dos seis acusados pelo assassinato da Mãe Bernadete, Ialorixá e líder do Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, região metropolitana de Salvador. Marílio dos Santos, considerado mandante do crime, foi condenado a 40 anos, 5 meses e 22 dias de prisão, mesmo estando foragido, enquanto Arielson da Conceição Santos, executor, recebeu uma pena de 29 anos e 9 meses de prisão em regime fechado.
Coincidentemente, um dia após ser condenado, Marílio dos Santos foi supostamente morto em confronto com a polícia, na madrugada da quinta (16/04). Segundo a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), a morte ocorreu durante uma tentativa de cumprimento de um mandado de prisão contra ele, após uma troca de tiros com o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) da Bahia.
Segundo a justiça, o motivo do assassinato de Mãe Bernadete seria o conflito com o tráfico local, versão que não é aceita pelos familiares e movimento sociais. O motivo do assassinato foi o enfrentamento que a líder do Quilombo Pitanga dos Palmares vinha desenvolvendo contra a especulação imobiliária e a grilagem de terras. O quilombo vinha lutando pelo reconhecimento oficial das terras desde 2004, quando o quilombo foi certificado, mas o processo de titulação das terras estava parado. Só em abril de 2024, motivado pela comoção e cobrança dos familiares de Mãe Bernadete e da sociedade, que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) apresentou a Portaria n° 445/2024 reconhecendo o território.
Esse conflito gerou o assassinato em 2017 de Flávio Pacífico, o Binho do Quilombo, filho de Mãe Bernadete, com 12 tiros após denunciar a instalação de um aterro de resíduos da construção civil próximo ao quilombo. A mesma forma como mataram Mãe Bernadete. Em fevereiro desse ano o Ministério Público baiano solicitou o arquivamento do caso e em fevereiro de 2025 o Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) mandou soltar um dos suspeitos de envolvimento no crime.
Justiça por Mãe Bernadete
O assassinato de Mãe Bernadete ganhou repercussão em todo o mundo. A Anistia Internacional acompanhou o julgamento afirmou a importância da decisão da justiça. Em nota a Anistia Internacional reforçou que “O Brasil figura entre os países que mais matam defensores de direitos humanos e registra elevados índices de impunidade nesses casos”. Apesar disso, a própria Anistia Internacional aponta a necessidade de ‘garantir a responsabilização de todos os envolvidos no crime’, isso fica evidente quando notamos o direcionamento que é dado pela justiça em não investigar a denúncia do conflito pelo território, reivindicação dos familiares e dos movimentos sociais que exigem que a justiça seja feita e que o caso não seja esquecido.
O exemplo de luta de Mãe Bernadete não vai ser esquecido, assim como a luta de Marielle Franco, Chico Mendes, Dorothy Stang, Bruno Pereira e Dom Phillips, Cacique Chicão, Merong Kamakã, e tantos outros, são nomes que exigem justiça. O Estado brasileiro tem que ser responsabilizado pelos crimes cometidos contra esse seus melhores filhos e filhas, do mesmo modo que diversos crimes cometidos ao longo de nossa história até os dias de hoje não foram resolvidos. Os crimes da ditadura militar, os mortos pela polícia, a violência no campo, o genocídio dos povos originários e os mais de trezentos anos de escravidão oficial no país até hoje não foram resolvidos. As elites que se beneficiaram com esses crimes permanecem impunes e nós, enquanto sociedade, precisamos exigir justiça e não deixar que esses crimes políticos sejam solucionados. Por isso que exigir justiça por Mãe Bernadete não é apenas uma palavra de ordem, é uma bandeira de luta, e dizemos: Mãe Bernadete, Presente!
Estudantes do curso de medicina da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) travam luta pela criação de um hospital universitário, importante medida para a melhora da saúde na cidade e para o avanço da pesquisa e da formação na área.
Victor de Ávila Todaro | São João del-Rei (MG)
A saúde pública da cidade de São João del-Rei (MG) enfrenta barreiras sérias, como falta de especialistas, filas longas e precarização dos serviços prestados. Resultado de anos de descaso com a população e de falta de financiamento para o setor. Nos últimos anos, a situação se agravou de tal forma que os próprios trabalhadores do postos de saúde relatam terem de organizar vaquinhas para compra de materiais essenciais, como álcool para limpeza e pilhas para os aparelhos. Considerando essa realidade, o centro acadêmico do curso de medicina da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) trava a muitos anos a luta pela construção de um hospital universitário.
A luta dos estudantes recebe agora nova força devido ao debate sobre o uso do prédio Expominas, trazido para a assembleia legislativa de Minas Gerais. Entre as várias propostas, aquela de autoria do deputado Cristiano Silveira (PT) é a que merece maior destaque. O projeto de lei n° 4916/2025 propõe a doação do imóvel para a UFSJ para a construção de um hospital universitário. Em sua situação atual, o imóvel, que abrange uma área de 49.444 m2, se encontra em desuso e degradação progressiva, um exemplo claro de como o Estado abandona o patrimônio público para facilitar futuras privatizações em vez de servir às necessidades do povo.
Segundo o projeto, o futuro hospital universitário terá capacidade para realizar até 250 mil atendimentos por ano e permitirá a criação de 120 novos leitos, garantindo atendimento para os 20 municípios da macrorregião do campo das vertentes, atendendo uma população de mais de 400 mil pessoas através do SUS, que deve ser fortalecido com uma gestão 100% estatal e pública, rompendo com o sucateamento progressivo e a lógica das terceirizações que retiram verbas do povo para gerar lucro.
Luta concreta
O hospital universitário é um modelo que traz inúmeras vantagens à cidade e seus habitantes, a mais óbvia delas sendo uma melhora na saúde da cidade, que receberia outro grande hospital para suas consultas, exames e tratamentos. Além disso, o Hospital se tornaria importante centro de formação para os estudantes de medicina, que poderiam exercer seus estágios na cidade, agilizando a formação de mais médicos para São João. Por fim, o hospital poderia se tornar um grande polo de pesquisa, possibilitando o avanço em medicamentos e tratamento e mesmo podendo se tornar um grande centro de especialidades.
No momento, é necessário dar o primeiro passo. Os estudantes organizaram um abaixo-assinado para pressionar os deputados a votarem a favor da cessão do prédio Expominas para a UFSJ, disponível clicando aqui. Além disso, é possível votar a favor do projeto no site da ALMG. A vitória real desse projeto não virá apenas de cliques virtuais, mas da organização e da mobilização direta nas ruas, única força capaz de arrancar o direito à saúde das mãos da burguesia e garantir dignidade ao povo sãojoanense.
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