A primeira edição do jornal A Verdade foi lançada em dezembro de 1999, com a manchete “FHC: o professor que virou um grande fazendeiro”. Foram 1.500 exemplares que circularam em cinco estados. Desde então, as ideias defendidas por A Verdade vêm obtendo cada vez mais apoio. O número de leitores cresceu a cada mês e hoje o jornal circula em 20 estados. A tiragem foi crescendo ano a ano e atingiu, em abril, 18.500 exemplares.
Este crescimento permitiu que, após 22 anos, o jornal A Verdade passasse a ser quinzenal. A partir de agora, serão duas edições por mês.
E há mais novidades: A Verdade ganhou um novo projeto gráfico e seu site www.averdade.org.br, após sofrer ataques dos inimigos da democracia, tem novo visual para facilitar a leitura. Em junho, terá ainda um aplicativo para baixar no celular.
Pode parecer pouco para alguns. Mas não é. Enquanto jornais da burguesia deixam de circular e passam a existir somente na internet, A Verdade lança agora duas edições impressas por mês no Brasil. Ademais, A Verdade é um jornal a serviço da classe explorada e oprimida, a imensa classe operária, as massas trabalhadoras. Suas páginas não são vendidas às grandes corporações internacionais e nacionais nem defendem os interesses do capital financeiro, das mineradoras ou do agronegócio. É um jornal dos trabalhadores que luta pela emancipação dos pobres, pelos direitos das mulheres, pela justiça social, democracia popular e socialismo.
Ergue sua voz contra o racismo e em defesa dos povos indígenas e denuncia todos os crimes cometidos pelo Estado burguês. Os princípios de A Verdade são baseados no marxismo-leninismo, no fim da exploração de classes, na solidariedade e fraternidade entre os irmãos trabalhadores e os povos de todo o mundo.
A Verdade é um jornal que se sente honrado em desafiar e lutar contra os poderosos interesses da classe capitalista e pelo fim da escravidão assalariada. É um jornal socialista no seu conteúdo e na sua forma, pois é feito com base na cooperação de centenas de companheiros e companheiras. Leva à prática os princípios definidos pelo grande revolucionário e criador do socialismo científico, Karl Marx: “A função da imprensa é ser o denunciador incansável dos opressores. (…) O dever da imprensa é tomar a palavra em favor dos oprimidos a sua volta. O primeiro dever da imprensa é minar todas as bases do sistema político existente”.
Mas a vitória de A Verdade se transformar num jornal quinzenal não caiu do céu. Foi fruto de um trabalho coletivo e planejado. Um importante Ativo Nacional de Agitação e Propaganda foi realizado no mês passado com dezenas de militantes, além dos ativos estaduais que se seguiram. Semanalmente, a Redação Nacional se reúne, debate as matérias, distribui entre os editores e prepara a próxima edição.
Como tem apoio entusiasta de seus leitores, A Verdade conta ainda com diversos colaboradores que escrevem textos e mandam fotos. Além disso, A Verdade dispõe de centenas de brigadistas, militantes do PCR, da UP e dos movimentos sociais que garantem que ele chegue às mãos do povo.
A Verdade quinzenal é uma vitória da imprensa popular e socialista, uma vitória de todos que nessa caminhada trabalharam para que este sonho se tornasse realidade, uma vitória principalmente para os oprimidos e explorados que terão um jornal ainda mais incansável na denúncia dos opressores, sempre erguendo a bandeira da revolução e do socialismo.
Com A Verdade quinzenal, semearemos mais e organizaremos mais operários e operárias no exército que construirá uma nova sociedade, na qual não haverá pobreza, nem corrupção, fascismo ou exploração. Apesar do fascista e dos generais, A Verdade quinzenal triunfou. Avante, camaradas!
Trabalhadores na audiência de julgamento do registro da UP no TSE, em outubro de 2019 – Foto: Jorge Ferreira / Jornal a Verdade
Jorge Ferreira
Era manhã de uma quinta-feira de outubro de 2019 quando os servidores do Tribunal Superior Eleitoral tiveram que lidar com com uma situação incomum: algumas dezenas de trabalhadores desejavam assistir uma audiência de julgamento. A lotação do plenário com cerca de duzentas confortáveis cadeiras não era o problema, mas os visitantes não estavam com “vestimentas adequadas” que os permitisse estar diante dos ministros.
Naquele dia, homens e mulheres que diariamente acordam cedo e utilizam transporte público lotado para trabalhar, que pegam no pesado para sobreviver, colocaram suas melhores roupas, seus melhores sapatos, alguns cortaram o cabelo, outros usaram o melhor perfume. Era dia de festa. Após dois longos anos e um milhão e duzentas mil assinaturas recolhidas nos trens, nos bairros populares, nas portas de fábrica, e, apesar das dificuldades, registradas em cartórios de vários estados em todas as regiões do país, havia chegado o dia que iniciaria o julgamento do registro da Unidade Popular pelo Socialismo na mais alta corte eleitoral do Brasil.
Com a emoção transbordando em sorrisos largos, representando todos aqueles abnegados trabalhadores que entregaram suas poucas horas livres para cumprir a tarefa histórica de constituir o partido dos pobres, do povo trabalhador, entraram no prédio do TSE para assistir a audiência que reconheceria a legitimidade de todo o processo. Entretanto, a poucos metros do plenário principal do Tribunal, a chefe dos seguranças alerta que não será possível que os visitantes adentrem no local por não estarem vestidos adequadamente. “Onde está escrito isso?”, foi o primeiro questionamento do advogado Thiago Santos.
Thiago Santo, advogado da Unidade Popular, intervindo para garantir o acesso dos trabalhadores ao plenário – Foto Jorge Ferreira / Jornal a Verdade
Daí em diante iniciou-se uma luta contra o tempo. Há poucos minutos de iniciar o julgamento, nem mesmo o presidente do partido, Leonardo Péricles, morador de ocupação, havia conseguido entrar no plenário justamente por estar somente com camisa social, mas sem terno e gravata. “Veja bem, argumentava Thiago Santos, essas pessoas estão justamente com suas melhores roupas, não há ninguém vestido de forma inadequada”. As mulheres que estavam de calça jeans, ao ver o tempo passando e a recusa da chefe dos seguranças, começaram a improvisar saias com cachecóis. Os homens já não mostravam os dentes, uma pequena angústia tomava conta.
Em meio ao embate jurídico da legalidade da exigência de terno e gravata entre o advogado do partido e os servidores, alguns seguranças sensibilizados prometeram irem até o vestiário verificar se tinham terno reserva para emprestarem ao visitantes, mas já alertaram que não haveria para todos. Pouco antes de iniciar a sessão, o advogado do partido conseguiu que a questão fosse levada até a presidente da Casa, à época ministra Rosa Weber. Alguns instantes antes de iniciar o julgamento a entrada foi autorizada.
Foto Jorge Ferreira / Jornal a Verdade
Nesse dia, o procurador eleitoral Humberto Jacques apresentou parecer favorável, e o relator do processo, ministro Jorge Mussi, proferiu votou favorável ao registro alegando que “não poderia ser diferente, já que o partido cumpriu todas as exigências normativas”, entretanto o julgamento foi suspenso por um pedido de vista de um dos ministros, só sendo retomado, aprovado e registrado em dezembro do mesmo ano.
Mas foi exatamente naquele dia, 24 de outubro de 2019, que pela primeira vez o plenário do Superior Tribunal Eleitoral foi ocupado por pessoas sem terno e que, como retrata um grande filme, também não usam “Black Tie”.
Talvez tenha sido duro para os ministros da burguesia olharem de frente homens e mulheres que vivem do próprio suor. Para a Unidade Popular foi um dia histórico, mais um capítulo da emocionante luta pela libertação de milhões de trabalhadores brasileiros.
Fazia frio na tarde dessa quarta-feira, dia 12 de agosto, quando Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) organizou na cidade de São Bernardo do Campo um ato contra os despejos de famílias pobres durante a pandemia e em defesa do direito à moradia digna. O ato fez parte de uma agenda nacional de mobilizações que levou às ruas centenas de famílias, em diversas cidades brasileiras, levantando a bandeira do Despejo Zero, uma campanha nacional que unifica movimentos sociais e outros apoiadores na luta pelo fim dos despejos durante a crise da Covid-19.
A manifestação reuniu famílias de vários bairros de São Bernardo do Campo, cidade que sofre com uma política sistemática de despejos por parte do Prefeito Orlando Morando (PSDB), de Diadema, Santo André, Mauá, Francisco Morato, São Matheus e de várias regiões da Capital, além de outros movimentos que se somaram à essa luta, como o Projeto Meninos e Meninas de Rua (PMMR), o Coletivo Democracia Corinthiana, a Torcida Guerreiros do Tigre do São Bernardo F.C., o Movimento de Mulheres Olga Benário, etc. Para Gabriela Mousse, da Democracia Corinthiana: “Eles agem assim [despejos e repressão ao povo pobre] porque se sentem livres para fazer o que querem, não há motivo nenhum para ações desse tipo. Claro, o governo já é fascista e tá rolando uma pandemia, para eles fica mais fácil, por isso temos que ocupar as ruas com mais frequência”.
Foto: Manuelle Coelho / Jornal a Verdade
Alguns trabalhadores vieram de longe, é o caso de Cirilo Conceição, que viajou cerca de 80 quilômetros para poder participar do ato: “Sou de Francisco Morato, uma cidade abandonada pelos governantes. Governantes corruptos e omissos que permitiram que meu filho viesse a falecer. Quem me apoiou não foi nenhum governante, foi o povo, foi o MLB. Convidamos vocês a abraçarem essa causa porque essa é a causa de todos nós trabalhadores, estudantes, que pagamos aluguel, que somos despejados. O governo é o culpado disso, o governo não tá nem aí pra nós, eles querem é matar nossos filhos. Eles abandonam nossos bairros, na minha rua um carro não foi capaz de entrar pra prestar socorro ao meu filho. Eu abracei e vou continuar abraçando o MLB, essa ferramenta dos trabalhadores para lutar por uma moradia digna”.
Foto: Jorge Ferreira / Jornal a Verdade
A marcha, que contou com mais de cem pessoas, ocorreu no fim da tarde e foi da Igreja Matriz, no centro da cidade, até o Paço Municipal, em uma caminhada pacífica de mais de uma hora, mantendo o distanciamento social, o uso de máscaras e todos os cuidados relativos à pandemia da Covid-19 e sem qualquer tipo de conflito, sendo inclusive apoiada pela maior parte da população que transitava pela cidade, de carro, de ônibus ou a pé. Segundo Daniela, que constrói o MLB no bairro Detroit, em São Bernardo: “Essa manifestação é muito importante, estou aqui não só por mim, mas pelas minhas filhas e pela minha comunidade. Aprendi com o MLB que nós precisamos lutar, assim como fizeram os escravos, que se revoltaram e hoje são libertos. Mas ainda existe uma escravidão pra gente vencer e por isso estamos na luta”.
A organização do ato realizou um acordo com a Guarda Civil Municipal (GCM) e com a Polícia Militar, para que a manifestação fosse encerrada no Paço Municipal com uma assembleia das famílias que cobravam o seus direitos. No entanto assim que os primeiros militantes do movimento entraram no Paço, carregando uma faixa com os dizeres “Despejo Zero, Morar é um Direito”, a GCM descumpriu o acordo e atacou covardemente três Coordenadoras do MLB que carregavam a faixa, desferindo empurrões, socos e utilizando spray de pimenta sobre as mulheres; rapidamente um conjunto de famílias se aproximou, afastou os políciais e organizou um cordão de isolamento para impedir novas agressões.
Ao todo foram mobilizadas cerca de 30 viaturas entre GCM e Polícia Militar com o objetivo de impedir a continuação do ato através de uma ação agressiva e completamente desproporcional, descumprindo um acordo feito minutos antes, alegando que o movimento estava proibido de adentrar o Paço Municipal carregando qualquer tipo de bandeira ou faixa e demonstrando o caráter repressivo do Estado contra os trabalhadores, os pobres e os lutadores sociais que cada dia fica mais intenso no Brasil. As famílias conseguiram assegurar o direito de realizar sua assembleia no local e em alguns minutos de diálogo e de muita agitação política contra as injustiças do sistema capitalista, o sistema dos ricos que durante a pandemia promove o crescimento do patrimônio dos bilionários exploradores e o empobrecimento geral daqueles que vivem do próprio trabalho, decidiram encerrar a manifestação, prometendo que voltarão às suas cidades e bairros e organizarão ainda mais pessoas para lutar pela Reforma Urbana e pelo Socialismo. Segundo Thais Gasparini, uma das Coordenadoras Estaduais do MLB agredidas pela GCM: “Essa repressão, esse uso da violência para calar quem se manifesta é um espelho do que acontece na periferia, em que essa mesma GCM é utilizada pra derrubar as casas do povo pobre. Isso precisa acabar, por isso nos manteremos firmes na luta, cada dia maiores, combatendo a exploração, a especulação imobiliária e a política dos ricos, dos latifundiários e dos banqueiros”.
Para Arnor, membro do MLB do bairro do Divinéia, em São Bernardo: “O ato foi muito bom, muito bonito, temos que seguir lutando. Já precisamos marcar a próxima passeata”.
No capitalismo, as guerras são fruto da concorrência entre as classes dominantes de diferentes nações pelo domínio do planeta. Na Primeira Guerra Mundial, formaram-se dois blocos imperialistas opostos: Tríplice Aliança (Impérios Alemão, Austro-Húngaro e Turco-Otomano) e a Tríplice Entente (Impérios Inglês, Francês e Russo).
O sol nasce vermelho
Algo novo, entretanto, surgiu durante a Primeira Guerra Mundial: a revolução socialista de outubro de 1917, na Rússia; nova cisão ocorria no mundo, agora dividido em dois sistemas adversos: o capitalismo e o socialismo.
Os dois blocos capitalistas passaram a ter um objetivo comum: a destruição do primeiro Estado operário-camponês da história, em vista da restauração do capitalismo em escala global. Foi com este propósito que o bloco vencedor investiu na economia alemã 15 bilhões de marcos em seis anos (1924-1929).
Quando o nazismo se apossa da Alemanha e explicita seu intento de domínio mundial, as potências capitalistas dominantes não tratam de combatê-lo. Ao contrário, fecham os olhos às suas agressões e até incentivam o monstro nazista a direcionar seu ataque contra a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
Em 1939, a URSS propôs à Inglaterra e França um pacto para ações militares conjuntas se os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), bloco nazifascista, iniciassem a guerra na Europa. Não houve rejeição formal, mas nenhum passo foi dado por parte dos países capitalistas para concretizar o pacto. Ao contrário, França e Inglaterra firmaram com Alemanha e Japão acordos de não-agressão. Deixada sozinha, em agosto de 1939, a URSS assinou com a Alemanha um tratado de não-agressão. Os dirigentes sabiam que, mais cedo ou mais, tarde Hitler romperia o acordo, mas conseguiram ganhar um tempo valioso para transferir parte de suas indústrias para o leste do grande território soviético, bem como reforçar sua capacidade de defesa militar.
De 1938 a 1941, Hitler ocupou Áustria, Checoslováquia, Polônia, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Noruega, Grécia, Iugoslávia e finalmente a própria França. Na Europa central e oriental, a Alemanha adquiriu imensa quantidade de material de combate, meios de transporte, matérias-primas, materiais estratégicos e força de trabalho, tornando-se forte o suficiente para atacar a URSS.
Hitler, no livro MeinKampf(Minha Luta), proclamou: “…tratando-se de obter novos territórios na Europa, deve-se adquiri-los principalmente à custa da Rússia”.
A invasão hitlerista foi impiedosa. “Fuzilavam em massa as pessoas (mulheres, crianças, idosos, montavam campos de morte, deportavam para trabalho forçado na Alemanha. Por onde passavam, não deixavam pedra sobre pedra”. Era a política do extermínio. “Eu tenho o direito de destruir milhões de homens de raça inferior que se multiplicam como vermes” (Hitler).
Em resposta, o governo, o Partido Bolchevique e o povo soviético lançaram a palavra de ordem: “Morte aos invasores fascistas, tudo para a frente! Tudo para a vitória!”. Às fileiras do Exército Vermelho se integraram milhões de homens. Criaram-se também inúmeros regimentos de milícia popular, contando com dois milhões de combatentes.
Formou-se ainda na retaguarda uma força guerrilheira massiva. A dedicação e bravura do povo soviético comoveram o mundo e foram decisivas para quebrar a resistência capitalista (EUA, Inglaterra, França). Formou-se finalmente o bloco aliado, antifascista, a frente única dos povos pela democracia.
Caíra por terra a ideia de Hitler de que a ocupação da URSS seria um passeio uma “guerra relâmpago”. Os nazistas não imaginavam a resistência que encontrariam nas principais cidades: Leningrado, Stalingrado, Kiev e Moscou, entre tantas. Homens, mulheres, idosos e crianças se ergueram como muralha inexpugnável.
Os feitos do povo soviético repercutiram no mundo inteiro, levando um jornal burguês como o STAR, de Washington, a publicar: “Os sucessos da Rússia na luta contra a Alemanha hitleriana revestem-se de grande importância não só para Moscou e o povo russo, como também para Washington, para o futuro dos Estados Unidos. A história renderá homenagens aos russos por terem suspendido a guerra relâmpago, pondo em fuga o adversário”.
Em junho de 1942, os invasores avançam, mas encontram uma barreira instransponível em Stalingrado. Durante sete meses de combate, os invasores perderam 700.000 soldados e oficiais, mais de mil tanques, dois mil canhões e morteiros, 1.400 aviões. Os invasores eram tecnicamente superiores, mas, em novembro de 1942, os números já se invertiam em favor dos soviéticos. Os alemães estavam com 6.200.000 soldados, os soviéticos com 6.600.000; 5.000 tanques invasores contra 7.000 soviéticos; 51.000 peças e morteiros contra 77.000.
Na derrota do Stalingrado, os nazistas perderam 1,5 milhões de soldados e oficiais. “… Do ponto de vista moral, a catástrofe que o exército alemão sofreu nos acessos de Stalingrado teve um efeito sob o peso do qual ele não pôde mais reerguer-se”. (A segunda guerra mundial, B.Lideel Hart)
Depois, ocorreu a vitória do Cáucaso e se iniciou processo de expulsão em massa dos ocupantes nazistas. “A União Soviética pode orgulhar-se das suas heroicas vitórias”, escreveu o presidente dos EUA, Franklin Roosevelt, acrescentando: “…os russos matam mais soldados inimigos e destroem mais armamentos do que os outros 25 estados das Nações Unidas no conjunto”.
O final de 1943 marca a virada na frente soviética e na Segunda Guerra em geral. O movimento contra o nazifascismo se consolidou e se ampliou em todo o planeta.
Em junho de 1944, com o exército alemão batido em todas as regiões da URSS, as tropas anglo-americanas desembarcaram no Norte da França, dando início à frente ocidental proposta pelo governo soviético desde o início da invasão.
Pode-se dizer que a essa altura a guerra estava decidida, diante da derrota alemã na Rússia. O próprio Winston Churchil, primeiro-ministro britânico, reconhece o papel fundamental dos soviéticos, no discurso pronunciado na Câmara dos Comuns, em julho de 1944: “….Considero meu dever reconhecer que a Rússia mobiliza e bate forças muitíssimas maiores que as enfrentadas pelos aliados no Ocidente, que, há longos anos, ao preço de imensas perdas, ela suporta o principal fardo da luta em terra”.
Um exército libertador
Apesar de imensas perdas, o Exército Vermelho avançou no encalço dos alemães pela Europa Oriental adentro, fustigando os nazistas e auxiliando as forças populares da resistência a derrotarem os ocupantes e seus colaboradores internos. Repúblicas democrático-populares foram instaladas com os partidos comunistas à frente na Polônia, Hungria, Iugoslávia, Checoslováquia, Romênia e Bulgária.
“Para Berlim!” era a palavra de ordem do exército libertador. Não foi um passeio. A resistência nazista, embora enfraquecida, produzia encarniçados e sangrentos combates. Os russos vitoriosos não mataram, não pilharam, não se vingaram dos crimes cometidos pelo exército alemão no solo soviético. Ao contrário, alimentaram os famintos, organizaram a assistência médica, o funcionamento dos transportes, a distribuição de água e de energia elétrica. A 2 de maio de 1945, o Comando Supremo alemão assinou o ato de capitulação incondicional das forças armadas, com a bandeira da URSS tremulando no alto do parlamento alemão, em Berlim. No dia 09 de maio, houve um imenso ato em Moscou em comemoração ao fim da Grande Guerra Patriótica (como os soviéticos denominaram sua participação na Segunda Guerra Mundial) e, desde então, até hoje, celebra-se na Rússia esta data como o Dia da Vitória.
Sob novos céus
Terminada a guerra na Europa, era preciso voltar-se para a Ásia. O Japão, aliado dos nazistas dominava milhões de pessoas na China, na Coreia, nas Filipinas. Apesar de as forças armadas dos EUA e da Inglaterra virem imprimindo sucessivas derrotas, as forças japonesas ainda eram numerosas e fortes. De vez em quando, elas atacavam as fronteiras da URSS e torpedeavam navios soviéticos em alto-mar.
No dia 8 de agosto de 1945, a União Soviética declarou guerra ao Japão e começou a ofensiva. Nesse mesmo dia, o primeiro-ministro japonês, Teiichi Suzuki afirmou: “…A entrada da URSS na guerra hoje de manhã põe-nos definitivamente numa situação sem saída e torna impossível continuar a guerra” . Estava certo. No final do mês, o Exército nipônico havia perdido 677 mil soldados e oficiais: 84 mil mortos e 593 mil prisioneiros.
Ao contrário do que muitos pensam, e a historiografia burguesa busca difundir, não foram as bombas estadunidenses lançadas no início de agosto contra Hiroshima e Nagasaki que provocaram a capitulação japonesa. A guerra continuou normalmente depois do ataque bárbaro e covarde. A rendição resultou do destroçamento do exército nipônico pelas tropas soviéticas.
Se alguém duvida, leia o testemunho do general Chenault, que chefiou as forças dos EUA na China: “…A entrada da URSS na guerra contra o Japão foi o fator decisivo para o fim da guerra no Pacífico, o que sucederia mesmo sem o emprego de bombas atômicas. O rápido golpe desferido pelo Exército Vermelho sobre o Japão fechou o cerco que pôs finalmente o Japão de joelhos”.
O Exército Vermelho contribuiu ainda para a expulsão dos nazistas da China e da Coreia. O sacrifício do povo soviético foi inestimável. Mas valeu a pena porque livrou a Humanidade da besta nazista. Foi também a vitória do socialismo que saiu da Segunda Guerra triunfante em toda a Europa Oriental e na China.
Por todos, valeu a carta de agradecimento enviada pelo povo coreano a Josef Stalin, comandante supremo das forças soviéticas: “… Os combatentes soviéticos chegaram não como conquistadores, mas como libertadores. Emancipada da escravidão, a nossa pátria respirou livremente. O céu apareceu-nos radioso. A nossa terra floresceu. Jorraram canções de liberdade e felicidade…”.
José Levino, historiador
Fonte de pesquisa: O Grande Feito do Povo Soviético e do Seu Exército. VassiliRiábov, Edições Progresso, Moscou,1983.
Enquanto milhões de brasileiros estão em isolamento ou distanciamento social devido à pandemia da Covid-19, o capitão reformado Jair Bolsonaro e seus puxa-sacos vivem um imenso isolamento político. A reprovação a seu governo já alcança quase 70%, suas Medidas Provisórias, sem apoio, caducam no Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que não é função do presidente desrespeitar governadores e prefeitos. Nos embates que travou com o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, ficou em minoria nas reuniões do seu Ministério. Teve que levar um de seus filhos para dentro do Palácio Planalto para poder conseguir ouvir diariamente: “Pai, você é o rei”.
E os fatos mostram uma dura realidade: após quase um ano e meio no governo, o capitão reformado, apesar de controlar um Orçamento Federal de R$ 4 trilhões, não construiu nenhum hospital público nem universidade. Tampouco ampliou o acesso da população ao saneamento ou construiu casas populares. O desemprego e o número de famílias vivendo na extrema pobreza cresceram enormemente no seu desgoverno. Usou todo o dinheiro público para enriquecer os especuladores, os banqueiros e permitir a remessa de bilhões de dólares do Brasil para os EUA.
O povo brasileiro, vendo que o capitão reformado é incompetente, antidemocrático e totalmente subserviente ao EUA, passou a reprovar seu governo em todas as regiões. Segundo o Instituto Datafolha, 17% de seus eleitores se arrependeram de ter votado nele.
Diante dessa crescente rejeição da população, o capitão reformado e seus filhos resolveram apelar para a velha política: recorrer às Forças Armadas, em particular ao Exército, para impor um regime ditatorial no país.
Assim, foram marcadas as carreatas e atos para o dia 19 de abril, dia que é considerado Dia do Exército. O Exército, seu comandante geral e o Alto Comando sabiam do ato e deram total permissão para que Bolsonaro e seus puxa-sacos o realizassem com dezenas de faixas encomendadas e com dezenas de assessores de deputados e de pessoas que ocupam cargos de confiança no governo, os conhecidos “aspones”.
No entanto, os atos foram um fracasso. Em São Paulo, dezenas de carros luxuosos, acompanhados de várias motos, algumas delas que custam mais de R$ 50 mil reais, foram verdadeiramente “ovacionadas”, isto é, receberam ovos e tomates dos prédios por onde passavam. Em Brasília, apenas algumas centenas de pessoas atenderam ao chamado de Bolsonaro e, se retirarmos os assessores da conta, fica uma ridícula minoria. Pior: após o ato, nove pessoas deram entrada em hospitais de Brasília com suspeita de Covid-19.
Pois bem, com o repúdio nacional à fala de Bolsonaro em frente ao Quartel General do Exército em Brasília, os generais passaram a dizer em off a jornalistas que não concordavam com aquele discurso defendendo um golpe militar e a volta do AI-5 e pediram ao capitão para “baixar o tom”. Na manhã desta segunda-feira, 20 de abril, um irritado e nervoso presidente, com suas mãos trêmulas (lembrando Hitler no filme A Queda), tentou desdizer o que tinha dito. Mas, revelando sua natureza fascista, parafraseou o rei Luís XIV, e declarou: “Eu sou a Constituição”.
Os fascistas e a grande a burguesia nacional e internacional olham a história do Brasil, observam os inúmeros golpes militares que aconteceram e acham que é fácil dar um golpe militar em nosso país e impor a censura à imprensa, torturar os que discordam, assassinar e esconder os corpos dos patriotas e democratas ou jogá-los no mar. Pensam que assim terão a paz dos cemitérios dizendo que o “Brasil vai pra frente, ame-o ou deixe-o” e que a ditadura militar é o melhor regime para governar um povo rebelde, como é o brasileiro.
Mas, senhores e senhoras fascistas, ensina a filosofia dialética que, se houve tantos golpes militares assim no Brasil é porque nenhum conseguiu se manter eternamente. Ou melhor, todos foram derrotados nas ruas pelos trabalhadores, pelas mulheres, pelos jovens, pelo povo brasileiro. Duvidam? Então terão que ouvir novamente nosso povo nas ruas desfilando e cantando: “Amanhã vai ser outro dia!” ou “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta!”.
Passeata em São Paulo contra a Reforma da Previdência. Foto: A Verdade
Por Wanderson Pinheiro e Leonardo Péricles
1 – O Brasil e a questão internacional
O chamado neoliberalismo se aprofundou no Brasil nos anos 1990, primeiro no Governo Collor e depois durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso. Na verdade, tratou-se de uma maior submissão das economias nacionais com abertura dos mercados, iniciada no Chile e na Argentina, diante de um crescimento da exportação de capitais e maior domínio do capital financeiro internacional sobre as economias nacionais latino-americanas. Foi um período de ampla hegemonia dos EUA, encoberto sob o discurso da globalização.
A queda brusca dos impostos de importação e exportação, o fim do controle de capital e a isenção de impostos para a sua movimentação, a adoção de uma política cambial ancorada no dólar, o achatamento salarial dos trabalhadores e a privatização das principais empresas estatais foram as medidas centrais que tiveram consequências estruturais perversas para a economia nacional.
No entanto, o que se desenvolve de fato são as características do imperialismo capitalista, com o aprofundamento da financeirização do capital monopolista e uma gigantesca exportação de capitais por diversas vias. O capital se expande permanentemente, destruindo as economias nacionais, promovendo o desemprego e a redução salarial, para extrair mais-valia extraordinária e, assim, buscar manter sua taxa de lucro. Neste sentido, falar apenas contra o neoliberalismo e aceitar o capitalismo é propor aceitar a exploração dos trabalhadores, a manutenção da escravidão assalariada e sua expressão política, a democracia burguesa.
Além da política neoliberal praticada pelo imperialismo dos EUA, sofremos uma ação neocolonialista brutal, com a “elite nacional” sendo subornada e praticando a corrupção. Este fato foi evidenciado no processo de privatização, tendo boa parte dos recursos sido desviada para o “caixa 2” das campanhas eleitorais de 1998, mantendo FHC no governo.
Outro objeto de controle da nação foi a dívida pública. Com o aumento dos juros para conter a inflação, os novos financiamentos recebidos do FMI aumentaram em muito as dívidas externa e interna, ampliando a dependência do Brasil ao capital financeiro dos EUA. A abertura financeira ocasionou ainda o aumento da dívida interna, pois era extremamente favorável para o capital financeiro especular com a alta de juros (a taxa Selic atingiu 45,67% ao ano, em 1997), com controle do câmbio e livre movimentação de capitais.
Resumindo: ocorria uma espoliação financeira terrível devido à política de total submissão às ordens do dito “Consenso de Washington” praticada pelo governo brasileiro.
Essa abertura gerou também a quebra de milhares de empresas nacionais. As pequenas e médias empresas foram as mais atingidas, mas também grandes empresas foram à falência, iniciando o processo de desindustrialização nacional. Porém, um setor com maior acúmulo de capital, a grande burguesia interna, que fez o acordo com a burguesia estadunidense, teve lucros crescentes e caminhou para expandir seus negócios para o exterior. Setores como o do agronegócio, da construção civil e dos frigoríficos, tornaram-se grandes empresas internacionais e, a partir desse acordo, passaram a expandir-se para a região do Mercosul.
Outros setores foram se associando ao capital estrangeiro, seja na aquisição das importantes empresas estatais que foram privatizadas (setores de minério, siderúrgico, energia, etc.) ou de indústrias e serviços privados para o investimento dos capitais internacionais. Tornaram-se, assim, um setor submisso ao capital internacional e aos ditames da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Entre os anos de 2003 a 2010, vivenciamos o Governo Lula e, de 2011 a meados de 2016, o Governo Dilma. Foi um período de hegemonia petista, considerado por alguns como desenvolvimentista ou neodesenvolvimentista, mas teve como base a diversificação da dependência nacional, principalmente em relação ao crescimento das exportações para a China, pautado também pelo investimento público feito nas empresas públicas e privadas, e pela ampliação do consumo da população com base numa grande oferta de crédito.
Esse processo de consumo levou a um relativo desenvolvimento da indústria naval, da construção civil, do agronegócio e da pecuária, propiciando o crescimento do lucro da grande burguesia e do capital financeiro. Porém, sendo um desenvolvimento com base no crescente endividamento e submetido aos interesses da grande burguesia nacional e mundial, terminou por esgotar-se com o aprofundamento da crise do capitalismo mundial.
Na verdade, o governo praticou uma política neodesenvolvimentista, mas manteve a hegemonia do capital financeiro, aprovando leis em seu benefício, como a lei de garantia de empréstimos com descontos em folha. A “Carta aos Brasileiros”, no início do primeiro mandato de Lula, foi, no fundamental, uma mensagem ao mercado financeiro internacional em que o presidente se comprometia a manter todos os acordos anteriores, não mexer no processo das privatizações, manter o controle da inflação, garantir o pagamento da dívida pública com altos juros e ampliar seus benefícios. Isso significou, na prática, a manutenção da política neoliberal.
Além de não ter revogado nenhuma das corruptas privatizações do Governo FHC, o PT realizou novas: privatizou portos, aeroportos e rodovias, além de fazer leilões de campos de petróleo para empresas estrangeiras. Porém, com o pré-sal (considerado o bilhete premiado), alterou o regime de exploração, mantendo os leilões em outros termos. Assim, a Petrobras foi um poderoso instrumento para desenvolver a política neodesenvolvimentista, promovendo investimentos em refinarias e alavancando a indústria naval brasileira e a construção civil. No entanto, o PT não reverteu a abertura de capital da Petrobras e esta permaneceu influenciada pesadamente pelos acionistas internacionais e pelo mercado.
A crise da era petista se iniciou em 2014, no final do primeiro Governo Dilma. A crise econômica chegou ao Brasil e ficou evidente que a política neodesenvolvimentista não conseguiu resolver os problemas estruturais do país, principalmente por não suspender o pagamento dos juros da dívida pública e manter a espoliação do capital financeiro e a dependência em relação ao agronegócio. Por outro lado, a relação com a China, que trouxe a ampliação da venda de commodities a níveis altos e a abertura para importação de produtos de toda ordem, gerou uma maior desindustrialização e dependência do setor externo. Essa troca desigual trouxe enormes benefícios para a grande burguesia do agronegócio, da mineração, da pecuária, da construção civil, etc., mas, como sempre, bastou uma oscilação do mercado internacional para tudo ir abaixo.
Realmente, a crise mundial se aprofundou com reduções seguidas de crescimento da economia chinesa. A China, mesmo possuindo enormes monopólios e rivalizando o comércio internacional com os EUA, não ficou de fora da nova crise de superprodução relativa que dificultou a realização de seu capital mundialmente. É importante notar que essa crise e a disputa de mercados continuam a se desenvolver, ameaçando agora entrar num período mais profundo, como afirmou recentemente a OMC. Sem ter como exportar mais mercadorias e com o superacúmulo de capital, a China avança a financeirização da sua economia.
Vejamos o que se sucedeu de 2007 a 2015. A China chegou a crescer 13%, em 2007, e o mercado de commodities brasileiro teve uma alta considerável. Em 2010, a China teve mais uma queda no seu PIB para 10,4%. Em 2015, relatório do FMI dizia que a China diminuiria o crescimento para 6,8%, a menor taxa anual do país dos últimos 25 anos. A queda da economia brasileira foi quase automática. Dilma Rousseff, que tomou posse para o segundo mandato no dia 1º de janeiro de 2015, permaneceu no posto apenas um ano e meio.
A crise ocasionada pela redução da produção da China fez cair enormemente o preço das commodities e reduziu os lucros da grande burguesia. Sendo pragmática, a burguesia, que há pouco havia colocado o gorro “comunista” na cabeça para adular o imperialismo chinês, pulou do barco e abandonou Dilma, definitivamente afastada do cargo em agosto de 2016.
O impeachment de Dilma teve ainda um elemento geopolítico. Os EUA usaram todo o seu poder para manter o país como sua área de influência, pois, mesmo sabendo que o PT atendia ao capital financeiro e pagava religiosamente a dívida pública, o avanço da crise do capitalismo mundial exigia ainda mais submissão. Vale salientar que a UP, ao mesmo tempo em que estava em processo de construção, esteve nas ruas lutando e denunciando este golpe.
Da mesma maneira, resistindo à quebra da sua hegemonia em nível internacional, os EUA lançaram o Tratado Transpacífico (TPP), que tinha como objetivo enfraquecer a China. Porém, após a eleição de Trump, os EUA se retiraram do TPP e adotaram como tática acordos bilaterais. Depois, abriram uma guerra comercial direta com a China, levantando barreiras às mercadorias chinesas, o que dura até hoje.
Assim, os EUA intervieram no Brasil com o objetivo de retirar o PT do governo para garantirem no poder um aliado subserviente. Financiaram e corromperam o judiciário brasileiro, apoiaram a fabricação da “Operação Lava-Jato”, que levou Lula à cadeia e promoveu a eleição de Bolsonaro. Da mesma maneira, os EUA disputam a Venezuela, com ações de bloqueio econômico e ameaça de invasão, e a Bolívia, onde promoveram um golpe fascista. Aparentemente, existe uma disputa entre forças reformistas liberais e o neoliberalismo fascista no continente, que tem como pano de fundo as disputas entre as duas propostas para conduzir o mundo capitalista.
Também era importante para os EUA ter o Brasil, principal país da América do Sul, como sua área de influência estratégica. Tendo como objetivo central na América Latina a derrubada do Governo Maduro e não obtendo sucesso pela via “pacífica”, intensificou o bloqueio econômico e buscou envolver o Brasil e a Colômbia numa aventura imperialista contra a Venezuela. Trata-se claramente de uma estratégia neocolonialista, que visa a usar tropas de outros países, mas mantendo o objetivo de conquista e ainda lucrando com a guerra.
A China é hoje a segunda potência econômica mundial e busca acumular forças na disputa pela hegemonia no planeta, fato que leva ao acirramento de contradições interimperialistas. Antes apenas exportadora de manufaturas, a China está alcançando o mais elevado grau de tecnologia, uma enorme acumulação de capital e intensificando a fase de exportação de capitais. No momento, essa exportação ocorre por meio do financiamento de infraestrutura nos países em desenvolvimento, investimentos financeiros, compra de títulos do Tesouro estadunidense, empréstimos e investimento direto.
O processo de exportação de capitais parece ser a ponte para uma defesa militar das áreas de influência econômica. Por isso, a China tem hoje o segundo maior gasto militar do planeta e já instala bases militares internacionais, sendo que a primeira foi estabelecida na África. Na América Latina, a China tem grandes investimentos, sendo o principal parceiro comercial de diversos países, inclusive do Brasil. Por isso, investem pesadamente em grandes porta-aviões, jatos, armas nucleares, e já superam os Estados Unidos em alguns aspectos tecnológicos.
Para termos uma noção, o país asiático investiu no Brasil, do ano de 2007 a 2018, US$ 57,9 bilhões em 145 projetos voltados principalmente para o setor de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica. Os investimentos, no último ano, foram especialmente diretos, sendo 50% realizados em empresas construídas a partir do zero. Mas 42% foram investimentos em fusões e aquisições. Segundo o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, a China está aumentando a abertura do setor financeiro, de serviços, da agricultura, mineração e manufatura. Estima-se que o investimento chinês no próximo ano ultrapasse os US$ 10 bilhões.
A China mantém os investimentos mesmo no Governo Bolsonaro e, embora reaja às declarações do filho dele de forma dura, o pragmatismo do capitalismo chinês projeta grandes investimentos nas áreas de a) energia, da ordem de R$ 24,7 bilhões em quatro projetos (hidroelétrica, termonuclear e transmissão); b) ferrovias, R$ 29,1 bilhões em quatro projetos (2.800 km); c) óleo e gás, R$ 117,5 bilhões em quatro projetos; d) portos, com R$ 5,9 bilhões em 16 projetos; e) aeroportos, R$ 2,1 bilhões em dois projetos.
Por outro lado, embora Trump afirme que apoia Bolsonaro e ambos troquem elogios ideológicos em público, os EUA não fazem nada do ponto de vista financeiro para apoiar o governo brasileiro. O investimento dos EUA no Brasil foi pequeno em 2019: o valor foi de US$ 2,2 bilhões, menor que o de 2017, quando o montante correspondeu a US$ 2,9 bilhões. Os compromissos firmados se restringiram a acordos antinacionais e militares, como a entrega da Base Espacial de Alcântara, no Maranhão, e um acordo que transforma o Brasil numa força auxiliar do Comando Sul dos EUA, tornando-se um aliado extrarregional da OTAN. Ou seja, um acordo militar subserviente, que coloca o Brasil como mais uma base de operação militar dos EUA na região.
Como vemos, Bolsonaro segue cegamente o imperialismo norte-americano, pois, como fascista que é, em um país de economia altamente dependente e submissa como é o Brasil, seguirá a linha fascista de Trump para apoiar-se internacionalmente no império dos EUA. Bolsonaro é um representante da grande burguesia[1] e dos militares fascistas, que se declaram abertamente submissos ao capital estadunidense, não possuindo sequer um verniz de nacionalismo.
2 – Desenvolver a consciência das massas populares, aumentar o isolamento de Bolsonaro e criar as condições para derrubar o governo
O 8 de março foi a última grande manifestação nacional antes da pandemia. Foto: A Verdade
Diante da crise do coronavírus e da projeção de uma crise econômica mais profunda nos próximos meses, setores da própria burguesia (como evidenciou editorial recente do Financial Times) falam que os governos devem ajudar a economia promovendo investimentos e renda para os mais pobres, ou seja, praticar uma política antiliberal para ajudar a cobrir os prejuízos da própria burguesia. Bolsonaro, no entanto, insiste em manter o arrocho salarial, cortar salário dos servidores e seguir a retirada de direitos a ferro e fogo. Assim, quer ser mais realista que o rei e promover a política neoliberal dos banqueiros e do capital financeiro estadunidense a todo custo.
Por tudo que fez desde o início do governo, como retirada de direitos dos trabalhadores, congelamento dos salários, desemprego e venda do patrimônio público, Bolsonaro tem um enorme desgaste, que tende a crescer com o aprofundamento da crise do coronavírus e a demissão de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde. As mortes que se multiplicam evidenciam que a retirada dos recursos públicos da saúde foi um crime de lesa-humanidade. Também a insistência de Bolsonaro contra o isolamento social e de que a Covid-19 é apenas um “resfriadinho” trarão consequências desastrosas para a população. Hoje já temos quase 70% da população contra esse governo.
Porém, não vivemos em uma democracia popular, em que a maioria do povo é que decide. Vivemos debaixo de um governo de fascistas que tem como principais ministros generais da ativa e da reserva. Também é um governo que representa os interesses da grande burguesia, que é uma ínfima minoria da sociedade e, por isso, teme o movimento operário e popular e tende ao fascismo, principalmente em momentos de crise.
Portanto, não devemos subestimar a possibilidade de o atual governo, sob o pretexto de o país viver uma calamidade pública, promover um golpe e decretar um estado de sítio. Para isso, os fascistas não precisam de apoio da maioria da população, basta contar com apoio das Forças Armadas e de uma parcela reduzida da população disposta a ir às ruas nos seus luxuosos carros. Lembremos ainda que o governo dos EUA, aliado de Bolsonaro, pratica uma política fascista que impulsiona correntes desta natureza na Europa e na América Latina.
Em almoço realizado na sede da FIESP, no último dia 03 de fevereiro, para os 250 maiores industriais de São Paulo, com a presença de Bolsonaro, o presidente da entidade, Paulo Skaf, afirmou que “O Brasil não está dando certo. O Brasil já deu certo”, declarando, assim, o apoio da grande burguesia ao fascista. Este apoio é firmado especialmente na política de Paulo Guedes, que promoveu a reforma trabalhista, a reforma da Previdência e dá continuidade, em meio à crise do coronavírus, a propostas como a Carteira de Trabalho Verde e Amarela e a retirada de direitos dos servidores públicos. Assim, o apoio ao fascista está condicionado à agenda de retirada de direitos que assegure a maior extração de mais-valia dos trabalhadores.
O fascista também tem o apoio da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), representada por João Martins, que também é parte da minoria dos exploradores e representa a grande burguesia agrária. Em setembro de 2019, momento em que Bolsonaro fez um ridículo discurso na ONU exaltando a ditadura militar de 1964, Martins afirmou que Bolsonaro o representou, fazendo excelente discurso: “Defendeu a soberania nacional, esclareceu equívocos sobre a Amazônia e ressaltou o importante papel do Brasil na produção mundial de alimentos e na preservação do meio ambiente. Também afastou a tese de que o governo está colocando o mundo contra o agro brasileiro, defendendo não apenas o setor, mas toda a nação”.
Vale lembrar que esse foi o momento em que a Amazônia estava em chamas e que o agronegócio foi um dos principais responsáveis por este crime contra a natureza. Mas vejamos que, apesar da reafirmação do apoio da grande burguesia, os meses vão se passando e fica evidente a cada dia que o governo Bolsonaro vem se enfraquecendo e perdendo apoio popular. Porém, será defendido para que fique no poder por essa minoria enquanto for útil para a grande burguesia.
Nesse momento, apresentam-se algumas propostas políticas para retirada de Bolsonaro da presidência. O impeachment é uma delas. No entanto, com um Congresso Nacional altamente reacionário e antipopular como o atual, a única forma de forçar o impeachment seria a realização de grandes manifestações nas ruas. Mas, no momento, devido ao crescimento do número de mortes pela Covid-19, esta possibilidade não é viável. Desse modo, apostar que um Congresso Nacional que aprova leis contra os trabalhadores vai aprovar o impeachment sem o povo nas ruas é ignorar o papel das massas na luta política e propagar ilusões parlamentaristas.
Outra proposta apresentada é apelar para que Bolsonaro, que faz planos para governar 20 anos, renuncie. É como pedir para o diabo virar anjo. Alguns desses setores chegam até mesmo a afirmar que o general Mourão seria um “mal menor”. Esse é o caso do governador do Maranhão, Flávio Dino, do PCdoB: “Claro que Mourão não é do meu campo ideológico. Mas, se Bolsonaro entregar o governo para ele, o Brasil chegará em 2022 em melhores condições”.
Trata-se de um ledo engano e demonstra uma gigantesca ilusão de classes, uma total traição ao povo e sua história. Mourão é um general, representante ainda mais direto dos interesses do setor ultraconservador e fascista das Forças Armadas. Como Bolsonaro, Mourão defende a tortura, tenta falsificar a história escondendo os crimes cometidos pelas Forças Armadas e pela grande burguesia durante a Ditadura Militar, sendo, portanto, um defensor do aumento da repressão contra o povo e a classe trabalhadora.
Dessa maneira, nossa tática de aprofundar o desgaste deste governo, manter e impulsionar a palavra de ordem “FORA BOLSONARO! POR UM GOVERNO POPULAR!” é, sem dúvida, a mais correta. Primeiro, porque é a palavra de ordem que está na boca do povo. Foi gritada por milhares de mulheres de todas as correntes políticas no 8 de março, sendo esta a última manifestação nacional contra o fascismo. Segundo, taticamente, no momento de avanço da pandemia do coronavírus em que nos encontramos, devemos ter como principal atuação a solidariedade aos trabalhadores e trabalhadoras para enfrentar essa barbárie nas periferias e denunciar o caráter antidemocrático e antipopular do governo. Terceiro, devemos ampliar os panelaços nas periferias, sendo esta uma forma de protesto importante, criada no fogo da batalha e capaz de desgastar o governo, dialogando com a consciência da classe trabalhadora, dizendo que o governo com sua política aumenta a fome e a miséria e só governa em prol da classe rica e dos EUA.
Assim, prepararemos o terreno para derrubar o Governo Bolsonaro pelas mãos do povo e fortaleceremos uma alternativa popular para o desfecho dessa crise, qual seja, a construção de um poder popular e do socialismo, única saída verdadeira para termos um país livre e independente. Da mesma forma, romperemos com as ilusões do reformismo e da pequena burguesia de que derrotarão o fascismo no âmbito institucional promovendo um impeachment ou mesmo pedindo, por favor, para que Bolsonaro renuncie.
3 – Derrotar o imperialismo capitalista é uma tarefa fundamental
Solidariedade internacionalista a Cuba e à Venezuela. Foto: G1
Precisamos ter a consciência de que enfrentamos o fascismo internacionalmente. Por isso, a classe trabalhadora, em nível mundial, é nossa principal aliada na luta contra os imperialismos e pelo socialismo. Não basta levantar a bandeira contra a política neoliberal e passar a defender o neodesenvolvimentismo, pois o capitalismo é brutal em todas suas formas e tem como único objetivo despejar a crise nas costas da classe trabalhadora.
O capitalismo desenvolvimentista não é alternativa ao neoliberalismo, pois ambos são exploradores da mais-valia dos trabalhadores. Nosso objetivo deve ser destruir o capitalismo, e não apenas a política neoliberal dos EUA. Os neodesenvolvimentistas cumprem o papel de abrir caminho ao fascismo e são a outra face da moeda do capitalismo.
Prova disso foi o que ocorreu na Segunda Guerra Mundial, quando os EUA e a Inglaterra, tidos como democratas naquele período, deixaram a chama nazifascista bater-se contra a pátria socialista, só dando apoio na Frente Oriental depois de perceberem que a URSS sairia vitoriosa, e com grande chance de que seriam também vítimas do nazismo.
Quem é socialista e comunista tem como principal obrigação defender a classe trabalhadora e defender seus interesses presentes e futuros. Portanto, devemos trabalhar em nível internacional para que a classe trabalhadora não seja levada a uma luta interimperialista, mas que lute por sua libertação, pois, como internacionalistas que somos, fazemos parte do mesmo exército do mundial do proletariado.
Os trabalhadores e o povo da Venezuela estão na linha de tiro do imperialismo estadunidense, portanto, nossa solidariedade aos venezuelanos e nossas ações principais devem ser no sentido de derrotar esse imperialismo fascista e expulsá-lo da América Latina. Apoiamos, como internacionalistas, a classe trabalhadora que luta contra o imperialismo, mas que também luta pelo socialismo. Defendemos que esta classe possa, no processo revolucionário em curso, tomar consciência e declarar o caráter socialista da revolução. Não podemos aceitar sermos instrumento nem do imperialismo dos EUA, nem do imperialismo chinês e russo, uma vez que estes investem financeiramente na Venezuela, visando a mantê-la como área de influência econômica e geopolítica, gerando, de fato, igual dependência e exploração para os trabalhadores.
A revolução socialista é a única forma de derrotar definitivamente o imperialismo e a exploração dos trabalhadores. Essa luta é a luta do presente, atual e estratégica para a classe trabalhadora. Quem pensa o contrário, não faz mais que defender a manutenção da exploração do homem ou considerar este objetivo algo utópico. Para que os trabalhadores possam decidir seu destino e sua autodeterminação é fundamental fazer uma revolução proletária.
Trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo, uni-vos!
Wanderson Pinheiro e Leonardo Péricles, membros do Diretório Nacional da Unidade Popular (UP)
[1] Apesar das visíveis disputas políticas de Bolsonaro com outros representantes da grande burguesia, como Dória e a Globo, no fundamental, não divergem quando se trata de aumentar a exploração sobre a classe trabalhadora e a retirada de direitos – como vimos no caso da Reforma da Previdência, da PEC dos Gastos e no Pagamento da Dívida Pública, dentre outras medidas antipopulares.
São Mateus tem colagem lembrando nomes e referências na luta do Povo Negro no Brasil e no Mundo
Foi realizado no bairro do Vila Flávia, São Mateus, Zona Leste de São Paulo, na semana do 20 de Novembro uma ação de colagem de nomes e referências negras na história da luta do povo negro e referências da periferia. Jovens do bairro espalharam nomes de homens e mulheres da luta antiracista como Luis Gama, Marielle Franco, Luisa Mahin, da luta anticapitalista como Angela Davis, Carlos Marighella, além de muitas referências como Emicida, Negotinho, Mano Brown, Mestre Moa, e homenagem a crianças mortas pelo Estado como a menina Ágatha Félix, de 8 anos, morta pela PM do RJ, e do menino Lucas Eduardo, de 14 anos, morto em Santo André pela PM de SP.
O mês de Novembro é um mês de agitação e propaganda sobre a luta do povo negro mas também de reforçar a importância da organização para enfrentar um sistema e um governo que tem aprovado medidas para aumentar o genocídio diretamente, autorizando ainda mais a impunidade da PM, ou indiretamente, privatizando o SUS, que atende em maior parte a população negra, precarizando o trabalho, feito em maior parte pela população negra. Esses e outros fatores que fortalecem ainda mais o racismo estrutural, ferramenta de submissão econômica e cultural do sistema capitalista. Para fazer frente de forma efetiva a quem nos mata e proteger nossa população e juventude negra de forma efetiva, precisamos lembrar nesse mês de Novembro de nos organizar em um movimento popular de porte nacional, mantida pelas forças e recursos do povo e movido pelos interesses da luta da classe trabalhadora no Brasil.
Lucas Nascimento Coordenador Nacional do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas / MLB SP
Durante a manhã dessa sexta-feira (22), Mauá, município do ABC paulista, amanheceu com os ônibus na garagem, e manifestações no terminal central: trabalhadores da Suzantur, transportadora turística privada responsável pelas linhas de ônibus da cidade, declararam greve contra a revogação contínua de direitos.
P. O.*, trabalhador da Suzantur e integrante do turno da tarde, alegou que a mobilização entre os trabalhadores começou quando um motorista não recebeu o depósito do vale salarial, benefício garantido pelo contrato. Contudo, esse fato foi apenas o estopim: os motoristas da Suzantur sofrem com a falta de pagamento dos salários, assédio moral, horas extras compulsórias e expedientes sem pausa para o banheiro no cumprimento das dezenas linhas que a cidade de Mauá possui.
Além da falta de pagamento de salários, recusa do depósito de benefícios, M. Q.*, trabalhador do turno da manhã, declarou ao Jornal A Verdade que as condições de trabalho pioram diante das jornadas extensas. “Cheguei a trabalhar durante vinte dias seguidos. Aqui não tem respeito”.
Apesar do posicionamento da empresa, que caracterizou a paralisação como “indevida”, a greve foi vitoriosa, e garantiu que o depósito do vale salarial ocorresse. Os ônibus voltaram a circular a partir das 14h.
*Os nomes dos trabalhadores que concederam depoimentos ao Jornal A Verdade foram alterados.
Gabriela Torres – Movimento de Mulheres Olga Benário
SÃO PAULO – Neste domingo, 17, milhares de pessoas foram à avenida Paulista, no centro de São Paulo, em solidariedade ao povo boliviano e contra o golpe de Estado sofrido por Evo Morales. O ato foi chamado pelo Comitê Brasileiro de Solidariedade ao Povo Boliviano Contra o Golpe, e contou com a presença de crianças, estudantes e trabalhadores da comunidade boliviana residente, além do apoio de muitos brasileiros.
As bandeiras boliviana e Whipala, símbolo da plurinacionalidade do país e da cidadania dos povos originários, foram firmemente tremuladas por todo o ato. Palavras de ordem também marcaram a manifestação, destacando o repúdio ao golpe de Estado, a resistência popular pela democracia, e denunciando o fascismo promovido por figuras da extrema direita do país, como a senadora (autoproclamada presidente) Jeanine Áñez e o empresário multimilionário Luis Fernando Camacho.
Através de um manifesto, distribuído no ato, o Comitê Brasileiro de Solidariedade ao Povo Boliviano Contra o Golpe afirma: “A luta do povo boliviano contra o golpe, contra Camacho, contra o fascismo, contra o racismo e a extrema direita, é uma luta que deve receber a solidariedade de todas as pessoas e da classe trabalhadora de todo o mundo que defendem as liberdades democráticas.” O manifesto também pontua: “Não reconhecemos como presidente da Bolívia a autoproclamada Jeanine Áñez, uma fraude, assim como Juan Guaidó, o autoproclamado presidente da Venezuela.”
O golpe na Bolívia representa uma ofensiva de setores extrema direita, aliada do imperialismo dos EUA e de grandes grupos empresariais e especuladores do mercado financeiro. Os diversos povos bolivianos que se erguem em defesa da democracia resistem ao golpe há semanas, como os lutadores do Chile, Equador e Haiti, que rechaçam ataques das elites do poder econômico. Com os últimos acontecimentos, desmancham-se as ilusões com o imperialismo, com a conciliação com grandes ricos e exploradores da classe trabalhadora. A real saída para a América Latina, cada vez mais, aponta para o poder popular.
Na manhã desse sábado, 14, centenas de pessoas tomaram o centro de Santo André para conclamar o Grito dos Excluídos e Excluídas do ABCDMR. O ato começou com um café da manhã coletivo, uma caminhada pela rua principal da cidade terminando com uma homenagem a brasileiros que deram a vida por uma nação mais justa e igualitária. O ato contou com adesão e organização de diversos movimentos sociais, ambientalistas, partidos de esquerda, movimentos populares do campo e da cidade, movimento estudantil, de mulheres, pastorais sociais e religiosas de diferentes matrizes e entidades sindicais.
O Grito dos Excluídos e Excluídas acontece há 25 anos e esse ano ecoou em mais de 200 cidades e em todas as capitais do Brasil. Esse movimento nasceu da necessidade de dar voz ao povo, às minorias e à população historicamente excluída pelo Estado burguês, que segue interesses de banqueiros lucrando com a miséria do nosso povo, deixando em segundo plano direitos básicos como: saúde, moradia, transporte, trabalho, informação e vida digna.
Foto Reinilson Câmara
“A vida em primeiro lugar! Este sistema não vale: LUTAMOS POR JUSTIÇA, DIREITOS E LIBERDADE” foi o lema do 25º grito dos excluídos. A marcha em defesa de direitos sociais e da luta contra o desemprego, levantou vários problemas estruturais como encarceramento em massa, genocidio da população negra, feminicídio, transfobia, lgbtfobia, cortes na educação e a “reforma” da Previdência, promovido pelo governo fascista de Jair Bolsonaro.
Também foi pauta do ato a questão do meio ambiente, por conta do aumento das queimadas, do avanço do desmatamento na Amazônia, dos crimes da Vale em Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais. Além disso, foi erguido a bandeira contra o projeto do centro logístico de Paranapiacaba, proposto pelo prefeito de Santo André, Paulo Serra (PSBD), que ameaça uma área de proteção ambiental com importantíssimo valor histórico nacional, turístico, paisagístico e de serviços ambientais como provisão de águas para a Represa Billings.
Por fim, o ato do ABCDMR terminou com homenagens aos verdadeiros heróis da pátria, que lutaram por um país mais justo e igual, por meio de uma intervensão cultural com fotos e palavras de ordem. Nomes como Marielle Franco, índio Galdino , Zumbi dos Palmares, Dandara dos Santos, Milton Santos, Elenira Resende, Carlos Mariguella, Chico Mendes, Carolina Maria de Jesus e Manoel Aleixo foram lembrados e homenageados.
Foto Cadu MachadoFoto Reinilson Câmara
Reinilson Câmara Filho – Unidade Popular pelo Socialismo
Na última quinta-feira (15) cerca de 147 famílias foram despejadas numa ação truculenta e violenta promovida pela Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro com ordens do governo estadual em Monte Alto, bairro do segundo distrito de Arraial do Cabo na Região dos Lagos. O Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas – MLB esteve presente no local no dia seguinte junto ao Jornal A Verdade para acompanhar a situação das famílias e prestar solidariedade e apoio. “Foram momentos de terror, eram mais de 40 viaturas, trator, helicóptero, drone, canhão de água, centenas de policiais encapuzados e armados até os dentes. Parecia que estávamos em guerra.” contou uma moradora. Outro morador continuou: “quando os policiais chegaram por volta das 5 horas da manhã, dissemos que tínhamos uma liminar da justiça garantindo que poderíamos ficar ali até que a prefeitura apresentasse uma outra solução de um local decente para essas famílias morarem. O comandante da operação se recusou a ver o nosso documento e tampouco nos deixou ver o documento que ordenava a realização daquela operação. Dali em diante começou o terror, jogaram bomba de gás lacrimogêneo, spray de pimenta, bala de borracha em todos, acertando inclusive grávidas, crianças e idosos sem a menor capacidade de resistência dos moradores. Daí em diante, destruíram nosso sonho. Passaram o trator por cima das 147 casas construídas com muito esforço coletivo por todos nós”.
Foto: Marcela Couri
A justificativa do governo para promover tal barbaridade, é de que aquela área pertence ao Parque Estadual da Costa do Sol e seria área de preservação ambiental. “Aqui só tem trabalhador, não tem bandido não. A gente não invadiu a terra não porque queremos destruir o meio ambiente. Só estamos aqui porque não temos outra opção.” disse uma moradora. Em áreas ao redor do “projeto” (como foi apelidado o local pelas famílias) existe um condomínio enorme, garagem náutica e um outro terreno de milhares de metros quadrados que pertencem à construtora Volendam, que tem carta branca para fazer o que quiser, sem se preocupar com as questões ambientais. “É necessário compatibilizar a preservação ambiental com o direito social do uso da terra. A dignidade da vida humana está prevista na legislação ambiental, e o direito à moradia digna foi reconhecido e implantado como pressuposto para a dignidade da pessoa humana, desde 1948, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos e consta na Constituição Federal de 1988”, disse Ana Paula, conselheira do parque e militante da Unidade Popular pelo Socialismo. Essa é a realidade de cerca de 7,7 milhões de famílias em todo o Brasil, que compõe déficit habitacional em nosso país. São milhões de pessoas que moram em situações precárias, de favor, não tem mais condições de pagar aluguel e se encontram em situação desesperadora. Por outro lado, vemos milhões de imóveis e terrenos que não cumprem nenhuma função social, servindo apenas à especulação para gerar lucro para os ricos donos das grandes construtoras. O grande questionamento que ficamos nesse caso é: por que a Volendam pode explorar e degradar o meio ambiente em grandes proporções no terreno ao lado para obter fabulosos lucros, mas quando as famílias buscam um local pra morar são tratadas com violência pelo estado?
Foto: Marcela Couri
O estado do Rio de Janeiro tem a polícia que mais mata e que mais morre, é onde 5 jovens negros e pobres foram assassinados na última semana sem enquanto iam para a escola, para o trabalho ou apenas se divertir com os amigos. Enquanto nosso sangue escorre pelo chão da favela, o governador anda de helicóptero mirando sua arma na gente. Esse caso é reflexo da política genocida promovida pelo Estado Capitalista, de guerra aos pobres, guerra aos negros e negras. No “projeto restinga” os moradores respiram resistência, luta e esperança. Muitos dos que não tem pra onde ir, seguem tentando reerguer as construções e sobrevivendo através da solidariedade dos moradores da região que fornecem abrigo em suas próprias casas, doam roupas, alimentos e ajuda. A decisão dos moradores do projeto é de que só vão sair de lá se a prefeitura apresentar uma alternativa digna, “todos aqui tínhamos a nossa casinha, humilde, mas conquistada com muito suor e luta! Não vamos aceitar menos do que isso!” disse um morador durante assembléia realizada.
Foto: Marcela Couri
O Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas – MLB segue acompanhando e prestando apoio a essas famílias. Acreditamos que morar dignamente é um direito humano e que se o Estado Capitalista prioriza os lucros acima da vida, queremos destruir esse Estado e construir no seu lugar um Estado dos trabalhadores, onde prioridade seja a vida digna, com emprego, moradia, educação, saúde, etc. Enquanto morar for um privilégio, seguiremos lutando pela reforma urbana e o socialismo!
A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) realizou a 9º Conferência Nacional de Educação Paulo Freire com o tema “Educação Libertária e Democrática: construindo o movimento pedagógico Latino-Americano” entre os dias 26 a 28 de junho em Curitiba. O objetivo do encontro foi debater os desafios e rumos da educação brasileira, sendo estabelecida greve nacional no dia 13 de agosto contra os retrocessos do governo atual.
Dentre as pautas discutidas, os educadores se debruçaram sobre o Plano Nacional da Educação (PNE), sancionado em 2014 e com validade de 10 anos, com o propósito de direcionar esforços e investimentos para a melhoria do quadro educacional brasileiro. O Plano é composto por 20 metas contemplando todos os níveis educacionais que, apesar de muito promissoras, apenas uma foi cumprida de acordo com o Inep.
Destaca-se a meta 1, que diz respeito a universalização e democratização do ensino básico tendo como finalidade atender 100% das crianças de 4 a 5 anos matriculadas na pré-escola até 2016, além de garantir 50% das crianças de 0 a 3 anos em creche até 2024. Segundo dados do Pnad, apenas 90% das crianças de 4 a 5 anos foram atendidas e somente 1/3 estão em situação de creche. Essa defasagem é vivenciada principalmente nas periferias, onde as filas de espera por vaga nas creches podem levar anos colaborando com a desigualdade enfrentada pelas mulheres na participação no mercado de trabalho.
A estagnação e não cumprimento das metas são resultados dos ataques que o sistema educacional brasileiro sofre constantemente. Prova disso é a emenda constitucional nº 95 implementada pelo governo Temer que congela, durante 20 anos, investimentos públicos direcionados a saúde e educação. Além do corte de 30% das verbas destinadas às universidades e institutos federais, anunciado recentemente pelo ministro da educação. As duas ações fazem parte de um projeto que confronta diretamente as diretrizes do PNE, uma vez que a falta de recurso penaliza o avanço das melhorias no ensino público.
Além disso, a militarização das escolas incentivada por Jair Bolsonaro, visa instituir um sistema onde a censura é peça chave, ferindo a efetivação da gestão democrática de educação proposta pela meta 19 do Plano. Na mesma linha, o descumprimento se fez presente quando aprovadas as mudanças no “Novo Ensino Médio” pelo Conselho Nacional de Educação, órgão vinculado ao MEC, que libera o ensino a distância totalizando 20 e 30% de carga horária, respectivamente no período diurno e noturno, acentuando ainda mais a defasagem no ensino público.
Essas ações com embasamentos apenas voltados aos interesses capitalistas, sem considerar a realidade do povo brasileiro, são responsáveis por colocar a situação educacional do país em risco. O desleixo com que se é tratado o ensino público foi demonstrado nos últimos dados coletados pelo IBGE, provando que a educação ainda não é para todos. Cerca de 40% da população com mais de 25 anos não chegaram a concluir o ensino básico, e daqueles que concluíram, o maior percentual está entre os brancos (55,5%) ao passo que entre os negros, o número cai substancialmente (40,4%). Considerando que a maior parte da população brasileira é negra, o acesso a educação no Brasil ainda é limitado e desigual pela negligência do governo em promover políticas públicas que incentivem o acesso à todos.
Analisando todo este quadro, os educadores presentes da 9ª Conferência apresentaram um manifesto repudiando as sucessivas contra-reformas liberais no setor educacional e o desmonte das políticas educacionais e sociais que atacam os direitos da população, especialmente da população mais marginalizada (mulheres, negros, índios e LGBTs). Além disso, também criticaram a proposta da Reforma da Previdência e as conseqüências que irá trazer principalmente para as professoras de rede pública, aumentando 10 anos a idade mínima para aposentadoria. Ao final do manifesto, os profissionais conclamam a luta incessante e o compromisso para com a educação, convocando todas as instituições de ensino para uma grande greve geral no dia 13 de agosto.
Diante dessa conjuntura, se fazem necessárias as críticas, a mobilização e organização dos estudantes, trabalhadores e servidores públicos em defesa do ensino de qualidade no país e contra a destruição da aposentadoria, como foram feito nos dias 15 e 30 de maio pela educação, e no dia 14 de junho na Greve Geral que mobilizou categorias ao redor do país e que foram responsáveis pelo fechamento de diversos pontos estratégicos das cidades.
Foto: Jorge Ferreira/Jornal A Verdade
“Numa palavra, a educação se tornou a grande esperança, a grande promessa da nacionalidade e da democracia. Com espanto, porém, vemos que, no atual governo, ela é apresentada como ameaça.” – afirmam ex-ministros em carta contra as políticas educacionais do governo Bolsonaro.
Inimigo da Educação, o governo Bolsonaro vem promovendo um verdadeiro sucateamento do ensino público no país. Em abril, através de sua conta no twitter o atual presidente fascista insinuou que os cursos de ciências humanas não mereciam investimentos, adiantando a pretensão de seu governo de cortar verbas do ensino superior. Mesmo com a revolta da população diante de tais alegações, pouco tempo depois, o governo através de seu Ministro da Educação, Abraham Weintraub, anunciou o corte de 30% nas verbas das universidades sem diálogo prévio com a comunidade acadêmica, impactando diretamente o funcionamento dos institutos federais. Na ocasião, o governo alegou que os cortes no ensino superior eram necessários para garantir o investimento na educação básica. Contudo, isso se mostrou como mais uma de suas mentiras contra a população mais pobre, ao estender o corte orçamentário para toda a pasta de educação, incluindo os programas de ensino infantil ao médio.
Frente a essa situação de completo desmonte das políticas educacionais do país, seis ex-ministros de governos anteriores se reuniram em um evento promovido pela Universidade Estadual de São Paulo (USP) e redigiram uma carta aberta em oposição às medidas do governo Bolsonaro. Na carta, José Goldemberg (1991-1992), Murílio Hingel (1992-1995), Cristovam Buarque (2003-2004), Fernando Haddad (2005-2012), Aloizio Mercadante (2012-2014) e Renato Janine Ribeiro (2015), expressaram sua preocupação com “as políticas para a educação adotadas na atual administração”, enfatizando que a magnitude dos cortes promovidos no último período “podem ter efeitos irreversíveis e até fatais”.
De acordo com eles, nessa gestão, a educação deixou de ser vista como prioridade nacional e passou a ser tida como uma ameaça, enfatizando a postura do governo em ignorar especialistas da área atuando de “forma sectária, sem se preocupar com a melhoria da qualidade e da equidade do sistema, para assegurar a igualdade de oportunidade”. Em outras palavras, a carta converge com as denúncias realizadas pelos movimentos sociais e estudantis frente aos ataques de Bolsonaro. Para Beatriz Baria, militante do Movimento Correnteza de São Paulo: “cortar investimentos dos institutos federais e da educação básica, determinar o fim das bolsas para pesquisadores, é mais uma forma desse desgoverno vergonhoso de atacar nosso povo. Somos nós, a juventude pobre, que vai ser impedida de ter uma educação de qualidade, pra encher os bolsos dos grandes grupos privados, que fazem da educação mercadoria, como a Kroton Educacional”.
A carta denuncia ainda a perseguição e a censura impostas pelos governos aos docentes, ressaltando a importância do “respeito à profissão docente, que não pode ser submetida a nenhuma perseguição ideológica […] Convidar os alunos a filmarem os professores, para puni-los, é uma medida que apenas piora a educação, submetendo-a a uma censura inaceitável”. Em outro trecho, reforçam: “a autonomia universitária é uma conquista que deve ser mantida para garantir a liberdade e qualidade na pesquisa, formação e extensão”.
Ao fim do texto, os ex-ministros propõem a “formação de uma ampla frente em defesa da educação” e anunciam a criação de um “Observatório da Educação Brasileira dos ex-ministros da Educação, que se coloca à disposição para dialogar com a comunidade acadêmica e científica, sociedade e entidades representativas da educação, com parlamentares e gestores, sempre na perspectiva de aprimorar a qualidade da política educacional”.
Jady Oliveira União da Juventude Rebelião
[1] Kroton Educacional: a maior empresa privada do mundo no ramo da educação, um conglomerado que monopoliza e atua em função da privatização do ensino privado, em detrimento da educação pública, gratuita e acessível.
RIO DE JANEIRO Um ano após a execução da Vereadora Marielle Franco pela milícia, a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ) – assim como Marielle uma política negra, de periferia e LGBT – teve a solicitação de escolta negligenciada pela omissão do Governador Wilson Witzel, do Partido Social Cristão, ao negar o pedido de proteção à vida da deputada que foi realizados após receber ameaças de morte.
Talíria recebe ameaças de morte desde 2016 quando foi eleita vereadora em Niterói/RJ. As ameaças vêm pelas redes sociais ou até por telefonemas feitos à deputada ou a sede de seu partido. A pouco mais de dois meses a polícia federal alertou ter encontrado na dark web informações sobre o planejamento de um atentado à vida da deputada.
Graças à investigação da PF, Talíria está sendo escoltada em Brasília, mas nas vezes em que retorna a Niterói, cidade na qual foi eleita e também onde recebeu as ameaças, anda desprotegida pois a solicitação enviada pelo presidente da Câmara dos deputados, Rodrigo Maia (DEM), foi negada pelo Governador Witzel, que nem sequer enviou uma resposta a Câmara.
Em abril deste ano a deputada foi chamada de “verme” pelo líder da bancada ruralista, Alceu Moreira (MDB-RS), durante uma audiência pública após reações da parlamentar às declarações do também deputado. Recentemente, após as denúncias de ameaças de morte, o filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), debochou em seu twitter dizendo que Talíria era hipócrita por se declarar desarmamentista e pedir escolta, alegando que a deputada deveria pedir “iluminação”.
A história da Professora Talíria em muito se confunde com a história de Marielle Franco. Ambas ameaçadas de morte e odiadas pelos conservadores, falsos moralistas e pelos milicianos. O que acontece é que em um país que possui cotas para que as mulheres enfim consigam ocupar o espaço político que é ocupado majoritariamente por homens brancos, héteros e ricos, existir duas mulheres negras, periféricas e LGBTs, que foram eleitas como as vereadoras mais votadas em suas respectivas cidades na primeira eleição que concorreram, é inaceitável.
É um atentado à democracia o estado do RJ não exercer seu papel e zelar pela vida de uma deputada que é ameaçada apenas por lutar pelos direitos das mulheres, dos negros, dos pobres e dos LGBTs. Sabemos as causas da omissão do governador reacionário Wilson Witzel, também sabemos de qual lado está o filho do presidente e amigo da milícia, Eduardo Bolsonaro, que ironiza as ameaças contra Taliria assim como ironizava as denúncias feitas por Marielle.
Mas não podemos esperar a morte de ninguém mais, muito menos de alguém que luta para defender o direito à vida de milhões de pessoas abandonadas pelo estado e massacradas pelo sistema capitalista.
Entre as principais mudanças apresentadas pelo governo Jair Bolsonaro para a segurança publica do país, está o projeto de Lei Anticrime divulgado pelo Ministro de Justiça e Segurança Publica Sérgio Moro.
Exército brasileiro assassina jovens negros inocentes na intervenção do RJ
O projeto que prevê alterações de 14 artigos do Código Penal e do Código Eleitoral não demonstra nenhuma novidade sobre as causas dos crimes, muito pelo contrário, coloca no centro da política de segurança pública o método da punição, única e exclusivamente como forma de redução da criminalidade.
Hoje já existe uma diferenciação dos
procedimentos de casos de homicídios envolvendo policiais em serviço. Por
exemplo: quando um policial comete um homicídio e alega legitima defesa, o
crime é juridicamente justificado como “morte por intervenção de agente de Estado”.
Esse procedimento hoje é conhecido como “Autos de Resistência”, e é responsável
por ser o principal argumento legal para justificar os assassinatos produzidos
pela policia, quase sempre sendo o processo arquivado. Porém, caso uma pessoa
comum mate e alegue legítima defesa, haverá um inquérito policial para apuração
do homicídio, que na maior parte dos casos termina em reclusão, ou seja, pena
de seis a vinte anos de prisão.
Nesse sentido, um dos principais eixos do
pacote apresentado está a excludente de ilicitude, nesse caso, mesmo que
o agente policial tenha praticado um homicídio, ele não será considerado um
criminoso, excluindo o ato ilícito. O Código Penal prevê três situações em que
se aplica a excludente de ilicitude: estado
de necessidade, legitima defesa e o estrito cumprimento do dever legal. Uma
das propostas que está no pacote de Sergio Moro é de flexibilização e ampliação
da excludente de ilicitude em favor de policiais.
Em situações em que a polícia precisa
executar uma prisão em flagrante, o ordenamento jurídico brasileiro autoriza o
policial em ação á exercer o estrito cumprimento do dever legal que é prender. Atualmente no Brasil, não
existe o dever legal de matar. Não
se justifica seguir atirando até causar a morte. Com a mudança proposta pelo
pacote, o texto de lei deixa claro: caso os policiais durante o trabalho
estiverem em situações de medo, surpresa
ou violenta emoção, e vierem a matar ou ferir alguém não poderão serem
punidos. Utilizando do pretexto da legitima defesa, o projeto formaliza e
amplia a violência e os assassinatos
praticados pela policia.
Um levantamento feito pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum
Brasileiro de Segurança Pública, mostrou que houve um aumento de 18% de pessoas
mortas por policiais de
2017 para 2018 (5.225 para 6.160 mortes ao ano), ressaltando que essas
mortes são as que estão registradas no balanço anual. O ultimo relatório produzido pela Anistia
Internacional demonstrou que as forças policiais brasileiras são as que mais
matam no mundo.
A redução da violência urbana foi
destaque nas eleições de 2018, demonstrando uma enorme preocupação da população
com a segurança publica. Lembrando que essa era uma das principais promessas e
bandeiras das campanhas de candidatos, como Bolsonaro, João Dória, Wilson
Witzel. E com razão o povo, principalmente mais pobre tem clamado por justiça e
segurança. Os princípios constitucionais, em especial a dignidade humana, têm
sido violados e o brasileiro sofre no seu cotidiano.
Herança da ditadura
“Força
auxiliar e reserva do Exército” a Polícia Militar foi criada em 1969 sob
decreto-lei em pleno período de ditadura. Desde então e mesmo após a
democratização do Brasil em 1988, esse braço violento do Estado continua
atuando como há mais de 50 anos. Mesmo sendo hoje uma força à disposição do
Estado, a submissão é ao Exército autoritário brasileiro. Surge uma antinomia,
pois ao mesmo tempo em que polícia vem de polis,
do grego, cidadão, cidadania,militar vem do latim miles, milícia. Entende-se inclusive porque a militarização vê no indivíduo civil
um inimigo. O modo operante despreparado da polícia dá-se através do excesso de
violência, truculência e arbitrariedades. A tortura, por exemplo, é uma prática
cotidiana, comum e normal nas ações policiais na periferia adentro.
Com
o projeto de lei de Moro haverá um aumento de forças paramilitares. Esse
cenário aprofunda a impunidade
policial e é a semente para o nascimento de milícias, que no atualmente é o
grupo que mais oferece risco a segurança e vida do povo brasileiro, inclusive com comprovações já apresentadas pela investigação do envolvimento
direto desse grupo de extermínio com o brutal assassinato da ex vereadora e
militante Marielle Franco.
O Conselho de Direitos Humanos da
ONU solicitou que o Brasil despendesse maiores esforços para combater a
violência e projetar um fim à Polícia Militar, responsável por milhares de assassinatos.
Tudo isso fica muito claro quando vemos policiais formarem grupos de
extermínios e esquadrões da morte (criados no regime militar), carregados
de discurso de ódio, agindo de forma
criminosa, truculenta e autoritária. É urgente e necessário por fim a
militarização da polícia, e pensarmos um outro modelo de segurança pública para
não mais vivermos o cotidiano da barbárie e da escravidão, pois os chicotes de
ontem são as balas dos fuzis dos opressores de hoje!
O fuzilamento de Evaldo dos Santos, músico, num bairro periférico do Rio de Janeiro enquanto passeava com sua família na tarde de um domingo, representa o avanço do estado fascista que já não se importa em manter a aparência de um estado democrático de direito.
Ato na paulista em homenagem a Evaldo, músico assassinado pelo exército com 80 tiros. Foto: Jorge Ferreira
Com indignação o povo assistiu o presidente da república, 6 dias após o assassinato, vir à público se manifestar sobre o caso, limitando-se a defender a instituição que disparou 80 tiros e ceifou não só a vida de Evaldo, mas também de Luciano Macedo, catador de recicláveis, que tentou ajudar a família a sair do veículo no momento da ação criminosa. Segundo o presidente: “O exército não matou ninguém!” Entretanto, é equivocado pensar que essa barbárie é consequência exclusiva da chegada da extrema direita ao Poder, muito menos apenas de resquícios da ditadura militar. Na verdade o estado policialesco nunca deixou de estar presente nas periferias do Brasil.
No mundo, o 1% da população mais rica tem mais riqueza que os outros 99% somados. Os 6 homens mais ricos do mundo tem mais posses do que a metade mais pobre, mais de 3,5 bilhões de pessoas. Esse abismo social é também a realidade do Brasil, que tem uma das maiores desigualdades do mundo. Neese contexto, ao povo negro é reservado apenas os piores postos de trabalho, os piores salários e os barracos das grandes favelas. A imensa maioria da população negra é extremamente pobre e vive sob todas as formas de vulnerabilidade.
O desemprego é enorme e o varejo do tráfico termina sendo um desses postos de trabalho reservados especialmente para a juventude negra das periferias. Mesmo cumprindo uma tarefa desse negócio que gera enormes lucros para a burguesia, que utiliza seus bancospra lavar esse dinheiro, e por estar na ponta, mais visível e sustentando fuzis nas mãos, os jovens negros são vítimas de um discurso de criminalização e de uma política repressiva e genocida que assassina 66 mil pessoas por ano no Brasil, um verdadeiro índice de guerra civil. 78% desses jovens são assassinados por conta da sua cor da pele, por serem negros.
“É que cada tempo histórico tem suas perguntas sobre o passado, pois cada conjuntura produz uma história para justificar o seu presente.” É assim que Marielle Franco começa a demonstrar em sua tese de mestrado a importância de compreendermos nosso passado recente e o processo de implementação do neoliberalismo que o Brasil passou nas últimas décadas. Apesar do estudo da vereadora assassinada se concentrar na política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro através das Unidade de Polícia Pacificadora, traz também importantes esclarecimentos sobre as causas do genocídio de negros e negras no país todo.
É verdade que desde a formação do estado brasileiro há uma política de extermínio daqueles que foram escravizados, e desde então diferentes ideologias foram utilizadas para perpetuar o poder na mão de uma minoria enquanto o povo dispõe de uma vida miserável. Mas também é urgente compreender as engrenagens da fase atual do capitalismo para traçarmos estratégias para a sua destruição. Nesse sentido que Marielle desmascara o estado penal vigente nas periferias como estrutura central do neoliberalismo no Brasil.
Nessa fase da crise do capitalismo, onde a elite econômica tenta enfiar goela abaixo reformas para aumentar seus lucros, mesmo que às custas da retirada de direitos trabalhistas e sociais, é necessário uma escalada no estado penal para conter aqueles que se encontram “excluídos” dessa sociedade. É por isso que na medida que os governantes avançam na destruição de direitos sociais, aumenta-se a repressão nas periferias, pois esses são os territórios tidos como inimigos do estado, que serve exclusivamente aos interesses da classe dominante.
A administração pública por sua vez, concentra esforços em passar a impressão que esse modelo de segurança pública, que invade casas, mata e tortura, se legitima em nome da proteção de toda sociedade. Essa é a tática da “guerra às drogas”, justificar o genocídio e o encarceramento em massa como necessário para manter a ordem.
Para tanto, o estado exerce papel crucial na manutenção do projeto de dominação. Se nos bairros ditos “nobres”, o estado se faz presente nas ruas bem asfaltadas, nos parques bem arborizados, e em todo conjunto de políticas que promovem o acesso à cidade, nas periferias esse mesmo estado se faz presente exclusivamente através das forças militares, seja pela polícia, pelo exército, ou mesmo por grupos milicianos.
Essa guerra aos pobres, transvestida de pacificação, não se justifica apenas com o sadismo de uma elite branca, mas sim por interesses econômicos. O estado, representante da burguesia, não contente com as reformas neoliberais, também está comprometido com o lucro dos megatraficantes, dos milicianos, da indústria armamentista, da especulação imobiliária, etc.
Justamente por incomodar aqueles que lucram com o extermínio da população negra e escancarar a as engrenagens desse sistema que Marielle Franco foi brutalmente assassinada.
Um ano depois de sua morte, os 80 tiros disparados pelo exército no carro de Evaldo e sua família nos traz à tona a urgência de apontar as raízes desse projeto genocida. Trata-se do modus operandi de um estado neoliberal, que manteve as mesmas práticas inclusive nos governos ditos progressistas, período em que o encarceramento mais do que dobrou. Se no Brasil o capitalismo é forjado no extermínio da população da periferia, que na sua maioria são negros e negras, o fim desse extermínio também depende da superação desse sistema perverso.
O RACISMO COMO IDEOLOGIA DE DOMINAÇÃO
Segundo Clóvis Moura, “o racismo não é uma conclusão tirada dos dados da ciência, de acordo com pesquisas de laboratório que comprovem a superioridade de um grupo étnico sobre outro. O racismo é uma ideologia deliberadamente montada para justificar a dominação de um grupo sobre outro. É, portanto, uuma ideologia de dominação.
Acontece que após a abolição da escravidão no Brasil, a elite do país determinada a manter seu projeto de domínio, costurou outras roupagens para sustentar o novo regime econômico. Nesse momento ganha destaque a concepção eugênica que correspondia a uma política de embranquecimento da população e a uma teorização sobre características de personalidade inerentes às raças.
Dentre elas, se destaca o papel do direito penal na formação do imaginário popular do negro como figura naturalmente criminosa. Ainda no período da primeira república, o código penal tipificava como crime o que ficou conhecido como lei da vadiagem. Num contexto de séculos de escravidão, foi como prender as pessoas simplesmente por elas serem negras. Essa política foi aprimorada ao longos das décadas, mas sem nunca perder o viés ideológico de dominação sobre os corpos marginalizados.
A Liga de Higiene Mental, por exemplo, braço do nazismo e do arianismo no Brasil, se destacou como defensora “científica” dessa tese e defendia, entre outras bandeiras, salários eugênicos (quanto mais clara a cor da pele, maior deveria ser o salário), recompensa para famílias que procriassem seres “superiores”, punição para os “inferiores”.
O higienismo social presente na segregação territorial até os dias de hoje, é oriundo das políticas da burguesia desde a formação da nação brasileira. A verdade é que esse país foi constituído sob uma ideologia burguesa e racista, que nega ao povo sua própria história, como estratégia política para perpetuar uma estrutura excludente.
Sendo assim, torna-se uma ingenuidade combater o racismo apenas através do viés acadêmico ou estritamente científico, muito embora não possamos de maneira nenhuma, negar o combate também nesse terreno. Mas a verdade é que a boa e velha luta de classes ainda é a forma mais eficiente de enfrentar o racismo no Brasil. Como afirma Clóvis Moura, “a questão racial é essencialmente política e não apenas científica.”
Para superarmos o sistema político existente, o capitalismo, será necessário travarmos as lutas pelos interesses imediatos da classe trabalhadora, composta na sua maioria por mulheres e negros. Mas isso não bastará. Será necessário, e esse é o nosso desafio, apresentar outro modelo de sociedade que seja capaz de substituir a engrenagem capitalista.
Um sistema político e social que dê conta de distribuir toda a riqueza socialmente produzida, pondo fim à propriedade privada dos meios de produção e a todas as desigualdades sociais existentes na atualidade. Esse sistema, essa sociedade, tem nome e chama-se Socialismo.
População venezuelana vai às ruas e impede o golpe orquestrado pelos EUA
Uma tentativa de golpe militar foi realizada na Venezuela na
manhã desta terça feira, 30/04, como o intento de derrubar o governo legítimo
de Nícolas Maduro. Esta ação contou com o apoio incondicional dos EUA que
propicia todo auxílio aos golpistas que são, na verdade, subservientes do
imperialismo e realizam um discurso de apoio à “Liberdade” no país, mas com o
intuito de fazer o roubo das riquezas nacionais.
Logo pela manhã Juan Guaidó, o promotor principal do golpe, realizou pronunciamentos anunciando a tomada de uma base militar localizada na região leste de Caracas, a Base Aérea La Carlota. Também propalava a obtenção de apoio militar das forças armadas, buscando causar um levantamento em outras bases militares. Guaidó pronunciou-se ao lado de Leopoldo Lopez que estava preso desde 6 de agosto de 2017, cumprindo pena de quase 14 anos, por praticar atos violentos. O “Autoproclamado” presidente, com apoio dos EUA, busca usurpar o poder sem possuir o voto democrático do povo, por meio de uma ação violenta contra a maioria dos venezuelanos.
No entanto, oficialmente, o presidente da Assembleia Nacional Constituinte Diosdado Cabello, desmentiu a tomada da Base Aérea e disse que apenas um reduzido grupo militar se sublevou para promover um golpe de Estado. “Não foi vulnerabilizada nenhuma instalação militar no país, eles estão nas ruas no Distribuidor Altamira e nós estamos dirigindo as operações desde a Base Aérea La Carlota”, afirmou.
Maduro também se pronunciou nas redes sociais afirmando que conta com o apoio e lealdade do comando do exército, que diz está comprometido com a constituição e a soberania nacional. Precisa no entanto estar mais preocupado com o apoio popular permanente nesse processo, visto que as ações da direita tentam alterar a correlação de forças também nas massas, mas ao que tudo indica sem sucesso até o presente momento.
Mike Pompeo, o secretário de Estado norte-americano, afirmou em um comunicado “hoje, o presidente [autoproclamado] interino Juan Guaidó anunciou o início da Operação Liberdade. O governo dos Estados Unidos apoia integralmente o povo da Venezuela em sua busca pela liberdade e pela democracia. A democracia não pode ser derrotada”. Destila assim seu apoio incondicional as ações militares para derrubar o governo e mostra disposição de intervir nos assuntos internos da Venezuela.
Ernesto Araújo, ministro de relações exteriores do Brasil, se reuniu em Washington, no dia 29, com Mike Pompeo e demonstrou uma total submissão ao governo dos EUA fazendo coro a politica norte-americana “O Brasil apoia o processo de transição democrática e espera que os militares venezuelanos sejam parte desse processo de transição democrática”, declarou. Logo Bolsonaro também se pronunciou no Twitter “O Brasil está ao lado do povo da Venezuela, do presidente Juan Guaidó e da liberdade dos venezuelanos”. É uma vergonha como copiam a linguagem da farsa americana sem o mínimo de pudor tratando a palavra “liberdade” como um mantra para encobrir a tentativa de um golpe militar absurdo.
As declarações conjuntas do Brasil com os EUA nesse processo devem ser repudiadas pelo povo brasileiro, pois não podemos ser bucha de canhão para o imperialismo. Os interesses do Brasil estão muito mais ligados a uma política de relações internacionais pacíficas, de integração latino americana baseada na colaboração entre os países iguais, na solidariedade e no internacionalismo proletário. O povo brasileiro sempre foi a favou da soberania das nações e o princípio da auto-determinação, onde cabe a cada povo decidir seus destinos.
Todo apoio ao povo venezuelano! Abaixo o imperialismo!
A Unidade Popular (UP), partido político em formação, é fruto da iniciativa de centenas de ativistas dos movimentos populares, militantes comunistas, estudantes e professores e da necessidade de construir uma alternativa de esquerda revolucionária ao atual cenário nacional. Após um ano e meio de muito trabalho, a campanha pela legalização da UP entra em sua reta final. Para falar sobre as novas tarefas da militância, A Verdade entrevistou Leonardo Péricles e Fernanda Lopes, membros da Direção Nacional da UP, que afirmam que para o país sair desta crise, precisa passar por uma profunda transformação econômica e social que dê vida digna para o nosso povo, e, por isso “a UP luta pelo poder popular e pelo socialismo”.
Da Redação
A Verdade – Por que a UP foi criada?
Leonardo Péricles – Houve, nos últimos anos, um verdadeiro esgotamento dos atuais partidos ditos de esquerda. Alguns foram cooptados, tomando o caminho de aliança com as grandes empresas, bancos e empreiteiras. Outros, tentando fazer frente a esta traição, não conseguiram dialogar com a classe trabalhadora. De tão estreitos que são, não conseguem se apresentar como alternativa. O resultado é que, hoje, poucos empunham a bandeira de luta por mudanças estruturais, ou seja, a luta revolucionária contra o capitalismo, que passa pela mobilização de amplos setores populares, de milhões e milhões de trabalhadores, mulheres e homens, negras e negros, LGBTs, jovens, indígenas, comunidades tradicionais, enfim, a luta da imensa maioria do povo brasileiro.
Esta é uma luta por quebrar os enormes privilégios dos super-ricos, da burguesia brasileira. É, portanto, uma luta muito dura e nós, da UP, não consideramos que ela possa ser feita por um iluminado ou de forma isolada, mas sim no campo da luta de massas, na vida política partidária, dos movimentos, e lideranças que se reúnem em torno das ideias populares. Daí o próprio nome Unidade Popular. Acreditamos que, a partir de um chamado decidido e pautado na força do movimento popular, se incorporarão a este projeto milhões de lutadoras e lutadores. Foi para fazer este chamado que nasceu a UP.
Como vocês veem a atual situação do País? Qual a saída para a crise do Brasil?
Fernanda Lopes – O Brasil vive uma grave crise econômica e política que se agrava a cada dia, com vários retrocessos democráticos, perdas de direitos e uma calamidade social. O desemprego já atinge cerca de 24 milhões de pessoas. Hospitais, postos de saúde, escolas e universidades estão abandonados. A violência aumenta e o povo teme por sua vida todos os dias, especialmente as mulheres. O ilegítimo governo de Michel Temer, que só tem olhos para as classes ricas, aprovou a chamada “PEC dos Gastos”, congelando por 20 anos os investimentos públicos em saúde, educação e moradia. Aprovou, em agosto de 2017, a Reforma Trabalhista, que retirou direitos históricos dos trabalhadores conquistados em décadas de luta, e ainda quer aprovar a Reforma da Previdência para que trabalhadores e trabalhadoras não se aposentem mais. Para sair desta crise, o País precisa passar por profundas mudanças. Somente uma profunda transformação econômica e social que dê vida digna para o nosso povo, emprego, saúde e educação de qualidade, moradia, transporte e terra para os camponeses resolverá os problemas atuais vividos pelo povo. Por isso a UP luta pelo poder popular e pelo socialismo.
Leonardo Péricles – Devemos lembrar também que vivemos uma das mais profundas crises econômicas da história do capitalismo, desde 2008, e que se manifestou com mais força no Brasil a partir de 2013. A solução para esta crise é pôr fim a um sistema que protege uma minoria de ricos. E o programa para isso já é conhecido: taxar as grandes fortunas; impedir a especulação imobiliária e garantir a função social do solo; suspender o pagamento da dívida pública, que nos suga quase metade do orçamento federal; exigir o pagamento dos devedores da dívida ativa dos municípios e estados; impedir a sonegação de impostos pelas grandes empresas, inclusive dos devedores da Previdência; reduzir a jornada de trabalho sem redução do salário para gerar mais empregos. Desta forma, bilhões de reais serão arrecadados e serão suficientes para resolver os graves problemas sociais que nosso país vive. Mas, ao lado de todas estas lutas, não devemos deixar de disputar a maioria da população para um projeto ainda mais profundo de transformações sociais, que é a derrubada do capitalismo e a implantação do socialismo, em que os meios de produção das riquezas estejam nas mãos da classe trabalhadora e possam servir para a vida, e não para o lucro.
Nenhum dos atuais partidos defende essas propostas?
Fernanda – A maioria dos atuais partidos está pautada pela institucionalidade, por um respeito sagrado aos limites impostos pela burguesia, ao invés de se pautar pela necessidade de superação do capitalismo. E isso exige muito enfrentamento, rupturas, uma verdadeira revolução política. Um dos papéis que a UP se propõe a fazer é demonstrar que os partidos dos ricos enganam o povo a todo momento. Procuramos demonstrar pelo discurso e pela prática que nem todos os que fazem política são iguais, que há uma política corrupta e burguesa, mas que existem também políticos revolucionários e uma política proletária. Não se trata de moralismo, mas sim de colocar as coisas no seu devido lugar.
Por que o socialismo é superior ao capitalismo?
Leonardo – Em um país riquíssimo como o Brasil, o socialismo daria condições para todas as pessoas se apropriarem dos bens e serviços de que necessitem para viver. Já debaixo do capitalismo, somos um país subdesenvolvido, com uma economia comandada pelos EUA e com uma desigualdade social que aumenta a cada ano. Hoje a realidade é que as cinco pessoas mais ricas do País detêm a mesma riqueza da metade mais pobre da população. O socialismo também permite que a tecnologia desenvolvida seja aplicada para melhorar a vida do conjunto da população, e não para aumentar os lucros dos capitalistas. Só o socialismo garante acesso universal à educação, saúde, moradia, segurança, lazer. Isto já foi provado por décadas na União Soviética e em outras experiências socialistas. Uma nova onda de grandes transformações sociais virá neste século 21, pois são insustentáveis as contradições do capitalismo. Só no ano passado, por exemplo, 82% da riqueza produzida no mundo foi apropriada por apenas 1% das pessoas! A maioria dos trabalhadores ainda não tem a consciência de que este mundo novo de felicidade é possível, mas o socialismo está no sonho de todo trabalhador e trabalhadora consciente. Ao socialismo interessa socializar a riqueza das grandes propriedades, aquela que pode resolver o problema da moradia nas grandes cidades, pois no capitalismo há mais casas e prédios abandonados do que gente sem habitação. Já as grandes fábricas e empresas, as grandes extensões de terra, estarão à disposição do Estado, dirigido pela classe trabalhadora para que esta decida a prioridade e a função social de cada coisa.
Como veem as declarações de membros do Alto Comando do Exército defendendo um golpe militar?
Fernanda – Nessa conjuntura em que a luta de classes se encontra bastante acirrada, vemos manifestações das diferentes classes sociais e agrupamentos sobre as possíveis saídas para a crise. Dentro da falta de perspectivas de parte da população, setores do alto comando do Exército a serviço do setor mais reacionário da burguesia, dos fascistas, tentam também se apresentar como alternativa. Lembremos que todo este espaço para que generais possam se pronunciar sobre golpes de Estado, contrariando a própria Constituição sem sofrerem nenhuma punição, é algo muito grave e que não podemos aceitar. É preciso levar a cabo as recomendações da Comissão Nacional da Verdade para que se punam os torturadores e assassinos da época da ditadura militar. Como disse a grande companheira Amelinha Teles, em entrevista publicada na última edição do Jornal A Verdade: “Não há democracia com corpos insepultos”. Sabemos que a impunidade do passado leva à impunidade do presente, pois hoje milhares de jovens negros e pobres continuam sendo torturados e mortos nas periferias de todo o Brasil nas mãos de agentes estatais, principalmente das polícias militares.
Qual o balanço da campanha pela legalização da UP?
Leonardo – Estamos há 15 meses colocando em prática um ousado plano de legalização de um partido político revolucionário que almeja o poder. Para coletarmos as 600 mil assinaturas que conquistamos neste período, fomos a praças, bairros, vilas, favelas, ruas, empresas, fábricas, escolas, universidades e seguramente falamos para mais de dois milhões de pessoas que foram abordadas ou que escutaram nossas agitações. Nosso discurso, aliás, não é só para pedir uma assinatura, mas para politizar, para denunciar os crimes das elites contra o povo e convocá-lo para a luta.
Neste último período, conseguimos perceber como poucos o sentimento de nosso povo, seu desejo por mudanças no Brasil e, neste sentido, tivemos ainda mais certeza de que nossa decisão de criar a UP foi acertada. E fizemos isso sem depender de um centavo da Odebrecht ou de qualquer outra grande empresa, banco etc. Sem depender também de nenhum figurão da política tradicional burguesa, dependendo apenas de nossa militância e de apoiadoras e apoiadores que têm os mesmos propósitos que nós.
Chegamos agora a um momento decisivo, pois temos pouco mais de seis meses para cumprir nosso objetivo, já que a legislação impõe um prazo máximo de dois anos. Apesar de enfrentarmos regras extremamente antidemocráticas para a legalização de novos partidos, durante este período, que estamos chamando de período especial, nossa militância decidiu se dedicar integralmente à realização desta grandiosa tarefa. Chegaremos até o final de maio com pelo menos 800 mil assinaturas coletadas no total e já demos passos importantes no cadastramento das fichas de apoio no sistema online do TSE e nos cartórios eleitorais. Em três estados a UP já alcançou o número mínimo de apoiamentos exigido e já podemos constituir seus diretórios estaduais provisórios. Estamos trabalhando para que nos próximos meses cheguemos a pelo menos nove diretórios estaduais legalizados, que é outra exigência. Além disso, temos recebido adesões de muitos ex-militantes de outros partidos e organizações políticas, e até de grupos políticos que não se sentiam mais representados pelos demais partidos existentes.
O que falta para a UP conquistar a legalização?
Fernanda – Tudo o que fizemos até aqui, apesar de muito importante, não basta, pois precisamos validar 487 mil assinaturas nos cartórios eleitorais de todo o Brasil. Neste sentido, entramos no sistema do TSE com cerca de 150 mil fichas nestes últimos meses e nossa campanha continua até a legalização. Para termos êxito, estamos fazendo também uma campanha de arrecadação de finanças, pedindo contribuição às pessoas que acreditam em nossa causa para que possamos ter um caixa que permita arcarmos com os gastos desta reta final. Precisamos da ajuda de todas e todos para que possamos concluir esta campanha de dois anos. Estamos muito confiantes de que venceremos!
Estatal atuou contra o interesse dos trabalhadores e levou-os à greve. Mobilização mostrou que só a luta pode garantir conquistas para os servidores brasileiros.
Movimento Luta de Classes| Rio de Janeiro
TRABALHADOR UNIDO- Entre 30 de março e 7 de abril, trabalhadores da EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, agora chamada HUBrasil) que atuam nos hospitais universitários federais no Rio de Janeiro fizeram greve, iniciada após tentativas frustradas de negociação do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT).
A empresa também não avançava significativamente nas cláusulas sociais que a categoria tinha formalizado para encaminhamento para a empresa. O Sindisep-RJ, sindicato dirigido pelo Movimento Luta de Classes (MLC), e que representa servidores e empregados públicos no RJ, ouviu sugestões da categoria, que foram revisadas e aprovadas em assembleia no final do ano passado, para encaminhamento para negociação nacional.
Os trabalhadores da HUBrasil acumulam perdas salariais de 15,01% desde 2016, e sabiam que na data do vencimento do ACT a empresa não poderia dar nenhum aumento acima do índice de inflação por conta de estar dentro do período eleitoral. Diante da intransigência da HUBrasil em negociar desde o início do ano, a categoria deflagrou greve. Foi só então que a estatal passou a fazer propostas insuficientes, que só inflamaram a categoria.
Como funcionou a greve e como ela escalou
Em conjunto com a Comissão de Greve formada na assembleia que deu início à paralisação os trabalhadores, o Sindisep-RJ e militantes do MLC fizeram atos e movimentações diárias em frente aos Hospitais Universitários onde a HUBrasil está instalada no estado do Rio de Janeiro: Hospital Clementino Fraga Filho, IPPMG e Maternidade Escola, da UFRJ, Hospital Gaffrée e Guinle e Hospital dos Servidores, da Unirio e Hospital Antônio Pedro, da UFF.
Com faixas, panfletos e adesivos e com o Jornal A Verdade foi feito o diálogo com usuários e trabalhadores do Hospital. Assembleias diárias na porta dos Hospitais avaliaram a greve e a partir dela trabalhadores organizaram passagem em setores para dialogar com colegas que ainda não haviam aderido à greve.
A negociação continuava sendo tentada com a HUBrasil com mediação do Tribunal Superior do Trabalho, mas cada proposta insuficiente fazia com que a categoria se indignasse mais; em assembleias de avaliação, decidiu-se por apertar mais a greve: inicialmente as comissões de greve orientavam o funcionamento de 50% de trabalhadores por setor, mas com a intransigência da estatal, passaram a orientar o funcionamento de 50% de trabalhadores dos Hospitais, o que permitia que setores com mais adesão à greve pudessem paralisar mais efetivamente. Foi dada atenção a setores mais críticos de modo que cirurgias de urgência e que pudessem deixar a vida do paciente em risco pudessem ser realizadas.
No decorrer da greve, os trabalhadores foram compreendendo que o caminho era organizar a sua indignação por meio da mobilização coletiva, diante das atitudes adotadas pela HUBrasil. Esse processo se refletiu em uma adesão à greve superior à registrada no movimento anterior, inclusive com a participação de trabalhadores que nunca haviam aderido a uma greve antes, demonstrando o fortalecimento da consciência e da unidade da categoria.
Um dos atos de greve da categoria foi organizado em conjunto com os servidores técnico-administrativos das universidades federais, que lutam pelo cumprimento do Acordo Coletivo firmado após a greve de 2024 daquela categoria, mas descumprido pelo governo. Empregados e servidores públicos e a população sofrem mazelas parecidas por um governo que arrocha o salário dos trabalhadores para poder não faltar dinheiro para direcionar para rentistas, grandes empresários e latifundiários.
Dissídio Coletivo no TST e como a greve terminou
A empresa encerrou as negociações com uma proposta, rejeitada pela categoria, de 80% do INPC (aproximadamente 3,35% nos últimos 12 meses) e a oferta de algumas poucas cláusulas sociais que nem de perto atendiam às maiores demandas da categoria, redução da jornada de trabalho, nem ofereciam melhorias no Plano de Cargos, Carreiras e Salários, engavetado há anos mesmo que isso resulte em prejuízo para a própria empresa, que se queixa de alta rotatividade de funcionários, especialmente nas áreas administrativas.
Foi ajuizado Dissídio Coletivo, ou seja, a partir da rejeição da proposta, a estatal pretendia que o TST decidisse em prejuízo dos trabalhadores, já que historicamente o Tribunal, no seu papel de defensor dos interesses do governo e da burguesia, historicamente concede apenas parte das perdas inflacionárias do último período, não incorpora nem mesmo as cláusulas sociais que a empresa ofereceu durante a mediação e ainda pode suprimir algumas cláusulas do ACT anterior.
O Dissídio estava marcado para o dia 8 de abril e, na mesma decisão, o TST determinou o funcionamento de 80% dos postos de trabalho em todos os setores, sob pena de multa para o sindicato em caso de descumprimento. Ainda assim os trabalhadores mantiveram a greve. A empresa, talvez tomada pelo constrangimento que seria para o governo uma decisão catastrófica para uma categoria tão relevante, ofereceu nova rodada de negociação. Contudo manteve uma postura chantagista e desrespeitosa com os trabalhadores: a proposta foi basicamente a mesma proposta anterior com a incorporação de mais uma cláusula social.
A categoria aceitou a proposta, entendendo que haveria risco de maiores prejuízos com o Dissídio no TST, que a força da greve com a restrição do TST ficava enfraquecida e a entrada no chamado defeso eleitoral não permitia espaço para maiores avanços. A categoria termina a greve mobilizada e já pensa no ACT que será negociado em 2027.
Quais foram as vitórias da greve?
A categoria, apesar de ainda amargar defasagem salarial acumulada desde 2016, arrancou a recuperação ao menos do poder de compra perdido no último ano. Esta foi uma vitória sobre a empresa, que nada queria oferecer, mas foi constrangida a oferecer acordo antes do Dissídio que a favoreceria.
No aspecto organizativo, mais trabalhadores conheceram e se filiaram ao Sindisep-RJ e já participaram de Plenárias de Apresentação do MLC, com a abertura de um novo núcleo de base junto à categoria. Os trabalhadores entenderam a importância do caminho coletivo de lutas para ter mais força.
O exemplo para outras categorias também é importante e avança a organização de novos trabalhadores. Depois da greve o Sindisep-RJ tem sido procurado por categorias interessadas em montar sua representação sindical. Uma luta “transborda” para novas lutas.
Por quê uma estatal prejudica seus empregados e empregadas?
A classe dominante, no sistema capitalista, aquela que detém os recursos e os meios de produção, atua para que seus interesses de classe sejam atendidos e garantidos. É essa classe que financia campanhas políticas de partidos que publicamente se antagonizam, mas que no geral defendem em maior ou menor grau, explicitamente ou disfarçadamente os interesses da burguesia.
O governo atual, com suas políticas de conciliação de classes e apaziguamento da luta de classes serve aos interesses justamente dessa burguesia, permite que “think tanks” fundadas e mantidas pelas elites estadunidenses e europeias, aliados a grupos da elite local determinem políticas públicas e façam avançar o desfinanciamento dos serviços públicos e a abertura de novos mercados para grandes grupos internacionais, como já ocorreu em diversos setores da economia.
Esse apaziguamento da luta de classes é o que faz com que, mesmo com a oposição de parte da burguesia, parte o tolere porque o instrumentaliza para levar a cabo seus interesses.
“Os [social-democratas], deixando intacta a ordem burguesa, os seus governos não podem ser mais do que um aparelho colocado a serviço da burguesia contra o movimento revolucionário das massas oprimidas e exploradas. (….) [E]stes governos continuam a ser, inevitavelmente, governos disfarçados do capital.” Stalin, Fundamentos do Leninismo
A saída para os trabalhadores: formação teórica e prática para a construção do socialismo
Nenhuma vitória, nenhum avanço veio como presente para a classe trabalhadora. Todas as suas conquistas só foram alcançadas e mantidas com muita mobilização e muita luta. Desde os anos 1990 reiterados ataques aos direitos dos trabalhadores vêm sendo feitos por todos os governos, tanto ditos de direita como de esquerda, seja em reformas da previdência, reformas trabalhistas, privatização e desfinanciamento de serviços públicos.
Só com a mobilização, luta e organização dos trabalhadores podemos sair da contenção de danos para a construção da sociedade que almejamos. O MLC chama todos os trabalhadores da HUBrasil e de todas as categorias para participarem de seus núcleos de base e construir um sindicalismo combativo, classista, com formação política e atuação firme na construção de uma nova sociedade, a sociedade socialista.
Trabalhadores da limpeza urbana em Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana do Recife, decidiram paralisar os serviços após inúmeras dificuldades como falta de EPIs, vale-refeição sem reajuste há mais de dois anos e a luta pela aprovação da PEC dos Garis.
Redação Pernambuco
TRABALHADOR UNIDO- Os trabalhadores da limpeza urbana de Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana do Recife, decidiram cruzar os braços nessa manhã (23). Os trabalhadores decidiram pela luta após a piora nas péssimas condições de trabalho na empresa Via Ambiental, equipamentos de proteção individual precário e diversas denúncias envolvendo questões trabalhistas. Entre as denúncias, a reivindicação do aumento no vale-alimentação, que recebem há quatro anos apenas R$ 200,00. Coletores, garis, motoristas e a varrição decidiram paralisar os serviços na garagem da empresa.
Os trabalhadores tem se mobilizados em torno da luta pelo PL 4146/2020, conhecido como ‘PL dos Garis’ que regulamenta a profissão dos trabalhadores da limpeza urbana, inclusive estabelecendo um piso salarial, jornada de 36 horas semanais e 40% de insalubridade para os trabalhadores. O Projeto de Lei foi aprovado na Câmara dos Deputados em março desse ano e seguiu para ser analisada no senado. A greve seguiu com um ato de rua e teve apoio do Movimento Luta de Classe (MLC) e da Unidade Popular.
Categoria mobilizada em Pernambuco
Em março desse ano os garis no Cabo de Santo Agostinho, cidade que fica ao lado de Jaboatão, também organizaram uma greve exigindo aumento no vale-alimentação, reajuste salarial, plano de saúde e melhores condições de trabalho. A Locar, outa empresa que opera na limpeza urbana na região metropolitana, foi denunciada pelos trabalhadores por atrasos no pagamento dos salários e horas extras acumuladas, o que ocasionou uma paralização no final de março (25).
Essas mesmas reivindicações foram vistas em outras cidades da região metropolitana no final do ano passado e início de 2026 como em Igarassu, Paulista e Olinda. Em todas as mobilizações chama atenção a falta de representatividade por parte do sindicato da categoria. O Sindicato dos Trabalhadores em Asseio e Conservação de Pernambuco (STEALMOAIC) é ligado ao PSB e tem priorizado a negociação e o diálogo com os patrões, inclusive trabalhando para desmobilizar as mobilizações dos trabalhadores.
O Movimento Luta de Classe (MLC) tem feito as patrulhas nas garagens da limpeza urbana na região metropolitana do Recife e tem colhido as reivindicações dos trabalhadores da categoria, além de apoiar as greves e mobilizações da limpeza urbana e apontar para a categoria a necessidade de reorganizar o sindicato da limpeza urbana no estado, uma alternativa que organize de fato os trabalhadores.
O caminho é a luta
Durante o ato na frente da garagem da empresa, os representantes da empresa tentaram ameaçar os trabalhadores, o que gerou ainda mais indignação e deu combustível para a greve. Antônio, trabalhador da empresa disse para o jornal A Verdade: “a gente se sente humilhado. A pessoa faz o trabalho com orgulho, gosta do que tá fazendo, mas não recebe nem o que é de direito. Tomara que essa lei seja aprovada, porque é humilhante o que a gente da categoria passa sem ser valorizado’. A paralisação na limpeza urbana em Jaboatão é um momento histórico para o município, que a pesar de ter a segunda maior economia do estado enfrenta problemas estruturais básicos, especialmente por ter na gestão municipal a extrema direita governando a cidade há mais de 30 anos. A greve continua e o jornal A Verdade está na cobertura dessa mobilização.
Para enfrentar o bloqueio criminoso imposto à ilha de Cuba, movimentos sociais e trabalhadores de todo o país vão às ruas exigir que o governo brasileiro envie petróleo ao povo cubano que sofre com a intensificação do bloqueio econômico
Mariana Rodrigues | São Paulo
Trabalhador Unido – Com o objetivo de impor seu imperialismo aos povos da América Latina, o ditador dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou o bloqueio econômico a Cuba. Trata-se principalmente da restrição de acesso ao petróleo e seus derivados – maior fonte energética do país.
Essa medida autoritária ameaça o funcionamento de equipamentos hospitalares, produção de alimentos, atividade produtiva e comércio. Essa asfixia econômica impacta diretamente a qualidade de vida do povo cubano.
O bloqueio econômico a Cuba perdura há mais de 60 anos, e opera como uma forma de retaliação econômica à Revolução Socialista de Fidel Castro e Che Guevara, que impuseram uma importante derrota ao imperialismo norte-americano e se tornaram símbolo de resistência na América Latina. Os cubanos, desde então, defendem bravamente os direitos conquistados pela revolução.
O governo brasileiro deve solidariedade a Cuba
O Brasil contou com o apoio de Cuba em momentos muito críticos de sua história. Durante a ditadura militar fascista de 1964, milhares de brasileiros perseguidos se refugiaram na Ilha e contaram com o apoio do governo de Fidel. Da mesma forma, o programa “Mais Médicos” do Governo Dilma (PT), contou com o apoio de centenas de médicos cubanos que vieram ao Brasil apoiar no atendimento das populações mais marginalizadas do país.
Portanto, os movimentos sociais apontam que é dever do Governo Federal e da Petrobras demonstrar seu repúdio aos ataques imperialistas aos direitos humanos e de autodeterminação dos povos.
O Brasil não está imune à ameaça à soberania nacional dos países latino-americanos promovida pelos Estados Unidos: prova disso é o tarifaço imposto por Trump na tentativa de controlar nossas riquezas nacionais.
Segundo o diretor do Sindicato dos Petroleiros do Litoral Paulista, Marcelo Pereira, “um dia de produção da Petrobras equivale ao abastecimento da energia elétrica em Cuba por um ano.”
Atos em todo Brasil cobram o governo
Diante do cenário de calamidade do povo cubano, foram realizados atos por todo o Brasil cobrando o envio de petróleo para Cuba.
Em empresas de petróleo de Pernambuco, Ceará, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, trabalhadores brasileiros reivindicavam a origem popular da Petrobras e o dever do Governo Federal em se posicionar pela soberania da América Latina como um todo.
O funcionário terceirizado da empresa “Novabrico Construções, Energia e Meio Ambiente”, Rafael Gomes de Abreu, morreu soterrado durante uma obra dentro do campus da Universidade de São Paulo (USP) em Piracicaba (SP), na última quinta-feira, dia 16. Estudantes e trabalhadores realizaram um ato na reitoria para denunciar a morte de Rafael
Mariana Rodrigues | São Paulo
Juventude –Em meio a uma greve geral de funcionários e estudantes por melhores condições de trabalho e estudo, a morte de Rafael, trabalhador soterrado dentro de um campus da USP evidencia o descaso que os corpos dos trabalhadores sofrem dentro da Universidade.
Não se trata de um caso isolado, e sim de um resultado da política de venda da universidade que afeta principalmente os setores terceirizados da Universidade com maior orçamento do país
Terceirização gera morte
Para cortar gastos, a USP, seguindo a mesma lógica privatista do governador fascista Tarcísio de Freitas (Republicanos), contrata empresas terceirizadas para realizar os serviços da universidade.
Dados do Ministério Público do Trabalho apontam que a maioria dos acidentes de trabalho ocorrem com funcionários terceirizados, que como ocorre na USP, pouco têm seus direitos garantidos.
Dentre as humilhações enfrentadas por esses trabalhadores, estão a falta de acesso ao transporte gratuito (garantido aos funcionários concursados e estudantes) e as exaustivas jornadas de trabalho.
Greve unificada por direitos na USP!
Tamanha é a precarização dos funcionários terceirizados, que eles mal podem se organizar politicamente. Por isso, os estudantes e funcionários concursados, têm utilizado dos seus espaços para também lutar pelos direitos desse setor tão importante da universidade. Um ato foi realizado na Reitoria da USP para denunciar a morte de Rafael e as péssimas condições de trabalho.
Sem o trabalho realizado pelos terceirizados, não haveria prédios construídos, salas de aula limpas, bandejões funcionando e segurança e controle de acesso nos institutos. Por isso, toda a comunidade universitária se coloca ao lado da luta dos funcionários terceirizados.
Os estudantes de Pedagogia da Universidade de Pernambuco (UPE) em Petrolina, sertão pernambucano, receberam uma aula com a participação da Frente Negra Revolucionária (FNR) sobre a participação e resistência da militância negra durante as duas décadas de regime militar no Brasil
André Luiz| Redação Petrolina
SOCIEDADE- A Frente Negra Revolucionária (FNR) participou de uma aula pública sobre o golpe militar e a resistência negra em 1964, na Universidade de Pernambuco (UPE) em Petrolina com os estudantes de Pedagogia. A aula expôs as chagas da democracia brasileira, evidenciando como os fantasmas do passado retornam para ameaçar nossa frágil institucionalidade. O golpe partiu da cúpula do Exército, tendo como comissão de frente Castelo Branco, que assumiu o poder sob a premissa de que o controle do Brasil seria devolvido à população civil. Jango, o presidente deposto sob a alegação de estreitos laços com o “comunismo” e massacrado pela mídia, acabou cedendo ao golpe sem resistência armada, surpreendido pela rapidez da engrenagem civil-militar.
A aula abordou o protagonismo negro em resistência contra o regime militar, que atingiu todos os setores da nossa sociedade e deixou marcas até nossos dias. Muitas que ainda não foram cicatrizadas.
Resistência Negra durante o regime militar
A resistência negra no Brasil foi marcada por diversos movimentos, desde a Frente Negra no pós-abolição ao Movimento Negro Unificado. A aversão ao regime ditatorial afetou todas as relações políticas, do grande capital às cidades do interior do Estado. Manoel Aleixo, patrono da FNR, foi uma das vítimas da sanha dos militares. Aleixo, trabalhador rural com pouco grau de instrução formal, demonstrou uma liderança nata: em 1963, foi escolhido por delegados sindicais por sua responsabilidade ingressando posteriormente no Partido Comunista Revolucionário (PCR), assumindo rapidamente o protagonismo no movimento operário, especialmente na Zona da Mata Sul, junto aos agricultores e trabalhadores do campo.
Manoel Aleixo da Silva, o “Ventania”, foi morto em 1973 durante a repressão contra militantes do PCR. Sequestrado dentro de sua casa, levado até a sede do IV Exército, no Recife, onde foi submetido a torturas e assassinado. Seu corpo nunca foi entregue à família, permanecendo desaparecido até hoje.
Contextualizar esses fatos históricos é de suma importância. Para nós, membros da FNR e da Unidade Popular, ocupar esses espaços públicos é essencial para dialogar com a população, e reafirmar que a ditadura militar é algo que deve ser repelido em todas as suas mutações, seja nos discursos de ódio, seja na ótica revisionista que nega a corrupção daquele período.
Após a apresentação, houve um debate com os estudantes presentes, tirando dúvidas, reafirmando a necessidade da memória, verdade e justiça e do compromisso que temos de cobrar ao Estado brasileiro a responsabilidade pelo sequestro, tortura e desaparecimento de Manoel Aleixo e tantos outros lutadores e lutadoras de nosso povo.
Para atingirmos nosso objetivo de realizar uma revolução socialista em nosso país, socializar as riquezas e conquistar o Poder político junto à classe trabalhadora, devemos aprofundar nosso trabalho revolucionário entre as massas. Só com uma profunda influência entre as massas é que podemos ser vitoriosos.
Valentina Spedine – São Paulo
Teoria Marxista – Da mesma forma que não é possível fazer a revolução socialista sem um Partido, também é impossível fazê-la sem as grandes massas do nosso país. Para que a revolução seja vitoriosa, é preciso que a maior parte do povo esteja, se não dentro do Partido, ao menos simpatizante da nossa linha política; é o que nos ensina Lenin.
Além disso, a experiência vivida na luta de classes – nas greves, atos, paralisações, ocupações – também é muito importante para a assimilação do processo revolucionário.
Ao longo de 2025 alcançamos grandes vitórias, e até os últimos dias do ano estivemos junto ao povo na luta por nossos direitos e rumo a construção da revolução socialista.
No entanto, para conquistarmos nosso objetivo final, precisamos acelerar o ritmo e profissionalizar o nosso trabalho de massas, e para isso, precisamos refletir e fazer as nossas autocríticas em relação a construção do nosso trabalho de massas cotidiano.
Afinal, quem é a massa?
Um dos nossos primeiros erros ao desenvolver o trabalho começa na forma como entendemos a massa. A massa nada mais é do que o povo, que vive como nós a mesma exploração, enfrenta as mesmas dificuldades no transporte, com os salários, com os preços dos aluguéis e do mercado.
A massa vive, sente, pensa, reflete, e muitas vezes, são estes filhos do povo, sem Partido, que nos fazem ter as mais profundas reflexões sobre a vida, o trabalho e a justeza da luta revolucionária.
Muitas vezes, ao termos contato com a teoria revolucionária, que nos faz enxergar as raízes da nossa exploração, nos colocamos acima da massa, como se tivéssemos uma vida totalmente diferente por ter acesso a essa compreensão. Esse distanciamento expressa, na verdade, soberba, que se reflete na falta de paciência para conversar com as pessoas, na defensiva de fazer as brigadas do Jornal A Verdade, por acreditar que as pessoas “não vão entender” o que dizemos.
Isso, no fundo, reflete uma soberba daqueles que não acreditam que a massa é capaz de entender aquilo que vive. Cabe a nós romper com essa barreira que nós mesmos criamos.
Trabalho diário, sistemático e contínuo
Apesar de repetirmos essa máxima consecutivamente, ainda temos grande dificuldade de garantir uma continuidade no nosso trabalho – início, meio e fim. Quantas são as panfletagem que fazemos por duas semanas e depois desistimos? Quantas são as conversas com os contatos que coletamos na brigada que ficam sem respostas porque nós esquecemos de responder? Quantas são as eleições nas universidades e escolas nas quais conhecemos estudantes super dispostos a lutar, mas não nos organizamos para voltar no campus e fundar nossos núcleos do Movimento Correnteza e da Rebele–se?
Já paramos para pensar quantos revolucionários perdemos a chance de organizar por esse tipo de falha? E onde está essa falha, se não na nossa falta de organização e no baixo acompanhamento das tarefas que tiramos? Por que consideramos normal simplesmente deixar de cumprir uma tarefa, e não mais prestar contas sobre ela? No fundo, isso mostra não apenas o nosso trabalho artesanal, mas também um profundo ativismo da nossa parte.
No fim, a pergunta que devemos nos fazer sempre que formos refletir sobre esse compromisso que selamos com o povo é: nosso trabalho é verdadeiramente amplo e sério? Nosso trabalho é verdadeiramente cotidiano, sistemático e contínuo?
Amplo, porque não temos mais tempo de ter apenas os trabalhos localizados. A conjuntura nos exige que trabalhemos para alcançar cada vez mais trabalhadores com grandes campanhas de luta. Ao mesmo tempo, isso não significa fazer somente as lutas políticas gerais; uma luta específica, feita e organizada com precisão, pode organizar milhares de trabalhadores e jovens de uma só vez. Nesse sentido, também cabe a orientação que nos dá Lenin: é preciso dar a massa o poder de cumprir as tarefas das lutas, tanto para que cada pessoa do povo possa se sentir pertencente a cada batalha, quanto para permitir que os revolucionários também se foquem nas demais tarefas que ainda devemos desenvolver para a tomada do poder.
Sério, porque o povo, cansado das inúmeras promessas vazias feitas pela burguesia e por sua política fajuta, não vai confiar em nós a não ser que veja, na prática, aquilo que prometemos. A confiança de abrir para o Partido sua vida, sua casa, suas dificuldades, surge conforme nosso discurso se alinha com a nossa prática e levamos o trabalho adiante em qualquer circunstância que seja: nos momentos fáceis, mas também nos momentos difíceis, nas vitórias e também nas derrotas.
Cotidiano, porque não é possível conquistar a confiança do povo construindo nossos trabalhos de massa somente de tempos em tempos. É preciso viver com a massa: conversar sobre todos os assuntos, ir às aulas, nos intervalos de trabalho, almoçar junto – deixar claro que somos iguais, porque de fato somos, e assim, desmantelar a ideia de que só luta quem tem tempo, ou quem tem “mais condições”. A luta já existe na sociedade, o povo brasileiro respira luta diariamente. A diferença é que ter um Partido que organize essa luta direciona nosso ódio
Sistemático, porque não é possível ser um Partido de milhões e almejar grandes vitórias sem um planejamento e, principalmente, sem um controle. Qual a nossa meta? Até quando? Quem são os responsáveis? Quem acompanhará diária, semanal ou mensalmente o andamento das tarefas? De quanto em quanto tempo vamos debater e avaliar o andamento do plano? Quais as mudanças na rotina e nos hábitos que será necessário fazer para cumprir com esse compromisso que selamos nos nossos coletivos?
Por fim, contínuo porque não basta iniciar uma luta e não levá-la até o fim, ainda que não tenhamos uma vitória. Cada luta realizada deve ser avaliada no seu coletivo responsável, para que todo e qualquer militante tenha espaço para colocar seus apontamentos, impressões, medos e sentimentos relativos àquela batalha travada. O mesmo deve ser feito com a própria massa! Afinal, quando fazemos a luta sem levá-la até o fim, o que ensinamos aos trabalhadores sem partido é que não é possível vencer, que a conquista é muito difícil, reforçando a ideia de que a luta não é o caminho…
Camaradas, a conjuntura se acirra e fica cada dia mais claro que a tarefa da revolução não caberá a ninguém mais do que a nós. Se queremos de fato construir esse processo revolucionário e colocar na mão do povo brasileiro aquilo que é nosso por direito, a reflexão sobre o nosso trabalho de massas deve estar na ordem do dia de todos os nossos coletivos.
Cada proposta aprovada, cada palavra dita, não se limitam às quatro paredes da nossa sala de reunião. Nosso trabalho militante não acaba em si. Ingressar na UJR e nas fileiras do nosso Partido, na verdade, nos coloca a profunda responsabilidade de não mais vivermos por nós mesmos somente, mas sim de estar a serviço a todo momento, sempre que necessário, aos anseios da nossa classe e da juventude rebelde indignada com as injustiças desse país. Adiante, camaradas!
No dia 30/03, trabalhadores de saúde do munícipio de Campinas no estado de São Paulo, paralisaram as atividades em denúncia ao desmonte do setor público da cidade na gestão do atual prefeito Dário Saadi (Republicanos)
Vinnicius de Aguiar | Campinas (SP)
Saúde – Resultado do desmonte do serviço público, diversos trabalhadores têm sentido na própria pele o aumento da precarização de seu trabalho. Em Campinas, uma das maiores cidades de nosso país, o prefeito Dário Saadi (Republicanos), que é médico de carreira, não tem poupado esforços para destruir a saúde municipal.
Com o avanço da política de privatizações, que favorece apenas os interesses dos ricos da cidade, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) passaram a funcionar a cada ano com menor quadro de profissionais concursados e com cada vez mais setores geridos pela iniciativa privada, além da limpeza e segurança.
Desde 2025 até as recepções passaram a ser responsabilidade de uma empresa terceirizada, dificultando o atendimento realizado para a população devido a falta de treinamento, instrução e alta rotatividade das equipes contratadas, ocasionando ameaças, quebra de equipamentos e situações de violência física, como o caso mais recente no Centro de Saúde “Mário de Campos Bueno Júnior” (CS Centro).
Falta de profissionais revolta trabalhadores
Essa unidade, que atende milhares de trabalhadores da região central, está sobrecarregada, pois, além de ser obrigada a exercer funções extras porque não há Unidade de Pronto Atendimento (UPA) para emergências na região. Além disso, de acordo com a agente de saúde Lilian “Há uma falta crônica de profissionais. De cinco médicos, há apenas dois. Faltam, no mínimo, oito agentes comunitários de saúde, técnicos de enfermagem, técnicos de farmácia e administrativo — todos não repostos após saídas”.
A resposta da Secretaria Municipal de Saúde é maquiar e esconder os dados da população, conforme despacho que consta não ser “diretriz da secretaria a colocação de cartazes informando ausência de qualquer recurso ou profissional.”
Paralisação dos trabalhadores
Diante da situação inaceitável, os trabalhadores do Centro de Saúde “Mário de Campos Bueno Júnior” se organizaram em reuniões e assembleias e decidiram por uma paralisação no dia 30/03, segunda-feira.
O objetivo foi a politização da situação da saúde e aprofundar a relação com os trabalhadores da região. Além disso, a comunidade, junto aos trabalhadores e ao Movimento Luta de Classes tem lutado para desmentir a mídia burguesa.
Como relata a agente comunitária de saúde, Rosana (nome fictício) “A paralisação da segunda-feira está sendo noticiada como um ato contra a violência, né? Mas a gente sabe que não é este o ponto. O ponto é o despacho da prefeitura, a revolta das pessoas e essa questão absurda da não contratação de profissionais.”.
A paralisação foi uma grande vitória, mesmo que parcial, com diálogos e conquistas de apoiadores para a luta e a fundação de um núcleo da saúde com as associações ao MLC feitas durante a atividade.
A trabalhadora Lilian completa: “A paralisação teve esse sentido: não apenas denunciar as agressões, mas politizar o problema. Mostrar que a indignação da população é legítima, e essa revolta precisa ser direcionada para quem, de fato, é responsável por essa situação: a gestão e a política de destruição dos serviços públicos. A avaliação da equipe é que esse objetivo foi, em grande parte, alcançado, especialmente com o apoio do MLC, que contribuiu para o diálogo com a população e para a politização da questão.”
Os verdadeiros culpados do desmonte do serviço público são Dário e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) que trocou a água do estado de São Paulo por tostões no próprio bolso e fatiou o transporte público para aumentar ainda mais os lucros das grandes empresas.
Alagamentos e enchentes em Belém atingem dezenas de famílias e mostram contradição do modelo capitalista de cidade.
Ronni Souza | Redação PA
BRASIL – Nos últimos dias, em meio a chuvas fortes e contínuas, moradores de diferentes bairros de Belém sofreram com grandes alagamentos. Em especial, o bairro do Tapanã teve ruas inundadas e casas alagadas. Moradores – incluindo crianças e bebês de colo – do Tapanã precisaram ser resgatados de áreas de grande alagamentos.
Em uma das casas, moradores precisaram colocar a cama de uma idosa em cima de cadeiras, na esperança da água não molhar a senhora que possui dificuldade de mobilidade.
Moradores do bairro do Tapanã afirmam que os alagamentos ocorrem por falta de limpeza e manutenção no canal Mata Fome
“Não existe mais o canal, porque está aterrado. A prefeitura não limpa mais, não cava, que é o canal do Mata Fome, que já era para estar construído, mas está assoreado, sem condição de suportar a água. É por isso que transbordou”, afirma Fabiano, morador do Tapanã. Por quanto tempo mais nosso povo ainda vai viver nessas situações?
Abandono do sistema de dragagem
Belém sempre foi uma cidade amazônica atravessada por chuvas fortes. Possui um dos maiores índices de chuvas do país além de relevo baixo e muitos rios e canais. Entretanto, essa vulnerabilidade é agravada por sérios problemas de drenagem urbana, ocupação irregular e forte influência das marés.
A principal causa desses alagamentos é o mau funcionamento do sistema de drenagem: bocas de lobo entupidas, galerias danificadas e falta de manutenção nas redes de micro e macrodrenagem.
Especulação imobiliária
A especulação imobiliária e a negação do direito à moradia digna são fatores que empurram o povo mais vulnerável para as margens de canais, áreas de várzea e baixadas. A construção de moradias em cotas muito baixas, muitas vezes sobre aterros precários e sem saneamento adequado, cria bairros inteiros sujeitos a alagamentos periódicos. Não se trata de fatalidade natural.
A COP30 serviu de vitrine para o anúncio de obras. Mas o povo das baixadas ainda não viu esse legado chegar. A área afetada do Tapanã tinha a macrodrenagem prevista com a COP 30, entretanto, as obras estão paradas e sem previsão de término.
Não é por acaso que é o povo pobre e negro quem mora nas áreas de risco. Enquanto isso, os bairros ricos contam com áreas verdes, boas calçadas, limpeza urbana e sistemas de drenagem eficientes. A cidade é planejada para atender à lógica do lucro e aos interesses dos mais ricos — e de seus carros.
Mulheres são mais afetadas
As mulheres trabalhadoras são as que mais sofrem com essa realidade. São elas que limpam a lama, cuidam das crianças e lidam com a água contaminada. São elas que enfrentam as perdas de eletrodomésticos, móveis, material escolar e alimentos.
São as mulheres que reorganizam a casa depois de cada alagamento, que levam os filhos para a escola com os pés na água suja. São as mulheres que adoecem primeiro — pela água contaminada, pelo esgoto a céu aberto e pelo esforço de recomeçar do zero cada vez que o inverno amazônico chega.
Hoje, mais de 10% da população vive em risco de inundações e alagamentos e há 145 pontos críticos de alagamento espalhados pela cidade. O que temos no fianl é sempre um cenário de perdas: esgoto voltando pelo ralo, camas e colchões encharcados, eletrodomésticos perdidos, crianças sem condições de ir à escola.
Esse é um cenário que se repete a cada inverno amazônico em diversos bairros de Belém: Guamá, Terra Firme, Jurunas, Bengui, Tapanã, pratinha e muitos outros. Para a periferia, sobra lama, prejuízo e doenças. Já para as grandes empreiteiras e para o setor imobiliário, sobram lucros com obras que nunca terminam
Ações de solidariedade
No último período, durantes as chuvas intensas, moradores – incluindo crianças e bebês de colo – do Tapanã precisaram ser resgatados de áreas de grande alagamentos.
Campanhas de solidariedade foram organizadas pelo próprio povo para ajudar os moradores do tapanã e pratinha que perderam seus bens. Essa ação mostra que nosso povo quer e pode resolver os problemas que afetam nossa classe trabalhadora.
Os governos têm dinheiro para grandes obras e eventos, mas não têm recursos para saneamento básico e moradia digna nas periferias? Essa contradição revela que a forma como a cidade se organiza hoje está orientada para a manutenção das classes dominantes e de seu sistema apodrecido: o sistema capitalista.
Precisamos, sim, de planos de redução de risco, obras de macrodrenagem, urbanização de canais e “jardins de chuva”. Mas muitas dessas ações avançam lentamente ou simplesmente não saem do papel.
Precisamos ir mais fundo: enfrentar a concentração de terras, combater a especulação imobiliária e questionar a propriedade privada da terra urbana. É necessário que o povo se organize coletivamente para lutar por outro modelo de sociedade, que pense na classe trabalhadora e exista para solucionar os problemas do povo: uma sociedade socialista.
Os comunistas desencadeiam a luta revolucionária anticapitalista e anti-imperialista, lutam pelo socialismo e pelo comunismo no mundo.
Natanael Sarmento | Diretório Nacional da UP
TEORIA MARXISTA-LENINISTA – Os comunistas, historicamente, são os mais radicais e consequentes combatentes pela paz mundial. Na defesa classista dos interesses e da vida dos trabalhadores, combatem as guerras imperialistas de rapina e declaram guerra à burguesia monopolista e belicista.
Diferenciam-se dos pacifistas utópicos e idealistas. As críticas morais idealistas, por exemplo, são contrárias a qualquer guerra, inclusive as de autodefesa e de libertação nacional e emancipadoras da opressão capitalista. É preciso avançar e denunciar o sistema capitalista, as mazelas da burguesia monopolista causadora das guerras.
Desconhecer a realidade objetiva e histórica da luta de classes, os antagonismos entre exploradores e explorados é não compreender a luta efetiva contra as guerras imperialistas. Os comunistas desencadeiam a luta revolucionária anticapitalista e anti-imperialista, lutam pelo socialismo.
Lutar pelo socialismo é a forma mais elevada da luta pela paz porque é a luta pelo fim da exploração e da opressão humanas. Somente no socialismo poderemos levar, às últimas consequências, o internacionalismo proletário e a paz entre os povos.
História
Lênin estabeleceu as bases ideológicas firmes que muito contribuíram para o triunfo da Revolução Russa, em 1917. O líder bolchevique combateu posições oportunistas de nacionalistas e “socialistas” da II Internacional, que abandonaram o internacionalismo proletário para apoiar burguesias nacionais no início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Os comunistas russos ergueram a bandeira da paz contra a guerra imperialista do czar e, todavia, pegaram as armas na guerra civil revolucionária de emancipação da classe operária e camponesa naquele país. O lema “Paz, Terra e Pão” representava os interesses da maioria do povo e dos trabalhadores russos, que morriam nas trincheiras para enriquecer o czar e a nascente burguesia. Mas proletários, soldados, marinheiros e estudantes se organizaram nos sovietes (conselhos) e, dirigidos pelo Partido Comunista Bolchevique, formaram os destacamentos armados revolucionários que gestaram o futuro Exército Vermelho. Após o triunfo da revolução, é assinado o Tratado de Paz de Brest-Litovsk, em 1918, que retira a Rússia da Guerra.
Na outra crise global do capitalismo do final dos anos 1920, antessala da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os comunistas assumiram a vanguarda da resistência antifascista em toda a Europa. Foram protagonistas da luta de resistência contra a ocupação nazista na Itália e na França e em todo o Leste Europeu. O Exército Vermelho foi o principal responsável pela derrota do III Reich. O heroísmo e a importância desse Exército foram externados pelo escritor Ernest Hemingway: “Todo ser humano que ama a liberdade deve ao Exército Vermelho mais do que será capaz de pagar em uma vida”.
Reação imperialista
O prestígio do socialismo ganhava os corações e avançava mundialmente. Conquistado com sangue e luta de mais de 20 milhões de mortos, demonstrado nos campos de batalha contra a hidra nazifascista. A superioridade moral do socialismo e a grande popularidade dos comunistas, no pós-guerra, fizeram crescer os Partidos Comunistas em vários países, representando real alternativa de poder, como Itália e França.
Mas a luta de classes não tem trégua. Todas as forças capitalistas, imperialistas e máfias ameaçadas se movimentam. Despejam trilhões de dólares no combate ideológico e com armamento militar para deter a ascensão dos comunistas e, especialmente os progressos da URSS e sua influência global.
Seguram-se após a morte de Stálin a traições, falsas denúncias dos “crimes” e de violações de direitos humanos financiadas pela CIA e capitalistas do mundo todo contra os “países da cortina de ferro”. É criada, em 1949, a Otan, pacto militar imperialista, hoje decadente. Desencadeia-se a chamada “Guerra Fria” (nome dado pela imprensa capitalista). Provocações, espionagem, sabotagens, atos terroristas, corrida nuclear, corrida espacial, invasões dos EUA na Guerra da Coreia e do Vietnã. Registram-se também as Revoluções Chinesa (1949) e Cubana (1959).
Unicamente para demonstrar força no final da Segunda Guerra, os imperialistas estadunidenses lançaram bombas nucleares nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, mesmo com as negociações de paz em andamento. A União Soviética adotou a linha política da “coexistência pacífica”, buscando soluções diplomáticas para evitar a ameaça de hecatombe nuclear. O revisionismo custou caro. O internacionalismo foi definhando até o fim da URSS nos anos 1990.
Durante os anos 1950/60, o mundo vivia sob o temor de guerra nuclear. Os comunistas desfraldaram a bandeira da paz no “Apelo de Estocolmo” contra a fabricação de bombas nucleares que esmerilavam bilhões de dólares, corrida puxada pelos EUA. Milhões de assinaturas, protestos e greves se realizam no mundo e no Brasil contra as ações imperialistas na Coreia, Vietnã, Afeganistão, Iraque, Irã, Síria, Líbia e Irã.
Capitalismo: crises e guerras
O capitalismo se baseia na propriedade privada da burguesia, na exploração da força de trabalho e na apropriação das riquezas produzidas pela classe trabalhadora. A classe exploradora detém o poder econômico, os meios produtivos (fábricas, terras, ferramentas, equipamentos, tecnologias) e controla o poder do Estado.
As forças produtivas estão em permanente progresso e desenvolvimento – novas tecnologias e equipamentos. Contrariamente, as relações de produção (capital x trabalho) não acompanham tal progresso. Mantem-se e amplia-se a exploração dos trabalhadores. Aumenta a expropriação das riquezas e do trabalho social pelos burgueses, a concentração e a desigualdade social.
Os trabalhadores produzem em grande abundância, mas são privados do produto do seu próprio trabalho. Produzem alimentos que daria para acabar com a fome do mundo. Mas 1,4 bilhão de pessoas passam fome, globalmente. Logo, o problema não é de quantidade de produção, mas sim do modo de produção capitalista de acumulação privada e de distribuição desigual das riquezas. Os trabalhadores do mundo, verdadeiros produtores, recebem o mínimo necessário para sobreviver em forma de salário para continuarem trabalhando e gerando mais riquezas para a burguesia. Esta contradição é insuperável nos limites do capitalismo.
Imperialismo
O imperialismo é a fase final do capitalismo, fase da fusão dos grandes monopólios industriais e financeiros, tornando-se uma decadente máquina de guerra e um sistema parasitário. Os grandes monopólios dividem e pilham o mundo entre si. Subordinam os Estados para enriquecê-los ainda mais. Elevam ao extremo a concentração de riquezas e as diferenças entre o capital e o trabalho, ricos e pobres.
Lênin constata que esse capitalismo putrefato agrava as disputas interimperialistas nas “guerras comerciais” e geopolíticas, pelo controle de mercados, matérias primas, territórios estratégicos e domínio mundial. Disputas estas que produzem conflitos e geram as guerras. Por outro lado, cresce a indústria bélica, na corrida armamentista que se desenvolve e coloca toda humanidade em risco de guerra atômica, cuja devastação é inimaginável para o futuro da humanidade e do planeta.
A guerra imperialista é negócio que movimenta trilhões de dólares e lucros astronômicos. O complexo burguês (industrial, financeiro, tecnológico, monopolista) é composto pelos acionistas privados de grandes empresas, banqueiros, Estados capitalistas, altos funcionários, lobistas e a alta cúpula militar.
A humanidade sofre a tragédia das guerras, dos ataques, dos bombardeios, das destruições. A mídia burguesa mostra as cenas chocantes, mas não diz que as empresas capitalistas festejam seus lucros altos. Não mencionam os capitalistas estadunidenses da Lockheed Martins e RTX Corporation, Northrop Grumman Corp e Boeing, a BAE Systems do Reino Unido, da alemã Rheinmetall, a IAI – Israel Aerospace Industries, a Elbit Systems, a Advanced Defense Systems – grandes fabricantes de armamentos de Israel.
Nenhuma palavra que essas empresas registram crescimentos de até 40%, enquanto crianças, mulheres e idosos são massacrados em Gaza, mais de 100 mil mortos no genocídio palestino pelos sionistas imperialistas. Somente os EUA concentram mais de 40% do mercado armamentista mundial, o que explica que o governo estadunidense é a maior organização do terrorismo bélico do nosso tempo.
Internacionalismo
Em contrapartida, gigantescas manifestações globais ocorreram em 2025 contra o genocídio do povo palestino. Nos EUA, também houve o movimento “No Kings”, em repúdio às agressões do fascista Trump. No Brasil, partidos comunistas e movimentos sociais realizaram protestos públicos, manifestações nas embaixadas e consulados dos EUA, aulas públicas para denunciar o repúdio do povo brasileiro ao genocídio do povo palestino.
Ao mesmo tempo, os comunistas encamparam a luta contra a escala de semiescravidão 6×1, com abaixo-assinados, atos públicos, aulas e greves. A imprensa popular – Jornal A Verdade e milhares de panfletos impressos – a serviço dessa luta. E não poderia ser diferente. O internacionalismo proletário é princípio do comunismo científico. Desenvolvido por Marx e Engels, Lênin e Stálin, expressa a solidariedade de todos os trabalhadores do mundo, pelos objetivos e lutas comuns, independente de nacionalidade, de país. Defendemos a autodeterminação dos povos, sem cair na cilada ideológica do nacionalismo xenofóbico e burguês-fascista.
Atualmente, a Conferência Internacional de Partidos e Organizações Marxistas-Leninistas (CIPOML) conclama a todos os povos do mundo a protestarem contra as guerras imperialistas na Ucrânia, denunciarem o genocídio do palestino em Gaza, condenarem os ataques e violações na Venezuela e em Cuba, bem como o terrorismo dos Estados Unidos e de Israel no território iraniano.
Matéria publicada na edição impressa nº 330 do jornal A Verdade
O filme O Agente Secreto, chamou atenção por se tratar de mais uma obra cinematográfica que expõe e aprofunda uma das questões mais delicadas de nossa história recente: a ditadura militar de 1964.
Rafael Freire | Recife (PE)
CULTURA – “PERNA CABELUDA ROUBA PERNA NO IML”. Esta manchete de jornal exemplifica perfeitamente como o real e o absurdo convivem lado a lado na trama de O Agente Secreto, filme do diretor e roteirista pernambucano Kleber Mendonça Filho, vencedor de mais de 70 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa e de melhor ator para Wagner Moura, e indicado a quatro categorias no Oscar.
O filme não entrega uma história pronta. Vai dando pistas (inclusive falsas) e nos instiga a buscar conexões e hipóteses. A ausência de algumas repostas causa incômodo ao expectador. E o efeito esperado é exatamente este. Assim era a vida no Brasil, em 1977, com vidas interrompidas e transformadas bruscamente devido aos sequestros, torturas, assassinatos e apagamentos históricos praticados durante a ditadura militar fascista (1964-1985).
A narrativa trabalha sempre em duas esferas: questões estruturais e questões do quotidiano. O Agente Secreto é, portanto, um filme que toca em muitos assuntos, como memória, microrrelações, luta de classes, soberania nacional, identidade regional, imprensa e o próprio cinema. Mas podemos afirmar que ele é, sobretudo, um filme de denúncias. Uma obra que desmascara as ações da ditadura militar no Brasil e, paralelamente, critica preconceitos regionais, de classe, raça, gênero, sexualidade, o descaso com a universidade pública e até o feminicídio – problemas vigentes à época e que perduram até hoje.
Ditadura fascista
“Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”. Este é um dos lemas do movimento por memória, verdade e justiça brasileiro. Neste sentido, os filmes Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto representam a insistência em falar sobre os crimes da ditadura.
O filme – com roteiro original do próprio Kleber – não foca diretamente nas ações das Forças Armadas ou mesmo na repressão aos militantes políticos, apesar de Pernambuco ser, proporcionalmente, o estado do país com o maior número de mortos e desaparecidos, se comparado com a população local.
Seu objetivo é traçar um quadro social abrangente, uma “época cheia de pirraça”, como define ironicamente. Mas é contundente, por exemplo, na denúncia de como agentes da repressão estavam envolvidos nos chamados grupos de extermínio, e como a elite econômica e os militares no Governo Federal manipulavam as estruturas de poder em benefício próprio. O retrato do ditador Ernesto Geisel com a faixa presidencial está na parede de todas as repartições públicas para mostrar que os generais estão ali, onipresentes.
No quadro traçado, a vida de um “meliante” não vale nada. Já na primeira cena, o corpo de um homem – morto com dois tiros de escopeta – está, há dias, apodrecendo no sol causticante. Os agentes da PRF que aparecem no local nem ligam para o defunto, pois estão preocupados mesmo em fazer uma extorsão barata, e ficam satisfeitos com uma carteira de cigarros.
A delegacia comandada pelo “doutor” Euclides (Robério Diógenes) é, na verdade, um grupo de extermínio que executa presos comuns. Numa das cenas, uma pessoa acusada de estupro e outra de homicídio estão no camburão para um “passeio da morte”.
Euclides ri dos mortos no Carnaval – noventa e um, segundo a manchete do jornal – e dá proteção à “patroa granfina” que atropelou o filho da empregada, numa alusão explícita ao caso do menino Miguel, ocorrido em 2020, em Recife. O delegado mantém ainda no seu grupo um filho branco (“filho da mãe”) e outro filho preto (“de criação”), distinguindo os dois em vários momentos.
Em outra cena, a câmera enquadra o jornal nas mãos do delegado com a manchete: “Estudante de agronomia continua desaparecido”. E o delegado diz: “Não dava pra saber que era um menino bom”, e faz um gesto, com seu dedo, como se cortasse a perna do jovem que aparece na foto.
E as histórias vão se cruzando. A perna que é encontrada dentro de um tubarão em Candeias, no início da trama, pertencia ao estudante – provavelmente um militante político –, que foi executado pelo grupo de extermínio. Eles, então, roubam a perna de dentro do IML após subornar um funcionário. A perna é jogada no rio e, em seguida, “ressuscita” como um zumbi para atacar pessoas que faziam sexo no Parque 13 de Maio.
O mito da Perna Cabeluda surgiu como uma espécie de aparição fantasmagórica e se espalhou pela Região Metropolitana do Recife. Alguns profissionais da imprensa – como forma de burlar a censura do regime – passaram a atribuir à assombração os crimes reais que envolviam violência contra mulheres, casais homoafetivos e militantes políticos, temas que “incomodavam” os militares.
Professor Armando
Armando de Melo Solimões (Wagner Moura) era natural do Recife e professor na Universidade Federal de Pernambuco, onde desenvolvia uma pesquisa inovadora sobre baterias de lítio para carros elétricos. Ele era casado com a também professora Fátima (Alice Carvalho) e tinham um filho pequeno, Fernando. Ele nasceu de uma relação entre um jovem de família rica, de 17 anos, com a filha da empregada da casa, uma criança de 14 anos, chamada Maria Aparecida do Nascimento, conhecida como “Índia”.
Já no Recife, Armando (usando o codinome Marcelo) é recebido pela irreverente Dona Sebastiana (Tânia Maria) como novo morador refugiado do Edifício Ofir, onde os personagens demonstram grande espírito de solidariedade. Ao entrar no apartamento, dá de cara com uma gata de duas cabeças chamada Laysa e Elis, que surge na história para avisar que aquela não era uma residência comum, pois ali todos eram obrigados a ter uma dupla personalidade, assim como Armando, que passava a ser Marcelo.
Em agosto de 1974, o empresário Henrique Ghirotti (Luciano Chirolli), na condição de membro do Conselho da Eletrobras, foi à UFPE para, supostamente, fazer uma visita de trabalho. No entanto, na noite anterior, o empresário e seu filho foram jantar num restaurante com Armando e Fátima. Após falas preconceituosas contra Fátima e de insinuações que Armando usava a universidade para lucrar com patentes, Fátima manda Ghirotti “tomar no cu”, e Armando dá um soco no filho do empresário. “Precisamos fechar todas essas merdas [universidades]” e “Você não sabe com quem está se metendo, rapaz”, bradou o “sulista de sangue italiano”.
Mesmo assim, no dia seguinte, acontece a reunião do departamento da UFPE com Ghirotti, que destila mais falas preconceituosas contra os nordestinos e afirma que vai mandar parar as pesquisas sobre carros elétricos, uma vez que a Eletrobras já havia adquirido alguns protótipos de uma universidade canadense.
Mais de dois anos se passam; Fátima morre (o filme não dá pistas se foi assassinada); Armando volta a Recife para ficar com Fernando, já sob ameaças. Mas ele não entende bem o que está acontecendo quando é acolhido pelo grupo em torno de Elza (Maria Fernanda Cândido), até saber que Ghirotti contratou dois matadores e os enviou a Recife para matá-lo. Também é informado que o regime plantou duas matérias contra ele, acusando-o de corrupção, em jornais do Rio e São Paulo. Pouco antes, ficou sabendo que seu nome fora incluído numa lista da Polícia Federal e que estaria impedido de deixar o Brasil.
Eis que os matadores chegam a Recife – um deles ex-tenente do Exército, expulso da corporação – e são recebidos pelo delegado Euclides, que, por coincidência, havia conhecido Marcelo (Armando) no dia anterior e tinha simpatizado com o “novo funcionário” do Instituto de Identificação, onde Armando tentava encontrar algum documento de sua mãe.
O plano inicial para executar Armando dá errado; o clima de filme policial toma conta da narrativa; uma semana depois, Armando é executado a tiros, mas o filme não mostra a cena.
Naquela época, a universidade exercia um papel decisivo de resistência política, cultural e científica no Brasil. A UNE atuava cladestinamente, sendo reconstruída legalmente só em 1979. Professores e estudantes foram perseguidos de todas as formas: expulsos das instituições, censurados, presos e mortos. A regime lesa-pátria dos generais era corrupto e apadrinhou setores da burguesia brasileira e estrangeira para ganharem ainda mais dinheiro, mesmo que à custa da soberania nacional.
Cinema e memória
O Agente Secreto é também sobre cinema, e cinema é memória. O pequeno Fernando queria muito ver o filme Tubarão (clássico de Steven Spielberg), que estava em cartaz no Cinema São Luiz, onde seu avô materno, Alexandre (Carlos Francisco), trabalhava como projecionista. Mas o menino tinha pesadelos com tubarões, e o pai, Armando, não permitiu que ele visse o filme. Aqui, além da relação de metalinguagem (cinema falando sobre o próprio cinema), temos a relação entre o filme Tubarão e os incidentes com o animal no Recife e região.
Alguns dos pontos-chaves da obra só são parcialmente revelados na última cena, quando uma jovem pesquisadora – também interessada em resgatar sua própria história familiar – encontra Fernando no banco de sangue onde ele trabalha como médico. Lá eles conversam sobre a história de Armando, mas falam também sobre “coincidências”, sonhos, pesadelos. A clínica funciona, dentro do filme, como uma metáfora sobre o sangue enquanto vida biológica e o sangue enquanto história de vida.
Matéria publicada na edição impressa nº 330 do jornal A Verdade
Durante 21 anos de ditadura os militares fascistas usaram a vigilância e o medo para perseguir, torturar e assassinar aqueles que lutavam. As grandes empresas nacionais e multinacionais cumpriram um papel fundamental na contribuição com a ditadura militar, é o caso da General Motors, localizada em São Caetano do Sul
Isabella Leal | São Paulo
História – Mais de 80 empresas foram identificadas em investigações por colaborarem com o regime, fornecendo inclusive informações para o DOPS (Departamento de Ordem Policial e Social) e o financiamento de órgãos de repressão.
A multinacional estadunidense General Motors (GM) também esteve envolvida em práticas de colaboração com o regime ditatorial brasileiro. A empresa teria estruturado um aparato interno de vigilância, uma espécie de “polícia política” com o objetivo de monitorar, intimidar e perseguir trabalhadores com atuação sindical e posicionamentos críticos ao regime.
Segundo denúncias e investigações, esse sistema incluía a espionagem de funcionários, a apreensão de materiais considerados “revolucionários” e o repasse de dados pessoais, como endereços residenciais, aos órgãos de repressão.
Em diversos casos, agentes do Estado teriam se dirigido às casas dos trabalhadores para pressionar suas famílias, ameaçando-os com demissões caso não abandonassem greves e mobilizações.
Os trabalhadores que eram espionados passavam a ser demitidos e colocado seus nomes no chamado “lista suja” uma lista de pessoas consideradas inimigas do regime, lista essa compartilhada com inúmeras empresas de São Paulo que reuniam setores de “segurança” e trocavam informações sobre operários e ativistas sindicais, impossibilitando a recolocação profissional.
Perseguição a operários
A empresa também atuou como colaboradora direta na repressão a movimentos grevistas, nas demissões em massa e em prisões realizadas dentro das dependências da fábrica, como foi o caso do operário Martinho Leal Campos.
Martinho Leal Campos, paraibano, esteve ligado à luta por melhores condições de trabalho e ao enfrentamento do regime. Atuante no movimento operário, redigia e distribuía boletins, jornais e manifestos, organizava comitês dentro das fábricas e participava da articulação de greves nas empresas em que trabalhou.
No dia 14 de abril de 1972, foi preso dentro da fábrica da General Motors, em São Caetano do Sul, por policiais à paisana que circulavam pelo setor à sua procura. Ao encontrá-lo, agrediram-no violentamente, acusando-o de “terrorista”, e o conduziram ao DOI-CODI.
Lá foi submetido a espancamentos e choques na orelha pelo criminoso Facista major Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-CODI SP. Permanecendo preso por cerca de 30 dias onde sofreu as mais bárbaras torturas, sendo em Agosto de 1973 condenado a dois anos e meio de prisão pela Auditoria Militar de São Paulo.
“A memória do país precisa ser preservada e colocar todas as organizações dentro da estrutura civil militar que deu golpe no estado, aquelas empresas que contribuíram e colaboraram com a ditadura, acredito que esse é um dever da nossa parte, de quem passou por isso, eu quero inclusive saudar os companheiros que estão desenvolvendo esse trabalho de resgate da memória e da verdade com relação a participação dessas empresas, saudação forte da minha parte á todos os camaradas.” Diz Martinho em uma entrevista ao IIEP – Memória Operária.
A prisão deste e de outros operários revela a colaboração clandestina da General Motors com os órgãos de repressão para reprimir trabalhadores e movimentos de oposição ao regime militar, protegendo principalmente os interesses lucrativos da empresa.
GM financiou a ditadura no Brasil
Há ainda evidências de que a GM contribuiu materialmente com os órgãos de repressão, fornecendo por exemplo equipamento de proteção auricular ao estande de tiro existente dentro do DOPS em São Paulo, conforme atestou o relatório da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo
Apesar das diversas evidências documentais e dos relatos de vítimas, como o de Martinho Leal Campos, a General Motors limitou-se a divulgar uma nota oficial negando qualquer participação em práticas repressivas ou colaboração com a ditadura militar durante a ditadura no Brasil.
A repressão às greves, a perseguição a lideranças operárias e das organizações sindicais criaram condições favoráveis à intensificação do trabalho. Assim, o “desempenho produtivo” celebrado pela direção da empresa na verdade demonstra o lucro colocado acima da vida dos trabalhadores.
A classe operária não se curva
Mesmo em um período de intensa repressão à classe trabalhadora, os operários brasileiros não recuaram. Pelo contrário, protagonizaram centenas de greves em defesa de melhores condições de trabalho e contra o regime autoritário da ditadura militar. Um exemplo marcante foi a greve de 1985 na General Motors, em São José dos Campos e São Caetano do Sul, que durou 28 dias.
Naquele momento, a principal reivindicação parecia distante: a redução da jornada semanal de 48 para 40 horas. Ainda assim, os trabalhadores se mantiveram firmes. Diante das arbitrariedades da empresa, que chegou a demitir diversos operários por justa causa, os operários responderam com organização e coragem, ocupando as fábricas e resistindo mesmo sob ameaça de repressão das forças armadas.
A greve resultou em grandes conquistas, como a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, além de representar um importante enfrentamento facista regime vigente. Mais do que ganhos imediatos, essa mobilização evidenciou a força da organização operária.
Essa greve não apenas garantiu direitos, mas também mostrou que conquistas concretas são fruto de luta coletiva, organização e resistência. Que a experiência dos trabalhadores da GM sirva como referência e inspiração para as lutas atuais e futuras da classe trabalhadora.
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