UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sexta-feira, 27 de março de 2026
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Nasce em Sorocaba a Ocupação de Mulheres Ondina Seabra

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No dia 14/03 o Movimento de Mulheres Olga Benario realizou uma campanha nacional de ocupações contra o feminicídio e pelo socialismo. O movimento realizou a sua segunda ocupação no interior de São Paulo, chamada Ocupação de Mulheres Ondina Seabra

Giovanna Nunes | Sorocaba (SP) 


A violência contra as mulheres cresce no Brasil como consequência da crise do sistema capitalista e da dominação imperialista, que aprofundam a exploração do povo. Enquanto bancos e grandes empresas acumulam lucros bilionários, milhões de mulheres trabalhadoras enfrentam baixos salários, desemprego, falta de moradia e ausência de políticas públicas que garantam proteção e dignidade.

Salários menores, dupla jornada, trabalho precarizado são só algumas das opressões sofridas no sistema capitalista. Esses fatores são fundamentais para que muitas trabalhadoras se mantenham em situação de violência em seus relacionamentos, já que em muitos casos são dependentes econômicas de seus parceiros.

Por isso, a luta contra o feminicídio e pela vida das mulheres também é uma luta contra o capitalismo.. Somente a construção de uma nova sociedade, baseada na igualdade e no fim da exploração, poderá garantir que nossas vidas sejam respeitadas: a sociedade socialista.

Violência em Sorocaba

A realidade vivida em Sorocaba reflete o avanço da violência contra as mulheres em todo o país. Apenas nos primeiros 18 dias de 2026, a cidade registrou três feminicídios, igualando todo o número de casos do ano anterior. 

No começo de março, novos crimes continuaram a chocar a população, como o assassinato de Paola Alves Reginaldo, de 25 anos, assassinada a canivete pelo seu marido e o feminicídio de Esther Estinor, mulher haitiana encontrada morta a facadas na cidade vizinha (Votorantim). Ambos feminicídios ocorreram na última semana, o último no Dia Internacional da Mulher Trabalhadora. 

Mas a violência não se limita aos feminicídios. Ela aparece diariamente nos estupros, agressões físicas, violência psicológica, assédio e na exploração econômica que marca a vida das mulheres trabalhadoras. No capitalismo, o corpo e o trabalho das mulheres são constantemente controlados e desvalorizados, enquanto o sistema se beneficia dessa desigualdade para ampliar seus lucros.

Essa situação é agravada pela falta de investimentos reais em políticas públicas. Embora Sorocaba possua uma Delegacia de Defesa da Mulher com atendimento 24 horas, conquista importante da luta do movimento de mulheres, a estrutura ainda é insuficiente para atender a demanda da cidade e de toda a região. 

Como polo regional, Sorocaba acaba recebendo casos de municípios vizinhos como Votorantim, Araçoiaba da Serra, Salto de Pirapora, Iperó e Piedade, fazendo com que uma única delegacia especializada tenha que atender mulheres de uma ampla região.

Na prática, muitas mulheres precisam percorrer diferentes serviços, delegacia, assistência social, atendimento psicológico e jurídico, sem que exista uma estrutura integrada que garanta proteção imediata. Enquanto isso, faltam casas-abrigo, políticas de moradia e investimentos suficientes na rede de proteção.

Essa realidade mostra que, apesar das conquistas alcançadas através da luta, a rede de enfrentamento à violência contra a mulher ainda é insuficiente diante da gravidade do problema e revela o descaso do Estado com a vida das mulheres trabalhadoras.

Ocupar e resistir

Compreendendo que a falta de ação efetiva do Estado deixa milhares de mulheres desamparadas, o Movimento de Mulheres Olga Benário decidiu, através da organização popular, realizar a Ocupação de Mulheres Ondina Seabra. 

O espaço nasce como um local de acolhimento, apoio e orientação para mulheres em situação de violência, buscando oferecer aquilo que muitas vezes o poder público não garante: escuta, proteção, informação e fortalecimento para que as mulheres consigam romper o ciclo de violência e reconstruir suas vidas por meio da organização coletiva e da luta.

Ondina Seabra, presente! 

Primeira professora negra de Sorocaba, Ondina Seabra representa a luta histórica das mulheres negras e da classe trabalhadora por educação, dignidade e igualdade em uma sociedade marcada pelo racismo e pela exploração.

Filha de trabalhadores e formada professora em um período em que o acesso da população negra à educação era extremamente limitado, Ondina enfrentou o preconceito racial e as barreiras impostas pela elite da cidade para exercer sua profissão. Mesmo enfrentando preconceito e barreiras sociais, dedicou sua vida à educação e à formação de gerações de estudantes.

Sua trajetória revela como, ao longo da história, mulheres negras precisaram enfrentar não apenas a opressão de gênero, mas também o racismo estrutural que buscava excluí-las dos espaços de ensino, trabalho e participação social. Ao conquistar seu espaço como professora, Ondina rompeu barreiras impostas por uma sociedade profundamente desigual e racista.

Pela vida das mulheres!

A Ocupação de Mulheres Ondina Seabra nasce para estar ao lado das mulheres de Sorocaba, na luta contra a opressão a violência e pelo socialismo!

Entre as atividades, além de acolher e orientar, a ocupação realizará uma programação permanente de cursos, rodas de conversas, oficinas para aprendizados que gerem renda, lazer e oportunidades para que as mulheres vítimas da opressão e não atendidas pelas políticas públicas consigam se reerguer e terem garantido o direito de viver.

Precisamos de toda a solidariedade e união. Venha visitar a Ocupação de Mulheres Ondina Seabra. Rua Coronel Nogueira Padilha, 905 – Vila Hortência. Sorocaba/SP.

Fim da escala 6×1 vai melhorar a vida da classe trabalhadora

O Movimento Luta de Classes (MLC) convoca a classe trabalhadora para uma ofensiva nacional pelo fim da escala 6×1.

Coordenação Nacional do MLC


BRASIL – Para impedir que a classe trabalhadora tenha direito a viver para além de trabalhar, os bilionários têm apresentado números tentando demonstrar o “impacto negativo” do fim da jornada 6×1 na economia.

A verdade, porém, é que, reduzindo a jornada semanal de trabalho para 36 horas – como prevê a PEC nº 08/2025, de autoria da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), e como defende o movimento sindical brasileiro –, estima-se que serão criadas 6 milhões de novas vagas de emprego formal. Isso elevaria em mais de 12,5% o número de trabalhadores com carteira assinada no Brasil, que hoje é de apenas 48,5 milhões. Com o fim da escala 6×1, a classe trabalhadora brasileira terá mais empregos com direitos garantidos e elevação dos salários.

Saúde do trabalhador

Com a sobrecarga de trabalho e os baixos salários, a vida é cada vez mais difícil para a classe trabalhadora. Hoje, a cada dia, mais de mil pessoas se afastam do trabalho em virtude de doenças mentais. Só em 2025, foram registrados quase 400 mil afastamentos por mais de 15 dias em postos de trabalho.

Entre 2023 e 2025, o número de afastamentos por doenças mentais cresceu em 79%, segundo dados do INSS analisados pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt). Do ponto de vista econômico, o custo dos benefícios ultrapassou o montante de R$ 954 milhões só no último ano. Os dados consideram benefícios concedidos, incluindo auxílio-doença previdenciário, auxílio-doença por acidente do trabalho, aposentadoria por invalidez previdenciária e aposentadoria por invalidez de acidente do trabalho.

“Os afastamentos mostram o estágio mais grave do adoecimento. Antes disso, existe um contingente enorme de trabalhadores atuando com sofrimento psíquico, mas ainda sem chegar ao ponto de se afastar formalmente. É justamente nesse intervalo que o médico do trabalho tem papel decisivo ao identificar sinais, acolher o trabalhador e contribuir para a prevenção desses afastamentos”, afirma Francisco Cortes Fernandes, presidente da Anamt. 

Por isso, o Movimento Luta de Classes (MLC) conclama a classe trabalhadora a se insurgir contra a escala 6×1 e a jornada de 44 horas semanais, realizando dias nacionais de luta, greves e paralisações para conquistar a redução da jornada de trabalho tanto nas convenções coletivas quanto em forma de lei no Congresso Nacional. Só com muita mobilização essa luta será vitoriosa!

Matéria publicada na edição impressa Nº 329 do jornal A Verdade

A cada dez dias uma mulher sofre feminicídio em Sorocaba

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Desde o começo do ano, 7 mulheres foram vítimas de feminicídio em Sorocaba. A cidade já havia batido recorde de feminicídios em fevereiro e, nos primeiros dez dias de março registrou mais 3 novos casos.

Giovanna Nunes | Sorocaba (SP)


Mulheres – A cidade de Sorocaba (SP) “a melhor cidade do Brasil para se viver” é a mentira propagada pelo prefeito corrupto Rodrigo Manga, denunciado por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, tendo inclusive sido afastado do cargo após investigação da Polícia Federal na “Operação Copia e Cola”, que apura desvios de recursos públicos na saúde municipal.

A realidade é que Sorocaba é uma das cidades mais inseguras para ser mulher no estado de São Paulo. No início de março Paola Alves Reginaldo, de 25 anos foi encontrada morta em sua casa, vítima de feminicídio.O ex marido assassinou Paola com um canivete e justificou o crime com uma suposta traição 

Desaparecida desde o dia 8 de março, dia internacional da mulher trabalhadora, Esther Esthinor, uma mulher haitiana, foi encontrada morta na cidade de Votorantim (SP), cidade vizinha de Sorocaba (SP). Esther foi encontrada por um dos filhos com várias facadas pelo corpo.

Outro episódio brutal escancarou a realidade da violência contra as mulheres na região. Na cidade de Iperó (SP), um homem dirigiu-se até a casa onde sua ex-esposa estava e abriu fogo contra ela e seus familiares. 

Cinthia Vieira da Silva, de 31 anos, tornou-se mais uma vítima de feminicídio. No ataque, também foram assassinados seu pai e sua mãe, Sara Baptista de Camargo Silva, de 63 anos, morta enquanto dormia dentro de casa. 

A cidade de Sorocaba já havia batido o número de feminicídios de 2025 em apenas 18 dias, temos 70 dias agora e já são muitos outros feminicídios ocorridos nesta região.

Não são casos isolados

Tantos casos revelam que o crime de feminicídio não é um fato isolado ou fruto de “tragédias individuais”, mas expressão de uma violência estrutural que atravessa a sociedade brasileira. 

Mesmo diante do histórico de violência doméstica e da existência de medida protetiva em vários casos, a vida das mulheres não foi preservada. Por isso, o machismo, aliado à negligência do Estado e à falta de políticas públicas efetivas de proteção às mulheres, segue matando mulheres trabalhadoras. 

A luta pela revolução é a luta das mulheres

No último dia 8 de março, dia internacional das mulheres trabalhadoras, o Movimento de Mulheres Olga Benário esteve nas ruas da cidade, denunciando a raiz desse problema, o capitalismo. A mobilização foi feita na feira da barganha, na Zona Norte de Sorocaba, a região com maior número de vítimas de violência doméstica.

Diante dessa realidade, reafirmamos que as mulheres querem viver e ser felizes. Por isso, as mulheres do Movimento Olga Benário lutam pelo socialismo, organizando as trabalhadoras com o objetivo de fazer uma revolução e construir um sistema onde nenhuma mulher morra apenas por ser mulher.

Paola, Cinthia, Sara, Esther, Giovanna e Tamara presentes!

 

Projeto de privatização do metrô no Recife vai piorar o serviço e dar lucro para os empresários

Em audiência pública sem a participação dos usuários, a proposta de privatização do metrô do Recife foi apresentada. Sem dialogar com os servidores nem com a população, governo federal apoia iniciativa por meio do BNDES, mesmo Luta tendo prometido não privatizar o metrô.

Redação Pernambuco


TRABALHADOR UNIDO- A Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) anunciou a chegada de seis trens usados vindo da Trensurb, do Rio Grande do Sul, esses trens são do modelo série 100, construídos no início dos anos 80 e reformados no início dos anos 2000. Ou seja, máquinas com mais de 40 anos, sem ar-condicionado e que chegam ‘emprestados’ com o aval do ministério das cidades.

Assinado pelo presidente Lula e com a presença da governadora do estado e do prefeito da capital João Campos, essa troca de responsabilidade vai de encontro ao que prometeu Lula na campanha de 2022, onde ele prometeu não privatizar o metrô, que era uma proposta do governo Bolsonaro e cobiçado pela extrema direita e os empresários pernambucanos há um tempo. Os últimos concursos para a CBTU/Metrorec foram em 2013. O metrô de Recife transporta 180 mil pessoas por dia, possui 37 estações e mantém 3 grandes cidades e regiões da região metropolitana como o Cabo de Santo Agostinho, Camaragibe e Jaboatão dos Guararapes.

Na contramão

Esses trens “seminovos”, como foram chamados pelos BNDES, vem de um acordo entre o governo do estado e o governo federal, que destinou R$ 150 milhões da União em dezembro de 2025 para “socorrer” o sistema de forma emergencial. O acordo com o governo federal gira em torno de R$ 4 bilhões para reformar o metrô do Recife.

O problema é que, depois de toda essa reforma, feita com dinheiro público, o serviço vai ser entregue para a iniciativa privada por cerca de trinta anos, o que eles chamam de ‘concessão’, uma forma educada de chamar a privatização. Os estudos para viabilizar tal proposta foi conduzida pelo BNDES, que programou o leilão para privatização em dezembro desse ano, mesmo com pesquisas provando que a privatização do metrô não melhorou em nada o serviço, como denunciou o caso da CPTM em SP a edição 329 do jornal a verdade.

Audiência pública não escuta os usuários nem funcionários do metrô

 No último dia 05 de março, uma audiência pública foi convocada pelo BNDES e governo do estado para “apresentar” a proposta de privatização do serviço. Como era de se esperar, a audiência sequer foi divulgada, marcada para um dia (quinta feira) e horário que impossibilitava a participação dos usuários de um modo geral, além de ser convocada para o Centro de Convenções, em Olinda, que é de difícil acesso.

Com representantes do governo federal e estadual, técnicos do BNDES e do ministério das cidades e da casa civil, os presentes na audiência viram uma apresentação enfadonha, técnica e burocrática às vésperas do almoço, para maquiar a notícia de que o metrô está sendo privatizado e pronto. Não foi uma escuta. E sim um aviso.

Denunciado pelo sindicato dos metroviários, movimentos sociais e usuários da rede presente, a audiência mostrou o contrassenso trazido por essa conciliação defendida pelo governo federal, chegando ao ponto do secretário adjunto de Estrutura Social Urbana do Programa de Parcerias de Investimentos da Casa Civil, Manoel Machado, dizer que “o governo federal coloca R$ 800 milhões por ano no metrô do Recife, e não conseguimos investir para melhorar a qualidade do serviço”.

Falando pela Unidade Popular, Thiago Santos destacou as denúncias envolvendo o metrô de São Paulo e BH, além da política neoliberal adotada pelo governo federal, a mesma política utilizada por Bolsonaro, Fernando Collor e o atual governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Thiago Santos, presidente da UP em Pernambuco, lê a denúncia do JAV na edição 329, sobre a privatização do metrô em SP, durante audiência no Recife. Foto: JAV-PE

O que diz a categoria?

 O jornal A Verdade entrevistou Thiago Mendes, Vice-presidente do Sindmetro PE e Luiz Soares, presidente do Sindicato dos Metroviários de Pernambuco sobre o processo de privatização e as próximas lutas.

Jornal A Verdade- Qual a impressão do sindicato sobre essa audiência pública, e como a categoria recebeu essa questão da privatização do Metrô já posta aqui?

Thiago Mendes- Nós fizemos um questionamento, inclusive, do ponto de vista jurídico, sobre a realização desta audiência pública. Fizemos várias solicitações ao Governo Federal. Primeiro: Que antes de discutir qualquer processo de concessão, discutíssemos a requalificação do sistema. Segundo: Que, se houvesse essa discussão, o conjunto da população fosse chamado ao debate. Terceiro: Que os documentos fossem apresentados previamente, com tempo hábil para estudo. São mais de 5 mil páginas sobre o tema e tivemos apenas cerca de 20 dias para avaliarmos. É impossível dar conta de tudo.

O que vimos aqui foi mais uma apresentação do projeto de privatização do que um debate com a sociedade civil sobre o serviço do metrô. Houve alguma discussão prévia com o sindicato ou com a categoria sobre esse projeto?

Thiago Mendes- O processo possui gigantescas falhas em relação a como se comportará a tarifa. Ficou muito claro que quem fiscalizará essa empresa, caso o processo de concessão ocorra, será uma empresa contratada pela própria concessionária, o que é um escárnio — ela nunca dirá que o serviço está ruim. Outra coisa: Se a demanda de usuários não for a esperada, quem completará isso será o dinheiro da classe trabalhadora do Estado. Ou seja, nosso dinheiro, o dinheiro que sai dos nossos bolsos, continuará sustentando o sistema. Só que, agora, sustentará a partir de outra perspectiva: o lucro do empresário. Aqui ficou escancarada essa falácia de que o governo federal não tem dinheiro para melhorar o serviço do metrô. Vamos organizar nossa categoria para fazer este processo de resistência. Não acredito que a luta acabou; muito pelo contrário, continuaremos resistindo até o processo caminhar propriamente dito.

Em relação a esses trens que estão vindo para ajudar o funcionamento do sistema aqui no estado? Tem trens vindos do Rio Grande do Sul, mas também tem outros trens vindo de Minas, não é?

Thiago Mendes- Estamos denunciando a aquisição dos trens. São sucatas. Para você ter uma ideia, o sistema foi vendido em Belo Horizonte por pouco mais de 20 milhões, e a CBTU está comprando apenas 6 trens de lá, o que já totaliza 60 milhões. Ou seja, a Comporte comprou por 20% e está ganhando 60% com o lucro já realizado. Agora, imagine na concretização do que eles chamam de escopo, se a Comporte ganhar: ela reabilita todos os trens que vendeu. É um laboratório do caos com requintes claros de corrupção.

Existe uma preocupação da categoria em relação a perda dos empregos. Como está esse diálogo com relação ao governo federal?

Thiago Mendes- Isso é um acordo que se baseia muito no que foi feito com a Infraero. Só que, na época em que foi elaborado este acordo da Infraero, era permitido ter uma duração maior nos acordos coletivos. Após a Reforma Trabalhista, só é limitado a dois anos. Então, em tese, teríamos que renovar este acordo a cada dois anos. Este processo de transição que eles colocaram — passar do metrô público para a iniciativa privada — é o que consideram de operação assistida, sendo um processo transitório. Este processo transicional já não teria cobertura de garantia de empregos. Porque se nosso acordo vence em outubro e a concessão é em dezembro, a categoria já estaria desamparada. Não tendo nada garantido, é demissão.

Qual a perspectiva da categoria após essa audiência, o que o sindicato pretende fazer daqui em diante?

Luiz Soares- Primeiro essa audiência é mais uma falácia, né? Não vai apurar nada do que foi denunciado. É mais um artifício legal para poder tocar a privatização. A gente está aqui para justamente denunciar o que vem acontecendo com o metrô do Recife. Nós estamos contra a privatização e, além disso, uma denúncia gravíssima que é a compra desses trens que estão vendendo de BH, porque o metrô todo foi vendido por R$ 26 milhões, de “sucata” para estar sendo vendida por R$ 2 milhões, e estão sendo vendidos agora no metrô do Recife por R$ 60 milhões. Isso é um absurdo. É uma farra com dinheiro.

Anunciaram que chegariam esses trens, depois falaram que haveria um atraso, e agora foi confirmado que os primeiros trens que vem do Rio Grande do Sul tem mais de 40 anos de uso, além de não terem nem ar-condicionado. Como é que os servidores do metrô vão fazer com esse tipo de serviço que tem tudo pra prejudicar ainda mais o serviço? Esses trens usados vão resolver a demanda do metrô do Recife?

Luiz Soares- Vamos continuar denunciando tudo isso que está acontecendo com o metrô do Recife, com a farra com dinheiro público.  Somos defensores de que o sistema tem que ser um sistema público, de qualidade, sob controle do Governo Federal, e que a gente tenha um aporte para garantir o sistema funcional. Outra coisa é que as privatizações no mundo e no Brasil não deram certo, nem vão dar aqui em Pernambuco.

O sindicato pensa em discutir greve junto à categoria? Na última greve, vimos que a população ficou ao lado da categoria e defendia a paralisação. Há algum debate em relação a isso?

Luiz Soares- A gente vai fazer um chamado através de assembleia. Vamos preparar isso depois dessa audiência. Vamos analisar isso dentro da direção para poder, a partir daí, a gente tirar os encaminhamentos, chamar a categoria e aí ser um momento de denúncia. Se possível, paralisar o sistema, porque a gente não vai admitir que mais incidentes aconteçam no sistema, colocando em risco a população pernambucana. Porque isso que está acontecendo é um verdadeiro descaso com o povo pernambucano e o metrô.

Infelizmente nós estamos vendo que esse processo de privatização está sendo conduzido pelo BNDES, ou seja, com apoio do governo federal, apesar do Lula ter prometido na campanha que não iria privatizar o metrô. Qual a opinião do sindicato com relação a essa questão do BNDES?

Luiz Soares- A posição do BNDES é uma posição de privatização, discordamos totalmente disso. Não fez um estudo apurado, fez um estudo em cima de algumas informações apenas, contratou empresas envolvidas com denúncias de fraudes, uma delas é a CIS, e mesmo assim deixou essa empresa continuar a fazer os estudos do metrô do Recife. É mais uma denúncia que a gente está fazendo sobre a forma e o modelo que o BNDES está tratando com o metrô do Recife. O modelo errado, totalmente equivocado, além das empresas que eles contrataram, como é o caso da SYSTRA, que foi denunciada e tem processo na justiça. Nós fizemos denúncias no Ministério Público sobre tudo isso. Tentamos inclusive adiar o processo dessa audiência na justiça. A gente não conseguiu, a nossa liminar foi derrubada pelo Poder Judiciário. Mas iremos continuar denunciando, iremos entrar com várias ações, estamos estudando toda a documentação, buscando as brechas para poder intervir e barrar esse retrocesso.

Desigualdade salarial entre homens e mulheres é marca do capitalismo

Enquanto mulheres negras recebem menos da metade do salário de homens brancos, o capitalismo impulsiona a pobreza e a exclusão social.

Ludmila Outtes e Raquel Brito


EDITORIAL – A desigualdade salarial entre homens e mulheres é uma das características do sistema capitalista em todo o mundo, mesmo que tenham o mesmo grau de escolaridade e exerçam a mesma função. Segundo o IBGE, as mulheres brasileiras ganham, em média, 25% menos que os homens. Essa diferença duplica quando acumulada com a questão racial: as mulheres negras recebem 53% menos que homens brancos.

Essa desigualdade salarial segue impulsionando a pobreza e a exclusão social das mulheres em nossa sociedade. Mas, de onde ela vem?

Antes de tudo, precisamos entender de onde vem o salário. Segundo os capitalistas, o salário é o pagamento correspondente ao trabalho realizado. Mentira. A ciência marxista nos ensina que o salário nada mais é do que o custo mínimo necessário para a reprodução da força de trabalho, ou seja, o mínimo necessário a ser pago para que a classe trabalhadora sobreviva e retorne à produção, dia após dia.

No início da industrialização, o salário era calculado levando em conta que parte da reprodução da força de trabalho envolvia a manutenção da casa para uma família, já que as mulheres não estavam na produção, mas eram responsáveis pelo trabalho invisível e não pago: cuidar da casa, cozinhar, cuidar dos filhos. E tudo isso é essencial para a reprodução da força de trabalho.

Porém, também o marxismo nos ensina que o valor pago como salário aos trabalhadores é apenas uma pequena parte do valor total produzido em mercadorias. A diferença entre o que é produzido e o que é pago aos operários fica com os patrões e constitui a base da mais-valia, do lucro.

Assim, na ganância de obter cada vez mais lucros e reduzir os custos da produção, ao longo dos anos sempre houve artimanhas e movimentações da burguesia para reduzir o valor pago aos trabalhadores. Desta forma, o salário há muito deixou de ser o valor necessário para a manutenção da família e a consequente reprodução da força de trabalho. Esse foi um dos motivos da entrada das mulheres na produção.

A mulher no mercado de trabalho

No Congresso Internacional dos Trabalhadores, em 1889, realizado em Paris, a comunista Clara Zetkin declarou: “As mulheres ingressaram na indústria com o desejo de aumentar a renda de suas famílias”. E completou: “O trabalho das mulheres era, a princípio, mais barato do que o dos homens. O salário de um homem foi originalmente calculado para cobrir as despesas de toda a sua família. O salário de uma mulher, desde o início, foi projetado para cobrir apenas os custos de sustentar uma única pessoa e apenas parcialmente, pois se supunha que uma mulher continuaria a trabalhar em casa após terminar suas tarefas na fábrica”.

Assim, o que deveria ser a representação da libertação das mulheres e motivo de desenvolvimento de toda a humanidade, com maior geração de riqueza, possibilidade de diminuição das horas trabalhadas por todos, além da libertação econômica e política delas, virou apenas mais uma face da exploração. Na verdade, o trabalho da mulher serviu para aumentar os lucros dos capitalistas e não representou a sua libertação econômica. Como disse a revolucionária Zetkin, “a escravizada do marido tornou-se escravizada do empregador”. 

Além disso, o salário menor da mulher, na ótica capitalista, pressiona o mercado para baixo, rebaixando o salário médio em geral, o que é uma tentativa de dividir a classe trabalhadora. “Os capitalistas especulam sobre os seguintes fatores: a trabalhadora deve ser paga o mínimo possível e a competição do trabalho feminino deve ser empregada para reduzir os salários dos trabalhadores masculinos o máximo possível. Da mesma forma, os capitalistas usam o trabalho infantil para rebaixar os salários das mulheres e o trabalho das máquinas para rebaixar todo o trabalho humano” (Clara Zetkin, 1889).

Vale lembrar que hoje mais de um milhão e meio de crianças e adolescentes estão trabalhando e metade destes nas formas mais perversas de trabalho infantil, como a exploração sexual e o aliciamento para o tráfico de drogas e de pessoas.

200 anos depois

Mesmo passados 200 anos do início da industrialização mundial e do ingresso das mulheres no mercado formal da produção, a situação está longe de melhorar.

Dados do Dieese mostram que uma em cada três mulheres ocupadas ganham até um salário mínimo. Além disso, são as mulheres que estão nos postos de menor qualificação e, portanto, de menor remuneração. Para piorar, 76% já sofreram violência ou assédio moral/sexual no trabalho, segundo o Instituto Patrícia Galvão. Soma-se a isso que 47,7% das mulheres trabalhadoras com filhos de 0 a 3 anos não têm acesso à creche e entre 50 e 56% são demitidas ou têm que deixar o emprego até dois anos após o término da licença maternidade, sendo 21% logo nos primeiros meses.

Não bastasse isso, a maior taxa de desemprego está entre as mulheres, que são sempre as primeiras atingidas pelos cortes e demissões em épocas de crise. Isso também faz com que as mulheres estejam como maioria dos trabalhadores informais, ou seja, mais precarizados e sem acesso aos direitos trabalhistas. Acumulam ainda mais tarefas domésticas, o que representa em torno de 10 horas a mais de trabalho por semana, quando comparado com os homens.

Por todas essas razões, as mulheres trabalhadoras são as mais interessadas na construção de uma revolução socialista, que destrua o sistema vigente e implante uma nova organização econômica e social, na qual as riquezas produzidas possam ser usufruídas pelas trabalhadoras e pelos trabalhadores, e não apropriadas por capitalistas que sequer trabalham. Só dessa forma as mulheres serão, de fato, livres e estarão em condições de equidade com os homens.

Matéria publicada na edição impressa Nº 329 do jornal A Verdade

Greves gerais param a Argentina contra reformas de Milei

Mesmo após uma onda de greves gerais e mobilizações populares que paralisaram a Argentina, o governo de Javier Milei aprovou, no último dia 27 de fevereiro, uma Reforma Trabalhista que retira direitos históricos da classe operária.

Claudiane Lopes | Redação


TRABALHADOR UNIDO – Há séculos, o sistema capitalista sofre periódicas crises de superprodução, ou seja, produz mais do que consome, devido aos baixos salários da classe trabalhadora, que é a maioria da sociedade. Uma das formas que os governos capitalistas adotam para sair das crises é a aprovação de Reformas Trabalhistas para acabar com os direitos conquistados com muita luta, greve e sangue da classe operária. Dessa maneira foi o que presidente fascista da Argentina, Javier Milei, fez com o projeto de Reforma Trabalhista aprovado no Senado, no último dia 27 de fevereiro. 

Nos dias 19 e 27 de fevereiro, duas grandes greves gerais aconteceram no país. A capital Buenos Aires amanheceu com estações de trem, o porto e o aeroporto fechados. Bancos e muitas lojas também estavam fechados. Apesar das ameaças de cortes salariais, a greve dos servidores públicos foi quase total. Manifestações, greves em diversas categorias, bloqueios de estradas e até cozinhas comunitárias em frente ao Congresso demonstraram uma grande unidade da classe trabalhadora e do povo, que rejeita a reforma.

Jorge Smith, coordenador da Corrente Operária Estadual René da Salamanca (CCC), enfatizou a força da greve: “98% da administração pública entrou em greve. O mesmo aconteceu com os setores de transportes, portos, ferrovias, aviação, petróleo e grandes empresas alimentícias. É um sinal claro da rejeição da classe trabalhadora”.

Mesmo diante da paralisação em diversos setores e das mobilizações de rua em várias cidades do país, o projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados e no Senado por meio de subornos a parlamentares e repressão. Durante os atos nas imediações do Congresso, o Governo Milei acionou as forças policias para reprimir os protestos. Dezenas de pessoas ficaram feridas e detidas pela polícia.

Roubo de direitos

Os principais ataques aos direitos trabalhistas aprovados foram:

  1. A ampliação da jornada diária de trabalho para até 12 horas, sem pagamento de horas-extras;
  2. “Período de experiência” de até 12 meses, com redução no pagamento de indenizações por demissão;
  3. Restrições ao direito de greve;
  4. Possibilidade de acordos coletivos entre empresas e sindicatos locais (mais frágeis que os sindicatos nacionais);
  5. Redução nos cálculos das indenizações de demissões e pagamento parcelado em até 12 vezes;
  6. Fim das multas por falta de registro trabalhista.

A reforma integra o pacote de medidas neoliberais apresentado pelo Governo Milei desde o início do mandato, marcado por cortes nos gastos públicos, desregulamentação econômica e enfrentamentos com o movimento sindical.

Por outro lado, cresce a organização e a resistência popular. As jornadas de lutas mobilizaram milhões de pessoas em todo o país: jovens, aposentados, classe trabalhadora em geral deram demonstrações de luta e união e despertaram para uma consciência de classe mais avançada, fundamental nos tempos de hoje devido à urgência do acirramento da luta de classes em toda a América Latina.

Matéria publicada na edição impressa Nº 329 do jornal A Verdade

A atualidade da luta cabana

190 anos após a tomada do poder pelo povo na Revolução Cabana, as raízes da dominação colonial continuam a alimentar a violência agrária e a destruição ambiental no Pará.

Marcos Jobson e Kleverson Cordeiro | Pará


LUTAS DO POVO BRASILEIRO – Nos grandes meios de comunicação e em determinadas instituições de ensino, a História do nosso país é contada pelas lentes do colonizador e das classes dominantes. Por isso, é comum que parte da população não conheça as lutas travadas no nosso país. Trata-se de um processo de alienação que corresponde à lógica de dominação ideológica do capitalismo: quanto menos o povo conhecer a sua real história e suas lutas, mais enfraquecida será a sua resistência e organização. Entre tantas lutas fundamentais, como a Balaiada, Revolta dos Malês, Canudos, Quilombo dos Palmares, etc., destacamos a Revolução Cabana.

Contexto

A Independência do Brasil, em 1822, não estabeleceu uma Nação livre e realmente soberana ao povo. Os ideais de cidadania e liberdade chegavam apenas àqueles que detinham o poder, especialmente o poder econômico. As classes oprimidas, como os escravizados, indígenas, trabalhadores, demais comunidades e povos, ainda eram submetidos ao mesmo sistema colonial de exploração.

A elite da província do Grão-Pará aderiu à independência com vistas a garantir seus próprios interesses e poder local, enquanto a população passava por um processo de profunda pauperização. Com isso, diversos militares de baixa patente e setores da população se aglutinaram em um movimento de revolta contra a precarização da vida. Durante o mês de outubro de 1823, houve vários confrontos com as elites, o que levou à prisão de cerca de 300 revoltosos no presídio São José Liberto e mais 256 no porão do navio de guerra Brigue Palhaço. Todas essas pessoas presas no navio foram assassinadas por asfixia após o derramamento de cal no porão da embarcação.

Contudo, essa repressão não conseguiu terminar com o movimento cabano. No dia 07 de janeiro de 1835, a revolta popular confrontou mais uma vez as classes dominantes, com a tomada do palácio do governo e do arsenal de armas, iniciando cinco anos de revolta popular com a tomada do poder pelo povo e sua interiorização na Amazônia até 1840.

Capitalismo na Amazônia

O Brasil tem uma história marcada pela colonização, escravização e exploração dos territórios e do povo. Desde o início da invasão portuguesa, uma das principais formas de manutenção do poder das classes dominantes foi a violência. Tais marcas podem ser vistas ainda hoje na realidade amazônica.

Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), no território amazônico ocorreram 44% de todos os casos de violência agrária no país no período de 1985 até 2023. Principalmente após a ditadura militar fascista, quando houve um avanço da agropecuária no país, fazendo com que esse setor seja um dos maiores responsáveis pela violência, exploração aos trabalhadores e destruição da natureza.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) aponta que, em 2024, no Estado do Pará, houve o maior índice de desmatamento da Amazônia e, em 2023, o estado foi responsável pela maior emissão de gases do efeito estufa do Brasil inteiro, sendo que 91% destes gases possuem origem na exploração causada pela agropecuária.

É evidente, portanto, que os problemas socioambientais vividos na Amazônia, atualmente, são a continuidade da estrutura colonial contra a qual o povo cabano já lutava em seu tempo. Agora, sob outras formas, no estágio imperialista do modo de produção do capital, essa estrutura atua com concentração de terras, violência no campo, transformação dos animais e da natureza em mercadoria e com a superexploração da classe trabalhadora.

A luta pela terra

Projetado pelo renomado arquiteto Oscar Niemeyer, a pedido do então governador do Pará, Jader Barbalho, o Memorial da Cabanagem foi concebido para ser a peça central das comemorações do sesquicentenário (150 anos) da Cabanagem. A data simbólica do início da revolta, 07 de janeiro de 1835, foi escolhida para a inauguração do monumento em 1985.

Dias antes da inauguração, em 04 de janeiro, uma operação policial militar foi deflagrada na localidade de Vila Nova, na região do Piriá, no nordeste do Pará. O alvo era Quintino Lira, conhecido como “Gatilheiro”, um líder comunitário e pequeno agricultor que, à sua maneira, personificava a resistência cabana no contexto da época. Ele era acusado de liderar um grupo que enfrentava, com armas, a grilagem de terras e a violência de pistoleiros na conturbada região.

Sob o comando do cão de guarda do Estado, Cordovil, uma tropa da Polícia Militar fortemente armada cercou a casa onde Quintino estava. A ação não teve nuances de negociação ou prisão. Quintino Gatilheiro foi executado com dois tiros de fuzil. A ordem para “encerrar as ações dos guerrilheiros” partiu diretamente do governador Jader Barbalho, conforme revelado por investigações e reportagens da época. O termo “guerrilheiro” era usado pelas autoridades para criminalizar a legítima defesa e a resistência de posseiros.

Portanto, em 07 de janeiro, quando o governador discursava sobre a bravura e o espírito libertário dos cabanos do passado, o sangue de Quintino, o cabano do presente, ainda estava fresco. Os manifestantes presentes à inauguração gritaram palavras de ordem e fizeram um contundente paralelo histórico. Eles apontavam que o mesmo Estado que celebrava a revolta como um fato histórico museificado, “seguro”, continuava, na prática, a reprimir e exterminar os descendentes políticos daqueles lutadores: os camponeses pobres, os posseiros, os que ousavam defender seu pedaço de chão contra os poderosos de sempre.

Povos da Amazônia resistem 

Apesar de todas essas mazelas enfrentadas pelo povo, é fundamental ressaltar que a História do Brasil também é a história das lutas populares desde o período da invasão portuguesa, assim como hoje também há resistência contra a invasão capitalista dos territórios.

Em resposta ao Ferrogrão, projeto que visa a ampliar o escoamento de soja e milho do Estado do Mato Grosso, ligando-o ao Pará, no dia 16 de novembro de 2024, indígenas construíram o 7º Grito Ancestral do Povo Tupinambá, paralisando os transporte fluvial no rio Tapajós em protesto à ferrovia que pretende cortar os territórios onde vivem mais de 2.500 indígenas e que abriga diversas unidades de conservação. A manifestação foi construída por 400 indígenas para dizer que não vão aceitar que passem por cima de seus territórios em nome do lucro. 

Outra importante luta dos povos foi a ocupação da Secretaria de Educação do Estado do Pará, contra a lei 10.820/2024, que visava a acabar com o ensino modular indígena e retirar o direito à educação dos povos. No dia 14 de janeiro de 2025, lutadores e lutadoras indígenas de mais 30 etnias ocuparam a Secretaria e, após 28 dias de ocupação acompanhada de intensas mobilizações de rua e greve dos trabalhadores e das trabalhadoras da educação, a lei foi revogada, impondo uma vitória popular sob a oligarquia do governo Hélder Barbalho, que, mesmo utilizando diversas vezes as forças repressivas do Estado, não conseguiu superar o poder do povo organizado.

Além disso, a cúpula dos povos reuniu diversas organizações para a luta em defesa do meio ambiente e dos povos. Importantes manifestações ocorreram, tal como o protesto na área restrita da COP 30, denunciando a falta efetiva de participação do povo no evento e também contra os grandes projetos em terras indígenas. Houve também a Marcha Mundial pelo Clima, no dia 15 de novembro de 2025, que reuniu mais de 70 mil pessoas, e a Marcha Global Indígena, manifestações de rua que denunciaram a privatização de rios e o avanço do capitalismo na Amazônia.

Na conjuntura atual, com os ataques dos EUA à Venezuela e à América Latina como um todo, precisamos encarnar a luta cabana. Assim como os indígenas, os pobres, negros e negras confrontaram o governo da província do Grão-Pará, esse legado ainda vive nas lutas atuais. Os mesmos cabanos que lutaram contra a escravidão, hoje lutam contra a escala 6×1. Aqueles que lutaram contra os portugueses, hoje devem lutar contra o imperialismo dos Estados Unidos e, sobretudo. Os cabanos e cabanas de 1835 construíram uma luta revolucionária no Brasil contra o Estado colonial e hoje devemos construir a luta pelo socialismo contra o Estado burguês.

Matéria publicada na edição impressa Nº 328 do jornal A Verdade

O jornal comunista

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Muito além de um meio de comunicação, o jornal comunista personifica a unidade dialética entre a luta econômica e a luta política.

Rafael Freire | Redação


IMPRENSA – Um jornal comunista representa, para o seu Partido, muito mais do que um veículo de comunicação. O jornal personifica seu melhor militante. É a unidade dialética entre a agitação e a propaganda, entre o trabalho de organização e o trabalho de massas, entre a luta econômica e a luta política.

“O jornal não é somente um propagandista e um agitador coletivo, mas também um organizador coletivo, afirmou Vladimir Lênin em seu célebre artigo “Por Onde Começar”, de 1901.

É comum, quando se fala em “jornal como organizador coletivo”, que alguns camaradas pensem imediatamente na seguinte situação: estamos realizando uma brigada do jornal numa praça; vendemos um exemplar a uma pessoa que passava no momento, pegamos o número de telefone dela após uma boa conversa inicial e depois entramos em contato para apresentar a ela com mais calma nosso trabalho a fim de recrutá-la. Sim, isso é fazer do jornal um organizador de novas pessoas para as fileiras do Partido. E, cada vez mais, tem sido frequente esse tipo de caso.

Contudo, é ainda mais comum nos esquecermos que, na ideia original de Lênin, o jornal serve como organizador coletivo, em primeiro lugar, “para dentro”, ou seja, para as/os militantes do Partido, para quem já está nucleado, ativo. Eis o que Lênin diz sobre isso no artigo já citado:

“Em nosso parecer, o ponto de partida da nossa atividade, o primeiro passo prático para criar a organização que desejamos, o fio condutor, enfim, segundo o qual poderemos incessantemente desenvolver, enraizar e alargar essa organização, deve ser a fundação de um jornal político para toda a Rússia.”

Naquele ano de 1901, o Partido Operário Social-Democrata da Rússia (POSDR) já estava fundado, mas carecia de organicidade. Seu Comitê Central fora preso logo após o Congresso de Fundação e o que havia eram círculos marxistas isolados uns dos outros no imenso território do então Império Russo.

“Através do jornal – e com o jornal – se formará uma organização permanente, que se ocupará não somente do trabalho local, mas também do trabalho sistemático, que ensinará a seus membros a acompanharem atentamente os acontecimentos políticos, a avaliar a importância e a influência de diversos estratos da população”, defende Lênin em outra passagem.

Portanto, podemos concluir que, para Lênin, o Partido cria e impulsiona o jornal e, dialeticamente, o jornal recria, aperfeiçoa, o Partido, na medida em que o expande e consolida, em que disciplina e organiza seus militantes.

E uma última palavra sobre esse aspecto: “Lênin mostrou, mais de uma vez, que não se pode desligar o trabalho teórico dos trabalhos de propaganda, de agitação e de organização. Assim, a agitação, ligando a teoria à prática, organiza as massas, estimula-as para a ação, concentrando-as em torno das palavras de ordem bolcheviques”, apresenta Anna Pankratova (membro do Comitê Central do Partido Bolchevique) em seu artigo Lênin como propagandista”.

Exemplo prático de como o jornal comunista pode organizar as massas para uma ação consciente foi o trabalho realizado, durante todo o ano de 2025, pelos camaradas da Bahia junto aos operários da construção civil de Camaçari, nas obras da montadora de veículos elétricos BYD. Por meio da agitação e das brigadas operárias do jornal A Verdade, uma massa de mais de 2 mil trabalhadores decidiu dar um basta nas condições de trabalho às quais eram submetidos e desencadeou uma greve de uma semana no início do mês de dezembro, obtendo diversas conquistas, sendo a mais importante delas a fundação de um sindicato combativo da categoria.

Agitação e propaganda

No jornal comunista, pois, encontramos as denúncias sobre a carestia dos preços dos alimentos e dos alugueis, dos baixos salários, da falta de moradia digna e de saneamento ambiental; das péssimas condições de infraestrutura de escolas e unidades de saúde públicas, etc. – que são a base para a agitação em torno das lutas econômicas. Também encontramos artigos de fundo analisando a conjuntura nacional e internacional, apontando os caminhos que o proletariado deve seguir na luta anti-imperialista e socialista; temos ainda revoluções e revoltas populares contadas ao longo da História, que tantos ensinamentos nos trazem; textos de teoria marxista, etc. – que são a base para a propaganda política das ideias revolucionárias.

“Precisamos, antes de tudo, de um jornal. Sem um jornal é impossível coordenar sistematicamente a propaganda e a agitação multiformes e consequentes que constituem a tarefa permanente e principal da social-democracia” (como se chamavam os comunistas russos da época), sentencia Lênin em “Por Onde Começar”.

E por que essa é “a tarefa permanente e principal” dos comunistas? Porque, como o próprio Lênin desenvolveu em sua obra “Que Fazer?” (1902), é preciso levar à classe trabalhadora nossa mensagem revolucionária, pois “nem sequer se pode falar de uma ideologia independente elaborada pelas próprias massas operárias ao longo do seu movimento. O problema se coloca somente da seguinte maneira: ou ideologia burguesa ou ideologia socialista”.

E ele complementa: “Isso não significa, é claro, que os operários não participem dessa elaboração. Mas participam não como operários, mas sim como teóricos do socialismo […]. E para que os operários o consigam, com maior frequência, é preciso esforçar-se o mais possível para elevar o nível de consciência dos operários em geral, […] é preciso que eles aprendam a assimilar, cada vez mais, a literatura geral”.

Os brigadistas do jornal A Verdade devem, portanto, sentir-se na obrigação de ler integralmente cada nova edição e de se esforçar mais para realizar um amplo trabalho de agitação e propaganda em torno do jornal, não se limitando, porém, a vender bem sua quota ou a bater as metas de vendas nas brigadas.

Devemos adotar, de uma vez por todas, a prática de converter cada brigada numa tribuna, num comício relâmpago. É preciso equipar os grupos de brigadistas com caixas de som, megafones, bandeiras, panfletos, etc., e fazer com que nossos militantes se tornem agitadores comunistas capazes de se expressar de forma objetiva e contundente, de dialogar com qualquer público, especialmente com a massa trabalhadora.

Se é verdade que as massas trabalhadoras não conseguem romper sozinhas o cerco ideológico imposto pela burguesia, que é necessário levar a elas a ideologia socialista, então temos que aumentar nosso ritmo de ação. O 7º Congresso do Partido Comunista Revolucionário aprovou duas resoluções que, se combinadas, trarão grandes resultados: transformar o jornal A Verdade num semanário e priorizar nossa agitação e propaganda na classe operária.

Há quase quatro anos (maio de 2022), transformamos A Verdade numa publicação quinzenal, após 22 anos de muitas lutas e êxitos com nossas publicações mensais. Naquela ocasião (edição nº 249), publicamos um artigo do camarada Josef Stálin, escrito em 1922, em comemoração aos dez anos de fundação do jornal Pravda (A Verdade, em russo). Diz o texto:

“O Pravda foi o centro da luta pelo princípio do Partido, pela criação de um partido operário de massas. Não foi apenas um jornal que resumiu o sucesso dos bolcheviques na conquista das organizações legais de trabalhadores. Foi também o centro organizador que uniu essas organizações em torno dos centros clandestinos do Partido e dirigiu o movimento da classe trabalhadora para um único objetivo definido.”

Assim, entendemos que A Verdade está pronto para dar passos mais largos em seu dever de imprensa revolucionária, comunista, como um grande organizador coletivo, uma vez que a militância que trabalha diariamente pela construção do Jornal e do Partido em todo o Brasil está também mais consciente das tarefas necessárias para o atual momento histórico.

  • Viva a Revolução Socialista!
  • Viva o jornal A Verdade!
  • Rumo ao jornal semanal!

Matéria publicada na edição impressa Nº 328 do jornal A Verdade

A greve acabou, a revolta não: é hora de radicalizar a luta em BH!

Greve da educação em BH termina com revolta contra a prefeitura; trabalhadores convocam a categoria para radicalizar a luta contra o capital. Foram 17 dias de sol, chuva, humilhação e muita resistência. Cantineiras, faxineiras, porteiros e auxiliares de apoio à inclusão cruzaram os braços e pararam as escolas de Belo Horizonte. Enfrentaram a intransigência do prefeito Álvaro Damião e da secretária Natália Araújo para exigir o mínimo: dignidade e o fim dos salários de fome.

Reinilson Câmara e Isabela Sousa – Belo Horizonte (MG)



BELO HORIZONTE –
A greve acabou nesta quarta-feira (11/03) após uma mediação no Tribunal Regional do Trabalho (TRT). O Sindicato (Sind-REDE/BH) apresentou o fim do movimento em tom de comemoração, destacando a redução da jornada para 40 horas e a diminuição dos descontos no ticket alimentação como grandes conquistas. Mas quem vive a realidade do chão da escola sabe que a história não é bem essa.

Para a base da categoria, que segurou essa greve no peito e na raça, o gosto que fica na boca é amargo. A verdade nua e crua é que o trabalhador saiu da assembleia se sentindo derrotado, punido e desrespeitado.

A conta que não fecha e o terrorismo de Estado

É inegável que a redução de jornada e o acerto no tíquete são pautas históricas. Mas como celebrar uma “vitória” quando o trabalhador volta para casa sem saber como vai pagar o aluguel no fim do mês?

A Prefeitura de BH e a direção da MGS, com a conivência da justiça burguesa, usaram a arma mais suja e covarde contra quem ganha pouco mais de um salário mínimo: a ameaça da fome. O corte cruel dos dias parados foi um golpe baixo para quebrar a espinha dorsal do movimento.

O sentimento da base foi perfeitamente resumido no desabafo do companheiro Rodrigo, que esteve firme na linha de frente todos os dias, mas viu a crueldade dos engravatados de perto:

“Nós perdemos tudo. Não vai ser reposto, não vencemos nada… A Natália [Araújo] entrou na conversa e derrubou tudo. Ela falou que não vai repor: não trabalhou, não recebe. Aí, com isso, o pessoal se sentiu derrotado, cansado e acabaram com a greve… Se você não alcança o objetivo e ainda tem prejuízo por parte de uma pessoa, é por parte só da Natália. É um desprezo. O trabalhador sendo desprezado.”

A dor do companheiro Rodrigo é a dor de milhares. E precisamos ser muito claros: a secretária Natália Araújo e o prefeito não agiram assim por “ruindade” pessoal. Eles agiram assim porque são os cães de guarda do capitalismo na nossa cidade. Para a burguesia e seus políticos, não importa se você limpa a escola ou cuida de uma criança com deficiência; para eles, você é uma máquina que deve custar o mínimo possível. Se a máquina para e exige direitos, o Estado usa a caneta para punir e cortar o seu pão.

O teto da luta sindical: por que a matemática da conciliação favorece o patrão?

A frustração da categoria escancara uma lição fundamental para toda a classe trabalhadora: a luta sindical tem um limite, e nós batemos a cabeça nesse teto.

O sindicato cumpriu seu papel de organizar a paralisação, mas tentar resolver a miséria do trabalhador apenas nas mesas de conciliação do TRT ou implorando bondade para a Secretaria de Educação é jogar um jogo com as cartas marcadas pelo inimigo. O TRT, o Ministério Público e a Prefeitura fazem parte do Estado burguês. Eles sentam à mesa, enrolam, transferem o problema para a suspensão de licitações, falam em migrar para OSCs (empresas privadas que lucram em cima do nosso suor) e, no fim, o prejuízo financeiro e o risco de demissão ficam no colo do trabalhador.

A direção sindical tenta pintar o quadro com tintas de vitória para manter o ânimo, mas a base sabe que trocar um reajuste parcelado pelo corte de 17 dias de trabalho não é vitória; é sobrevivência forçada. Lutar apenas pela pauta econômica (reajuste e tíquete) é lutar para afrouxar um pouco as correntes que nos prendem. Mas o sistema sempre dá um jeito de apertá-las de novo logo ali na frente.

A categoria dos terceirizados tem cor, gênero e classe

A linha de frente da greve dos terceirizados da educação de Belo Horizonte é composta por mulheres pretas, mães solo e moradoras da periferia da capital mineira. No sistema capitalista, elementos como racismo e machismo estrutural são usados como justificativa para a exploração das trabalhadoras que limpam as escolas e ajudam a criar as crianças da população belo-horizontina. Dessa forma, a burguesia lucra em cima da classe trabalhadora e se enfurece quando, não mais aguentando o salário miserável que a Prefeitura Municipal junto a empresas privadas propõe, elas se articulam e organizam uma grandiosa greve.

Além da jornada extensa de trabalho, com pouca ou nenhuma estrutura para fazer suas tarefas com qualidade, as mulheres dessa categoria precisam enfrentar outra jornada de trabalho em suas casas. Sem dignidade no trabalho, não há dignidade para seus próprios filhos e família, nem para elas mesmas. Aumento de salário, redução da carga horária… nada disso é pedir demais. É o mínimo para se viver bem, com qualidade, e foi essa certeza que levou a greve a perdurar, apesar dos cortes dos salários dos trabalhadores e das trabalhadoras.

“A gente sai (da greve) decepcionada? Sai, né, mas com a cabeça erguida!”, diz a companheira Márcia, que compôs o comando de greve e inspirou muitas outras colegas com suas intervenções, postura e atitudes nessa luta. São mulheres como ela que nos mostram que, apesar de todo o cansaço que o capitalismo nos impõe, são as mulheres que mais entendem e sabem da dor da superexploração e, por isso, se organizam para que superemos esse sistema, que só sabe nos matar. “Mas nós vamos aí superando! Eu ainda acho que a luta sempre vale, mesmo a gente perdendo financeiramente […] Sempre ela vai valer!”

Transformar a indignação em organização política: junte-se ao MLC!

O pior erro que podemos cometer agora é deixar que esse sentimento justíssimo de desprezo se transforme em desânimo ou em ataques entre nós mesmos. O desânimo do trabalhador é a verdadeira vitória do patrão.

Se a greve nos ensinou algo, foi que somos fortes o suficiente para parar a educação de Belo Horizonte. Mas se a força de parar o trabalho não foi suficiente para dobrar a Prefeitura, é porque o problema central não é apenas econômico, é político! Enquanto o poder político estiver nas mãos da burguêsia, que loteia a cidade para empresas terceirizadas e lucra com a nossa precarização, viveremos de migalhas. Não basta lutarmos apenas como terceirizados exigindo aumento; precisamos lutar como classe trabalhadora exigindo o poder!

É por isso que chamamos você, que saiu dessa greve frustrado, indignado e com sangue nos olhos, a dar um passo definitivo. Venha se organizar politicamente no Movimento Luta de Classes (MLC). Precisamos construir uma ferramenta de luta que não se curve aos tribunais burgueses e que não se contente com a conciliação.

Você, mulher trabalhadora, que carrega nas costas não só sua família, mas a sociedade inteira, venha se organizar! Para superarmos esse sistema patriarcal construído com base na nossa exploração, é preciso que nos organizemos coletiva e ativamente! O mesmo sentimento de revolta que deflagrou a greve é motivo para que sigamos em luta juntas!

Precisamos apoiar, ler e distribuir o jornal A Verdade, que dá voz ao que a grande mídia e a Prefeitura tentam calar. A revolta que você está sentindo agora é o combustível da revolução. A exploração, a humilhação das licitações e os salários de fome só vão acabar quando nós destruirmos esse sistema capitalista podre e construirmos uma sociedade socialista. Uma sociedade onde quem tudo produz, a tudo decide. A batalha dos 17 dias acabou. Mas a guerra de classes está longe do fim. Transforme sua dor em organização. Junte-se ao MLC!

Frente Negra Revolucionária recepciona estudantes durante banca de heteroidentificação na UFMG

Na UFMG, a Frente Negra Revolucionária enfrenta a repressão da reitoria para organizar a juventude negra e lutar pelo socialismo e poder popular. Durante as bancas de heteroidentificação, militantes panfletaram e venderam o jornal A Verdade, reafirmando que a luta racial é luta de classes.

Paulo Vinícius – Belo Horizonte (MG)



Nos  dias 10, 11 e 12 de fevereiro, a Frente Negra Revolucionária esteve presente no CAD 3 (Centro de Atividades Didáticas 3) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), local onde ocorreu a banca de heteroidentificação para ingressantes pretos e pardos na universidade via Sisu.

Os seguranças da universidade foram até o local em que estavam nossos militantes e tentaram impedir que apresentassem o jornal A Verdade e os livros das Edições Manoel Lisboa, dizendo que precisavam “pedir permissão para a administração” para montar a nossa banquinha naquele espaço, mesmo sendo um local público, abrindo, inclusive, uma ocorrência contra um de nossos militantes, o que reforça a política de perseguição aos estudantes organizados e aos movimentos sociais pela reitoria da UFMG. Mesmo assim, panfletamos e conversamos com cada estudante, vendemos mais de 100 jornais e mais de 30 livros para os calouros de diversos cursos e nos reunimos com eles, entendendo a importância de organizar os negros dentro das universidades!

Durante esses dias, os estudantes mostraram um grande interesse em conhecer mais sobre a perspectiva de luta radical do movimento negro e em se organizar. Tal resultado é fruto de um intenso debate local sobre a importância dos núcleos da Frente nos mais diversos espaços em prol da edificação do poder popular. Dentro da UFMG, o trabalho se iniciou no final do ano de 2025, a partir de passagens em salas, panfletagens, brigadas do jornal A Verdade, reuniões para estabelecer planos de lutas, participação em mesas de debate e uma apresentação do movimento.

As Cotas

Em agosto de 2012, o Brasil aprovou o Projeto de Lei 12.711/2012, conhecida como Lei de Cotas, que busca facilitar o acesso de grupos desfavorecidos na sociedade, incluindo negros, à universidade pública. Mas essa lei não foi aprovada por benevolência dos parlamentares, mas sim diante de muita luta do povo negro, ao qual, desde sua chegada ao Brasil, foram reservadas as condições mais desumanas, primeiro com o sequestro e depois com a escravidão.

Na falta de uma política imediata de reparação e compensação no Brasil após o fim da escravidão, os negros e negras continuaram segregados socialmente, nas periferias e favelas, nos piores empregos e sem acesso integral à educação. A política de cotas vem no sentido de inserir grupos socialmente marginalizados em espaços que anteriormente não poderiam ser acessados por tais grupos.

Nos últimos anos, a Lei de Cotas vem sofrendo diversos ataques da extrema-direita fascista, como é o caso da recente lei estadual de SC 19.722/2026, sancionada pelo governador autoritário Jorginho Mello. Já em Minas Gerais, a partir da mesma lógica racista, o governador fascista Romeu Zema, no início do ano, se omitiu integralmente e postergou enquanto pôde o projeto de lei que reserva 20% das vagas em concursos públicos para pessoas negras. Tais ações buscam desmantelar esses importantes instrumentos de acesso ao ensino superior e aos cargos públicos para uma parcela da sociedade historicamente relegada.

Mas, mesmo que a Lei de Cotas seja um avanço na sociedade brasileira, ela ainda segue a lógica capitalista de acesso à universidade. Precisamos que o ingresso ao ensino superior não seja apenas para alguns, mas para quem quiser acessá-lo. O vestibular é um mecanismo de exclusão de classe, fazendo com que as pessoas que tiveram melhores condições de estudo e maior estrutura em sua infância e adolescência acessem com mais facilidade algo que deveria ser um direito para todos.

Luta negra dentro das universidades

Dentro do âmbito universitário, não bastasse a dificuldade para entrar no ensino superior, os estudantes negros ainda têm a dificuldade para permanecerem nas instituições federais. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do IBGE, apenas 2,9% dos pretos e pardos entre 18 e 24 anos concluem a sua graduação, enquanto 6,5% dos brancos na mesma faixa etária têm graduação completa (2024).

Mesmo nas faculdades federais, os desafios são múltiplos, como: insuficiência de políticas adequadas para permanência (auxílio-moradia, alimentação, transporte e saúde), limites de vagas nas moradias universitárias, custo de vida elevado em várias cidades, falta de bolsas de ensino, pesquisa e extensão, elevado preço das cantinas, falta de perspectiva de empregabilidade no futuro, etc.

Todos esses problemas persistem na medida em que a lógica do lucro determina a nossa educação e são criadas barreiras pelo próprio governo federal para impedir o investimento na área, como é o caso do arcabouço fiscal, nome bonito para o “Teto de Gastos”, que limita investimentos em áreas fundamentais para o bem-estar da população com o intuito de priorizar o pagamento da dívida pública para banqueiros e investidores estrangeiros.

Uma nova alternativa para o movimento negro brasileiro

Lançada oficialmente no dia 1º de fevereiro de 2025, a Frente Negra Revolucionária foi criada para trazer uma alternativa de luta emancipatória para o povo preto no Brasil. Afinal de contas, se estamos falando de uma estrutura que há quase 500 anos perpetua a escravização e a superexploração da maioria da nossa população a ferro e fogo, só invertendo-a pelo avesso para garantir vida, dignidade e liberdade para essa parcela tão marginalizada da população, a partir da luta pelo socialismo!

Apostamos na organização e na revolta da grande massa preta brasileira, reserva imprescindível para a revolução em nosso país, para dar um basta definitivo em toda violência policial, na escala 6×1, pelo fim do arcabouço fiscal, contra o racismo, o encarceramento em massa, a precarização do trabalho, o analfabetismo, o desemprego e tantos outros problemas estruturais sustentados e nutridos pelo capitalismo. É preciso olhar para as raízes das dificuldades em nossas vidas para trazer soberania popular não somente ao povo preto, como também a todos os filhos e filhas da classe trabalhadora no Brasil e no mundo.

Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Frente Negra Revolucionária vem lutando não somente para organizar os negros para lutarem contra o racismo tão presente em nossas vidas, mas para acabar de vez com essa estrutura que nos destrói diariamente, a partir da luta pelas necessidades concretas e objetivas dos negros. Queremos permanecer, queremos teto, alimentação, bolsas, estudar com dignidade, nos formar e, acima de tudo, construir uma sociedade em que os limites sejam os nossos sonhos!

Guerreando todos os dias, assim como Zumbi, Aqualtune, Samora Machel, Amílcar Cabral, Thomas Sankara e Manoel Aleixo, pelo poder popular e o socialismo!

Luta contra reforma administrativa fortalece servidores em Belém do Pará

O prefeito de Belém, Igor Normando (MDB) decidiu impor aos servidores um pacote de retrocessos trabalhistas, afetando também toda a população belenense. A resposta para essa política direitista foi a mobilização dos servidores, e um exemplo de que a luta da classe trabalhadora organizada conquista vitórias. 

Richard Abreu e Raquel Brício| Belém do Pará


TRABALHADOR UNIDO- O prefeito de Belém, Igor Normando (MDB), às vésperas das festas de final de ano, na última sessão de 2025, implementou um duro ataque aos direitos historicamente conquistados dos servidores municipais. Foram 13 Projetos de Lei votados em regime acelerado na Câmara Municipal, sem nenhum diálogo com as categorias e com o povo.

Ignorando totalmente a cobrança da população e de servidores, que lotaram a “galeria do povo” denunciando os impactos dos projetos, os vereadores, de forma vergonhosa aprovaram o pacote de maldade em meio a violência, na tentativa de intimidar e desmobilizar a luta.

Durante os protestos nas galerias, o choque da Guarda Municipal realizou uma covarde repressão, na qual professores, enfermeiros, educadores sociais e etc., foram alvos de balas de borracha, spray de pimenta, e toda a violência que o neoliberalismo reserva ao povo que resiste. Inclusive, como resultado da repressão, um professor teve seu crânio fraturado por um tiro de bala de borracha. Em resposta, foi deflagrada greve pela revogação do pacote de desmonte do serviço público.

Vejamos alguns dos ataques aprovados:

No geral, as categorias que conquistaram, às duras penas, planos de carreira, foram atacadas. As medidas concentram poder na gestão, retiram garantias legais e desvalorizam os servidores. Critérios de promoções ou gratificações, que antes estavam previstos em lei, passam a depender de decisões administrativas, com avaliações de desempenho subjetivas. Trouxe mecanismos que ampliam o poder discricionário da gestão sobre progressões e lotações, possibilitando arbitrariedade, perseguição e aparelhamento político.

Na assistência social, as mudanças geram insegurança, desvalorização e precarização para quem atua diretamente com a população em situação de vulnerabilidade, os servidores da Fundação Papa João XXIII (FUNPAPA), como afirma Gal Leite, vice-presidente do SINTSUAS e membro da coordenação nacional do MLC: “A lei 10.266/26 extingue o plano de carreira da Assistência Social, extingue o cargo de pedagogo (que eram responsáveis pelo planejamento das atividades dos CRAS, CREAS e abrigos).

Reduziu os salários dos servidores dos CRAS em 25%, aumentou a nossa carga horária para 40hs semanais (escala 6×1), e não satisfeito, fechou as cozinhas dos espaços e acabou com o apoio alimentar para as famílias em vulnerabilidade que atendemos. Por fim, penaliza os dirigentes do sindicato, pois além de não ter liberação sindical, não admite sequer liberação pontual, o sindicalista levará faltas todas as vezes que precisar realizar atividades sindicais no horário de trabalho”.

Trabalhadoras decidem pela luta

Diante desses ataques, a mobilização da categoria se intensificou. No dia 19 de fevereiro, 10 trabalhadores da assistência social realizaram uma ocupação pacífica do prédio-sede da Fundação para exigir a revogação da Lei 10.266/26 e a abertura imediata de negociação. Mas, ao invés de dialogar, a presidência do órgão esvaziou o prédio e a Guarda Municipal foi acionada para intimidar os ocupantes. Durante a ocupação, houve corte de energia elétrica e restrições à entrada de água, alimentos e medicação, medida desumana que colocou em risco a saúde de servidoras diabéticas que participavam do ato. Após 32 horas, a Justiça determinou reintegração de posse com autorização para uso de força policial e impôs multa e restrições a protestos em prédios públicos. Ainda assim, longe de intimidar os trabalhadores, a repressão acabou fortalecendo a mobilização: em assembleia, a categoria reafirmou a continuidade da greve, exigindo a revogação do pacote, condições dignas de trabalho e respeito aos servidores e à população usuária da assistência social.

Na educação, o pacote prevê maior controle político, uma vez que serão indicados para a direção das escolas comissionados externos (sem vínculo com a rede municipal), alinhados exclusivamente aos interesses de MDB. Ademais, como ressalta Jadson Luiz, coordenador de comunicação do SINTEPP-BELÉM: “o pacote de maldades revogou tanto o estatuto dos servidores públicos, quanto o estatuto do magistério. Fato que retirou direitos e institucionalizou o assédio moral. Com isso, retirou licença prêmio, auxílio funeral, 15 dias de férias, gratificação de regência para professores readaptados por questões de saúde, progressão automática, progressão para professores pedagógicos, liberação Sindical com ônus para o município, acabou com a gestão Democrática nas escolas que consistia em eleição para decidir a gestão, bem como, também incorporou a gratificação de regência ao salário base, vai transformar em valor fixo e não mais em porcentagem, a gratificação de incentivo pra especialização, mestrado e doutorado, fato que vai estagnar por anos o salário. Fora que a prefeitura vai alegar que já paga o piso do Magistério sem dar reajuste salarial”

Já na saúde, se aprofunda a precarização das condições de trabalho, já marcadas por sobrecarga, déficit de profissionais e estrutura insuficiente, comprometendo ainda mais a qualidade do atendimento à população. Como demonstraram diversos vídeos, que viralizaram, sobre o Pronto-Socorro Municipal Mário Pinotti (PSM da 14), que após sofrer uma tentativa de privatização, impedida judicialmente, foi abandonado pela prefeitura. Os vídeos mostram superlotação, pacientes nos corredores, acúmulo de lixo em áreas internas do PSM, até registros de larvas na comida.

Objetivo é claro: precarizar, terceirizar e entregar tudo o que for possível às organizações sociais.

Vale ressaltar que, além do ataque ao serviço público, também foi aprovado o aumento do IPTU, ampliando a cobrança sobre a população. Portanto, trata-se de uma combinação que penaliza tanto servidores quanto à população.

Greve e mobilização

Com mais de um mês de greve, com muita combatividade, os trabalhadores se mantêm mobilizados, realizando diversas atividades por categoria e atos unificados.

O acirramento é grande, o prefeito tenta minimizar os efeitos da greve convocando, inclusive, profissionais contratados para substituir os grevistas. E por outro lado, sabendo que o único caminho é a luta, os servidores avançam na greve e desmoralizam o prefeito diante da população: a popularidade do prefeito é, atualmente, uma das menores do Brasil.

Nesse contexto, o jornal A Verdade, o Movimento Luta de Classes, a militância da Unidade Popular e demais movimentos estão nas ruas ao lado dos trabalhadores, desde a votação do projeto com repressão na câmara municipal, e seguirão na luta com combatividade e com a mente nas palavras de Bertolt Brecht:

“Quem será esmagado, que se levante!

Quem está perdido, que lute!

Quem se apercebeu de sua situação, como poderá ser detido?

Os vencidos de hoje serão os vencedores de amanhã.”