UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

domingo, 1 de fevereiro de 2026
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Sem estudo, sem povo e sem transparência: a manobra do “emendão” no Plano Diretor de Fortaleza (CE)

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Manobra organizada para beneficiar a especulação imobiliária em Fortaleza trouxe quase 70 mudanças no Plano Diretor e foi assinado por 33 vereadores. Movimentos sociais se mobilizam contra e exigindo participação popular. 

Renan Giménez Azevedo | MLB Ceará


LUTA POPULAR – Nos dias 25 e 26 de novembro, dezenas de famílias e movimentos por moradia ocuparam os jardins da Câmara de Fortaleza contra os retrocessos no novo Plano Diretor. As emendas reduzem Zonas de Proteção Ambiental (ZPA) e Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), e ainda abrem espaço para a especulação imobiliária

O “emendão” trouxe quase 70 mudanças e foi assinado por 33 vereadores, garantindo maioria. Chegou às vésperas da votação, com mais de cem páginas, sem tempo para leitura. Depois veio o “remendão”, costurando emendas de várias bancadas e, pior, retirando o artigo que obrigava estudo técnico, participação popular e transparência para mudar o Plano Diretor. Na prática, abriram a porteira para obras e ajustes sem ouvir o povo.

33 horas pela democracia

Muito antes das atividades da Câmara de Fortaleza começarem, a galeria destinada ao público já estava lotada. Bandeiras dos movimentos sociais foram expostas lado a lado. Palavras de ordem pedindo respeito ao processo participativo do Plano Diretor eram entoadas. O objetivo ali era fazer alguma pressão para que votos pudessem ser virados em favor do que a população havia discutido. No primeiro dia das plenárias, foi anunciado que a Comissão Especial para o Plano Diretor se reuniria pela tarde.

Neste meio tempo, barracas foram montadas em frente ao auditório da Câmara. Assim a aquela ocupação nasceu. Os movimentos estavam coordenados juntos ao Campo Popular do Plano Diretor, uma frente ampla para garantir os interesses de moradores de ZEIS e movimentos populares nos debates públicos. Dezenas de movimentos populares compõem o Campo Popular, o que garante a legitimidade das reivindicações e propostas apresentadas.

O processo de revisão do Plano Diretor de Fortaleza, que durou seis anos, foi marcado por inúmeras contradições. Uma delas é que os interesses do setor imobiliário eram garantidos mesmo que estivessem ausentes nas conferências e reuniões públicas. Ao mesmo tempo, o Campo Popular apresentava centenas de propostas de interesse populacional que eram ignoradas pelo poder público. Diversos erros eram apontados, mas não foram corrigidos. Para auxiliar o processo, a Prefeitura investiu mais de R$5 milhões em uma consultoria que, no fim das contas, não teve serventia por conta do atropelo dos vereadores.

É no final deste histórico caótico que surgem bizarrices legais como o emendão. Como o objetivo da ocupação do Campo Popular era fazer pressão nos vereadores, ficou decidido que a estadia duraria exatamente 33 horas, em referência a cada um dos 33 vereadores que protocolaram o emendão. Nas redes sociais do Campo Popular e aliados, publicações foram feitas a cada hora completada.

Apenas os vereadores Adriana Gerônimo e Gabriel Aguiar, ambos do PSOL, apoiaram a ocupação, garantindo a segurança dos manifestantes. Já a maioria dos vereadores ignoraram o clamor popular. O vereador Adail Júnior (PDT), vice-presidente da casa, esbravejou no microfone enquanto na mesa: “Nós não precisamos de audiência pública. Nós não precisamos de conferência para nos dizer como é que a matéria vai ser tramitada nessa casa, não. Quem decide somos nós!”. A fala resume o desrespeito ao processo participativo.

O emendão e o remendão

Por conta da pressão popular, os vereadores decidiram acelerar a votação do emendão. Ao mesmo tempo, o vereador e relator Bruno Mesquita (PSD) enviou parecer favorável de mais uma emenda. O documento original tratava da redação de apenas um artigo do Plano Diretor, mas serviu de base para incluírem dezenas de outras alterações. Uma emenda de emendas, ou seja, um “remendão”.

As emendas do remendão eram propostas de vários outros vereadores. Serviu como um método de costurar toda a articulação política entre diversas bancadas da Câmara. Entretanto, uma das emendas era uma emboscada: foi retirado o artigo que exigia estudos técnicos, participação popular e transparência nos documentos para mudar o Plano Diretor. Em outras palavras, qualquer obra ou ajuste para beneficiar a especulação imobiliária pode ser feito a qualquer momento.

Mais tarde, em plenária, emendão e remendão foram acolhidos e o Plano Diretor da Câmara foi aprovado. No dia seguinte, o prefeito Evandro Leitão (PT) publicou a lei no Diário Oficial.

Menos ZPA significa mais calor e enchente nos bairros. Menos ZEIS coloca famílias sob risco de despejo e aumenta o aluguel. Obras sem estudo e sem transparência dão prejuízo ao trabalhador e lucro rápido a poucos. Desta forma, qualquer resquício de democracia no processo de revisão do que se chamou Plano Diretor “Participativo” e “Sustentável” deixou de existir.

A luta deve continuar

Este episódio ilustra muito bem como a democracia burguesa funciona. Mesmo que a população esteja em peso para defender seus interesses, os parlamentares se curvarão para aqueles que detém o capital. Neste caso, construtoras, incorporadoras e especuladores imobiliários. Também há o caso do Aeroporto de Fortaleza, onde a destruição da Mata Atlântica é vantajosa para os executivos alemães. Certamente, este Plano Diretor aprovado promoverá o aumento de pessoas sem teto, o rápido aquecimento da cidade e outros problemas que sequer podemos vislumbrar, como no trânsito e na saúde. Fortaleza se tornará uma cidade para turistas e não para seus moradores; para clientes e não para quem a constrói.

A classe trabalhadora, que mora, trabalha e faz a cidade, tem mais uma vez sua obrigação histórica. A ocupação de 33 horas mostrou a força do povo organizado para pressionar quem nos explora. Só a ação consciente da nossa classe pode barrar as barbáries que enriquecem poucos e pioram a vida de muita gente. A luta pelo direito à cidade continua: em cada bairro, em cada casa, cada trabalhador tem voz.

Poder popular impõe continuidade da escola municipal Paulo Mendes Campos em BH

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Mobilização popular na Rua da Bahia impõe derrota à política higienista da Prefeitura de Belo Horizonte. Na manhã de 19 de dezembro, pais, estudantes, trabalhadores da educação e militantes do Movimento Luta de Classes (MLC) ocuparam o centro da cidade por mais de duas horas e meia em defesa da Escola Municipal Paulo Mendes Campos (EMPMC) e do ensino integral. A política, conduzida pelo prefeito Álvaro Damião e executada pela secretária municipal de Educação, Natália Araújo, sofreu um recuo tático diante da pressão das ruas, ainda sem qualquer garantia oficial por escrito.

Reinilson Câmara | Belo Horizonte – MG


BELO HORIZONTE – A confirmação verbal da continuidade da escola, celebrada pela comunidade como uma “vitória nossa”, representa um recuo tático da Prefeitura diante da poderosa mobilização de rua. No entanto, como alertam os pais organizados e o próprio corpo diretivo da unidade, que sofre na pele a pressão do desmonte, a administração do prefeito Álvaro Damião ainda não emitiu nenhuma garantia oficial. Esta manobra deixa clara a tática da burguesia: ceder no discurso para ganhar tempo e desmobilizar as massas, mantendo intacto seu projeto higienista. A vitória real só virá com a oficialização escrita do recuo, fruto da permanente vigilância e da pressão organizada dos trabalhadores.

O Estado contra o Povo: A denúncia de quem vive o desmonte

Para expor a gravidade deste ataque, ouvimos quem está na linha de frente dessa luta. Em entrevista para o Jornal A Verdade, Pedro Veras, pai de aluna, denuncia as entranhas de uma gestão autoritária da secretaria de educação que trata a educação pública como favor, e não como direito.

Pedro, cuja filha de 6 anos estuda na EMPMC, relata que o projeto pedagógico de educação integral – com 10 horas de permanência, robótica, capoeira e alimentação – é fundamental para garantir o sustento das famílias trabalhadoras. Esta política atinge brutalmente a mulher trabalhadora, a quem o capitalismo já impõe a dupla jornada. A escola de tempo integral é uma ferramenta para sua emancipação, permitindo o trabalho formal. Ao fechar essas vagas, a Prefeitura condena essas mulheres ao desemprego ou à informalidade precária. Contudo, após a matrícula garantida, a Prefeitura iniciou uma guerra psicológica baseada em boatos e desinformação.

“A gente observou aí um desmonte com um recorte racial, um recorte de classe, um recorte territorial”, afirma Pedro ao jornal. O plano da prefeitura fica evidente em sua denúncia: remover os estudantes pobres, moradores do Morro do Papagaio, Barragem Santa Lúcia e Vila Estrela, e enviá-los para escolas precárias na periferia, liberando o espaço nobre da região central para a elite. “O local onde eles moram é um lugar de alta vulnerabilidade… que não oferece escolas com infraestruturas que respeitem seus direitos”, completa. A tentativa de encerrar as atividades não é um caso isolado de “má gestão”, mas parte de um projeto sórdido de higienização social para transformar o centro em um enclave da burguesia.

A Arrogância da Burocracia e a Força da Ação Direta

A denúncia de Pedro Veras também revela a verdadeira face da “democracia” burguesa. Ele descreve uma via sacra de humilhações imposta pela Secretaria de Educação (SMED): telefones desligados na cara de mães, e-mails ignorados e esperas de mais de 10 horas na antessala da Secretaria sem atendimento. “Recebemos a porta na cara”, resume ele. A nota da SMED, que cinicamente afirma “repudiar qualquer ação discriminatória”, tenta esconder o óbvio: seu sistema de cadastro é uma ferramenta política de exclusão.

Foi somente quando a comunidade, cansada de ser ignorada, decidiu parar o trânsito e ocupar as ruas centrais da cidade, que a Prefeitura sentiu o golpe. A ação direta das massas fez o que meses de tentativas de “diálogo” institucional não fizeram. O ato coordenado pelo MLC escancarou o caráter de classe do ataque: este não é apenas contra os alunos, mas também contra os trabalhadores da educação, significando desemprego e precarização.

POEINT: O alerta do que acontece quando não lutamos

É fundamental ressaltar que a vitória na Paulo Mendes Campos ocorre num cenário de ofensiva geral do capital contra os direitos do povo. A escola POEINT (Polo de Educação Integrada), que atendia a comunidade do Barreiro, já teve suas portas fechadas pelo mesmo governo municipal. O fechamento do POEINT não foi um ‘erro’, mas a execução do plano inicial do capital: a liquidação total da educação pública de qualidade. A resistência na Paulo Mendes Campos interrompeu temporariamente este plano, mostrando o caminho.

Conjuntura Nacional: O avanço do Neoliberalismo

O que ocorre em Belo Horizonte não é um fato isolado. É o reflexo local da política econômica nacional que prioriza o “ajuste fiscal” e as privatizações. Seja no Novo Ensino Médio, ou no fechamento de escolas integrais, o objetivo é o mesmo: sucatear o público para justificar a privatização e negar à classe trabalhadora o acesso ao conhecimento crítico. Querem transformar a escola em depósito de crianças ou em mercadoria de luxo, expulsando os filhos dos trabalhadores dos centros urbanos, num verdadeiro apartheid social.

Organize-se e Lute!

A fala do diretor Júnior, durante a formatura dos alunos da EMPMC,  garantindo a continuidade do sexto ano e a permanência dos alunos das vilas, é um respiro, mas não o fim da luta pela educação pública, gratuita e de qualidade. Como bem disse Pedro Veras em sua entrevista: “A nossa luta tem que seguir firme e forte até que as nossas demandas sejam negociadas diretamente com a secretária municipal de educação, que é quem assina a documentação oficial”. Não podemos confiar em palavras ao vento. A experiência nos mostra que a burguesia recua um passo hoje para avançar dois amanhã.

O Movimento Luta de Classes (MLC), como expressão da organização independente da classe trabalhadora, convoca todos os pais, mães, trabalhadores, estudantes e todos os explorados a não desmobilizarem. A vitória parcial na Paulo Mendes Campos e a poderosa ação nas ruas provam que apenas a luta organizada e extraparlamentar extrai concessões do inimigo de classe. A defesa da educação é uma luta fundamental. Cada escola mantida é uma base de apoio do povo; cada rua ocupada, um exercício de poder popular. A vitória na Paulo Mendes Campos ensina a lição central: a burguesia só recua quando confrontada pela força organizada dos trabalhadores. É hora de transformar a defesa das conquistas imediatas em consciência de classe e em organização revolucionária permanente. A escola será do povo apenas quando o poder político for do povo trabalhador.

Junte-se ao MLC! Pela educação pública, gratuita, integral e para os trabalhadores!

Só a luta muda a vida!

Mulheres ocupam avenida em protesto contra o feminicídio no Espírito Santo

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Ato em Vitória reuniu mulheres contra o feminicídio, em defesa da vida e pela mudança do nome da Av. Dante Michelini. Não esqueceremos Rayana Bittencourt, Graziela Ramos, Íris Rocha e Araceli Cabrera Crespo — mulheres e meninas seguem vivas em nossa memória e luta

Ana Thompson | Vila Velha – ES


No dia 7 de dezembro de 2025 (domingo), a avenida em Vitória/ES de nome criminoso, Av. Dante Michelini, encontrava-se em estado gritante de revolta.

Coletivamente, o Movimento de Mulheres Olga Benário ES construiu, no estado capixaba, esse momento de luta nacional pela defesa da vida das mulheres e pela reivindicação do fim do feminicídio.

Atualmente, o Espírito Santo é o 6º estado do Brasil que mais mata mulheres por serem mulheres e apresenta uma média de casos de feminicídio superior à média nacional, segundo o Mapa da Segurança Pública 2025. Ainda segundo a Secretaria de Segurança Pública do Espírito Santo (SESP-ES), foram registrados 32 casos de feminicídio e 80 tentativas de feminicídio em 2025, totalizando 112 mulheres atacadas com intenção de morte apenas por serem mulheres, sem contar a subnotificação das tentativas.

O SESP-ES também aponta que a esmagadora maioria dos episódios ocorre no interior das residências, tendo como agressor o companheiro atual ou ex-companheiro. A análise de outros dados da mesma fonte revela ainda que essa realidade é ainda mais expressiva quando se trata da vida de mulheres negras (pretas e pardas), que correspondem a aproximadamente 7 em cada 10 das 112 citadas. Isso evidencia que as mais atravessadas por esse tipo de violência são mulheres negras, em suas próprias casas, atacadas por homens que faziam parte íntima de seus cotidianos.

Infelizmente, podemos citar diversos casos, como o de Rayana Bittencourt, morta a facadas dentro de casa pelo namorado; o crime ocorreu na frente de seus filhos, sendo um deles com menos de 10 anos. Graziela Gomes, morta a facadas por se recusar a emprestar o celular ao marido; quando preso, o homem ainda afirmou que não queria que Graziela saísse de casa. Íris Rocha, assassinada a tiros pelo ex-namorado quando estava grávida de oito meses; o nome do bebê seria Rebeca. Araceli Cabrera Crespo, uma menina de oito anos que voltava da escola em 18 de maio de 1973, foi sequestrada, violentada e assassinada; o principal suspeito do caso era Dante Michelini, um ricaço que dá nome a uma importante avenida da capital capixaba.

Esse ciclo brutal de violência não começou com Araceli, não terminou com Rayana e não terminará enquanto não houver a superação do patriarcado e do capitalismo, sistemas irmãos que assassinam diariamente, de forma estrutural, mulheres e meninas da classe trabalhadora.

Com esse norte em mente, o Movimento de Mulheres Olga Benário esteve nas ruas reivindicando o fim do racismo, do capitalismo e do patriarcado, que impulsionam essa cultura de extermínio brutal e generalizado de mulheres e meninas. Nesse contexto, várias mulheres abriram mão de seu único dia de “descanso” na semana e marcharam pela Av. Dante Michelini, partindo do ponto de encontro no Jardim Araceli, um consolo vergonhoso construído pelo Estado há alguns anos em memória ao hediondo crime.

Juntas, exigimos a mudança do nome da avenida para Av. Araceli Cabrera Crespo, o fim do feminicídio e a verdadeira libertação feminina.

Nesse sentido, lutamos pelo fim do ciclo interminável de exploração e sobrecarga. Lutamos pelo direito ao descanso. Lutamos contra um sistema que nos extorque até a alma. Lutamos por uma sociedade na qual não sejamos descartáveis. Lutamos por um mundo em que nossas filhas possam crescer com saúde e segurança. Lutamos pelos sonhos daquelas que já se foram e pela possibilidade de a nova geração de meninas sonhar. Lutamos por condições dignas para a reprodução da vida. Lutamos para que nossas vozes sejam ouvidas. Lutamos para que sejamos livres e, sobretudo, para que continuemos vivas.

O dia 7 de dezembro de 2025 foi importante, mas a luta não terminou ali. O Movimento Olga e a Rede Araceli de Enfrentamento à Violência contra Mulheres e Meninas seguirão pleiteando a libertação e a emancipação feminina e trabalhadora.

Rayana, Graziela, Íris e Araceli estão presentes!

Trabalhadores da Provider são demitidos após paralisação por pagamento de salários

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A Provider demitiu os trabalhadores que paralisaram suas atividades para exigir o pagamento dos salários de dezembro, que estavam em atraso desde o quinto dia útil.

Redação PE


TRABALHADOR UNIDO – Na última terça-feira (9), os trabalhadores da Provider, empresa de callcenter, iniciaram uma paralisação para exigir o pagamento dos salários atrasados. A paralisação expôs a prática de exploração da empresa, que atrasa os pagamentos constantemente e submete os empregados a uma jornada exaustiva em escala 6×1, com poucos intervalos de descanso durante o dia.

A denúncia do atraso constante no pagamento de salários se intensificou nos últimos meses. O prazo legal para o pagamento do salário referente a dezembro expirou no quinto dia útil (05 de dezembro), mas, até o dia 12, os valores não haviam sido creditados. A ausência do seu salário tem provocado sérios prejuízos aos trabalhadores, que dependem desse dinheiro para despesas básicas, como aluguel e alimentação, sofrendo com multas e juros por responsabilidade da empresa.

Há ainda relatos de que não é a primeira vez que os trabalhadores recebem os salários atrasados. No mês de setembro eles receberam no dia 8/9, mas no contracheque consta como pago dia 5/9, ou seja, ainda existe fraude.

O Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações de Pernambuco (SINTTEL-PE) que deveria representar os interesses da classe, não reconheceram a paralisação e ficaram em meras conversas internas com a empresa, sem dialogar com os trabalhadores. Mesmo com uma história de décadas de atuação na luta sindical no país, desde a ditadura à “redemocratização”, hoje o sindicato está totalmente aparelhado para atuar contra a própria classe e nada faz para mobilizar as lutas dos trabalhadores da categoria.

Para piorar, no dia 12 de dezembro, 3 dias após o início da paralisação, a Provider iniciou uma série de demissões dos trabalhadores que estavam lutando pelo pagamento dos salários em uma paralisação justa e legal. Para justificar a demissão, a Provider diz que os trabalhadores cometeram “atos de indisciplina e desídia”. Em clara demonstração de perseguição, os patrões resolvem fazer o que sempre fazem: desmobilizar as lutas da classe trabalhadora por melhores salários e condições de vida em prol de seus lucros.

Agora cabe aos trabalhadores não desistirem dessa luta e insistir para que essa exploração dos grandes ricos acabe. É pela readmissão imediata dos trabalhadores demitidos em massa pela Provider, após a justa paralisação motivada pelo atraso no pagamento de salários. Os trabalhadores exigem o fim da exaustiva e desumana escala de trabalho 6×1, que compromete sua saúde física e mental e impede o convívio social e familiar adequado.

Petroleiros em greve por melhores salários e condições de trabalho

Milhares de operários e operárias da Petrobras entraram em greve para obrigar a empresa a negociar o Acordo Coletivo de Trabalho. Após ofensivas de privatizações e vendas de ativos, trabalhadores lutam por melhores salários e condições de trabalho.

Ana Mattos | Rio de Janeiro


TRABALHADOR UNIDO – Desde setembro, a Petrobras e os sindicatos de petroleiros de todo o país iniciaram as negociações do Acordo Coletivo de Trabalho deste ano. Até o momento foram apresentadas 3 propostas pela empresa, as quais apresentam retirada de direitos e não garantem uma reparação por todas as perdas salariais dos anos dos governos Temer e Bolsonaro. Como se não bastasse, todo o processo de “negociação” tem sido tocado com muita intransigência pela companhia que, a qualquer sinal de enfrentamento por parte das entidades sindicais, suspende as reuniões de forma unilateral, se negando a manter qualquer diálogo.

De acordo com informações recolhidas na tarde desta segunda, estão paralisadas 36 plataformas e 5 campos terrestres de petróleo, uma fábrica de fertilizantes e uma usina de biodiesel, além de 4 refinarias, uma termoelétrica e 4 navios, além de dezenas de sedes administrativas da empresa.

A resposta da categoria petroleira foi de rejeição de ambas as propostas de forma quase unânime, demonstrando o tamanho da insatisfação com os ataques perpetrados pela companhia e seus acionistas. A empresa, que garante vultuosas parcelas de lucros e dividendos para os seus acionistas todos os anos – sendo a 14ª empresa que mais pagou proventos em 2024 no mundo, a 4ª no setor de petróleo, somando 75,8 bilhões de reais – alega questões financeiras, o que deixa claro para toda a categoria a real intenção: remunerar sanguessugas enquanto explora e desvaloriza aqueles que realmente geram valor para a empresa e para o país.

É nesse espírito de indignação que uma greve unificada foi aprovada nas assembleias de norte a sul do país. A greve começou nesta segunda (15/12), mas as movimentações começaram antes. No heliporto do Farol de São Tomé, por exemplo, o Sindipetro NF em conjunto com os trabalhadores das plataformas iniciaram há mais de uma semana os piquetes como forma de aviso, atrasando voos para as plataformas da Bacia de Campos.

PM do Rio ataca grevistas

Já no primeiro dia de greve o movimento foi forte em muitas unidades. Foram trabalhadores de dezenas de plataformas que solicitaram o desembarque, enquanto os colegas que já estavam desembarcados se negaram a subir. No Complexo de Energia Boaventura (antigo Comperj/Gaslub), na cidade de Itaboraí (RJ), os trabalhadores cruzaram os braços e foram atacados pela polícia, que os receberam com bombas e spray de pimenta.

Na Reduc, em Duque de Caxias (RJ), dois trabalhadores foram presos, sendo um deles o secretário geral do Sindipetro-Caxias, enquanto posicionavam faixas informativas sobre a greve na entrada dos caminhões. Outras refinarias, como a REGAP, REPLAN, REVAP, também aderiram a greve e cortaram a rendição das equipes de turno. Entre os prédios administrativos, a adesão foi parcial, com destaque para o EDIRN que teve 90% de participação dos trabalhadores.

“As propostas da empresa são sempre um escárnio para a gente, com corte de efetivo. com condições de segurança cada vez piores. Na unidade que eu trabalhei, na sexta-feira teve um acidente e uma pessoa saiu queimada de lá por causa da pressão de trabalho. Então a greve é sobre tudo isso. É sobre colocar os interesses de acionista na frente do que é realmente importante para a empresa que são os trabalhadores.”, afirma Igor Tavares, operário da Reduc e militante do MLC.

Luta dos trabalhadores é pelo próprio direito

A greve petroleira é uma resposta a anos de desvalorização e ataques contínuos à companhia e aos petroleiros. Mesmo com a eleição de um governo dito progressista, a realidade continua sendo a mesma: baixo efetivo, sobrecarga de trabalho, assédio exacerbado, direitos trabalhistas negados, retirada de direitos a cada acordo coletivo.

A categoria petroleira já entendeu que apenas a greve é capaz de trazer mudanças efetivas para si, pois quem manda na Petrobras hoje são os acionistas e eles jamais irão abrir mão de roubar o fruto do trabalho dos petroleiros para beneficiá-los. A previsão é de que o movimento paredista continue nesta terça e nos próximos dias.

Heroísmo revolucionário é celebrado no DF com o lançamento do livro ‘A vida e a luta do comunista Manoel Lisboa’

Evento de lançamento do livro “A vida e luta do comunista Manoel Lisboa” na capital do país reúne cerca de 100 pessoas.

Redação DF


No último dia 3 de dezembro, aconteceu o lançamento da 3ª edição do livro “A vida e a luta do comunista Manoel Lisboa” na capital do país, que contou com a presença de cerca de 100 pessoas.

A programação do evento teve a ilustre participação do camarada Edval Nunes Cajá, um dos organizadores do livro e membro do Comitê Central do Partido Comunista Revolucionário (PCR). Cajá é ex-preso político e integra o Comitê de Memória, Verdade e Justiça de Pernambuco, além de ter sido importante liderança do movimento estudantil universitário, dirigindo os Diretórios Centrais das principais universidades, bem como da União dos Estudantes de Pernambuco (UEP).

A abertura contou com a internacional comunista e a entoação de palavras de ordem que homenageiam os heróis do PCR. Na sequência, a militância teve a oportunidade de ouvir Cajá contando um pouco sobre a história de luta de Manoel Lisboa, fundador e um dos heróis do Partido. Manoel foi um exemplo do novo homem que dedicou os melhores anos de sua vida à construção de uma nova sociedade, livre da exploração do homem pelo homem.

II Encontro Nacional de Mortos e Desaparecidos políticos

Na mesma semana, foi realizado o II Encontro Nacional de Mortos e Desaparecidos políticos no Ministério dos Direitos Humanos, que contou com a entrega de 26 certidões de óbito retificadas de pessoas mortas e desaparecidas políticas. Dentre as certidões, constavam os documentos de Ieda Santos Delgado e Honestino Guimarães, que se somam à lista dos lutadores do povo que tiveram suas vidas ceifadas nesse período. A certidão de Manoel Lisboa será entregue em cerimônia solene em fevereiro de 2026.

Em dezembro de 2024, fruto de uma decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), foi publicada uma resolução que dispõe sobre o dever de reconhecer e retificar os assentos de óbito de todos os mortos e desaparecidos vítimas da ditadura militar. Com isso, a causa da morte passa a ser: “não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro no contexto da perseguição sistemática à população identificada como dissidente política do regime ditatorial instaurado em 1964.”

Manoel foi uma das vítimas de um dos períodos de maior perseguição aos comunistas na história recente. Mas, mesmo diante das piores torturas, nada informou aos seus torturadores, mantendo sua retidão ao preceito do PCR de que “delação é traição”. Nesse sentido, as retificações são conquistas importantes da luta, porém, não são suficientes. Queremos a prisão dos torturadores e que o Brasil possa ter sua justiça de transição. É urgente curar essa ferida aberta que acomete o povo brasileiro e que coloquemos esse período na lata de lixo da história.

MANOEL LISBOA, PRESENTE! AGORA E SEMPRE!

O estado de Minas Gerais está à venda!

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O governo de Romeu Zema intensifica a privatização de Minas Gerais, entregando patrimônios públicos ao capital privado e transformando água e energia em mercadoria. A entrega de serviços essenciais ao mercado corrói a soberania e destrói o patrimônio público. O projeto neoliberal aprofunda o desmonte dos direitos trabalhistas e da previdência. É preciso organizar a resistência para defender o que é do povo.

Carla Batista de Oliveira e Luiz de Paula Bastos Júnior | Belo Horizonte – MG


Desde 2020, na metade do primeiro mandato de Romeu Zema (Novo), a dívida do estado de Minas Gerais cresceu 51,3%, segundo o boletim mensal da dívida pública estadual da Secretaria de Estado da Fazenda (SEF). Embora tenha origem em governos anteriores, a gestão atual agravou a situação: nos seis primeiros anos, não foi quitado nenhum montante significativo.

Em dezembro de 2024, a dívida acumulada ultrapassava R$ 188 bilhões. Para Marco Couto, vice-presidente da Fenafisco, a explosão do saldo está ligada à política de concessão de privilégios e benefícios fiscais a empresários financiadores de campanha.

Minas Gerais e a adesão ao Propag

A Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) aprovou, em 29 de maio de 2025, a adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag). Criado pela Lei Complementar nº 212/2025, o programa prevê descontos nos juros da dívida das unidades federativas e parcelamento do saldo por até 30 anos. Em contrapartida, os estados que aderirem devem aplicar parte dos valores economizados em áreas prioritárias, como educação e segurança pública.

Para ingressar no Propag, o governo estadual teve prazo até 30 de outubro para indicar quais ativos seriam federalizados (ou vendidos), precisando quitar, no mínimo, 20% da dívida — aproximadamente R$ 40 bilhões — para garantir juros zero nas parcelas ao longo de 30 anos.

Nosso estado entregue à ganância burguesa

No pacote enviado à ALMG constam empresas públicas como Cemig, Copasa e Codemig, além de cerca de 343 imóveis e autarquias, entre elas a Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e a Empresa Mineira de Comunicação (EMC).

Matias Bakir Faria, presidente do Sindifisco-MG, critica a forma enganosa com que governo estadual e governo federal têm apresentado o Propag, afirmando que a adesão só seria possível mediante federalização ou venda de ativos, como estatais, imóveis e recebíveis tributários. Segundo ele, Minas poderia participar por meio de aportes ao fundo de equalização e investimentos em serviços essenciais, sem alienar patrimônio.

Estudos do Sindifisco e da Associação dos Funcionários Fiscais do Estado (Affemg) indicam que, usando dividendos das estatais — mais de R$ 3 bilhões anuais — e receitas tributárias recorrentes — acima de R$ 1 bilhão — o estado poderia arcar com os aportes exigidos (cerca de 4% ao ano do saldo da dívida), preservando o patrimônio e garantindo sustentabilidade fiscal.

Emerson Andrada, coordenador do Sindieletro-MG, chama atenção para a possibilidade de refinanciar a dívida mantendo a gestão das estatais. Segundo ele, “a Cemig tem remetido ao governo cerca de R$ 5,5 bilhões por ano. O estado poderia ceder essa verba à União, com carta de crédito, por exemplo, durante os próximos 20 anos. Seria alternativa à privatização ou à federalização. Outras alternativas podem surgir.”

Andrada também critica a proposta do governo estadual por permitir a negociação geral e irrestrita de praticamente todo o patrimônio do estado — sem limite claro — autorizando alienações “agora, depois ou no próximo governo”. João Batista Soares, vice-presidente do Sinfazfisco, resume: “Zema quer superpoderes para vender tudo e fazer um leilão do estado”. Ele destaca a falta de diálogo do governo com a União sobre avaliação dos ativos, o que, na visão dele, demonstra a intenção de obter um “cheque em branco”.

Na prática, o objetivo aparente é entregar as estatais ao capital privado, desmontar o serviço público, gerar demissões e reduzir a qualidade dos serviços, como se observou em processos de privatização na Sabesp, na CPTM e na Cedae. Ao omitir a avaliação real das empresas, Zema busca autorização para transferir ou vender um volume de ativos muito maior do que o estritamente necessário, favorecendo empresários aliados e oferecendo o patrimônio público a preço de banana — exatamente o que consideramos um projeto entreguista e autoritário.

Romeu Zema quer calar a boca do povo mineiro

Parlamentares durante votação da pec 24/23 - Foto:illian Dias/ ALMG
Parlamentares durante votação da pec 24/23 – Foto:illian Dias/ ALMG

A Copasa é uma empresa de economia mista com o estado como acionista majoritário (50,04%). Sua subsidiária Copanor atende localidades dos vales do Jequitinhonha, Mucuri e São Mateus, com populações entre 200 e 5.000 habitantes. Juntas, Copasa e Copanor atendem cerca de 11,4 milhões de pessoas com abastecimento de água e 8,1 milhões com esgotamento sanitário. Segundo a companhia, a cobertura de água ultrapassa 99% e a de esgoto chega a 75%, índices superiores aos exigidos pelo novo marco do saneamento.

A Copasa operou sem aportes do estado e tem gerado lucro: de 2006 até março de 2020, distribuiu R$ 3,33 bilhões em dividendos; em 2024, foram R$ 752 milhões. Em setembro de 2020, o governo autorizou o BNDES a estudar a desestatização da companhia.

No entanto, a privatização depende de lei específica da ALMG e de referendo popular, conforme o artigo 14 da Constituição Estadual. A PEC 24/23, de autoria do governador, elimina a exigência de consulta popular e o quórum qualificado para autorizar a desestatização ou federalização de estatais — alteração que ficou conhecida como “PEC do cala boca”.

A proposta representa um ataque à democracia: a consulta popular foi incluída na constituição mineira em 2000, após a venda da Vale do Rio Doce, como mecanismo de proteção do patrimônio público. Agora, o governo alega resolver a dívida, mas a privatização da Copasa não soluciona o problema fiscal do estado. Remover o referendo não é uma questão técnica; é uma afronta ao direito da população decidir sobre ativos públicos.

A experiência de estados que privatizaram serviços essenciais mostra quedas na qualidade, precarização, aumento de tarifas, falta de planejamento e redução de investimentos estruturais, além de demissões. Isabella Mendes, economista do Movimento Brasil Popular, lembra que água e energia são monopólios naturais e devem permanecer sob controle público.

Mesmo estimativas otimistas sobre a venda da Copasa não cobririam três meses da folha salarial do estado. O Sindágua-MG denunciou que, entre 2021 e 2024, a empresa perdeu quase mil trabalhadores. “A Copasa poderia resolver os problemas de saneamento em todo o estado, mas está sendo desmontada”, alerta Wagner Xavier, dirigente da entidade.

Para o presidente do sindicato, Eduardo Pereira, “a Copasa cumpre papel social fundamental, especialmente em regiões pobres e de baixa densidade, onde o setor privado não atua. A água é um direito, não uma mercadoria.”

Zema, o entreguista

Em 5 de novembro de 2025, a ALMG teve o plenário ocupado por trabalhadores da Copasa e da Cemig, movimentos populares (como a UP Minas Gerais) e sindicatos. Em uma sessão conturbada, a proposta que retira a obrigatoriedade do referendo foi aprovada de forma contestada: a votação obteve 47 votos no tempo regulamentar (um a menos que os 48 necessários) e, segundos depois, o presidente da casa, Tadeu Leite (MDB), aceitou um voto após o encerramento do prazo. Deputados de oposição e manifestantes denunciaram irregularidade e gritaram “vergonha”; o Sindágua-MG anunciou ação judicial para anular a votação.

Traidores do povo

A oposição a esse ataque neoliberal é urgente e necessária. É preciso mobilizar todos que defendem uma sociedade digna e igualitária; enfrentar o autoritarismo e o entreguismo é tarefa coletiva.

A organização popular demonstrou força: milhares de trabalhadores, movimentos e entidades ocuparam o plenário e repudiaram o fim do referendo e as manobras do governo. Enquanto o governo opta pela submissão, escolhemos a luta e a resistência. A privatização sem consulta popular é um passo autoritário que ameaça o acesso universal e igualitário à água e ao saneamento.

A Copasa é do povo e o povo deve decidir seu futuro. Minas não está à venda. Minas resiste — e vai continuar resistindo, com a população nas ruas, defendendo o que é nosso por direito.

Massacre da Penha escancara terrorismo do Estado contra povo trabalhador nas favelas do Rio

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A equipe de reportagem do jornal A Verdade esteve na Penha, no Rio de Janeiro, onde aconteceu o maior massacre policial da história recente do Brasil, no dia 28 de outubro, na chamada “Operação Contenção”. Conversamos com as pessoas sobre como a comunidade está reagindo a esta chacina e como vivem os mais de 180 mil moradores das 13 favelas que compõem a região. Por motivos de segurança, alguns entrevistados não quiseram se identificar ou permitir o uso de fotos. As fotografias que ilustram esta edição do jornal são de Bruno Itan, morador de comunidade no Rio que se dedica a registrar o quotidiano das favelas cariocas.

Rafael Freire e Felipe Annunziata, da Redação


“Eu não dormi, estou acordada até agora, porque os corpos estão sendo deixados na praça aqui perto de casa. Não para de chegar gente morta, e os familiares gritando quando alguém é reconhecido. Torturaram muito as pessoas que estavam na mata. Tem gente faltando um pedaço da cabeça, do rosto, os dedos quebrados, perna pendurada. Teve um menino de 11 anos que foi reconhecer o corpo do pai. Quando ele viu o pai todo desfigurado, ele se jogou em cima do corpo e ficou gritando: ‘Meu pai! Meu pai! Meu pai!’. E a irmãzinha dele, de quatro anos, perguntando: ‘É meu pai?’.”

“Eu tô em choque. Até nove horas da noite, a gente escutava tiro. Os policiais passaram na frente da minha casa arrastando um menino já morto. Foi horrível. Ficou um rastro de sangue na rua. De manhã, a vizinhança se juntou para lavar a rua. Uma tristeza.”

Relatos enviados por moradoras da Penha ao jornal A Verdade logo após o massacre.


BRASIL – Na Praça São Lucas, onde mais de 70 corpos ficaram expostos no último dia 29 de outubro, num espetáculo sinistro, chama atenção o letreiro “Creche Comunitária do Parque Proletário da Penha”. Na pequena quadra, em frente, algumas crianças, ainda com uniforme da escola, jogavam bola. A circulação de mototáxis é frenética, pois é o único meio de transporte que chega a certas áreas dos morros.

A região, no coração da Zona Norte carioca, encravada na Serra da Misericórdia, possui a icônica Igreja de N. Sra. da Penha e um comércio agitado, mas sempre foi tratada como quartel general das facções criminosas. É sob este “argumento” que sucessivos governos atacaram aquelas comunidades como se estivessem invadindo um território inimigo.

Mas o chamado “domínio territorial” do tráfico convive lado a lado com o domínio do Estado. O transporte coletivo circulava, os agentes de saúde da família atendiam as pessoas e os agentes de limpeza recolhiam o lixo na caçamba. No acesso para cada um dos lados do morro, barricadas com barras de ferro e pneus mostram que o controle das facções é uma espécie de controle adicional ao que o Estado já exerce sobre as famílias trabalhadoras.

Chacinas há 30 anos

O Massacre da Penha foi o pior já ocorrido, totalizando 121 mortos. Destes, 117 são considerados “suspeitos” pela polícia (todos homens, entre 20 e 30 anos) e quatro eram agentes policiais. Apesar de ter contado com cerca de 2.500 militares, a dita operação não conseguiu prender nenhum líder de facção criminosa. Mesmo assim, o governador fascista Cláudio Castro (PL) classificou o massacre como um “sucesso”, provavelmente comemorando o fato de ter aplicado, na prática, a pena de morte sem qualquer amparo na legislação brasileira.

Mas essa não é uma realidade nova para os moradores dos chamados Complexos da Penha e do Alemão. De longe, as favelas daquela região da capital fluminense são as mais atacadas por forças militares do Estado. Nos últimos 30 anos, foram nove chacinas policiais registradas, e, das 10 maiores chacinas do Rio, seis ocorreram no Alemão ou na Penha. 

O governador Cláudio Castro tem nas chacinas sua principal marca. Segundo o Instituto Fogo Cruzado, que recolhe informações sobre tiroteios, domínio de territórios e dados sobre a violência urbana no Brasil, durante seus mais de cinco anos de governo, quase 900 pessoas foram assassinadas em operações policiais.

No Rio, “operação policial” é sinônimo de morte e também de campanha eleitoral. Desde o fim da ditadura militar fascista, a direita e a extrema-direita usam a execução de pessoas como meio para ganhar votos e redesenhar o mapa eleitoral do estado. Não é verdade que os governos não tenham controle desses territórios. Durante as eleições, apenas os candidatos de direita e fascistas podem fazer campanha eleitoral abertamente nas favelas, enquanto que os candidatos de esquerda são expulsos ou têm sua campanha muito limitada.

Ao atacar o Comando Vermelho, um ano antes das eleições, o governador do Rio busca garantir a consolidação de outros grupos criminosos na cidade, mais próximos da sua base política, especialmente as milícias. Não é por acaso que Castro anunciou mais dez operações contra o CV até o fim do ano que vem.

Sobre o massacre

O que chocou no massacre de 28 de outubro foi sua extensão e brutalidade. Cabeças e membros decepados a golpes de facão, corpos pendurados em árvores, sinais de tortura e execuções sumárias. Quando nossa reportagem chegou ao conjunto de favelas, era visível o clima de tensão em meio às atividades do dia a dia.

“O sentimento é de revolta. Eles não tinham direito de matar e penalizar esses jovens sem julgamento. Dá medo também porque eles anunciaram que vão voltar. Você fica como? À noite, ninguém fica sentado na calçada. Não sabemos o que vai acontecer daqui a 5 minutos ou daqui a 5 dias”, afirmou a professora Christiane Germano, 53 anos, conhecida como Tite, nascida e criada no Morro do Serrano, umas das favelas da Penha.

Outro morador, Vilson Luiz, 45 anos, formado em administração, questiona as “pesquisas de opinião” sobre aprovação ou rejeição ao massacre e afirma: “Aquilo não foi operação, foi pra destruir, matar e assaltar. Aqui ninguém foi perguntado se aprovava ou não. Aqui ninguém é a favor disso!”.

“Não esperem de nós enaltecer a violência! Quando o Complexo da Maré é atingido, a gente também sente. Desta vez, foi aqui. Tivemos duas janelas de vidro quebradas. Uma bala perfurou uma delas e atingiu o espelho da sala de balé. A outra janela foi perfurada, atingindo uma televisão”. Quem nos conta é Albert, 49 anos, coordenador da ONG Arte Transformadora, que possui, além do balé, aulas de capoeira e violão, um estúdio para gravação de podcasts e uma biblioteca. “Tivemos que fechar por dois dias e, na volta, recebemos as crianças com rosas. Quando fomos conversar, elas perguntavam: ‘Tio, por que quebraram nosso espelho?’. Elas não entendem ainda, mas favelado já nasce resistente, com o couro grosso”, afirma.

A luta da comunidade

A comunidade possui diversos projetos e, por isso, os moradores também denunciam a abordagem preconceituosa da grande mídia. “Na TV, eles afirmam que a Serra da Misericórdia é um lugar de desova de corpos, mas quem fez isso agora foi a Operação. Aqui não é lugar de desova, de morte, é local de vida, de semear, de plantação, de colheita e de acolhimento. Temos um projeto de agroecologia que mobiliza cerca de cem mães, com seus filhos. Além de consumir os alimentos que elas mesmo cultivam, fazem refeições para vender e gerar renda”, relata Tite. E destaca: “As mulheres é que tomaram à frente nos protestos, no cuidado umas com as outras, porque sobra para quem é mãe, esposa ou filha desses meninos que foram mortos”.

Nossa equipe subiu o morro e foi até o projeto de agroecologia acompanhada por Vilson, que atua como guia turístico dentro das favelas no Rio. “Eu sou o garoto que, há 30 anos, nunca pegou em armas”, ele afirma. “A favela é um infinito de possibilidades, mas eles só querem mostrar o lado ruim. A Rede Globo exibiu uma reportagem no Fantástico onde eu apareço associado só ao massacre. Mas eu dei uma entrevista de mais de duas horas para a repórter, falando de tudo que tem aqui. Porque o Estado não fez nada para melhorar a favela depois da operação de 2010, então somos nós, os próprios moradores, que temos que nos organizar para resolver nossos problemas”.

De fato, apesar do apoio do governo e dos grandes meios de comunicação da burguesia à violência policial e à repressão contra o povo, já está provado que essa política não leva à diminuição da criminalidade. Ao contrário.

Porém, o que existe hoje é uma política institucionalizada de violência e racismo contra os trabalhadores, a juventude negra e o povo pobre. Essa política atende aos interesses das classes ricas e dos verdadeiros senhores do crime, que não estão nas favelas, mas nos bairros nobres, nos condomínios de luxo e nos espaços de poder do Estado.

Cabe ao povo organizado pôr fim à violência policial e à exploração dos patrões. Somente um governo que seja expressão do poder popular e do socialismo, que coloque a economia e todas as riquezas do país sob controle da classe trabalhadora porá um ponto final a essa rotina de morte e violência contra os moradores das favelas brasileiras.

Matéria publicada na edição nº325 do Jornal A Verdade.

Concentração de riqueza significa aumento da pobreza e do desemprego

Hoje, no Brasil, apenas seis pessoas detêm a mesma riqueza que metade da população, 100 milhões de pessoas. Enquanto a realidade dos trabalhadores é de endividamento e salários que não suprem as necessidades básicas.

Indira Xavier | Redação


EDITORIAL – No último mês de novembro, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dados sobre o desemprego no país. Considerando os índices do mês de setembro, 5,4% da população brasileira está desempregada. Mas a questão é: qual a condição dos 94,6% da população que é considerada empregada, segundo a pesquisa?

De acordo com o mesmo IBGE, 40% dos trabalhadores brasileiros não têm direito a férias, 13º salário, licença-maternidade, creche e trabalham sem registro em carteira. Mais: 16% trabalham de modo intermitente, ou seja, estão subocupados ou subutilizados, pois seus trabalhos são irregulares e, por isso, trabalham menos horas do que necessitam para sobreviver. 

Há, ainda, 4,3 milhões de trabalhadoras domésticas sem carteira assinada, condição igual a de 2,8 milhões de trabalhadores do setor público, além dos mais de 3 milhões que trabalham para aplicativos de entrega ou para plataformas digitais. Não podemos esquecer dos milhões de trabalhadores que sobrevivem como MEI, autônomos, por conta-própria, diaristas, fazendo bico, etc.

Ao analisar os dados disponibilizados pelo Ministério do Trabalho sobre os empregos formais gerados no ano de 2024, a realidade é que 72,5% estavam na faixa salarial de até 1,5 salário mínimo. Quando falamos de horas semanais trabalhadas, 47% dos trabalhadores têm jornadas superiores a 40h e 13,5% trabalham 48h ou mais por semana.

Essa realidade impõe à imensa maioria da classe trabalhadora brasileira condições degradantes de trabalho, marcadas por extensas jornadas e baixos salários. O desemprego e as péssimas condições de trabalho são uma condição própria do sistema capitalista, que não tem o menor interesse em desenvolver a sociedade e dar plenas condições de vida aos que tudo produzem, os trabalhadores.

Demissões e baixos salários

A concentração de riqueza é uma característica da fase imperialista do sistema capitalista e é marcada por um aumento da exploração da classe trabalhadora. No Brasil, 60% da população vive com até um salário mínimo, R$ 1.518, quando o necessário para suprir as necessidades básicas seria, segundo o Dieese, R$ 7.116,83, ou seja, quatro vezes mais. De fato, como comer, pagar aluguel, transporte, água e luz recebendo tão pouco? 

Dados do Caged, do Ministério do Trabalho, apontam que, em setembro, 213 mil postos de trabalho formal foram abertos, no entanto, esse número é 15,8% inferior ao do mesmo período de 2024, ou seja, menos empregos sendo gerados e mais demissões sendo realizadas para atender aos interesses dos capitalistas. Só o Itaú, o maior banco privado do país, que teve um lucro de mais de R$ 34 bilhões nos nove primeiros meses deste ano, demitiu mil trabalhadores no mês de setembro. Já a Nissan, importante montadora japonesa, que possui fábrica no Brasil, anunciou que demitirá 20 mil funcionários e fechará sete de suas 17 fábricas.

No setor público, muitos serviços e empresas foram privatizados nos últimos anos, o que, além de gerar um aumento nas tarifas cobradas, precarização e piora nos serviços ofertados à população, também foram responsáveis pela demissão de milhões de trabalhadores. A Eletrobras, por exemplo, uma das maiores empresas elétricas da América Latina (privatizada, em 2022, pelo criminoso Bolsonaro), já demitiu mais de 20 mil trabalhadores.

Economia dependente dos países imperialistas

O século 21 também marca uma profunda dependência da economia brasileira (embora seja a décima maior do mundo) ao capital estrangeiro. Quem dita as regras da produção e do consumo são os bilionários, e não as necessidades do povo trabalhador. Prova disso é que apenas quatro trades, conhecidas como ABCD, financiam, compram, armazenam, transportam, vendem e especulam, ou seja, controlam todos os alimentos no mundo.

Logo, mesmo havendo produção de alimentos suficiente para matar a fome, que ainda atinge milhões de lares no Brasil, é a especulação financeira que determina o que será produzido. Por isso, os economistas burgueses estão mais preocupados em pressionar o governo para que ceda aos EUA e a Trump na chamada guerra tarifária, do que em mostrar que se o governo baixasse as tarifas e subsidiasse os pequenos agricultores (visto que 70% da comida que se consome aqui vem da agricultura familiar), não faltaria comida na mesa do brasileiro.

Para piorar, o Brasil mantém em bancos estadunidenses reservas de R$ 2 trilhões do dinheiro público brasileiro, mesmo recebendo juros mais baixos por essas reservas. Os governos daqui fazem isso para manter a economia dos EUA, em detrimento das necessidades do povo brasileiro. Se usássemos esse montante para construir moradias populares, seria possível construir mais de 13 milhões de casas, ou seja, daríamos fim ao déficit habitacional que é, segundo a Fundação João Pinheiro, de cerca de 6 milhões de moradias, além de gerar milhões de empregos.

Além disso, sucessivos governos vêm impondo um teto nos investimentos públicos e, com isso, ano após ano, o orçamento para áreas essenciais, como saúde, educação e moradia, é reduzido. Porém, nenhum deles deixa de pagar a dívida pública brasileira, que hoje consome 44% do orçamento, ou seja, quase R$ 2 trilhões por ano. Tudo isso é feito para atender aos interesses dos bancos “nacionais” e internacionais, à custa do endividamento de mais de 78 milhões de brasileiros devido aos juros abusivos.

Por isso, cresce a concentração de renda no Brasil: atualmente, apenas seis indivíduos detêm a mesma riqueza que metade da população, 100 milhões de pessoas. Mas a burguesia nunca vai dizer que ela mesma é a responsável por tanta desigualdade. Sempre vai jogar sobre as costas da classe trabalhadora a responsabilidade.

Os ricos concentram mais capital em suas mãos à medida em que os diversos ramos da produção industrial se incrementam com novas máquinas para produzir mais mercadorias em menos tempo. Isso aumenta a mais-valia (o lucro dos capitalistas) e, ao mesmo tempo, a exploração dos trabalhadores. Contraditoriamente, como já vimos, a realidade da classe trabalhadora é apertar o cinto mês a mês, pois os salários são insuficientes, o endividamento é enorme e os produtos estão cada vez mais caros.

Um Programa para libertar o povo da exploração

Ao perceber os reais motivos da vida ser tão difícil, o povo, a classe trabalhadora, não tem outra alternativa a não ser construir as bases de sua libertação, desenvolvendo lutas que desmascarem os interesses dos ricos e seus governos.

Assim, lutas contra a escala 6×1, as greves dos servidores e estudantes por mais verbas no orçamento público, as lutas pelo direito à moradia e à comida no prato, a defesa da natureza, etc., têm sido cada vez maiores em nosso país e no mundo. Da mesma forma, as lutas contra o racismo e a xenofobia e contra as guerras imperialistas e o genocídio do povo palestino.

No entanto, para serem efetivas, tais lutas, além de mobilizar a classe trabalhadora, precisam apresentar um Programa verdadeiramente revolucionário e que se proponha às políticas neoliberais, ou seja, um Programa com medidas para pôr fim ao sistema de fome, miséria e guerras que é o capitalismo e que, em seu lugar, apresente a construção de um governo revolucionário da classe trabalhadora: o socialismo

Nesse sentido, medidas como a socialização de todos os monopólios e consórcios capitalistas são fundamentais para que haja a planificação da economia. Também a nacionalização das terras e uma efetiva reforma agrária para atender às necessidades dos camponeses pobres e de toda a classe trabalhadora.

Não podemos deixar de defender a nacionalização dos bancos, pois, só assim, será possível assegurar que as riquezas nacionais fiquem no nosso país e estejam a serviço do povo, bem como a efetiva implementação dos impostos progressivos (quem ganha mais, paga mais).

Para não sermos alvos dos ataques e da reação dos burgueses destronados, é necessário ainda democratizar os meios de comunicação, colocando-os sob o comando público, e não privado. Por fim, reestatizar todas as empresas públicas brasileiras que foram vendidas a preço de banana.

Essas e outras medidas são essenciais para defendermos a efetiva soberania nacional e a independência econômica desta Nação, que é tão rica, e proporcionar ao povo brasileiro uma vida de paz e prosperidade, em vez de colocar todo o seu potencial a serviço de uma minoria de parasitas capitalistas. 

É urgente uma revolução das classes exploradas para pôr abaixo o capitalismo e, em seu lugar, construir o socialismo!

Editorial publicado na edição nº326 do Jornal A Verdade.

Bolsonaro e generais golpistas são presos antes de fugirem da Justiça

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O ex-presidente Jair Bolsonaro e os generais golpistas foram presos pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.

Heron Barroso | Redação


BRASIL – No último dia 22 de novembro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes determinou a prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro, anteriormente condenado por chefiar a quadrilha que tentou dar um golpe de Estado no Brasil, anular o resultado das Eleições de 2022 e impor uma nova ditadura militar fascista no país.

A decisão foi tomada após a violação da tornozeleira eletrônica usada pelo ex-capitão, que cumpria prisão domiciliar em sua mansão de luxo em Brasília. Cinicamente, a defesa de Bolsonaro alegou um “surto psicótico”, supostamente causado pelo uso de remédios, para tentar encobrir que, na verdade, tratava-se de uma tentativa de fuga para evitar o cumprimento da pena de 27 anos de cadeia. Típico de um covarde. 

Dias depois, em 25 de novembro, os generais Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), e Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa, o almirante Almir Garnier, ex-comandante da Marinha, e Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, também foram presos pela Polícia Federal após o fim do prazo para apresentação de recursos ao julgamento do chamado “núcleo crucial” da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Eles se juntarão ao general Braga Netto, que está preso desde dezembro de 2024, no Rio de Janeiro. O ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e atual deputado federal, Alexandre Ramagem (PL), também teve sua prisão decretada, mas fugiu para os Estados Unidos como um rato e é considerado foragido pela Justiça. 

Essa é a primeira vez, no Brasil, que golpistas – entre eles membros da cúpula das Forças Armadas – são presos por atentarem contra as liberdades democráticas. Essa vitória só foi possível graças às denúncias, manifestações, protestos e lutas travadas nos últimos anos pelo povo brasileiro e é uma prova de que as massas podem derrotar o fascismo.

Sem mordomias para criminosos

Apesar de condenados pelo STF, os militares envolvidos na trama golpista ainda devem passar por julgamento na Justiça Militar, que decidirá se perderão – ou não – seus postos e patentes.

Entretanto, mesmo que isso aconteça, Bolsonaro e os generais presos seguirão recebendo fartas pensões, que, somadas, chegam a R$ 2 milhões por ano. O general Augusto Heleno, por exemplo, recebe mais de R$ 38 mil por mês, enquanto Bolsonaro acumula duas pensões: uma de R$ 12.861,61, do Exército, e outra de R$ 30.265,00 como ex-deputado, além de um salário de cerca de R$ 40 mil do seu partido, o PL, pago com recursos do Fundo Partidário.

Ou seja, apesar de todos os crimes que cometeu, o ex-capitão vive uma vida de marajá paga com recursos públicos, além de ficar numa cela especial, com TV, ar-condicionado e frigobar, enquanto o trabalhador brasileiro sofre para pagar aluguel, recebe um salário mínimo de apenas R$ 1.518,00 e, desde a reforma da Previdência, em 2019, é proibido de acumular integralmente pensões e aposentadorias. 

Prisão para todos os fascistas

A luta contra o fascismo continua.

Além de pagarem todos os anos de cadeia a que foram condenados e deixarem de receber um tratamento de luxo, é preciso que os cúmplices do ex-capitão no Centrão, entre a grande burguesia e nas Forças Armadas também respondam – um por um – por todo o mal que fizeram ao povo e à Nação.

Jamais iremos esquecer, anistiar ou perdoar a morte dos mais de 700 mil brasileiros durante a pandemia de Covid-19, as centenas de crianças indígenas que perderam suas vidas abandonadas pelo governo fascista, a corrupção, o orçamento secreto, os direitos sociais retirados, a humilhação da fome e do desemprego. 

Por tudo isso, seguiremos em busca de justiça!

Matéria publicada na edição nº326 do Jornal A Verdade.

Racismo e capitalismo tiram bilhões todos os anos do povo negro

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O racismo promovido pelo capitalismo custa bilhões ao povo negro todos os anos, valor que deixam de receber por não terem a mesma remuneração que pessoas brancas exercendo as mesmas funções.

Rafael Figueira | Rio de Janeiro


BRASIL – O Brasil figura entre as dez maiores economias do planeta. É o sétimo país mais rico do mundo e o único entre os dez com maioria de população negra. No entanto, essa riqueza contrasta com uma realidade brutal: o país ocupa o posto de segunda nação mais desigual do planeta, dividindo o topo do ranking com países muito mais pobres, a maioria deles africanos.

Nosso país foi invadido por colonizadores portugueses em 1500 e viveu mais de 350 anos de escravidão legalizada. Isso significa que, de cada dez anos da nossa história, sete foram marcados pela escravização de pessoas negras.

As consequências desse período ainda determinam as oportunidades, a renda e a presença da população negra em diversas áreas sociais e profissionais.

Racismo custa bilhões ao povo negro

No fim de março de 2025, um relatório do Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (CEDRA) trouxe novos números que ajudam a entender os impactos de séculos de violência e discriminação sobre a população negra.

Segundo o levantamento, a desigualdade racial promovida pelo sistema capitalista custou aos trabalhadores negros cerca de R$ 103 bilhões em 2025, valor que deixaram de receber por não terem a mesma remuneração que pessoas brancas exercendo funções idênticas. Um exemplo gritante está no trabalho doméstico: uma trabalhadora negra recebe, em média, 86% do salário pago a uma trabalhadora branca na mesma função.

O relatório destaca que a política pública mais importante para reduzir desigualdades foi a Lei de Cotas, de 2012. Em 2025, pela primeira vez, as universidades públicas terão metade dos seus estudantes negros e pardos.

Apesar do avanço, o impacto na renda ainda é tímido. Em 2012, a renda média de uma pessoa negra correspondia a 57,8% da renda de uma pessoa branca. Em 2020, mesmo com 13 anos de cotas, esse número subiu para apenas 59%. Mantido esse ritmo, a equiparação salarial só acontecerá em 2365.

Além disso, a presença negra ainda é majoritária em profissões como carpintaria, serviços domésticos, limpeza e mineração, enquanto cargos como juízes, arquitetos, médicos, engenheiros e economistas continuam predominantemente brancos.

Mesmo assim, as políticas de ação afirmativa seguem sendo alvo constante de ataques da extrema direita e das elites econômicas – os mesmos setores que sempre apoiaram a chegada de imigrantes europeus e asiáticos ao país, inclusive com políticas públicas, com o objetivo de embranquecer a população brasileira.

Mulheres negras chefiam lares

Em 2012, a maioria dos lares brasileiros era chefiada por homens. Em 2025, o cenário mudou: 51% das casas são chefiadas por mulheres, sendo 29,6% por mulheres negras e 21% por mulheres brancas.

Os lares liderados por mulheres negras, porém, enfrentam os maiores desafios: maior índice de gravidez na adolescência, moradias em áreas de risco e maior vulnerabilidade à mortalidade infanto-juvenil causada pela violência. Essas mulheres também lideram as estatísticas de desemprego: 15% estão desempregadas, em contraste com 7% dos homens brancos.

Outro dado relevante é a queda no número de lares interraciais. Atualmente, 42% das casas são compostas apenas por pessoas pretas e pardas, e 34% apenas por pessoas brancas. Pesquisadores levantam duas hipóteses para isso: pode haver uma maior consciência racial entre pessoas negras, estimulando relacionamentos dentro do grupo, ou um avanço do racismo e do higienismo na sociedade brasileira.

Só a luta pode vencer o racismo

O relatório do CEDRA aponta importantes propostas para enfrentar a desigualdade racial no Brasil. A desmilitarização das polícias militares aparece como uma das principais medidas estruturais, apontando a necessidade de transformar um dos instrumentos históricos de violência contra a população negra.

Também defende o fim da escala de trabalho 6×1, herança da lógica escravocrata, além da ampliação das políticas afirmativas, tanto no acesso ao ensino superior quanto nos concursos públicos. Outro ponto fundamental é a expansão de programas de moradia popular, com foco especial em garantir condições dignas para as famílias negras que vivem nas periferias.

Essas medidas, segundo o relatório, confirmam a importância da luta popular organizada, a exemplo das ocupações do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), das ações da Unidade Popular (UP), da Frente Negra Revolucionária (FNR) e do Movimento Luta de Classes (MLC) nas ruas, favelas, shoppings e mercados contra a exploração capitalista.

A história mostra que nenhuma conquista do povo negro veio sem luta. Foi a organização popular que derrotou a escravidão legalizada, que resistiu à ditadura militar, que derrotou o governo Bolsonaro e que enfrentou inúmeras políticas racistas ao longo dos séculos. Será com luta que conquistaremos uma sociedade sem racismo e capitalismo, a sociedade socialista. 

Matéria publicada na edição nº325 do Jornal A Verdade.