UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

domingo, 1 de fevereiro de 2026
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Nasce a ocupação Sala de Enfrentamento à Violência Walkiria Afonso Costa na UFMG

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Estudantes ocupam sala na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em jornada de luta pela Eliminação da Violência Contra a Mulher. Walkiria Afonso Costa, presente!

Lua Plaza, Paula Dornelas | Belo Horizonte – MG


 

MULHERES – No dia 25 de novembro, dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher, estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em conjunto com o Movimento de Mulheres Olga Benario e o Movimento Correnteza, ocuparam uma sala no Campus Pampulha da UFMG, em Belo Horizonte. A ação denuncia a falta de políticas efetivas de combate e enfrentamento à violência na universidade, bem como reivindica a criação de espaços de acolhimento para mulheres vítimas de violência nos campi, com acompanhamento técnico qualificado.

Além da exigência à universidade, a ocupação se dá em um dos espaços mais masculinizados da universidade, o Instituto de Ciências Exatas — ICEX, denunciando também o machismo presente, que se reproduz de forma estrutural. Também nesse prédio, há quase 1 ano, a diretoria mantém a sala do Diretório Acadêmico fechada, sob a premissa de ‘diminuir espaços de insegurança’, depois de abafar um caso grave de violência ocorrido nesse mesmo espaço, como aponta Manifesto produzido pelo Movimento para apresentar as reivindicações da Ocupação.

Organização e mobilização

Diante deste cenário, ao longo do ano, o Movimento de Mulheres Olga Benario iniciou a campanha “Queremos estudar sem medo”, denunciando os casos de assédio e a inércia da instituição, além de organizar as estudantes para lutar por mais direitos na UFMG.

A primeira ação foi a criação de um formulário sobre a percepção da segurança das mulheres que utilizam nos campi, divulgado pelas redes sociais, com cartazes e lambes nos prédios das faculdades. Com essa pesquisa preliminar, o movimento Olga conseguiu averiguar que 80% das mulheres — estudantes, trabalhadoras ou transeuntes — que frequentam os campi, não se sentem seguras, ou se sentem apenas parcialmente seguras nos espaços da UFMG. Além disso, 56% dessas mulheres já sofreram assédio nos campi, e apenas 16,5% denunciaram a violência sofrida.

O núcleo do Movimento Olga também produziu o “Manual da Caloura na Luta Contra o Assédio”, que ensina o passo-a-passo de como denunciar na Universidade através do canal da Ouvidoria ou acionando outros equipamentos, como delegacias especializadas no atendimento à mulher.

Grupo de estudantes sentados em roda no pátio da UFMG durante a ocupação.
Estudantes reunidas no pátio da UFMG durante a ocupação.

A partir desse contato cotidiano com as mulheres nos campi, militantes do movimento Olga receberam inúmeras denúncias de casos de assédio, que foram encaminhadas para o acolhimento técnico voluntário da Casa de Referência da Mulher Tina Martins, uma ocupação também construída pelo Movimento Olga, que acolhe mulheres em situação de violência em Belo Horizonte desde 2016.

Como resultado da organização coletiva, em 25 de novembro de 2025, o movimento inaugurou sua ocupação, apresentando uma lista de reivindicações. Entre elas estão: criação de um espaço institucional de acolhimento para mulheres vítimas de violência de gênero, reabertura da sala do DA, criação de uma política de ocupação dos campi.

Ocupar os campi por uma universidade mais segura

A UFMG tem investido cada vez mais em estratégias de isolamento dos seus campi, com a instalação ostensiva de catracas, a proibição de eventos recreativos propostos pelas entidades estudantis e até mesmo eventos construídos por movimentos sociais são muitas vezes censurados pela instituição.

Ao contrário do que se pode imaginar, impedir a circulação de pessoas nos campi não aumenta a segurança daqueles que precisam frequentá-lo: pelo contrário, cria espaços ermos e, no caso da UFMG, escuros e isolados, onde as pessoas estão mais sujeitas a violência, já a circulação livre e estimulada de pessoas nos espaços públicos é um mecanismo de vigilância natural e prevenção.

Faixas penduradas no local da ocupação na UFMG, incluindo mensagens contra a violência, o fascismo e a fome, e defesa da Palestina livre
Faixas e bandeiras fixadas no espaço ocupado na UFMG.

Walkiria Afonso Costa, presente!

A ocupação carrega o nome de Walkiria Afonso Costa, estudante de pedagogia da UFMG, lutadora popular e guerrilheira no Araguaia durante a ditadura militar. Sua história de resistência é inspiração para a luta!

Leia o Manifesto na íntegra clicando aqui.

Empresário assassina jovem negro trabalhador da Teleperformance em Natal (RN)

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Em um criminoso ato racista, o jovem João Victor, de 23 anos, foi assassinado por um empresário que dirigia um veículo, porque teria o “confundido” com um asssaltante.

Redação RN


Na sexta-feira, dia 07, próximo às 23H30, João Victor, um jovem negro trabalhador da Teleperfomance, empresa de telemarketing localizada em Emaús (Parnamirim), estava voltando para casa com seu pai em uma moto quando foi atropelado por uma caminhonete repentinamente.

Douglas, um empresário proprietário de uma pizzaria, é o único e principal suspeito que teria perseguido e jogado o carro por cima do pai e do filho que voltavam do trabalho, alegando ter confundido os dois com bandidos. Após o atropelamento, o suspeito teria revistado as vítimas feridas ainda no chão.

Após o ocorrido, o empresário tentou fugir, mas foi contido por pessoas que presenciaram o acontecimento. João Victor trabalhava na Teleperformance nos últimos horários do dia (fechamento), no produto TAP (TAP Air Portugal), empresa de atendimento para viagens aéreas.

Ao falar com trabalhadores da Teleperformance, e da mesma operação, fomos informados que não houveram comunicados oficiais nem informais. Após a perda, a empresa manteve em funcionamento normal, amigos que trabalhavam precisaram voltar a trabalhar normalmente, mesmo com a ausência de João Victor.

A multinacional que esbanja modernidade e direciona campanhas de vagas de trabalho entre os jovens, é famosa entre os trabalhadores pela jornada exploratória, constantes assédios e abusos que apesar de denunciados, são silenciados.

IMPUNIDADE

Ao ser procurada pela imprensa local, a polícia civil não se declarou, porém foi aberto um boletim de ocorrência por agentes de transporte e trânsito (STTU), categorizado como acidente de trânsito e não tentativa de homicídio motivada por racismo (A real situação).

O ocorrido entra como mais uma estatística de morte da população negra, que por sua vez foi silenciada. O caso lembra o assassinato de Barbara Nascimento, assassinada pela policia no dia 12 de Abril desse ano. Assim como ela, João Victor era trabalhador sob a escala 6×1, apesar de todo o esforço para proporcionar uma vida digna para sua família, foram brutalmente assassinadas pela política de morte que o capitalismo proporciona à população negra.

Assim como o caso de Bárbara e tantos outros no estado e no país, até o momento não houve punição aos seus assassinos. Casos como esses, se somam a um histórico de impunidade, lutar pela memória e pela justiça é um direito da família e amigos. 

Infelizmente a posição de João Victor será substituída como se fosse uma ferramenta e não um ser humano. Um trabalhador jovem foi assasinado apenas por que era negro e estava em uma moto com seu pai, não descansaremos até que haja justiça, reparação e paz.

O povo do DF e o preço de manter Brasília de pé

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Todos os dias, milhares de brasilienses saem cedo das cidades satélite para trabalhar no Plano Piloto, enfrentando ônibus lotados, calor e horas perdidas no trânsito, sem transporte digno ou atenção do governo.

Bárbara Calista- DF

Desde a construção de Brasília, o povo trabalhador foi empurrado para longe do centro, confinado nas chamadas “cidades satélite”, hoje conhecidas como regiões administrativas. Mas são justamente essas pessoas que precisam estar no Plano Piloto antes das 8h da manhã para garantir que a cidade funcione.

O resultado dessa lógica é visível. O trânsito do Distrito Federal está cada vez mais caótico e isso reflete diretamente na qualidade de vida da população. Em Planaltina, por exemplo, o trajeto até o Plano Piloto pode variar de 40 minutos à 2 horas. Atualmente, com as obras da terceira via na BR-020, muitos levam cerca de uma hora apenas para conseguir sair da cidade, consequentemente, diminuindo as horas de descanso dessas pessoas. O recado do governo Ibaneis é claro: quem quiser trabalhar que vá de carro, mesmo que o transporte individual seja inacessível para a maioria e o transporte público siga em total abandono.

A cada dia, o povo trabalhador enfrenta um novo desafio para chegar ao emprego. Faltam ônibus, os veículos quebram com frequência, não há ventilação adequada e, durante a seca, é comum passageiros passarem mal. Conseguir um assento virou privilégio, mesmo para quem passa o dia inteiro em pé no trabalho.

De acordo com o IBGE, o Distrito Federal está entre as regiões onde as pessoas demoram mais para chegar ao trabalho. Isso não é coincidência! É consequência de uma gestão que governa para os mais ricos! 

Ibaneis é inimigo do povo!

Enquanto se recusa a investir em transporte público de qualidade, Ibaneis planejava gastar R$ 2 bilhões de reais em dinheiro público na compra do Banco Master, empresa em grave crise financeira do banqueiro Daniel Vorcaro. Imagine se esse dinheiro fosse usado para melhorar o transporte, a saúde e a educação do povo brasiliense.

Brasília nunca foi pensada para o povo, e o governo atual não demonstra interesse em mudar isso. É urgente enfrentar a máfia dos transportes e investir em ônibus de qualidade, com rotas que realmente atendam à realidade da população. Construir novas vias pode ser importante, mas sem planejamento estratégico e sem foco em soluções coletivas, a desigualdade só aumenta.

O povo do DF merece um transporte digno, acessível e humano. 

A importância da formação política e ideológica para a juventude

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A construção de uma sociedade socialista exige mais do que apenas a nossa vontade, mas exige a fusão consciente entre a teoria revolucionária e a ação prática.

Jesse Lisboa | Recife (PE)


JUVENTUDE – O marxismo-leninismo tem como objetivo a libertação da classe trabalhadora e a superação da exploração do homem pelo homem. Essa ideologia promove a consciência coletiva e a solidariedade entre os oprimidos, colocando a classe trabalhadora acima dos interesses individuais. É a ideologia que desperta a consciência sobre as injustiças sociais e motiva a lutar por uma nova forma de viver, uma nova sociedade: a sociedade socialista.

O estudo das doutrinas de Marx, Engels, Lênin e Stálin oferece à juventude instrumentos para analisar e resolver os problemas da vida política e pessoal sob uma perspectiva revolucionária, ao mesmo tempo que orienta a luta contra a influência da ideologia burguesa, fortalecendo a moral comunista e despertando energia e entusiasmo pela vitória do socialismo.

Lênin, líder da Revolução Socialista de Outubro de 1917, em seu discurso para a juventude comunista da Rússia, coloca que a tarefa fundamental da juventude comunista é aprender. Mas aprender não utilizando o método da “velha escola”, aquela com ensino mecânico e desvinculado da realidade, mas sim aprender no sentido de assimilar criticamente a soma dos conhecimentos humanos e unir a teoria à prática.

Unindo teoria e prática

A teoria não sobrevive sem atuação política e, ao mesmo tempo, a ação sem direção ideológica se torna vazia. É nessa união que se formam revolucionários capazes de intervir com consciência na sociedade.

Para um comunista, o estudo individual não pode ser um ato isolado, mas deve dialogar constantemente com a realidade em que vivemos e ser o alicerce para a ação prática. É por meio do estudo e da discussão coletiva em cada reunião que garantimos a nossa unidade política e ideológica.

Vivemos um tempo em que governos reacionários e correntes reformistas se esforçam para apagar a memória e a teoria da revolução. Precisamos estar vigilantes na influência que essas ideias tomam na sociedade. Muitas vezes disfarçadas de ideias progressistas, esses desvios servem apenas para ofuscar o movimento revolucionário. Nossa resposta a isso deve ser firme: assumir a responsabilidade de estudar profundamente o marxismo-leninismo, realizar agitação e propaganda do socialismo e principalmente levar à prática tudo que aprendemos para impulsionar as lutas da classe trabalhadora.

Sobre a moral comunista

A vida do Che foi o reflexo de suas convicções. Para ele, o espírito de sacrifício era a base da moral comunista e o alicerce para a formação de um novo ser humano. Ele demonstrava isso na prática, ao tomar para si as missões mais difíceis e ao se colocar sempre na vanguarda do esforço coletivo, sendo o primeiro a iniciar qualquer tarefa.

A moral comunista deriva da luta de classes do proletariado, assim, a juventude deve se educar através do trabalho consciente e disciplinado em prol de uma causa comum. Um grande exemplo desse trabalho consciente pode ser demonstrado nas jornadas de trabalho voluntário da UJR “Seremos como Che!”.

A construção dessa moral é indissociável de um profundo e contínuo trabalho de formação ideológica. Não se trata de uma qualidade inata, mas de uma consciência adquirida através do estudo disciplinado da teoria revolucionária e da análise crítica da realidade.

Ao mergulhar nas obras clássicas do marxismo-leninismo e nas experiências históricas do movimento operário, o militante desenvolve a capacidade de enxergar o mundo para além das aparências, compreendendo as contradições do sistema capitalista e fortalecendo sua convicção na necessidade de superá-lo.

Essa jornada de formação é, em si, uma batalha contra a hegemonia da ideologia burguesa, que se infiltra sutilmente no cotidiano, promovendo o egoísmo, o consumismo e o imediatismo. A moral comunista, em contrapartida, exalta a solidariedade, o coletivismo e o sacrifício em prol de uma causa maior. Ela exige uma vigilância constante contra o oportunismo, o comodismo e a preguiça intelectual, além dos vícios que enfraquecem a coesão dos nossos coletivos.

O militante comunista, portanto, torna-se um exemplo vivo dessa moral transformadora. Sua integridade, disciplina e coragem não são apenas traços de caráter pessoal, mas a manifestação concreta de seu compromisso político. A firmeza de suas convicções e sua dedicação à causa revolucionária inspiram e mobilizam a classe trabalhadora, demonstrando na prática que um novo tipo de ser humano é possível. E que a construção de uma nova sociedade, sem exploração, está cada vez mais próxima.

“A gente vê a diferença da força quando temos as mulheres participando das lutas”

O jornal A Verdade entrevistou Natália Lúcia Barbosa, coordenadora geral da Central dos Movimentos Populares em Pernambuco (CMP) e dirigente do MLB. Ela iniciou sua militância na União dos Estudantes Secundaristas de Jaboatão dos Guararapes (Uesj), onde militou no movimento estudantil secundarista, passando também pela Uespe, pelo processo de construção da Unidade Popular e pela recente jornada de ocupações promovidas pelo MLB em todo o país. Hoje, aos 34 anos, Natália fala sobre os desafios e as lutas de ser militante política, mãe e mulher da periferia.

Clóvis Maia | Recife (PE)


A Verdade – Como você conheceu os movimentos sociais e como foi o início da sua militância?

Natália Lúcia – Eu desenvolvi uma consciência mais política quando houve uma greve dos professores, ainda no ensino fundamental. Foram meses de greve em Pernambuco, e os professores convidavam os alunos para irem às assembleias do Sintepe. A gente se organizava, ia participar para conhecer como era. Pernambuco era um dos estados que pior pagava aos professores. Por meio de um amigo, em uma dessas assembleias, conhecemos a Uespe [União dos Estudantes Secundaristas de Pernambuco] e o movimento estudantil. Um companheiro começou a passar na minha escola, formamos o grêmio estudantil, começamos a participar de atos e manifestações e foi assim que eu fui me formando dentro da militância. Tudo começou com a luta dos professores.

Hoje você é mãe. De que maneira se tornar mãe ampliou seu olhar para a luta popular?

Quando a gente é solteiro, jovem, é mais fácil, né?! A gente tem mais tempo, tem mais condições de participar das lutas, das atividades, reuniões, assembleias. Quando a gente entra numa transformação de vida – porque ser mãe é uma transformação de vida –, a gente muda totalmente a nossa cabeça. Se a gente antes precisava do SUS, passa a precisar muito mais: pré-natal, vacina, acompanhamento médico, etc. E aí sente na pele mais ainda as dificuldades que passa o SUS, por exemplo.

Eu sofri muito pra conseguir uma vaga na creche pra minha filha, por exemplo. E na escola falta servidor, falta professor, tem que fazer rodízio de aulas. Às vezes, até três vezes na semana. Tem que pegar a menina mais cedo na creche.  Então, ter um filho nessa sociedade, acaba fazendo com que a gente abra mais o nosso horizonte, tenha a perspectiva como um todo. Porque aí não é só você.

E você lutar do lado de uma mãe é diferente quando você se torna mãe. Porque tudo na nossa vida vai precisar ser planejado. Desde a hora que a pessoa se levanta, se vai almoçar, se a criança vai estar na creche, se vai ficar doente. Então, é uma outra dinâmica que vai ser necessário construir e organizar no dia a dia.  Pra a gente poder manter nessa rotina de militância é muito mais difícil.

Quando observamos os movimentos sociais, em especial o de luta por moradia, vemos que é uma base geralmente formada por mulheres, mães, avós, trabalhadoras. Porém, ainda encontramos poucas lideranças de mulheres mães. Por que você acha que isso acontece?

Acho que acontece principalmente pela dificuldade de apoio, de estrutura. Porque as mulheres são, em maioria, quem vão atrás da luta pela casa para poder ter um canto para dizer que é seu, que o seu filho vai poder descansar, dormir. Mas, ao mesmo tempo, para ser uma liderança, normalmente as pessoas precisam ter tempo. Tempo para estudar, se reunir, participar das atividades. E vai precisar casar com a dinâmica da criança.

As mulheres que estão na base do MLB têm, muitas vezes, mais de uma criança. Têm também as mães de crianças atípicas, mulheres que cuidam dos seus pais mais idosos, que trabalham como diaristas ou em subempregos, mulheres que têm problemas psicológicos, que vivem em situação de violência dentro de casa e que não conseguem notar isso.

Essa sociedade é formada para que essas mulheres não enxerguem que podem mudar essa situação e que possam, mesmo naquele mínimo tempo que às vezes ela tem durante o dia, contribuir muito para sua própria formação e fortalecer o movimento. Porque a gente vê a diferença da força quando temos as mulheres participando das lutas. Quando levam suas crianças, elas não medem esforços para lutar. Então, é mais difícil para as mulheres que são mães pra gente parar, sentar e se concentrar, participar de uma reunião, de um estudo. São coisas que requerem atenção.

Eu acompanho mulheres que estão gestantes, que têm bebês pequenos, com poucos meses de vida, que têm outras crianças maiores e que se esforçam muito para estar duas horinhas numa reunião, para ajudar na leitura com o jornal A Verdade, que dispõem um pouco do seu tempo, mesmo cansadas, mas estão lá, na luta. Sem desistir.

E é com essa luta que a gente consegue puxar essas mulheres para sair, muitas vezes, de um relacionamento abusivo, para lutar por um emprego, pela sua moradia. E quando vem a conquista da moradia, é outra realidade que essa mulher vai ter com as suas crianças. Então, é um sonho que a gente luta para conquistar, mas, além disso, colocando na consciência dela que não vai ser só a casa que vai assegurar a sua vida como um todo e que a gente vai precisar continuar se organizando.

O que as organizações devem fazer para garantir a permanências dessas mulheres na luta?

Primeiro, eu acho que é preciso acolher. Quando a gente acolhe, dá uma oportunidade daquela mulher colocar suas dificuldades. Quando a gente conhece as dificuldades, enquanto coletivo, pode estudar quais seriam as melhores formas de poder organizar essa mulher, colocar e manter na luta. Às vezes, a mulher não consegue ir para uma reunião porque não tem com quem deixar o filho. E aí? A gente pode organizar uma creche.

Às vezes, é uma dificuldade econômica de trabalho. E, na maioria das vezes, é ter a paciência de compreender que a pessoa não tem o mesmo tempo que talvez o movimento ache que ela poderia ter. É uma hora, duas horas no dia, três horas, um turno, só uma vez na semana. Inclusive, o final de semana é o único tempo que ela tem livre para dar conta dos afazeres de casa ou para descansar. Ter um tempo com os filhos. É preciso ter empatia.

Dia 07 de setembro, o MLB organizou uma grande luta em todo o país, que foi a Jornada Nacional de Ocupações. Qual a importância de uma atividade como essa?

Quando a gente constrói uma ocupação, como foi o caso do 7 de setembro, a gente vê que é possível conquistar um sonho. E quando a gente levanta acampamento, enxerga ali, naquelas pessoas que estão trabalhando coletivamente, que o socialismo é possível. É na limpeza do espaço, fazendo a cozinha comunitária, a creche. A gente começa a aprender o real sentido da luta, o motivo que levou a gente a homenagear o povo da Palestina, por exemplo. Você compreende que a luta não é só na sua cidade, é no Brasil inteiro e também internacional.

Matéria publicada na edição nº324 do Jornal A Verdade.

Tarifa Zero: o povo quer andar, mas a burguesia bloqueia o caminho

Enquanto a população brasileira compromete cerca de 30% da renda familiar em um transporte público precário e caro, o debate sobre a Tarifa Zero ganha força no país.

Luna Zanetti e Cacau dos Anjos | Belo Horizonte (MG)


JUVENTUDE – Um dos principais problemas sentidos pelo povo trabalhador brasileiro é o do transporte coletivo e da mobilidade urbana. Altas tarifas são cobradas, um péssimo serviço é entregue e, ainda assim, as empresas responsáveis por garantir o serviço garantem lucros exorbitantes através dos subsídios e da exploração dos trabalhadores.

Não é difícil perceber os problemas ao entrar no ônibus em horário de pico: veículos sem ar-condicionado ou com o equipamento quebrado; o botão de parada sendo a voz dos trabalhadores, que precisam gritar para conseguir descer; o tempo que passamos dentro do transporte para chegar na aula e no trabalho e muito mais…

Tarifa Zero

Hoje, a população chega a usar, em média, 30% da renda familiar para pagar o transporte. São 138 cidades no Brasil onde já foi implementado a Tarifa Zero. Em Belo Horizonte, a cidade com o segundo pior trânsito do Brasil, a tarifa é R$ 5,75, chegando até R$ 20 na Região Metropolitana – sem contar que o preço aumenta anualmente.

Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, publicada em fevereiro de 2025, comparou 57 cidades com Tarifa Zero com outras 2.731 que ainda cobram passagem. De acordo com os levantamentos, a gratuidade dos ônibus resultou em um aumento de 3,2% de empregos, 7,5% de empresas, redução de 4,2% de emissão de gases poluentes e diminuição das mortes no trânsito. São Caetano do Sul (SP) implantou a Tarifa Zero e viu o trânsito reduzir, com a retirada de 1.500 carros das ruas por hora.

Esse projeto, pautado também pelo Governo Federal, é pensado a partir de subsídios das prefeituras, além do pagamento obrigatório das passagens às empresas que contratam trabalhadores com carteira assinada. Dados apontam que se as empresas pagarem R$ 220 por trabalhador, seria possível arrecadar R$ 100 bilhões por ano, valor suficiente para financiar o transporte no país inteiro.

Logo, não há dúvidas de que a Tarifa Zero significaria uma mudança radical na vida das famílias trabalhadoras, que usariam a renda para outros fins e teriam um melhor acesso à cidade, cultura e até mesmo um melhor fluxo do trânsito.

A Batalha da CMBH

Em Belo Horizonte (MG), a bancada progressista da Câmara Municipal, liderada pela vereadora Iza Lourença (PSOL), protocolou o PL 60/2025, que visava a garantir o “Busão 0800” na capital mineira. O projeto, já muito avançado nas tramitações das comissões, foi colocado para votação no plenário no dia 03/10.

Foram mais de 300 estudantes e trabalhadores que ocuparam o plenário após intensa repressão dos seguranças, além de outras milhares de pessoas que ficaram do lado de fora da Câmara Municipal, cuja mesa diretora tentou impedir que a população entrasse na “casa do povo”, agredindo estudantes e trabalhadores. Durante o show de horrores e covardia que foi a votação, com 33 votos contra e 11 a favor, os estudantes fizeram um jogral e mostraram a força do povo organizado, amedrontando os vereadores reacionários, que saíram intimidados.

Mobilidade urbana

Pensar a mobilidade urbana é dar dignidade para a vida do povo pobre brasileiro. Os protagonistas desse debate não devem ser os que andam em carros de luxo e helicópteros, mas sim aqueles e aquelas que sofrem com a exploração desumana do sistema capitalista, a classe trabalhadora.

Mas só a Tarifa Zero não resolve todos os problemas. É urgente a construção de uma luta nacional pela estatização do transporte, para arrancar das mãos da máfia o que é nosso por direito. É preciso construir uma nova sociedade para acabar com a farra dos empresários capitalistas que lucram com nosso sofrimento.

Matéria publicada na edição nº324 do Jornal A Verdade.

“Antes de tudo, isso é uma greve contra a fome”

Estudantes do ensino técnico de todo o país estão organizando com a FENET no próximo dia 26 de novembro um Dia Nacional de Greve contra a evasão escolar e pela implementação de restaurantes acadêmicos.

Adriane Nunes e Julia Cacho | Diretoras da FENET


JUVENTUDE – O dia 26 de novembro foi a data aprovada pelo Congresso Nacional de Estudantes em Ensino Técnico, realizado em Salvador (BA), como dia nacional de greve pelos restaurantes acadêmicos. Nos últimos anos, a Federação Nacional de Estudantes em Ensino Técnico (Fenet) tem se dedicado a construir a luta pela assistência estudantil e acesso à alimentação na rede, denunciando que a falta de restaurantes implica na fome de milhares de jovens todos os dias, gerando a evasão escolar, visto que são filhas e filhos dos milhões de brasileiros que ainda vivem com baixa renda, representando cerca de 60% dos estudantes da rede federal.

“Não dá mais para esperar. Exigimos respeito do Governo Federal. Desde que os Institutos Federais foram criados, lutamos pela sua existência e expansão, como foi nas jornadas de luta de 2016 e 2019 contra os cortes orçamentários na educação e, em 2024, quando fortalecemos a Greve Nacional da Educação e conquistamos a promessa de 300 bandejões até o ano de 2026. Porém, efetivamente, essa promessa não se cumpriu: apenas oito foram inaugurados”, diz Ana Luiza, estudante do IFBA e coordenadora-geral da Fenet.

Ela se refere ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), anunciado pelo Governo Federal em 2024. “A Greve Nacional aprovada pelos estudantes e grêmios de todo o Brasil no nosso Congresso Nacional teve uma unanimidade: a fome tem pressa, e não podemos esperar. Estamos desmaiando nas salas de aula, pois nosso almoço virou coxinha e refrigerante superfaturados. Antes de tudo, o que estamos fazendo é uma greve contra a fome”, continua.

No último 22 de outubro, os grêmios estudantis sob a direção da Fenet organizaram uma Plenária Nacional com a participação de 80 grêmios de vários estados e de todas as regiões do Brasil para lançar o Manual da Greve. Esse espaço foi um momento de relato de várias iniciativas que foram tomadas pelos Grêmios para iniciar as mobilizações para o Dia Nacional de Greve, a exemplo do Estado de São Paulo, onde o Grêmio do IFSP Campus São Paulo passou nas salas de aula elegendo os representantes para o comitê de greve, assim como no Rio de Janeiro, onde o Grêmio do IFRJ Campus Duque de Caxias está organizando um campeonato esportivo para o dia da Greve com o objetivo de fortalecer a mobilização e promover o acesso ao esporte.

Na região Nordeste, a mobilização com os grêmios e os líderes de turma tem sido fundamental. No IFRN Natal Central formaram-se filas para assinar o abaixo-assinado pelo bandejão após o primeiro dia de passagem em sala convocando para a Assembleia do dia 05 de novembro, na Escola Técnica Estadual de Teatro, no Piauí, mesmo a direção perseguindo o grêmio, os estudantes já se decidiram: dia 26 de novembro, é greve! Assim foi também na região Norte, onde os grêmios dos IFs de Rondônia mobilizaram a rede federal para parar tudo no dia 26 de novembro.

Já na região Sul, foi fundado o grêmio estudantil no IFRS Campus Vacaria e feita a reunião dos representantes de turma para a formação do comitê de greve. Do mesmo modo, no IFRS Campus Alvorada e IFRS Campus Restinga. Já no Centro-Oeste, o grêmio do IFB Campus Brasília tem planejado as atividades para o dia da paralisação.

Assim, os estudantes em ensino técnico têm se ousado a escrever mais um capítulo na história do movimento estudantil brasileiro e na trajetória do ensino técnico do Brasil. Convoque seu grêmio estudantil e escola para se somar no Dia Nacional de Greve Estudantil, em 26 de novembro!

Matéria publicada na edição nº324 do Jornal A Verdade.

Montadora chinesa explora trabalhadores brasileiros

Jornadas de 12 horas, falta de EPIs e alojamentos precários são a realidade oculta pelos lucros bilionários da montadora chinesa BYD.

Redação Bahia


TRABALHADOR UNIDO – No dia 9 de outubro, foi inaugurada a fábrica da montadora chinesa de carros elétricos BYD com a presença do presidente Lula, do vice-presidente e ministro da Indústria Geraldo Alckmin (PSB) e do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT). No entanto, não estavam presentes os operários da fábrica, uma vez que a empresa decidiu dispensá-los devido ao evento e compensar essa “folga” com mais um dia de trabalho. Excluir os trabalhadores da inauguração é uma demonstração de que a empresa não é, de fato, a “construção de sonhos”, como foi enfatizado pelo presidente, em referência ao lema da montadora (build your dreams – BYD).

No primeiro semestre deste ano, a empresa alcançou a receita de US$ 52,3 bilhões, um aumento de 23,3% em relação a 2024, e um lucro líquido de US$ 2,1 bilhões, 13,78% de aumento em relação ao ano anterior. Os lucros exorbitantes concentrados nas mãos dos donos de multinacionais só podem existir, justamente, por causa das condições de miséria e superexploração sofridas pela grande massa de trabalhadores que constroem as riquezas em detrimento de seus próprios sonhos.

A militância da Unidade Popular (UP) e do Movimento Luta de Classes (MLC) vem realizando regularmente, desde janeiro, as Brigadas Operárias do jornal A Verdade na porta da montadora, localizada no Polo Industrial de Camaçari (BA). São várias as denúncias relatadas aos brigadistas: jornadas extenuantes de 12 horas de trabalho no dia, alojamentos insalubres, longas distâncias percorridas a pé, falta de chuveiros e locais apropriados de descanso.

Além disso, “uma das empresas terceirizadas tem três valores de salário diferentes para trabalhadores que exercem a mesma função. Obriga os funcionários brasileiros a trabalharem sem EPIs e há desvio de função. Se o trabalhador se recusar, eles mandam embora. As empresas que não seguem as NRs são multadas pela BYD. Para elas, é melhor pagar a multa do que trabalhar com segurança de acordo com o que as Normas Regulamentadoras estabelecem. Por quê? Porque a saúde do trabalhador não significa nada para eles”, denunciou um trabalhador em anonimato.

Vale lembrar que, durante a construção da fábrica da BYD, em dezembro de 2024, houve denúncias de trabalho análogo à escravidão e tráfico de pessoas praticadas por terceirizadas da montadora chinesa. O Ministério Público do Trabalho (MPT) denunciou essa situação e pleiteou o pagamento de R$ 257 milhões por danos morais coletivos.

Recentemente, os brigadistas do jornal A Verdade chegaram à fábrica e se depararam com uma greve dos cegonheiros, pois a montadora optou por contratar empresas externas para fazer a logística, encerrando abruptamente os contratos com os motoristas locais.

Conversando com esses trabalhadores, um dos caminhoneiros comprou 20 jornais por R$ 100. Ao todo, foram vendidos 32 jornais nessa brigada com diversos contatos para nossa luta.

Matéria publicada na edição nº324 do Jornal A Verdade.

Indústria alimentícia lucra bilhões, enquanto operários recebem carne de brinde

Enquanto a indústria alimentícia lucra bilhões, sendo isenta do pagamento de impostos, os trabalhadores são submetidos a jornadas exaustivas, enriquecendo cada vez mais o bolso dos grandes ricos.

Biana Politto e Humberto Prata | Cuiabá (MT)


TRABALHADOR UNIDO – A indústria alimentícia é responsável por processar e industrializar matérias-primas de origem animal e vegetal, transformando-as em alimentos e bebidas destinados ao consumo. Já os frigoríficos são unidades industriais onde ocorre o abate e o processamento de carnes bovina, suína e avícola. No setor frigorífico, a JBS, por exemplo, seguindo o procedimento comum entre as demais empresas, destina 70% de toda a sua produção à exportação. Outra característica dessa área é a altíssima lucratividade: somente a Marfrig, uma das maiores empresas de processamento de proteína animal do mundo, atingiu, em 2024, uma receita líquida anual de R$ 144,2 bilhões, um crescimento de 14% em relação a 2023.

As contradições do agronegócio

De modo geral, o agronegócio é totalmente isento do pagamento de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) sobre as exportações de produtos primários e semielaborados, como a carne “in natura” ou semiprocessada, por exemplo. No caso do setor frigorífico, a exportação de carnes é imune ao pagamento de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), ISS (Imposto sobre Serviços), IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), bem como PIS/Pasep e Confins – estes últimos, considerados contribuições sociais.

Em contrapartida, os brasileiros pagam, por ano, quase R$ 3 trilhões em impostos. Entretanto, ao contrário do que se propaga, não é a classe rica que arca com a maior parte dessa carga tributária. De acordo com a Receita Federal, mais de dois terços dos impostos arrecadados no Brasil são pagos pelos assalariados, ou seja, pelos brasileiros cuja única fonte de renda é o salário.

Como se não bastassem os benefícios tributários concedidos à indústria alimentícia, enquanto os trabalhadores arcam com a conta, vale destacar que o agronegócio brasileiro ainda é custeado pelo chamado Plano Safra. Trata-se de um programa que disponibiliza recursos financeiros por meio de crédito rural com taxas de juros subsidiadas, significativamente menores do que aquelas normalmente praticadas no mercado.

Para se ter uma ideia, o valor total previsto para o Plano Safra no anuênio 2025/2026 é de R$ 516,2 bilhões, enquanto o orçamento anual do Bolsa Família, em 2024, foi de R$ 170,2 bilhões, beneficiando um total de 54,3 milhões de pessoas, com uma média de R$ 684 por família. Isso significa que o custo do Plano Safra é três vezes maior que o investimento social anual do Bolsa Família. Indo além, cerca de 80% da distribuição desses generosos créditos é destinada exclusivamente à agricultura empresarial, ou seja, a médios e grandes produtores.

Esse recurso, portanto, não tem como objetivo garantir a produção de mais e melhores alimentos para o povo brasileiro, mas sim sustentar o crescimento dos lucros de grandes empresas, que, como vimos, priorizam a exportação. Percebe-se, então, que é no mínimo enganosa a afirmação de que o “agronegócio carrega o Brasil nas costas”. Na realidade, seja pelos benefícios tributários que recebe, seja pelo valor do Plano Safra que o sustenta, é o povo brasileiro quem suporta o peso do agronegócio sobre os próprios ombros.

Relações de trabalho exploratórias

Embora o agronegócio, a indústria alimentícia e seu braço frigorífico já sejam altamente beneficiados do ponto de vista tributário e fiscal, os patrões continuam explorando cada trabalhador ao máximo. Basta notar que grande parte das denúncias comprovadas de submissão de trabalhadores à condição análoga à de escravos no Brasil tem origem no campo.

Em situações extremas, mas não incomuns, em virtude da produção frigorífica incessante, necessária para o cumprimento dos volumosos contratos de exportação, a indústria de carnes negligencia a manutenção de suas unidades produtivas. Isso conduz ao vazamento de gases tóxicos no ambiente de trabalho, os quais afetam severamente a saúde dos trabalhadores.

E não para por aí: os frigoríficos também sonegam sistematicamente os direitos trabalhistas mais elementares de seus empregados, expondo-os, por exemplo, a ruídos e frio intensos, sem sequer pagar a ínfima contrapartida do adicional de insalubridade. Além disso, desrespeitam sem pudores as pausas térmicas legais – que deveriam garantir aos trabalhadores 20 minutos de descanso a cada 1 hora e 40 minutos de trabalho em ambiente frio – obrigando-os, assim, a jornadas diárias superiores às previstas em lei.Em alguns, negam atestados médicos, descontando dos salários os dias não trabalhados por motivo de saúde. E, ainda não satisfeitas, determinadas empresas praticam uma hipócrita “campanha contra as faltas”, oferecendo uma pequena peça de carne por mês apenas aos operários que não apresentaram nenhum atestado médico. A pergunta que fica: é correto punir um trabalhador por ficar doente? Ou melhor: aos operários e operárias dessa indústria alimentícia, não seria justo ter acesso integral à quantidade necessária desse alimento, já que é principalmente do trabalho deles e delas que advém toda essa gigantesca produção?

Não é por acaso que, mesmo com todas as regalias que os “reis” do agronegócio e as empresas adjacentes possuem, a exploração do trabalho permaneça como elemento central da relação entre patrão e operário. Baixos salários, grandes jornadas, metas abusivas, acidentes de trabalho, demissões e constantes ameaças continuam presentes no cotidiano de quem atua na indústria alimentícia. Tudo isso porque é principalmente por meio da exploração dessa mão de obra que esses ricos alimentam, ano após ano, seu grande capital.

No entanto, é muito importante reconhecer que sem os milhões de trabalhadores dando duro nesse setor, não existiria tanta riqueza. Logo, como todo reinado um dia chega ao fim, e essa “burguesia agro” nada contribui objetivamente para a sociedade brasileira, apenas vive da exploração do trabalho alheio, é chegada a hora de a classe operária se levantar e reivindicar o que é seu por direito.

Matéria publicada na edição nº324 do Jornal A Verdade.

Santa Cruz e a luta contra o racismo no futebol

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A história do clube pernambucano é um exemplo vivo de como o futebol pode ser um instrumento de resistência da classe trabalhadora e de combate à segregação racial imposta pelas elites.

Jesse Lisboa e Clóvis Maia | Redação PE


HISTÓRIA – O futebol brasileiro, historicamente apropriado pelas classes dominantes como espaço de exclusão, também carrega em suas raízes exemplos de resistência popular. Em Pernambuco, o Santa Cruz Futebol Clube ergueu-se não apenas como uma agremiação esportiva, mas como um verdadeiro movimento de massas contra o racismo e o elitismo que dominavam o esporte no início do século XX.

Fundado em 3 de fevereiro de 1914, o clube nasceu da iniciativa de onze garotos, com idades entre 14 e 16 anos, que se reuniam para jogar bola nas ruas do bairro da Boa Vista, em frente à Igreja de Santa Cruz. Eram jovens excluídos dos sofisticados clubes da época, restritos à pequena burguesia recifense. Mas, diferentemente de seus rivais, o Santa Cruz já nascia com a marca da integração e da luta de classes.

“A mística do time capaz de superar qualquer dificuldade e reerguer-se quando parecia impossível junto com os mais pobres da sociedade, foi forjada nos primeiros anos do Santa Cruz Futebol Clube. O primeiro obstáculo a ser vencido foi o racismo.”, destaca o Santa Cruz ao contar sua história.

Entre os fundadores, que acumulavam as funções de dirigentes e atletas, estava Teófilo de Carvalho, o Lacraia. Foi capitão, técnico e até o desenhista do primeiro escudo do clube, cujos traços resistem até hoje. A presença de um negro em posição de destaque foi determinante para que o “Tricolor” conquistasse a simpatia imediata do povo em Recife

Enquanto rivais como América, Sport e Náutico fechavam suas portas para o povo, mantendo-se como redutos da aristocracia branca, o Santa Cruz abria seus braços para negros e brancos pobres. Essa democratização precoce gerou uma via de mão dupla: por acolher os invisibilizados, o clube recebeu em troca uma devoção quase religiosa, tornando-se o “Time do Povo”.

A relação orgânica entre o clube e a classe trabalhadora foi reconhecida até mesmo pela imprensa burguesa da época. O Diário de Pernambuco, em 17 de fevereiro de 1943, registrou:

“Este Clube popular que, quando vence, as massas regurgitam de contentamento; os subúrbios engalanam-se de festas; o operariado do sopé dos morros ou da humildade dos mangues exulta de entusiasmo. Comemoram estas vitórias no ambiente modesto de suas moradias, como se tivessem tirado a sorte grande. Para esta gente popular, o Santa Cruz é tudo. Para o Tricolor de todos os tempos, este povo heterogêneo é a razão de sua existência. O Santa Cruz pertence às multidões, independentes de classe ou de posição social.”

Essa força coletiva se manifestou de forma contundente em diversos momentos da história. Em 1955, a contratação de Moacyr Barbosa, o lendário goleiro negro da Seleção Brasileira, só foi possível graças à mobilização do povo. Para pagar os 200 mil cruzeiros de luvas, a torcida organizou uma arrecadação massiva. O Diário de Pernambuco de 5 de agosto de 1955 relatou a comoção:

“Numerosos associados, famílias e simpatizantes de todas as camadas sociais estiveram no Arruda, elaborando intensamente. (…) Uma criança pobre, de dez anos de idade, enviou 5 cruzeiros, por intermédio do seu irmãozinho um pouco maior, dizendo que também queria ajudar para a contratação de Barbosa. Foi a nota mais sensacional da tarde”.

A mesma lógica de mutirão e solidariedade de classe ergueu, nas décadas de 60 e 70, o Estádio do Arruda. Na histórica “Campanha do Tijolo”, milhares de trabalhadores doaram materiais e horas de trabalho voluntário para construir sua própria casa, o Arrudão, provando que o patrimônio do clube é fruto do suor de sua torcida.

Combater o racismo e construir o poder popular

A trajetória do Santa Cruz é a prova de que o futebol não é apenas um jogo, mas um campo de disputa política e social. Nada do que o clube representa hoje seria possível sem a coragem de Lacraia e de tantos outros jovens, negros e operários.

Também é importante notar que mesmo após toda modificação do futebol, tornando-se uma verdadeira indústria mundial, onde bilhões circularam ano após ano, esse esporte ainda é uma referência para a classe trabalhadora e encontra, dentro e fora de campo, espaço para debater e refletir nossa sociedade.

Hoje, as torcidas organizadas são atacadas por todos os lados, mas ainda representam uma grande força de mobilização e organização coletiva. Tais times como o Santa Cruz, que vem sofrendo com a tentativa de retirar de vez o controle do time da mão dos sócios, por meio das SAFs (Sociedade Anônima de Futebol, ou seja, transformar o time da sociedade civil- seus sócios- em uma empresa privada), continuam resistindo e fazendo a alegria de milhares de pessoas, a grande maioria das periferia, que vê nesse esporte, nesses times e em sua trajetória, algo também pertencente a eles.

Trabalhadores do Mix Mateus no Recife denunciam exploração

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Trabalhadores do Mix Mateus Santo Amaro, em Recife, enfrentam uma rotina de exaustão marcada pela escala 6×1, desvio de função, sobrecarga de trabalho e falta de estrutura básica de descanso.

Jesse Lisboa e Evelyn Dionízio | Redação PE


TRABALHADOR UNIDO – Na escala 6×1 o trabalhador cumpre seis dias seguidos de trabalho e descansa apenas um. Esse modelo de jornada de trabalho é hoje o mais comum entre os setores de serviço e comércio. Após a aprovação da Reforma Trabalhista do governo golpista do Michel Temer (MDB), a jornada de trabalho aumentou significativamente, levando, principalmente os terceirizados, a trabalharem mais de 48 horas por semana.

Com isso, sobra menos tempo de descanso, ainda mais quando se trabalha 6 dias por semana. Desgaste físico, psicológico, acidentes e afastamentos em consequência dessa sobrecarga são a realidade da maioria dos trabalhadores dessa escala. As mulheres, em especial, têm uma carga de trabalho ainda maior. Segundo o IBGE, a média de trabalho das mulheres é, em média, uma jornada total de mais de 55 horas semanais.

Essa escala é desumana e relega os trabalhadores à exaustão e a extensas jornadas de trabalho por apenas um salário mínimo que não fornece o necessário para sua sobrevivência e de sua família. O Mix Mateus Santo Amaro, localizado na Avenida Cruz Cabugá, no Centro do Recife, faz parte de um Grupo que lucra bilhões de reais para encher os bolsos dos donos e acionistas, enquanto os empregados são esmagados por jornadas abusivas, desvio de função e perseguição em apenas 2 anos desde a inauguração.

O desvio de função é prática recorrente no local. Isso faz com que os trabalhadores que foram contratados para uma função, sejam designados para outras sem receber por isso. Operador de caixa, por exemplo, se torna estoquista. Em alguns casos, além de Equipamentos de Proteção Individual, o trabalhador com esse cargo tem direito ao adicional de insalubridade. Com o desvio de função, não há controle e o direito não é garantido.

Além disso, o acesso ao refeitório é limitado e controlado. Isso faz com que o trabalhador tenha que se privar do acesso ao benefício básico que é o horário de almoço, jantar e até mesmo café da manhã. O espaço de descanso é inexistente. Os trabalhadores têm que passar o horário do intervalo na área externa do mercado, muitas vezes passando pelo calor extremo do Recife.

No fim, não tem garantia de estabilidade no emprego ou perspectiva de melhoria. No ano de 2026 estão previstas demissões em massa, com a fusão com o Novo Atacarejo. Essa fusão dos supermercados não visa melhorar o atendimento ou baixar preços, mas sim fortalecer um monopólio regional. O objetivo central é eliminar a concorrência para ditar as regras do mercado e, acima de tudo, maximizar os lucros dos acionistas às custas do suor dos trabalhadores.

Para barrar essa exploração, o caminho é a luta e a organização em um movimento que luta para elevar a consciência dos trabalhadores para derrubar a escala 6×1, denunciar o capitalismo e propagar o socialismo. O Movimento Luta de Classes, movimento combativo, faz parte do movimento operário capaz de mobilizar o conjunto da classe trabalhadora para a mudança real da precarização em que vivem.

Elaborar um plano de lutas coletivo e desenvolver a linha política é fundamental para que os núcleos tenham vida orgânica e ativa nas lutas diárias para uma mudança real na sociedade. Assim, será capaz de mostrar que é possível não só derrubar a 6×1, mas também o sistema capitalista, responsável pelos baixos salários, exploração desenfreada e pelo adoecimento do nosso povo.