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Maria Felipa de Oliveira: Negra, pobre e heroína

“Você já foi à Bahia, Nêga? Não? Então vá!”1. Visite o Pelourinho, o Elevador Lacerda, o Mercado Modelo e tantos pontos de beleza indescritível. Mas não deixe de ir à Ilha de Itaparica. Não se deslumbre apenas com a maravilhosa visão que a Natureza lhe proporciona, que encherá seus olhos e lhe reafirmarão o quanto vale a pena viver.

Você tremerá de emoção ao pisar no solo itaparicano e sentirá a vibração da energia deixada por uma brava heroína: mulher, negra, bela, uma trabalhadora marisqueira e capoeirista de primeira linha: Maria Felipa de Oliveira. O que fez esta mulher para merecer tanta admiração? Calma, companheiro (a), que logo saberá.

As lutas pela Independência na Bahia

Ao deixar o Brasil (1821), dom João VI, prevendo que não tardaria a emancipação da Colônia, dissera a seu filho, Pedro de Alcântara: “…Antes fique para ti o Brasil, que para um desses aventureiros”.

Dom Pedro I seguiu a recomendação e proclamou a Independência no dia 7 de setembro de 1822. Mas a aceitação da proclamação imperial não foi tão simples. Houve resistência dos portugueses aqui radicados, especialmente no Maranhão e na Bahia.

No território baiano, as lutas foram bastante acirradas, do litoral ao interior. Revelaram o destemor de guerreiras como Maria Quitéria (leia A Verdade, nº 98) e Joana Angélica, desde então homenageadas e festejadas nos livros de História.

Uma grande lutadora, entretanto, ficou esquecida por quase dois séculos, tanto nos festejos oficiais como na historiografia. Por quê? “…Era mulher, negra e pobre. Foi injustiçada”, responde a professora Eny Kleyde Vasconcelos de Farias, que pesquisou e escreveu um livro sobre a “heroína da resistência”, como a denomina.2

O povo de Itaparica jamais a esqueceu; seus feitos passaram de mãe para filho e filha, uma geração após outra. Maria Felipa de Oliveira nasceu escrava, não se identificou o ano, mas depois foi liberta e colocou a liberdade como o valor maior dessa vida. Por isso, trabalhou desde cedo coletando mariscos, aprendeu a luta da capoeira para brincar e se defender, e queria um Brasil livre da dominação portuguesa, responsável pela escravização do povo africano, dos seus avós, de sua mãe, do seu pai.

Festejou o Grito de Pedro I e, quando os portugueses pegaram em armas para que o Brasil continuasse sendo Colônia, engajou-se na luta pela Independência. De início, acompanhava a movimentação das caravelas portuguesas no período noturno, camuflada nos outeiros da Fazenda 27, em Gameleira (Itaparica). Logo, tomava uma jangada para Salvador e passava as informações para o Comando do Movimento de Libertação.

Felipa não estava satisfeita com a função de retaguarda. Resolveu partir para o combate. Sabia que uma frota de 42 embarcações se preparava para atacar os lutadores na Capital baiana. Pensou um plano e juntou 40 companheiras para executá-lo.

Saíram “vestidas para matar”. Seduziram a maioria dos soldados e seus comandantes e levaram-nos para um lugar ermo. Quando eles, animados, ficaram sem roupa, elas aplicaram-lhes uma surra de cansanção (planta que dá uma terrível sensação de ardor e queimadura na pele); enquanto isso, um grupo incendiava as embarcações.

Esta ação foi decisiva para uma tranquila vitória sobre os portugueses em Salvador, permitindo que as tropas vindas do Recôncavo entrassem triunfalmente, sob os aplausos do povo, no dia 2 de julho de 1823.

Maria Felipa continuou sua vida de marisqueira e capoeirista, admirada pelo povo de Itaparica. Faleceu no dia 4 de janeiro de 1873.

Um resgate merecido

O historiador Ubaldo Osório ouviu de sua mãe a história de Felipa e foi o primeiro a escrever sobre ela. Seu neto, o famoso escritor João Ubaldo, fala da heroína no seu livro O povo brasileiro, chamando-a de “Maria da Fé”. A professora Eny Kleyde, diretora do Centro de Estudos de Pós-graduação das Faculdades Integradas Olga Mettig, interessou-se pela história da heroína negra e escreveu a obra citada, apresentando também trabalhos acadêmicos sobre sua participação nas lutas pela Independência no I Congresso de Pesquisadores Negros da Bahia e no Seminário “A abolição inacabada”.

Com isso, os jornais baianos passaram a divulgar a história da Matriarca da Independência de Itaparica e ela ficou sendo homenageada no dia 2 de julho a partir do ano de 2007.

A luta continua

Que o (a) companheiro (a) não se emocione apenas com a história de Maria Felipa de Oliveira. Que a emoção o (a) leve ao engajamento na luta pela verdadeira independência do Brasil, que ainda não aconteceu. As classes dominantes não quiseram romper com o capital internacional de quem eram (e são) dependentes e associadas, econômica e politicamente.

Maria Felipa seguramente não está nos desfiles oficiais do 7 de Setembro e sim no Grito dos Excluídos, convencida de que “muitas surras de cansanção” e queima de navios ainda serão necessárias para se realizar a proclamação do Hino ao Dois de Julho3.

“…Nunca mais o despotismo

Regerá nossas ações

Com tiranos não combinam

Brasileiros corações

Cresce, oh! Filho de minh’alma

Para a Pátria defender

O Brasil já tem jurado

Independência ou morrer”.

(1) Extraído da canção de Dorival Caymmi Você já foi à Bahia?

(2) Maria Felipa de Oliveira – Heroína da Independência da Bahia. Quarteto Editora.

(3) Letra do alferes Ladislau Santos e música do maestro José Santos Barreto

José Levino é historiador e colaborador de A Verdade

Nota: Conheça a Casa de Maria Felipa: casademariafelipa.blogspot.com ou Rua Curuzu, 197 – Liberdade-Salvador (BA). CEP: 40.366-110

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