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Luiz Máximo: “O capitalismo não traz saída para o povo”

Neste ano, das 13 escolas de samba do Rio de Janeiro, dez levarão para a passarela críticas ao governo da exclusão social, do preconceito racial, religioso e de gênero.

Denise Maia


Foto: Reprodução/Mangueira

RIO DE JANEIRO – A Mangueira apresentará na Sapucaí o enredo “A Verdade Vos Fará Livre”, uma sátira a um dos clichês de campanha do atual presidente Jair Bolsonaro. Os compositores Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo retratam um Jesus do cotidiano, que fala no coração popular. O jornal A Verdade entrevistou Luiz Carlos Máximo, que falou sobre o Carnaval deste ano e como o samba pode ser resistência ao avanço do fascismo.

Luiz Carlos Máximo e Suas Conquistas

Procedente das rodas de samba, Luiz Carlos Máximo foi convidado, em 2004, a participar de um festival de samba de terreiro na Portela para poder integrar a Ala de Compositores. “Antigamente, para poder participar de uma ala de compositores, tinha que participar de um festival. Uma disputa de samba de quadra, de samba de terreiro”. 

Na Portela conseguiu vários êxitos. Campeão cinco vezes, disputou e ganhou, em 2017, o samba na Escola São Clemente. Em 2019, fez um samba com Manu da Cuíca e outros parceiros para a Mangueira, vencendo e ganhando também o Estandarte de Ouro. Em 2020, o samba em parceria com Manu da Cuíca conquistou as quadras. 

“Seria bom falar sobre a nova forma de disputa do samba na Mangueira, que foi fundamental para acabar com as parcerias financeiras. Na antiga regra, os autores eram obrigados a ter parceiros, porque as formas de disputas são caras, necessitava de outros elementos que não é só fazer o samba. Neste ano, a Mangueira eliminou as torcidas de aluguel. Os cantores, os prospectos e a gravação foram realizados pela própria escola. Então, só precisamos pagar uma taxa, que é muito abaixo do que se gasta numa disputa de samba. Esse passo propiciou que só os autores assinassem o samba. No caso, eu e Manu”, explica.  

Como Nasceu o Samba

“Quando recebemos a sinopse, percebemos que não seria um samba fácil. Discutimos qual era a concepção que teríamos desse Jesus. Percebemos que deveríamos desconstruir o Jesus oficial das igrejas. Tínhamos um dilema: fazer um Jesus da missa ou um Jesus popular demais? Nosso entendimento foi que o carnavalesco não queria nenhum desses. Tinha um meio que precisava discorrer. A Manu apresentou a letra: ‘Eu sou da Estação Primeira de Nazaré, rosto negro, sangue índio, corpo de mulher’. Então, a partir dessa estrofe, verificamos que tinha que ser um Jesus negro, índio, corpo de mulher e que frequentava o Buraco Quente, um dos lugares de encontro dos compositores da escola e dos moradores do morro”.

E continua: “Um Jesus da gente, do povo, que lutava contra a opressão e que foi oprimido pelo Estado. Esse Jesus que o Leandro Vieira fala que é muito legal: o Jesus do povo, de luta e que foi sequestrado pelas igrejas pentecostais e do catolicismo mais conservador. Sequestraram um Jesus e apresentaram outro. Fica difícil entender um Jesus que não seja fraterno, que não admite as diversas formas de amor, que aceite a desigualdade social. No samba estamos tirando o Jesus desse cativeiro e mostrando um verdadeiro Jesus. Essas igrejas que chamamos de ‘profetas da intolerância’ ocupam muitos espaços nas comunidades, nos morros, e nesse enredo o Leandro Vieira dialoga com essas pessoas, porque ele diz: ‘você gosta de Jesus? Legal, mas, o Jesus verdadeiro não é esse que estão falando, veja se concorda’. ‘Um Jesus que no amor não tem fronteira/que enxuga o suor de quem sobe e desce ladeira/o Jesus que procura por mim nas fileiras da opressão/favela pega a visão/não tem futuro sem partilha, nem messias de arma na mão’”. 

As pessoas se identificam se emocionam com a letra que revela o Jesus da fraternidade, da igualdade, da liberdade, da justiça social. “Essa coisa do pertencimento é muito interessante. O samba de 2019 da Mangueira contava a verdadeira história do Brasil, com o enredo ‘História para ninar gente grande’, pois relatava os nossos verdadeiros heróis, que não são Duque de Caxias, e demais do gênero, que aprendemos nas escolas, porém, outros como Zumbi, Dandara, os quais muitas pessoas não conheciam. Foram apresentadas e tomaram para si esses heróis. No dia do desfile, foi muito emocionante, o povo na avenida cantava a letra e mudava com muito pertencimento”.

Dos “Enredos CEP” aos Sambas de Raiz 

No Carnaval carioca, “enredos CEP” eram os sambas encomendados por cidades, estados ou países que bancavam o samba. Com o tempo e as críticas, esse tipo de patrocínio tem diminuído. 

Nos anos 1990 e 2000, nos sambas patrocinados, os enredos falavam sobre cabelo porque uma empresa do setor queria divulgar o seu produto; iogurte porque a Nestlé bancava; cavalo Manga Larga porque os produtores pagavam. Neste ano, a Petrobras, a Prefeitura e o Governo do Estado deixaram de subsidiar as escolas de samba. Então, tiveram que buscar enredos autorais. O que aproximou as escolas do povo. “Mesmo assim, ainda acho que as escolas estão muito afastadas da sua comunidade. Por exemplo, o preço da feijoada e da cerveja, que atraem pessoas de fora, o que é bom, que ajuda a financiar a escola, está longe da realidade econômica do povo. Acho que deveria realizar uma feijoada também com preço acessível para os moradores das comunidades”, defende Luiz Carlos.

Foto: Reprodução/Mangueira

“Assistir ao desfile fica impossível para quem ganha até três salários, os ingressos são caros. Quando o Brizola e o Darci Ribeiro idealizaram e construíram o sambódromo, existia um espaço popular, mas, com o tempo, elitizaram e fizeram as frisas, como aconteceu com o Maracanã, que acabou com a Geral”, critica. 

No Carnaval 2020, muitas escolas estão apostando em carnavalescos jovens. A crise econômica forçou as escolas a buscar o novo, a crítica social, a retornar a suas raízes. Bons enredos vão gerar bons sambas. Das 13 escolas, dez vão desfilar com sambas de críticas sociais. “A crise econômica de certa forma propiciou essa renovação, oxigenou o Carnaval”, avalia o compositor. 

A Importância da Mulher no Samba

Luiz Carlos destaca, ainda, a participação das mulheres no samba. “Tem uma coisa muito importante na vitória desse samba, que foi a participação da Manu da Cuíca. Mulher fazendo samba enredo ainda hoje é muito raro, mas a presença da mulher no samba cresceu. É fundamental a gente falar sobre isso, sobre a participação da mulher como compositora, autora. Não se trata de levantar uma bandeira, mas sim o que representa no cotidiano essa conquista. Quando a gente está na quadra, a quantidade de mulheres que vai falar com a Manu para agradecer e expressar como se sentem representadas é emocionante. Fico extremamente feliz, tocado, comovido, como homem, em presenciar o reconhecimento dessa conquista das mulheres”. 

Mensagem Para os Leitores do Jornal A Verdade

“Tem uma frase no samba da Mangueira que diz: ‘Sem saber que a esperança brilha mais na escuridão’. A gente está na escuridão com esse governo, porém, quanto mais escuridão, mais esperança. A mensagem que eu passo para os leitores do jornal A Verdade é que mantenham sempre essa esperança acessa, porque o capitalismo não traz saída para a gente. A cada dia, tem mais pessoas morando nas ruas, com fome, sem emprego, pois o capitalismo não deu solução e não dará. Mesmo nesse momento de escuridão, temos que ter esperança, porque iremos virar esse jogo”.

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