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A tentativa de intervenção do imperialismo em Belarus

ABAIXO O GOLPE – Multidão se manifesta contra a tentativa de golpe de estado pelas forças da OTAN e dos Estados Unidos no país. (Foto: Reprodução/Belta)

Nos regimes instaurados por meio “das armas e a sorte dos outros”, o filósofo Maquiavel comenta que “estes se sustentam simplesmente graças à vontade e à sorte de quem lhes concedeu o Estado”.
Miguel Fegadolli

MINSK – Após a vitória eleitoral de Aleksander Lukashenko, atual presidente da Belarus (antiga Bielorrússia), surge um movimento de oposição, com apoio dos Estados Unidos e da União Europeia. Semelhante aos movimentos na Ucrânia, Venezuela e Bolívia, a base do imperialismo nega os resultados das urnas, tidos como “fraudulentos” e “arbitrários”.

É necessário antes de tudo, realizar uma breve contextualização do que se passou nas últimas décadas, tanto em Belarus, quanto nos outros países do Leste Europeu, sobretudo após à queda da União Soviética (URSS), da qual estes faziam parte.

Após a dissolução da URSS na década de 90, os países que, antes integravam o bloco socialista e disponibilizavam à população pleno emprego, acesso a saúde, educação e direitos sociais, se viram diante de uma profunda crise, com a ascensão da desigualdade, da miséria, criminalidade e violência, num alinhamento à política  neoliberal de Margaret Thatcher e Ronald Reagan (Inglaterra e EUA, respectivamente).

Ao se deparar com essa dura realidade, muitos países do Leste Europeu, que antes eram governados pelos dirigentes da luta contra o nazismo, foram influenciados por elementos ultra-nacionalistas e neofascistas remanescentes da Segunda Guerra Mundial, que decidem apontar que um alinhamento ao modelo de capitalismo selvagem dos Estados Unidos traria a solução para a crise.

É a partir disso, que vemos aos poucos uma integração destes países à OTAN, pacto militar internacional sob domínio dos EUA, utilizado para intervir militarmente sobre regimes “opositores”, além de ocorrer também uma adesão às privatizações em massa, concessões ao FMI, União Europeia etc.

No entanto, nem todos os países seguiram esse modelo para superar a crise, tal é o caso da Belarus. Preservando algumas características do antigo regime, possui uma economia de fortes investimentos públicos, sendo mais da metade das grandes empresas no país de domínio estatal e, sem depender fortemente das potências estrangeiras, atingiu nos últimos anos um dos maiores índices de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e o maior Índice de desenvolvimento Humano (IDH) dentre os países do Leste Europeu, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Além das inúmeras provas documentadas da ação direta dos EUA na derrubada de regimes de política mais independente, como já vimos na América Latina e no Oriente Médio ao longo do século XX a instauração das ditaduras terroristas submetidas ao FMI, e como temos visto recentemente, o Golpe no Brasil (2016), na Bolívia (2019), e dezenas de outros exemplos, ampliemos a questão no foco do Leste Europeu:

Alegando razões “humanitárias”, ainda na década de 90, as forças da OTAN apoiaram e mobilizaram agressões contra a antiga Iugoslávia, instalando uma base militar em seu território.

ABAIXO O GOLPE – Multidão se manifesta contra a tentativa de golpe de estado pelas forças da OTAN e dos Estados Unidos no país. (Foto: Reprodução/Belta)

Com o rompimento do Pacto de Varsóvia (Acordo de apoio militar dos países do Oriente da Europa com o bloco soviético, em oposição à OTAN), e o acirramento das tendências “nacionalistas” e pró-ocidentais já destacadas, aos poucos a Rússia, num tensionamento geopolítico com os EUA, se viu cercada, com seus antigos aliados mudando de lado, principiando, em 1999, com a ingressão da República Tcheca, Hungria e Polônia, com saudações e aleluias das autoridades norte-americanas, e em sequência vendo em 2004, no governo de George Bush, a integração da Romênia, Lituânia, Letônia, Estônia, Eslováquia e Bulgária, e, em 2009, sob o governo Obama, também a Croácia e a Albânia.

Como o acordo prevê o apoio militar coletivo caso algum membro seja atacado, a política expansionista dos EUA tem ampliado as divisões e pressões políticas internacionais, numa mudança da correlação de forças entre as potências imperialistas.

Dentro deste mesmo ímpeto, em 2014 a Ucrânia, maior país do Leste da Europa, que faz fronteira com a Rússia e a Belarus, teve um presidente democraticamente eleito que governava desde 2010, se opondo rigorosamente à entrada do país na OTAN. Como era de se esperar, os EUA apoiaram (e financiaram) protestos contra o resultado das eleições, culminando num golpe militar que instaurou por 5 anos um regime de extrema-direita que sustentava grupos de extermínio neonazistas, ampliando a miséria e a desigualdade no país, além de uma guerra civil que ocorre até os dias presentes.

Diversas organizações revolucionárias e populares foram proibidas e, tanto os militantes quanto parte dos que se manifestaram contrários ao golpe orquestrado pelos EUA foram exilados do país, assim conta Alexey Albu, membro do partido comunista “borotba” da Ucrânia, que reside na República popular de Lugansk, que assim como Donetsk, era uma cidade ucraniana que proclamou independência na guerra civil contra o governo fascista ucraniano.

BANDEIRAS VERMELHAS – Multidão se manifesta contra a tentativa de golpe de estado pelas forças da OTAN e dos Estados Unidos no país. (Foto: Reprodução/Belta)

Lukashenko, que, num movimento de resistência à pressão dos países imperialistas, convoca atos de defesa da democracia em Belarus e em defesa da decisão popular no país. Com a presença de milhares de pessoas no ato, ele discursa:

“Eles nos propõem um novo governo, já o formaram lá fora, não entram num acordo sobre quem vai nos governar. Não precisamos de um governo de fora, precisamos do nosso governo que nós elegemos.”

Se, num dado momento, o povo da Belarus, enquanto classe organizada, se conscientiza e decide que a política presente no governo não representa seus interesses, eles o farão por conta própria, e não movidos por agentes externos que possuem motivações que vão totalmente contra as vontades da própria Belarus, da mesma forma que os comunistas no Irã se opõe à República Islâmica mas não aceitam o apoio do imperialismo Ianque, distinguindo com clareza quem são os aliados e os inimigos da classe trabalhadora, como traça Lênin na obra “As Duas Táticas da Social Democracia Russa”.

Nos regimes instaurados por meio “das armas e a sorte dos outros”, o filósofo Maquiavel comenta que “estes se sustentam simplesmente graças à vontade e à sorte de quem lhes concedeu o Estado”.

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