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A volta das aulas presenciais é uma farsa

INSEGURANÇA – Retorno das aulas sem condições seguras não resolve o problema do aprendizado, mas é eficiente em propagar a Covid-19. (Foto: Reprodução)

“É dever dos governos garantir a renda para possibilitar o isolamento, proporcionar auxílio emergencial temporário em valor que garanta dignidade, além de vacinas para todos.”
Biana Polito e Raquel Brito

SÃO PAULO (SP) – Antes do retorno às aulas presenciais no Estado de São Paulo, a comunidade escolar e estudiosos reconhecidos por sua contribuição e respeito à educação pública vinham discutindo a qualidade do atendimento aos estudantes, visto que as escolas só poderiam receber 35% da demanda de alunos. Mesmo com todos os argumentos apontando que não era o momento da volta ao ensino presencial, principalmente pelo número de mortos e o alto índice de internações nos hospitais, os governos estadual e municipal de São Paulo determinaram o retorno.

Atualmente, os estudantes, em sua maioria, vão duas vezes por semana a uma escola que deixa em segundo plano as relações e necessidades dos alunos, devido ao número de protocolos de segurança a serem seguidos. As crianças precisam de afeto na acolhida, pedem colo (as menores), demonstram carinho pelos abraços e toques, sentem necessidade de correr, brincar no parque, jogar bola, interagir com as tecnologias no laboratório digital, conversar livremente com os colegas etc., mas a escola perdeu sua alegria.

Buscando a referência de Paulo Freire, uma escola que considera as necessidades de desenvolvimento de cada fase dos bebês, crianças, adolescentes e adultos não combina com uma escola que funciona em plena pandemia de Covid 19. Além disso, do ponto de vista pedagógico, as aulas presenciais nesse formato, apenas duas vezes por semana, ou em alguns lugares, em semanas alternadas, não resolve a questão da aprendizagem dos alunos, mas é bem eficiente para proliferação do vírus.

A Escola e a Comunidade

Como as famílias não são obrigadas a enviar suas crianças, muitas optaram por manter o ensino remoto, mas ainda não receberam os tablets prometidos no ano passado pela Prefeitura; quem não tem aparelho e internet precisa sair de casa para buscar atividades impressas pela escola. Assim, são três grupos de estudantes diferentes: o que está sendo atendido presencialmente em sistema de rodízio, o que acessa as atividades postadas no ambiente virtual e o terceiro, que faz atividades nos livros ou impressas pela escola. Dessa forma os trabalhadores da educação precisam se desdobrar para dar conta de tantas tarefas novas, mas, apesar de todo o esforço empenhado, não é possível que tudo seja feito como deveria, já que o quadro de funcionários diminuiu devido aos afastamentos e não houve novas contratações, ainda que as atividades tenham aumentado.

Além disso, a relação da escola com a comunidade ficou muito estremecida, visto que os funcionários são portadores de notícias exclusivas e precisam explicar o porquê de a família não receber o cartão alimentação, a cesta básica ou o atendimento presencial. Observa-se que as famílias e os estudantes estão numa ambiguidade de sentimentos, ao mesmo tempo que precisam voltar ao ensino presencial, dado o alto nível de fragilidade social e econômica, reconhecem os riscos do retorno. Inúmeras famílias não encontram apoio nas políticas públicas: aquelas cadastradas no CADÚnico do Governo receberam apenas uma cesta básica da Prefeitura no ano de 2020 e um cartão merenda que não garante a segurança alimentar dos estudantes e que, ironicamente, chegou na semana da eleição para Prefeito; outras famílias se inscreveram, mas ainda não foram contempladas com o auxílio.

Estudantes e Professores

Para os professores da rede municipal de São Paulo que estão trabalhando e não aderiram à greve da categoria, retornando ao trabalho presencial, o medo da contaminação é constante, os casos informados e confirmados são frequentes, e os assintomáticos potencializam as preocupações.
Outra questão diz respeito à própria relação entre estudantes e os professores: é inerente ao trabalho docente as mediações entre os alunos, as aprendizagens, as relações, emoções etc., mas com a pandemia, essas situações consideradas corriqueiras na rotina escolar são fortemente impactadas pela possibilidade de propagação do vírus a cada comportamento divergente dos protocolos, o que causa um estado de atenção e stress constante.

O Descaso do Governo com a Pandemia e a Fome

Diante do colapso do sistema de saúde e o aumento do número de mortos, no pior momento da pandemia, a Prefeitura de São Paulo anunciou, no meio de março, o adiantamento do recesso escolar e feriados municipais e, antes do retorno das aulas presenciais, ofereceu testes sorológicos a todos os funcionários das escolas. Foi uma medida desastrosa que causou a aglomeração de servidores, que ficaram em filas imensas embaixo do sol por até quatro horas e ainda sofreram com a falta de materiais para a realização dos testes. Um descaso total: ficou evidente para todos que estiveram nos CEUs (centros educacionais) para realização da testagem, a desorganização e o desrespeito.
As medidas desencontradas não pararam por aí: não se aguardou o resultado dos exames para o retorno às aulas e, por consequência, funcionários receberam as respostas dos testes no meio do expediente, inclusive testando positivo, colocando os outros colegas e alunos em risco, e havendo, ainda, os que sequer receberam o resultado.

O prefeito Bruno Covas (PSDB) e o governador João Dória (PSDB) tentam descolar sua imagem e prática do genocida Bolsonaro, falam baixo e macio nos canais diretos de comunicação para as redes municipal e estadual de ensino, mas implementam a mesma política de morte do Governo Federal, que invisibiliza os trabalhadores informais, as famílias em desespero, as crianças com fome e brinca com o medo das pessoas. Uma política perversa!

Categoria em Greve

Fato é que as contradições estão postas: por um lado a população precisa se cuidar e fazer isolamento social, para garantir suas vidas e de suas famílias, por outro lado, os mais pobres estão sem renda e sofrendo com a fome. Portanto, é dever dos governos garantir a renda para possibilitar o isolamento, proporcionar auxílio emergencial temporário em valor que garanta dignidade, além de vacinas para todos. Além disso, garantir estrutura para que os alunos mais pobres consigam acompanhar o ensino remoto temporário, fornecendo os equipamentos e internet, para que consigamos vencer essa pandemia e aí sim retornar com o necessário ensino presencial, com toda a segurança.

Infelizmente sabemos que os governos estão fazendo justamente o contrário, por isso a categoria está em greve. Greve pela vida, exigindo segurança para não ser contaminado por um vírus que pode ser letal, para não levar o vírus para casa e contaminar os familiares, para não ficar na fila da UTI correndo o risco de não ter vaga, para não ter que ser entubado sem os medicamentos recomendados, para que as crianças não sirvam de agentes contaminadores potenciais na comunidade. É greve também pela vacina para todos, porque a situação é dramática, os governos, em todas as esferas, apostam na contaminação por rebanho, estratégia que já levou à morte 400 mil pessoas. Ainda assim, a luta da categoria está sendo totalmente atacada, com ponto cortado, sem que ao menos haja negociação, sem respeito e com muita desvalorização da educação e dos educadores.

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