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Uma análise socialista dos cem primeiros dias de Biden

JOE DUAS CARAS – Biden segue a trajetória de candidatos burgueses que prometem rupturas, mas trazem apenas mais o aprofundamento da crise capitalista aos trabalhadores. (Foto: Thales Caramante/Jornal A Verdade)

“Os primeiros cem dias nos mostraram como será a presidência de Biden: promessas abandonadas e a separação contínua da vida política americana dos desejos dos trabalhadores.”
Evan Nesbitt
Red Phoenix

JARRETTSVILLE (ESTADOS UNIDOS) – Os primeiros cem dias do mandato de um Presidente americano podem definir o tom de toda a administração. Pode também ser um teste crucial para reparar ou continuar o trabalho do ex-presidente e corrigir questões políticas fundamentais, especialmente em tempos de crise. Em uma crise como a pandemia do Covid-19 e sua subsequente recessão, bem como as ondas de brutalidade policial e extremismo de direita, os olhos de toda a nação observaram ansiosamente a chegada do presidente Joseph Biden à Casa Branca após o período antidemocrático de quatro anos que foi a presidência de Donald Trump. Os primeiros cem dias nos mostraram como será a presidência de Biden: promessas abandonadas e a separação contínua da vida política americana dos desejos dos trabalhadores.

Imediatamente após uma clara vitória eleitoral (embora ainda negada pelos trumpistas pequeno-burgueses e renegados), Biden abandonou imediatamente, como Obama, toda retórica de esquerda feita na campanha em favor da “unidade” nacional. Durante a campanha, Biden apresentou várias políticas do manual progressista para atrair os eleitores mais jovens, afetados pela dívida estudantil e pelo subemprego, que em grande número votaram em Bernie Sanders. Mas essas políticas foram abandonadas quando Biden anunciou sua oposição a várias reformas de longo alcance, declarando “eu não sou um socialista, eu derrotei o socialista”. Mesmo essas reformas abandonadas – e insignificantes – não chegam nem perto de eliminar o aprofundamento da desigualdade e da pobreza na sociedade americana na era do capitalismo pandêmico.

A rejeição de uma Lei Federal de descriminalização da cannabis para uso recreativo não foi nenhuma surpresa para um candidato presidencial que, como senador, patrocinou um infame Projeto de Lei Criminal que aumentou as sentenças mínimas obrigatórias para o uso de drogas, que votou por aumentar o financiamento para departamentos de polícia nacionais e incentivou o encarceramento para reabilitação . Essa postura vai contra os 68% dos americanos que são a favor da legalização da maconha. Trinta e quatro estados aprovaram alguma forma de legalização da cannabis para uso recreativo ou medicinal, mas a legalização total para todos os estados foi negada devido à ausência de uma legislação federal e à resistência apresentada por políticos democratas e republicanos. É mais um exemplo em que a vontade da esmagadora maioria do povo americano é excluída de nossas supostas instituições democráticas.

A questão dos planos de saúde para trabalhadores sem vínculo formal é praticamente a mesma: 63% dos americanos apoiaram alguma forma de plano de saúde público em 2020, contra 59% em 2019. Com desemprego recorde e o ObamaCare – criação do deputado republicano Newt Gingrich, que exige que os beneficiários paguem coparticipação em suas declarações de imposto de renda – as iniquidades da saúde com fins lucrativos foram totalmente expostas durante a pandemia de Covid-19, quando milhares morreram sem cobertura, muitos enfrentaram falência e os hospitais sofreram com a alta demanda.

Biden também declarou sua oposição ao Green New Deal, dias antes de sua companheira de chapa negar que a indústria de fracking seria proibida no governo Biden/Harris. Aqui, o “democrata” está mais uma vez em desacordo com o mandato de seus eleitores, já que 60% dos eleitores entrevistados em 2020 denotaram seu apoio ao Green New Deal em alguma capacidade, com 11% de indecisos. Ressalte-se que essa estatística reflete apenas o corpo votante, meros 66,2% dos eleitores possíveis; um número que exclui milhões que foram privados de direitos políticos por acusações criminais ou que decidiram não votar. Também na política externa, a administração de Biden é muito próxima da de seu antecessor, com seu apoio ao não eleito Juan Guaidó como presidente da Venezuela, ordenando novos ataques aéreos na Síria, continuando a prestar assistência à guerra da Arábia Saudita no Iêmen e aprovando mais apoio para a campanha genocida de Israel na Palestina com a venda de USD$700 milhões em armas em meio à campanha de bombardeio. O presidente Biden cumpre, pelo menos, uma promessa da campanha: “nada mudará fundamentalmente”.

Os trabalhadores americanos se acostumaram com as promessas de campanha que evaporam rapidamente. No início e em meados de janeiro, Biden favoreceu a liberação de cheques de auxílio de USD$2.000 como uma medida de emergência para lidar com as disparidades recordes de renda, aumento do custo de vida e desemprego recorde no meio de uma pandemia. No entanto, apenas uma semana após o início de sua administração, Biden já havia renegado sua promessa e apoiado uma emenda ao seu projeto de lei que estabeleceu pagamentos de auxílio de USD$1.400. Observando a popularidade da política a partir da campanha de Bernie Sanders, Biden também prometeu apoio a um aumento do salário mínimo federal para USD$15 e no projeto de lei essa medida foi incluída, até que o democrata vermelho (vermelho é a cor do partido republicano) Joe Manchin bloqueou a medida, evitando os 51 votos necessários. Esse é o resultado de “vote azul, não importa quem” (vote blue, no matter who – azul é a cor do partido democrata).

Biden também apoiou um mandato pelo uso obrigatório de máscaras para combater o aumento nos casos Covid-19, mas nenhuma legislação desse tipo foi aprovada. Sobre a imigração, Biden propôs uma moratória sobre as deportações, alegando que ninguém seria deportado em seus primeiros cem dias. Mas ainda no dia 29 de gestão, cerca de 26.248 pessoas foram deportadas sem moratória ou restrição emitida desde então. A vice-presidente de Biden, Kamala Harris, em um discurso na Guatemala, disse às vítimas do imperialismo americano “não venham, eu acredito que vocês voltarão”. Finalmente, uma reforma importante proposta por Sanders como o perdão da dívida federal de empréstimo estudantil, que pode ser facilmente cumprida por meio de ordem executiva, recebeu muita atenção da boca para fora, mas Biden não levantou um dedo a esse respeito e lentamente diminuiu a quantia a ser perdoada, de USD$20.000 para USD$ 5.000.

Os eruditos e partidários de Biden desviam todas as críticas por trás de argumentos de tempo, “realismo” e da temida obstrução republicana, embora tenham a maioria em ambas as casas com o voto de desempate da vice. Que presente é para a classe dominante ter todos esses truques e recuos e desculpas para confundir, apaziguar e dividir a classe trabalhadora, mas toda essa fanfarronice não esconde o fato incontestável de que o capitalismo americano está em crise. Biden construiu seu caminho para a candidatura depois que a máquina democrata assustou Sanders com seus espantalhos, superdelegados, primárias fechadas, arrecadação de fundos distorcida e o impacto da pandemia Covid-19. A simples verdade depois de cem dias é que os trabalhadores nos Estados Unidos enfrentarão cada vez mais dificuldades econômicas, trabalhando em vários empregos apenas para sobreviver e não encontrarão soluções verdadeiras no governo mais “civil e moderado” de Joe Biden. Por outro lado, os fascistas não serão contidos por engomadinhos que surgem no cargo com base no reconhecimento do nome, por política de identidade e com a única virtude de não ser um republicano. Para os trabalhadores dos EUA, e para as vítimas do imperialismo em todo o mundo, a necessidade de uma alternativa revolucionária dos trabalhadores, fora do capitalismo, nunca foi maior. Somente a democracia operária que enfrenta os antagonismos de classe é capaz de fornecer uma sociedade consistentemente próspera e respostas às mudanças climáticas, ao imperialismo e ao fascismo.

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