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95 anos de Fidel Castro


José Levino, historiador

HERÓIS DO POVO – No dia 1º de janeiro de 1959, o povo cubano pôde comemorar efetivamente o Ano Novo e o início de uma vida nova. O país amanheceu feliz com a renúncia do ditador Fulgêncio Batista e a informação de que os barbudos haviam tomado Santiago de Cuba e começavam a marcha para Havana. Barbudos eram os membros do Exército Rebelde, braço armado do Movimento 26 de Julho (M-26-7), vitorioso após dois anos de luta nas montanhas de Sierra Maestra e na planície.

26 de julho de 1953. Data marcante na história de Cuba, quando 126 homens e duas mulheres tentaram tomar o quartel do exército de Moncada, província de Santiago de Cuba. O objetivo dos rebeldes não era promover um golpe de estado para derrubar Batista, mas detonar um processo revolucionário, com a leitura de um manifesto pelas emissoras de rádio, conclamando o povo cubano a se levantar pela derrubada da ditadura e implantação de um novo regime que garantiria a verdadeira independência do país, o respeito à integridade dos cidadãos, bem-estar e prosperidade econômica, com fundamento nos ideais do herói José Martí.

Um guajiro especial

O primeiro comandante, um jovem de 26 anos. Fidel Castro Ruz. Fidel era chamado pelos colegas estudantes de Guajiro (camponês) e tinha exatamente esta origem. Mas sua família não era de camponeses pobres (“escapei da riqueza por sorte”, brincava ele). O pai de Fidel, Ángel Castro, foi um soldado espanhol que ficou em Cuba após a “independência” (a Espanha dominou Cuba de 1492 a 1898). Seguiu-se a dominação dos Estados Unidos, que transformaram o país no seu quintal e bordel.

Aos filhos que se interessaram pelo estudo, o pai proporcionou as condições necessárias. Fidel cursou o secundário no Colégio dos Jesuítas, em Havana. Em 1945, ingressou no curso de Direito da Universidade de Havana. Logo se integrou ao movimento estudantil. Atuou com militantes do Partido Socialista Popular (comunista) e do Partido Ortodoxo. Com os primeiros, estudou o marxismo e aderiu a essa concepção, mas não se filiou ao partido, por considerar que este priorizava a institucionalidade e não procedia à análise dialética da realidade cubana. Filiou-se ao Partido Popular Ortodoxo, onde não era bem-visto pela direção por conta de suas posições independentes.

Na verdade, Fidel criava um novo movimento político com membros da Juventude Ortodoxa, independentes e alguns integrantes da Juventude Comunista, a exemplo do seu irmão Raúl Castro. Não se limitava à universidade e aos meios intelectuais, ligando-se fortemente ao meio popular, a partir das amizades que construíra no Colégio Jesuíta com os funcionários da limpeza, da cozinha, dos serviços gerais e dos contatos que mantinha no campo. Foi esta base que forneceu os componentes do assalto ao Quartel Moncada e assegurou a organização do Movimento 26 de Julho.

Conspirando no México

Com a derrota em Moncada, 90 participantes foram mortos, não em combate, mas a maioria sob tortura. Fidel foi preso e julgado no dia 16 de outubro, quando 28 moncadistas foram sentenciados. Os homens, com penas de três a 15 anos de prisão na Ilha de Pinos; as mulheres (Melba Hernandez e Haidée Santa Maria), a sete meses de reclusão na prisão feminina de Guanajay, a 45 km de Havana.

Em maio de 1955, o governo de Batista promulga a Lei da Anistia, como parte de uma estratégia de ganhar popularidade. Logo após a soltura, Fidel retoma as atividades políticas. Entretanto, diante das constantes perseguições, resolve exilar-se no México, junto a Raúl e outros moncadistas. Na capital mexicana, dedicou-se a organizar o retorno, visando à tomada do poder a partir de uma guerrilha desencadeada em Sierra Maestra por um grupo de combatentes. Esta ação, acreditava ele, vinculada ao movimento de massas liderado pelo M-26-7, proporcionaria a queda do regime batistiano.

É no México que acontecerá o encontro entre Fidel e o médico argentino Ernesto Guevara de La Serna, chamado pelos cubanos de Che. O encanto é mútuo. Ernesto se incorpora ao grupo na condição de médico, mas coloca duas condições, aceitas por Fidel: não limitá-lo às funções de médico e que razões de Estado não o impedissem de sair de Cuba para lutar em qualquer país da América Latina quando entendesse cumpridas suas responsabilidades com a Revolução. Depois de marchas e contramarchas, 82 revolucionários com armas e bagagens embarcam no iate Granma na noite de 24 de novembro de 1956, um barco preparado para comportar apenas 25 pessoas.

Ganhamos a guerra!

“Não foi um desembarque. Foi um naufrágio”, relata Che Guevara. Prevista para 30 de novembro, só conseguiram chegar a 2 de dezembro, prejudicando o plano de um levante em terra para desviar a atenção das Forças Armadas. Para completar, o barco parou num lugar de mangue, dificultando o movimento dos homens. Alertada, a Força Aérea passou a bombardear a área, provocando a dispersão da pequena tropa. A grande maioria foi exterminada. No dia 21 é que 12 sobreviventes se reagruparam com o apoio da rede de camponeses da região, portando sete fuzis. Fidel não conteve o entusiasmo: “Agora, sim. Ganhamos a guerra”.

Ganharam, sim. Pouco mais de dois anos depois. A entrada triunfal em Havana aconteceu no dia 8 de janeiro de 1959. “Agora, começa a etapa mais difícil; cinco vezes mais”, exclamou Fidel. Cinco vezes mais.

Um Território Livre nas Américas

A reforma agrária e a nacionalização das empresas estrangeiras provocaram o rompimento de relações por parte dos Estados Unidos, que, desde então, decretaram o bloqueio econômico, ainda não suspenso, apesar do restabelecimento de relações diplomáticas ocorridas no governo de Barack Obama.

Com apoio da Agência Central de Inteligência estadunidense (CIA), os cubanos da Flórida contrataram mercenários e tentaram invadir o país. O presidente John Kennedy lavou as mãos, mas não autorizou o envio de tropas. Os mercenários foram derrotados na Baía dos Porcos, em 1961. Chegara o momento de anunciar o caráter socialista da Revolução e fazer parceria com a União Soviética, que, embora já houvesse se afastado do ideal socialista e comunista desde o 20º Congresso (1956), interessava manter influência, ter um aliados nas portas do seu arquirrival, os EUA.

A opção socialista provoca divisões internas no M-26-7, do setor que defendia uma nação independente e um capitalismo democrático (algo impossível de se realizar). Com pesar, havia de derrotar esse inimigo também. E conseguiu. Camilo Cienfuegos, líder da Revolução e muito querido pelo povo, morreu num acidente de helicóptero, sobrevoando a região de Camaguey, onde o chefe do Regimento, Huber Matos, tentara um golpe contra o regime. A morte de Camilo causou comoção nacional e em Fidel, pessoalmente, pois, além de grande companheiro da Sierra, devotava grande afeto ao companheiro.

Em 1962, a instalação de mísseis soviéticos em Cuba levou o mundo às portas de uma guerra nuclear, visto que os EUA jamais admitiriam a existência de força soviética a apenas 150 km do seu território. A negociação da retirada se deu secretamente entre o primeiro-ministro soviético, Nikita Krushev, e o presidente Kennedy, dos EUA, sem a participação do governo cubano. Isto aborreceu muito Fidel e os dirigentes cubanos e, principalmente, o povo. De todo modo, foi positivo para Cuba o fato de que fez parte do acordo a não-invasão do território cubano. Kennedy determinou o desmantelamento da operação Mangosta (nova invasão de Cuba), o que lhe gerou o rompimento por parte do comando dos exilados cubanos e provavelmente seu assassinato em 22 de novembro de 1963.

Além do bloqueio econômico, milhares de ações de fustigamento contra Cuba continuariam acontecendo, desde a promoção de atentados, lançamento de armas químicas e biológicas para prejudicar a economia, às tentativas de assassinato de Fidel Castro. A necessidade de militarizar o país não impediu de o Estado cubano priorizar e conseguir elevar a níveis das nações capitalistas desenvolvidas a educação, a saúde, as condições básicas de vida do povo. Para isso, contribuíram, sem dúvida, as relações comerciais favorecidas entre o bloco “socialista”, especialmente a URSS e Cuba, que, entretanto, pagou o preço de se manter como a fornecedora de matérias-primas do bloco, limitando o desenvolvimento da economia.

Democracia e Direitos Humanos

Quanto ao mantra de “Fidel ditador”, repetido à exaustão pela imprensa burguesa no mundo inteiro, que chama respeitosamente de presidentes a Pinochet, Médici e tantos outros sanguinários ditadores, a explicação sempre dada por Fidel e demais revolucionários e nunca aceita, naturalmente, é a seguinte: Cuba não copia modelos e constrói o socialismo de acordo com a sua realidade. Ao povo é permitida a mais ampla participação na vida pública. A Constituição cubana, antes de sua aprovação pelo Parlamento, foi debatida em cada bairro, em cada rua, nas entidades populares e sindicais. O povo é quem indica os candidatos, que podem ser ou não membros do Partido Comunista.

A reeleição sucessiva de Fidel como chefe de governo e de Estado é algo aprovado pela imensa maioria do povo cubano, que não entenderia o afastamento do seu herói dessa função, exceto por razões de saúde, como veio a acontecer em 24 de fevereiro de 2008. O cargo foi assumido por Raúl Castro por ser o líder histórico sobrevivente que acumula mais experiência, que apresenta maior capacidade política e administrativa.

Quanto aos direitos humanos, numa entrevista coletiva por ocasião da visita do presidente dos EUA, Barack Obama, que resultou no restabelecimento de relações diplomáticas, em março de 2016, Raúl Castro desafiou os jornalistas de vários países a citarem qual o Estado que respeita integralmente os direitos humanos. Silêncio na sala. Na verdade, numa nação capitalista, são priorizados os direitos individuais, enquanto não ameaçam o regime. Numa nação socialista, os direitos coletivos são os mais importantes. Aliás, no capitalismo, os direitos, mesmo os individuais, concretizam-se apenas pelas classes dominantes. Para a maioria do povo, trata-se apenas de formalidade, haja vista a precariedade dos serviços públicos e a falta de recursos para prover moradia digna, saúde, educação, etc.

Durante os oito anos em que se manteve aposentado, cuidando da saúde, Fidel Castro não ficou inativo. Escrevia frequentemente para a imprensa cubana; recebia líderes mundiais; estimulou a aliança bolivariana; desencadeou uma campanha de conscientização em defesa do Meio Ambiente e da Paz Mundial fundamentada numa nova ordem econômica internacional caracterizada pelas relações de igualdade, respeito à soberania e cooperação entre as nações. Permaneceu firme até o fim na condenação do imperialismo e do terrorismo, especialmente o de Estado, e protestando contra a injusta inclusão de Cuba na lista dos países terroristas, só retirada no final do governo de Obama.

Cuba nunca apoiou o terrorismo. Sempre foi solidária com as lutas de libertação, enviando suas tropas para a África, preparando guerrilheiros para lutar contra ditaduras na América Latina. Depois dessa fase, passou a exportar amor, como diz o compositor Sílvio Rodriguez, mandando médicos e outros profissionais para os países que precisam deles, como no caso do Brasil (Programa Mais Médicos), no caso do combate ao vírus Ebola, na África e, mais recentemente no combate à Covid-19.

O homem que teve a vida exposta em tantos combates e atentados morreu tranquilamente em casa, aos 90 anos, no dia 25 de novembro de 2016. Durante nove dias de luto e no percurso do cortejo fúnebre entre Havana e Santiago de Cuba, centenas de milhares de cubanos se despediram do seu herói com choro, bandeirolas e o grito uníssono “Yo soy Fidel”. Somos todos Fidel!

Fidel completaria 95 anos no dia 13 de agosto.

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