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A histórica organização dos comunistas na Zona Leste de São Paulo

PELO PODER POPULAR – Caminhada da UP divulga o programa dos comunistas na Zona Leste de São Paulo durante as eleições de 2020 (Foto: A Verdade)

Vós, que surgireis da maré em que perecemos, lembrai-vos também, quando falardes das nossas fraquezas, lembrai-vos dos tempos sombrios de que pudestes escapar.” – BRECHT


Ingrid Munhoz e William Poiato

Belenzinho no centro do mundo – início vermelho

Foi na Mooca, Zona Leste de São Paulo, que estourou a primeira greve geral brasileira em 1917, porém, no bairro do Belenzinho, o movimento operário já se desenvolvia desde 1912 com a Escola Moderna, organizada por militantes anarquistas. Este polo operário, que durou setenta anos e chegou a ser bombardeado durante um conflito das elites brasileiras em 1926, foi palco das mais diversas mobilizações operárias e fundia o cinturão do sistema produtivo com um legítimo bairro de trabalhadores.

A atual Avenida Celso Garcia era palco das manifestações e greves organizadas no Belenzinho: foi tomada pelos trabalhadores na morte de Getúlio Vargas, assistiu a campanha para JK, onde os comunistas carregaram uma árvore por toda avenida, representando a natureza do Brasil, viu a fantástica estrutura metálica, instalada em praça pública pela célula comunista de metalúrgicos, com os dizeres “o petróleo é nosso” e abrigou as incontáveis greves salariais lideradas e agitadas pelos comunistas.

O Belenzinho tinha uma importante inserção do Partido Comunista, com dezenas de células na região, que foram desmontadas por Vargas, mas reergueram-se nos anos 1940 e se multiplicaram rapidamente, até a década de 1960. Vale lembrar de Basílio Zanvettor, possivelmente o primeiro comunista preso por sua ideologia na Zona Leste; sua atuação na fundação da célula do Belenzinho na década de 1930 e a agitação de greves, lhe rendeu 5 anos de prisão política pela polícia de Vargas.

As madrugadas nos portões das fábricas, o bochicho, os bilhetes entre mangas de casacos ou colados nas marmitas eram o método do contato comunista, de agitação silenciosa. Entre a garoa paulista, já no portão das simples casas e barracos, os jornais operários passavam de mão em mão, assim como as finanças partidárias levantadas entre os trabalhadores assalariados e pequenos comerciantes.

As mulheres não ficavam para trás: além da luta salarial, uma entusiasmada célula de mulheres se organizou entre as décadas de 1940 e 1950: construiu, inclusive, em 1950, a bem sucedida campanha “Os soldados, nossos filhos, não irão para a Coreia”, contra a entrada do Brasil na então nova guerra.

São Miguel e o Cinturão vermelho – primeiro auge

São Miguel Paulista – antiga Penha de França – acompanhou, a partir de 1937, uma pulsante migração, especialmente do nordeste, impulsionada pela construção da Companhia Nitro Química Brasileira do Grupo Votorantim. Os comunistas construíram ali a maior célula do partido de todo o Brasil na década de 1940, conhecida por possuir mais de 1000 operários.

A região ajudou a eleger Jorge Amado, o primeiro deputado comunista (1946), que fez questão de registrar em seu livro “Homens e Coisas do partido” o militante responsável por toda essa força na região, o homem que entraria para a história com o codinome Ramiro.

A ação popular na região tinha palco, literalmente, na atual Praça do Forró: foram incontáveis as festas, comícios, reuniões operárias e nordestinas ocorridas naquele local, além das poderosas greves contra os patrões da Nitro Química. Infelizmente, a praça, marco da luta operária da cidade, foi desfigurada no governo de Gilberto Kassab em 2010.

Outras lembranças…

Vale registrar também a rica vida cultural construída pelos comunistas na Zona Leste nos tempos da ditadura empresarial-militar. Há experiências amplamente conhecidas: o bar de rock, organizado pelos ferroviários da região, que funcionava na Associação de Moradores de Vila Matilde e abrigava amplo espírito contestador, sendo perseguido e fechado após o golpe; o Movimento Contra a Carestia; a alfabetização popular; a atuação nos CEB’s (Comunidades Eclesiais de Base), entre outras incontáveis experiência. Vale lembrar que também estiveram intimamente ligadas aos comunistas as vitoriosas lutas protagonizadas pelas mulheres da zona leste em defesa da criação do SUS, desde o início dos anos 1970.

O Golpe empresarial militar desorganiza a quebrada

Se por um lado a cidade de São Paulo crescia rapidamente na década de 1960, por outro as favelas e ocupações de trabalhadores pobres se multiplicavam ainda mais rapidamente nas periferias. As regiões do Belém, Tatuapé e Penha (que ainda englobavam São Miguel) vivenciaram um verdadeiro massacre militar contra jovens contestadores. Por esse motivo, o movimento comunista no território foi desmantelado.

Casas clandestinas de tortura foram instrumentos comuns usados pelos militares: a “Casa Mooca” Localizada na Rua Fernando Falcão, 477, foi uma delas. Pertencia a Joaquim Rodrigues Fagundes, um empresário do ramo de transportes, o que evidencia a relação íntima da burguesia com a matança sistemática realizada pela ditadura.

A Zona Leste também foi usada como lugar de desova de mulheres e homens vistos como “terroristas” pelo Estado: O Cemitério da Vila Formosa foi usado para enterrar os militantes que lutaram contra a ditadura militar como indigentes a partir de 1969-70. Foram localizadas valas clandestinas em 2010. Infelizmente, por conta das “reformas” realizadas no local também nos anos 1970, muitos corpos foram movidos de lugar sem nenhum tipo de identificação.

Alguns dos militantes da Zona Leste de São Paulo assassinados pelo regime dos Generais fascistas, foram:

Luiz Hirata, filho de imigrantes japoneses, militante da Juventude Universitária Católica e da Ação Popular. Viveu na clandestinidade sob o nome de Maurício, no bairro Parque São Lucas, e atuou na fábrica Mangels (na Mooca), apesar de sua formação em Agronomia. Luiz foi morto pelo Estado no dia 20 de dezembro de 1971, após tortura; a versão oficial narrava que o jovem tinha morrido em decorrência de uma tentativa de fuga, depois ter colidido contra um ônibus. Foi enterrado como indigente no Cemitério de Perus.

Alexander José Ibsen Voerões, militante do Movimento de Libertação Popular (MOLIPO) e da Ação Libertadora Nacional. De acordo com as informações do regime, foi morto aos 19 anos, no dia 27 de fevereiro de 1972 no Tatuapé, depois de troca de tiros. Entretanto, a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos relata que Alexander, muito provavelmente, foi executado, em especial porque não foi realizada nenhuma perícia que comprovasse a teoria da troca de tiros. Antes de ser assassinado, Alexander encaminhou uma carta aos seus pais, com os dizeres “A verdadeira educação liberta o homem.”. Foi enterrado no Cemitério da Paz.

Francisco Seiko Okama, o Baiano, membro da ALN, foi assassinado durante a ditadura empresarial militar por um destacamento da DOI-CODI quando tinha apenas 25 anos. A primeira versão é que teria sido assassinado em combate na Penha- Zona Leste de São Paulo- depois se descobriu que foi ali capturado, torturado e morto em 1973.

Antônio dos Três Reis Oliveira, militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), teve sua casa invadida à mando do major Carlos Alberto Brilhante Ustra, e foi assassinado pelos agentes da repressão no bairro do Tatuapé. Sua família só saberia de sua morte em 1973, após denúncia da Igreja católica, e só encontraram o corpo em 1991, após abertura dos arquivos do DOPS, onde se descobriu que havia sido enterrado em vala comum, ilegal, no cemitério de Vila Formosa.

Neide dos Santos, agitadora comunista do PCB, torturada a mando de Audir Santos Maciel, comandante do DOI-CODI na chamada “Operação Radar”- é assassinada em 1976 com queimaduras pelo corpo. Apesar de ter sido morta nos domínios do DOI-CODI, Neide foi levada a um hospital do Tatuapé, onde a versão oficial do regime forjou que tinha cometido suicídio.

De quadro em quadro, nome a nome, desfizeram-se momentaneamente a organização comunista na região. Mas a luta decidida dos revolucionários contra a ditadura militar, inclusive entregando a própria vida nos porões de tortura, permitiu que a organização marxista leninista continuasse viva. Hoje o Partido Comunista Revolucionário está presente na zona leste, honrando e avançando a história de luta dos comunistas.

É hora de virar o jogo

Após a redemocratização, os comunistas revolucionários foram pouco a pouco se reorganizando e hoje, a Zona Leste constrói, novamente, um lugar de destaque nas lutas de nosso país.

Atualmente, prepara-se um novo momento de luta pelo socialismo na região: de Lageado à Vila Prudente, realizamos as Brigadas de Solidariedade, apoiamos as mulheres que se organizam e lutam por sua vida no Movimento de Mulheres Olga Benário, a juventude que se rebela no Movimento Correnteza e a conquista da moradia, que sai na marra, com a luta do Movimento de Luta de Bairros Vilas e Favelas, além da organização da Unidade Popular pelo Socialismo, que aponta um novo horizonte para o povo pobre.

Moradores, trabalhadores e estudantes da Zona Leste, é sua vez de fazer história, vamos à luta!

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