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quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Ossadas de Perus podem ficar sem destinação, espaço é ameaçado de despejo

Foto: CAAF/Leo Ramos

Vivian Mendes é membro da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e presidenta da Unidade Popular em SP


No último dia 03 de fevereiro, dezenas de familiares de mortos e desaparecidos políticos e militantes de direitos humanos, enviaram um manifesto à Justiça solicitando providências quanto à destinação das mais de mil ossadas encontradas na vala clandestina do Cemitério de Perus que, até hoje, buscam identificação.

As famílias estão apreensivas porque, em dezembro passado, o CAAF – Centro de Antropologia e Arqueologia Forense, órgão ligado à Unifesp, que tem realizado a árdua e solitária tarefa de retomar as investigações depois de imenso descaso do estado brasileiro, sofrendo desmonte do governo do fascista Bolsonaro, recebeu uma ordem de despejo da casa que ocupa hoje, que deve ser cumprida na metade deste ano.

Ainda que os trabalhos atuais do CAAF estejam próximos, felizmente, da conclusão, não existe ainda um local adequado para destinação das mais de 1000 caixas que guardam os restos mortais destes brasileiros. As famílias reivindicam que tal local dê condições para que, no futuro, caso haja alguma inovação tecnológica que permita aprofundar as investigações, isso seja possível. Mais, reivindicam que no local seja construído um Memorial às vítimas que foram enterradas nesta vala de forma tão desumana.

Graças à incansável luta dos familiares, o Estado foi condenado a concluir o processo de análise das ossadas. O processo transitou em julgado em 2007, mas apenas em 2014 o trabalho foi, de fato, retomado. O processo de conciliação corre no Tribunal Regional Federal da 3º região buscando o desfecho dessa longa história. A este Tribunal as famílias enviaram o manifesto onde pedem garantia de cumprimento da decisão e de guarda adequada das ossadas.

Já se somam 50 anos desde o assassinado de Denis e Dimas Casemiro, Flávio Carvalho Molina, Frederico Eduardo Mayr e Aluísio Palhano, todos encontrados na famigerada vala. Ainda buscamos esperançosos por Grenaldo de Jesus da Silva que, ao que tudo indica, também foi enterrado ali. Por eles e pelos outros tantos, Marias, Antonios, Josés, enterrados na mesma vala comum, brasileiros comuns, filhos da nossa classe, assassinados por um Estado que só se importa com a vida da burguesia, buscamos justiça!

Sobre a vala clandestina
Criada durante os anos de 1970, no Cemitério Dom Bosco, bairro de Perus, na periferia de São Paulo, a vala que serviu para esconder os corpos de militantes torturados e assassinados pela ditadura militar (1964-1985), mas também da população assassinada pelo Esquadrão da Morte e vítimas da epidemia de Meningite que a ditadura quis camuflar, foi localizada e aberta durante a gestão da então prefeita Luiza Erundina em 1990.

No local foram encontradas cerca de 1500 ossadas humanas. Entre elas, cerca de 500 pertenciam a crianças o que, devido a sua fragilidade, impossibilitou de imediato sua identificação. As 1049 ossadas restantes aguardam há mais de 30 anos por identificação e destino dignos.

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