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quinta-feira, 7 de julho de 2022

Batalha da Matrix: 9 anos de resistência em São Bernardo do Campo

A Verdade entrevistou fundadores da Batalha da Matrix, atividade cultural que sofre perseguição e repressão da Guarda Civil Metropolitana comandada pela Prefeitura de São Bernardo do Campo. “Sejamos firmes e persistentes, para plantar frutos que nossos filhos e netos vão colher. O poder pertence ao povo.”

Manuelle Coelho e Roseli Simão


SÃO BERNARDO DO CAMPO – No centro da cidade de muitas lutas operárias, em frente à Igreja da Matriz, local marcado por ser palco de grandes lutas do povo trabalhador contra a ditadura militar, acontece sem nenhum incentivo por parte da prefeitura, a Batalha da Matrix que reúne cerca de 1.000 jovens de toda a periferia do ABC para promover duelos de rimas há 9 anos, todas as terças feiras às 19h. 

Lucas Do Vale, um dos fundadores do evento, relata com detalhes o início dessa história que começou com o encontro espontâneo entre amigos na praça em meados de 2013 em busca de opções de lazer. O rap, ritmo musical que uniu esses amigos, foi também incentivo para as reuniões semanais que se popularizaram rapidamente entre a juventude periférica que passou a ocupar frequentemente o centro da cidade, assim como a música de origem negra que desceu das favelas do ABC e tomou conta do espaço público. O encontro que acontecia por diversão, passou a ser um dos maiores compromissos marcados para os MC’s que disputam entre si os melhores versos no estado de São Paulo.
 

Apesar de serem reconhecidos por grandes artistas da cena, é necessária uma luta diária para permanecer no espaço que por direito constituinte, diz que todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização. Os frequentadores vem sofrendo com ataques da prefeitura desde o ínicio, que usa da truculenta e armada Guarda Civil Municipal para reprimir o movimento cultural. Em janeiro de 2016, mais uma batalha  já chegava ao fim, quando foi interrompida a tiros de bala de borracha e bombas de gás por conta de uma ação sem justificativa da Polícia Militar. 

Com a volta das atividades presenciais, voltaram também as repressões por parte da GCM, comandada pelo Secretário de Segurança Urbana Municipal, Carlos Alberto dos Santos, ex-tenente-coronel da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar). O mesmo foi condenado há quase uma década no caso do massacre do Carandiru, em 1992. A violência policial contra a cultura periférica não acontece somente no estado de São Paulo, no último dia 07 de maio, na comunidade Manoel Corrêa, em Cabo Frio – RJ, mais uma batalha de rap foi interrompida a tiros com a brutalidade da Policia Militar que segundo um dos participantes, um dos policiais disse que, se houvesse resistência, ele atiraria na cabeça e que rap é coisa de vagabundo.  

Prefeito da cidade utiliza GCM para impedir batalha. Foto: Daniel Oliveira

Em São Bernardo do Campo, o Prefeito Orlando Morando, tem dificultado a realização do evento, retirando a estrutura elétrica que possibilita o uso das caixas de som durante o duelo, além de que tenta intimidar a juventude com enquadros e um número exorbitante de carros da ROMU ( Ronda Ostensiva Municipal ) A prefeitura e suas secretarias seguem sem dar uma resposta formal do porque não é permitido som na batalha. 

É importante destacar que não há investimento em espaços culturais para o jovem pobre e preto. Pelo contrário, a cidade sofre grandes desmontes da cultura popular, como por exemplo o sucateamento do DAJUV (Diretoria de Ações para a Juventude) e do Projeto Meninos e Meninas de Rua, que são projetos que atendem o público jovem.

Diogo de Brito Bruno (Rato), organizador da Batalha da Matrix, conta para A Verdade:

A Verdade – Qual a avaliação feita tendo em vista a relação do avanço ao desmonte cultural e o cenário político de repressão à juventude, principalmente preta e periférica?

Rato – Após avaliação entende-se que é necessário organização. Essa é a palavra chave. O papel da burguesia é enfraquecer os movimentos periféricos que são ferramentas pra construção de uma sociedade mais justa. Afinal, você não pode falar sobre o que é passar fome se você nunca passou. O poder pertence ao povo e sempre pertencerá. É um trabalho de “formiguinhas” e quando todos estiverem em sintonia nada vai nos parar.

A Verdade – Como vocês entendem o papel da prefeitura  e o uso da força da GCM nesse processo? É possível fazer um paralelo dessa política com a política de ataque a outros setores sociais da cidade como a questão da moradia, da educação pública, enfim do avanço dos ataques ao povo trabalhador da cidade?

Rato – Existe semelhança, como existe diferença. No caso da Batalha da Matrix, é necessário que o evento tenha segurança. Nós precisamos do trabalho da guarda pra manter um evento organizado. Isso sempre foi dito, se acontece um evento que move mais se mil pessoas em uma praça pública é preciso traçar um plano pra manter a ordem e garantir que a batalha comece e termine. Essa é a diferença. A semelhança é a mesma truculência, a falta de diálogo, a falta de humanidade! Os guardas parecem robôs programados, a grande maioria. O que fica de lição mais uma vez, é a organização e a estratégia de como se defender melhor. Precisamos estudar, e não falo de uma forma acadêmica.

.A Verdade – O que a Batalha da Matrix e a organização da juventude e dos trabalhadores pela resistência e cultura popular tem a ensinar/ a dar de exemplo?

Rato – Como eu comecei, é como eu termino, a palavra chave é ORGANIZAÇÃO. É uma engrenagem fundamental pro motor girar. Quando você está organizado e informado, o sistema fica com “um pé atrás“. A invencibilidade está na defesa; a possibilidade de vitória, no ataque. Quem se defende mostra que sua força é inadequada; quem ataca, mostra que ela é abundante. SunTzu. Sejamos firmes e persistentes, para plantar frutos que nossos filhos e netos vão colher. O poder pertence ao povo.

Jovens se mobilizam contra a repressão à Batalha da Matrix. Foto: Daniel Oliveira

 

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