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sexta-feira, 1 de julho de 2022

O funk e a criminalização do lazer do povo pobre

O funk passa, hoje, pelo mesmo processo de criminalização sofrido por todos os movimentos culturais criados pelo povo preto e pobre. Mas como foi ao longo da história, começa a receber reconhecimento por retratar a vida do povo da periferia.

Mateus Santos e Maria Clara – UJR


MAUÁ – Durante os anos setenta do século passado surgiram, nas comunidades do Rio de Janeiro, os bailes de black music onde a juventude preta da cidade se concentrava para se divertir. Dom Filó, membro do Renascença Clube de Samba, transformou a festa de samba numa festa de música negra norte-americana e, a partir daí, começou a nascer o funk brasileiro com seus MCs e DJs, como Paulão da Black Power e DJ Malboro.  

Foram os bailes que trouxeram a cultura do rap, break, hip-hop, grafitti e outras expressões da população negra para as favelas cariocas – que depois se espalharam pelo Brasil. No final dos anos oitenta já eram quase 700 bailes funk por fim de semana no Rio.

Do funk brasileiro vieram duas vertentes: a erótica, que tinha temas sexuais e de duplo sentido; e o proibidão, que falava da violência e criminalidade.

Em 1995, estouraram os primeiros funks cariocas pelo Brasil como o Rap da felicidade com a famosa estrofe: “Eu só quero é ser feliz/ Andar tranquilamente na favela onde eu nasci” e o Rap do Silva: “É só mais um Silva que a estrela não brilha/ Ele era funkeiro, mas era pai de família”.

Ou seja, o funk sempre falou sobre a vida do povo preto e favelado porque ele sempre foi consumido e produzido por essa população.

Por isso, a televisão e a rádio não reconhecia nem aceitavam o funk. Apenas o “funk melody”, (romântico) conseguiu ir para a televisão na época, com nomes como Latino e Claudinho & Bochecha.

Enquanto isso, a perseguição policial aos bailes funks só crescia com proibições, fechamentos, violência e mortes de jovens que estavam se divertindo.  O funk sofreu essa perseguição como todos os ritmos negros durante a história.

A capoeira era proibida e punida com chicotadas; o samba era citado na antiga Lei da Vadiagem que levava sambistas presos; o axé foi chamado de “invasão baiana” com refrãos fáceis e sem importância cultural; hoje é assim com o funk brasileiro.

Como já dizia o Rap da Felicidade: “Diversão hoje em dia, não podemos nem pensar/ Pois até lá nos bailes eles vem nos humilhar (…)/ Pessoas inocentes que não tem nada a ver/ Estão perdendo hoje o seu direito de viver”.

Para entender por que a juventude escuta esse estilo musical, fomos ao Parque da Juventude – um dos poucos espaços na cidade de Mauá que dá acesso gratuito ao lazer para os jovens – para realizar entrevistas com a população. É importante ressaltar que apesar da popularidade e importância do espaço, o mesmo não é devidamente preservado pela prefeitura.

Conversarmos com os jovens presentes no parque sobre assuntos relacionados ao funk brasileiro, como sobre por que ele é marginalizado e o que significa ouvir e seguir esse estilo de música e de vida.

Luis comentou: “o rap, o funk, passam uma visão, pra não fazer bobagem, pra poder crescer” e disse que a criminalização ocorre “porque ele passa a visão da favela, como é o dia a dia das pessoas de lá. Normalmente os mais riquinhos vai [sic] achar como?… nem ideia”.

Lucas, amigo de Luis, acrescentou: “eu não acho [que deve ser criminalizado], mas meu pai, eu boto o bagulho e ele já fala ‘tira essas músicas de bandido’, já acha que é música de traficante”.

Um exemplo de funk que passa a visão que Luis fala é Ilusão, do MC Davi. Também conhecida como Cracolândia, a letra forte narra as consequências de se envolver com drogas pesadas e orienta jovens para tomarem cuidado: “E eu vou passar a visão pros meus/ Não precisa morrer pra falar com Deus”.

Ao perguntarmos para Stivie o que o funk representa em sua vida, ele respondeu que: “o funk meio que me tira da depressão, porque eu não consigo escutar e ficar triste. Eu escuto funk e já me animo. Inclusive eu costumo colocar Lia Clark, Urias, Glória Groove quando eu tô triste, dá uma animada”. Essas são algumas funkeiras e cantoras LGBTs.

Stivie nos relatou que fez uma playlist de funks em um dia ruim, com ele e sua irmã com problemas pessoais e chorando, e chamou sua irmã pra ouvir também: “nos animamos e fomos dormir felizes”, afirmou.

Arte periférica

A mídia burguesa concentra uma série de ataques contra os ritmos musicais periféricos e diariamente os relaciona à criminalidade. Acusam os pancadões de serem espaços com a presença de drogas, o que justificaria a violência policial, porém, nada falam sobre as festas regadas a drogas em bairros ricos.

Generalizam que todas as letras de funk desrespeitam as mulheres e argumentam que esse é um dos motivos do funk ser inferior culturalmente, mas se calam sobre a presença desse tipo de letras em diversos outros gêneros musicais.

No capitalismo, o acesso ao lazer é negado aos jovens periféricos. Ao mesmo tempo que o Estado brasileiro, controlado pelos ricos, não fornece acesso ao lazer para a juventude pobre, também brutaliza, através do uso da polícia, qualquer tentativa da periferia se organizar para ter lazer.

Os milionários sempre vão achar desculpas para disseminar o ódio sem sentido contra a cultura popular e mais ainda a cultura negra.

E eles o fazem porque sabem que a arte preta e pobre tem a força ancestral da cultura africana e afro-brasileira, porque sabem que temos a capacidade de movimentar milhões, dar basta na atual escravidão assalariada e construir um sistema sem exploração e sem pobreza, onde todo o poder esteja concentrado nas mãos do povo trabalhador.

Somos capazes de criar o socialismo e a nossa arte foi, é, e sempre será instrumento para luta e resistência.

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