UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sábado, 10 de dezembro de 2022

Com diferença de dois milhões de votos, Lula (PT) derrotou candidato fascista

Luiz Falcão | Comitê Central do PCR


“Só se pode vencer um inimigo mais forte retesando e utilizando todas as forças e aproveitando obrigatoriamente com o maior cuidado, minúcia, prudência e habilidade a menor ‘brecha’ entre os inimigos, toda contradição de interesses entre a burguesia, entre os diferentes grupos ou categorias da burguesia dentro de cada país; também é necessário aproveitar as menores possibilidades de conseguir um aliado de massas, mesmo que temporário, vacilante, instável, pouco seguro, condicional. Quem não entendeu isso, não compreende nenhuma palavra de marxismo nem do socialismo científico.”

(LÊNIN. Esquerdismo, doença infantil do comunismo)

EDITORIAL – Após quatro anos de uma incessante luta do movimento Fora Bolsonaro, a maioria do povo brasileiro derrotou o candidato do Centrão, dos generais fascistas e dos setores mais reacionários da burguesia, e elegendo Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, como presidente da República pela terceira vez.

Lula venceu o 2º turno em 3.125 munícipios, de um total de 5.568, e com uma diferença de dois milhões de votos sobre seu adversário. Na noite do dia 30 de outubro, após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anunciar oficialmente o resultado, Lula fez um discurso definindo que sua vitória foi fruto de um “amplo movimento democrático que se formou no país no segundo turno”. 

Entretanto, repetindo o que ocorreu após o primeiro turno, diversos comentaristas dos grandes meios de comunicação, em particular das redes SBT e Record, tentaram diminuir a vitória de Lula e exaltar a votação do derrotado. Porém, os números não mentem: 60.345.999 milhões de eleitores votaram em Lula e 35 milhões votaram nulo ou se abstiveram. Isso significa que 90 milhões de eleitores, apesar de todo assédio eleitoral, dos rios de dinheiro gastos na campanha da direita e da rede de mentiras montada pelos fascistas, disseram NÃO ao plano golpista de implantar uma ditadura militar em nosso país.

Com efeito, a rejeição ao governo e a sua ideologia fascista é hoje tão grande que superou o chamado “antipetismo”.

Vale destacar também que as eleições provaram que toda a perseguição sofrida por Lula por parte do sistema, inclusive, prendendo-o por um ano e cassando seus direitos políticos, não foi suficiente para acabar com a profunda identidade que as camadas mais empobrecidas da população e dos trabalhadores têm com o futuro presidente do Brasil. Sem dúvida, mesmo com uma intensa e mentirosa campanha afirmando que, se eleito, Lula iria censurar redes sociais, fechar igrejas, proibir cultos religiosos, drogar crianças, prender pessoas,  saquear os cofres públicos, etc., etc., nada disso, porém, evitou que pretos, pardos, trabalhadoras e trabalhadores que ganham até dois salários mínimos votassem no candidato do PT.

Bandos fascistas tocam fogo e bloqueiam rodovias

Assim que ocorreu a virada de Lula na apuração e as projeções indicaram a vitória do candidato do PT, numa ação orquestrada e financiada por empresários, bandos fascistas começaram a invadir pistas e bloquear rodovias com os caminhões das empresas de transporte de carga. O delírio dos fascistas era que bastaria acender essas fogueiras para milhões de pessoas irem às ruas para gritar “Mito! Fica! Fica!”.

Mudo em seu palácio, Bolsonaro ficou esperando a adesão de milhões de pessoas para decretar estado de sítio e convocar as Forças Armadas para empossá-lo como novo imperador do Brasil. Mas, antes de se encerrarem as ações antidemocráticas, viram a torcida organizada Gaviões da Fiel, do Corinthians, que se dirigia ao Rio de Janeiro para assistir ao jogo contra o Flamengo, afugentar os bolsonaristas, furar o bloqueio e tomar faixas que pediam intervenção militar na frente da Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ).

No dia 02 de novembro, Dia de Finados, manifestantes fascistas se reuniram pela centésima vez em frente aos quartéis do Exército nas capitais, implorando por uma intervenção militar para manter o genocida no governo. Mas por que uma intervenção militar, e não uma insurreição ou revolta popular? Por uma razão simples: para um golpe ou intervenção militar basta apenas convencer os generais. Já para um levante popular é preciso convencer as amplas massas, o povo trabalhador. 

 Esta foi mais uma tentativa fracassada de impor à Nação um golpe militar fascista. De fato, desde o dia 28 de outubro, a Agência Brasileira de Inteligência Nacional (Abin), chefiada pelo general da reserva Augusto Heleno, e a Policia Rodoviária Federal (PRF) tinham conhecimento do plano de bloquear as rodovias, mas nada fizeram para impedir essa ação antidemocrática, muito pelo contrário. No dia da eleição, em 30 de outubro, a PRF realizou 272 operações no Nordeste (região em que Lula teve 69,34% e Bolsonaro apenas 30,66%), tentando impedir que 610 ônibus que transportavam eleitores chegassem até o local da votação. 

O plano golpista para impedir as eleições

No dia 23 de outubro, o ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, um dos partidos que apoiam Bolsonaro, explodiu três granadas e deu 50 tiros de fuzis contra agentes da Polícia Federal que foram até a sua casa após ele ter gravado um vídeo ameaçando de morte a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Carmem Lúcia e o presidente do TSE Alexandre de Moraes. Mas o feitiço virou contra o feiticeiro. A ação do ex-deputado começou a ser repudiada por eleitores do atual presidente e este terminou sendo obrigado a chamar seu fiel aliado de “bandido”.

No dia 24 de outubro, seis dias antes da eleição, o ministro das Comunicações Fábio Faria, genro do dono do SBT, convocou uma coletiva de imprensa no Palácio do Planalto para fazer uma grave denúncia: rádios do Nordeste deixaram de divulgar centenas de inserções da propaganda eleitoral do candidato Jair Bolsonaro. Imediatamente após a fala do ministro, o filho do presidente, deputado federal Eduardo Bolsonaro, pediu o adiamento das eleições e o candidato reeleição declarou que as eleições não podiam ocorrer enquanto este fato não fosse investigado. O presidente do TSE exigiu que o ministro das Comunicações e o PL, partido do presidente, apresentassem provas em 24 horas ou arquivaria a denúncia.

No dia 26 de outubro, seis das oito rádios citadas na denúncia disseram que não divulgaram as inserções porque o próprio candidato e o seu partido, o PL, não entregaram a propaganda. Detalhe: seis rádios das oito envolvidas no episódio eram de propriedade de empresários que apoiavam Bolsonaro. Desmascarada a farsa, faltando dois para a votação, o ministro das Comunicações deu nova entrevista à imprensa declarando ser inocente e dizendo se arrepender do que fez: “Entrei nesse tema para resolver inserção via inserção, para tentar mediar um acordo entre o TSE e a campanha. Quando esse assunto escalou, eu saí. Eu me arrependi porque o assunto escalou”, disse o ministro se referindo ao pedido de adiamento das eleições.

Mais: também faltando seis dias para a eleição, o Ministério da Defesa e a Advocacia Geral da União enviaram ofícios ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) propondo alterações no processo eleitoral. As medidas sugeridas pelos militares, se aceitas implicariam, em adiar as eleições. O presidente do TSE, Alexandre de Moraes, mais uma vez, agiu de maneira firme e declarou que as propostas só seriam analisadas após o término das eleições de 2022.

Milhares de empresas assediaram eleitores

Um ano antes, no dia 10 de agosto de 2021, dia em que o Congresso Nacional votaria se as eleições teriam urnas eletrônicas ou a volta do voto impresso, as Forças Armadas realizaram um desfile de tanques em frente ao Congresso em defesa do voto impresso. A intimidação não funcionou e os deputados e senadores mantiveram as eleições em urna eletrônica. O objetivo de ressuscitar o voto impresso ficou ainda mais evidente quando as eleições foram realizadas. De acordo com o Instituto Datafolha, de cada 100 eleitores que estão empregados, quatro sofreram pressão do patrão para votar em Bolsonaro. Conclusão: com a volta do voto o impresso, a compra de voto e o assédio eleitoral dos patrões teriam ainda mais influência nas eleições. 

Apenas o Ministério Público do Trabalho (MPT) confirmou que mais de 2.000 empresas realizaram assédio eleitoral e tentativa de compra de votos de seus funcionários. Reportagem do jornal Folha de S. Paulo mostrou empresas de transportes (as mesmas que bloquearam as rodovias a partir de 1º de novembro) liberando seus caminhoneiros de trabalharem no fim de semana para que eles votassem em Bolsonaro. Dois exemplos.

O dono da transportadora Transben, de propriedade de Adriano Benvenutti (cunhado do dono da rede Havan), um dos homens mais ricos do Brasil, enviou a seguinte mensagem aos trabalhadores: “Eu gostaria que ligassem para os seus gestores para informar onde votam. Claro, os que votam em Bolsonaro. Os que votam em Lula podem continuar viajando”.

O empresário Adelar Eloi Lutz divulgou vídeo ameaçando demitir os trabalhadores que não votassem em Bolsonaro. Para ter certeza que não seria enganado, pediu que as trabalhadoras entrassem na cabine eleitoral com o celular no sutiã e comprovassem o voto. Denunciado, foi multado em R$ 150 mil.

O poder econômico e a democracia

No sistema capitalista, a classe rica, a burguesia, tem a posse de todos os meios de produção, do capital e também do Estado. Já os trabalhadores, trabalham mais de 8 horas por dia, gastam duas horas, ou até mais, para chegar ao local de trabalho, recebem baixos salários, vivem mal alimentados e em precárias condições. Por isso, toda eleição realizada nesse sistema é uma democrática para uma minoria e antidemocrática para a maioria. Quanto mais o governo de plantão for reacionário, mais a máquina do Estado é utilizada para favorecer os candidatos burgueses e maior é a repressão aos trabalhadores.  

Pois bem, desde a redemocratização do Brasil em 1985, nunca a máquina pública, o dinheiro público e os órgãos do governo (Forças Armadas, PRF, PF, Ministérios, etc.), foram utilizados de forma tão descarada em favor da reeleição de um presidente. A lei que proíbe gastos pelo governo foi inúmeras vezes desrespeitada e o governo liberou o pagamento de várias parcelas de R$ 1.000 para os motoristas de táxi e caminhoneiros; o Auxílio Emergencial, que, antes das eleições, o governo dizia que só poderia ser de R$ 200, pulou para  R$ 600 e o número de famílias beneficiadas passou para 22 milhões; a Caixa Econômica Federal decretou anistia de dívidas, liberou empréstimos e até títulos de terra foram distribuídos pelo governo, que é contra a reforma agrária. 

Além disso, o apoio da grande burguesia a Bolsonaro tornou-se ainda maior com a realização de reuniões do ministro da Economia Paulo Guedes informando seu plano de desindexar os salários da inflação. O projeto do banqueiro Paulo Guedes só foi divulgado pela imprensa dez dias antes da eleição e, caso implantado, o salário mínimo deixaria de seguir a regra atual (soma da inflação mais o crescimento do PIB nos últimos dois anos).

Segundo cálculos da economista Carla Beni, da FGV caso o salário mínimo tivesse seguido a nova regra proposta pelo ministro de Bolsonaro, o valor seria hoje de R$ 700, em vez dos atuais R$ 1.212. Ou seja, quase metade do valor. O plano de Guedes e Bolsonaro de arrochar os salários dos trabalhadores aumentaria enormemente os lucros da classe capitalista e, de outro lado, a exploração dos trabalhadores. 

Em consequência, os maiores grupos econômicos usaram de vários artifícios para irrigar a campanha do candidato da extrema-direita. Somente em doações declaradas de empresários, a campanha de Bolsonaro recebeu R$ 85,7 milhões. Além disso, os três partidos de sua coligação (PL, Progressistas e Republicanos) tiveram um total de R$ 875 milhões para gastar nas eleições. 

Povo votou “Fora Bolsonaro”

Já no primeiro turno, como afirmou o jornal A Verdade (edição nº 260), 65 milhões votaram “Fora genocida”. Com efeito, o povo brasileiro sofreu na pele quatro anos de um governo corrupto, autoritário, incompetente e genocida e foi para esta eleição com um objetivo muito definido: derrotar nas urnas o ex-capitão, preso pelo Exército em 1986 e autor de um plano para colocar bombas nos quartéis, segundo a revista Veja. No segundo turno, o número de eleitores contrários ao fascismo aumentou ainda mais.

Proclamada a vitória da coligação Brasil Esperança e a eleição de Lula para presidente e de Geraldo Alckmin para vice, o candidato derrotado fez um grande favor à Nação ficando em silêncio por dois dias. Seu silêncio foi acompanhado pelos comandantes militares e o sempre falastrão ministro da Defesa. Depois de 48 horas CALADO, o derrotado Bolsonaro balbuciou as primeiras palavras lendo um pronunciamento escrito por ministros e dezenas de assessores que durou extensos 2 minutos. Antes, tentou obter do STF perdão para os crimes que ele, seus filhos e sua matilha cometeram contra o povo brasileiro. O tempo dirá se obteve êxito ou não.

Uma nova situação política

Em total harmonia com o sentimento e com a consciência das massas, os comunistas revolucionários e a UP definiram que “nessas eleições o principal objetivo era derrotar o fascismo”. Para permitir uma denúncia mais profunda e ampla dos planos golpistas do Centrão e dos generais fascistas e, ao mesmo tempo, realizar uma ampla propaganda do socialismo, do programa da UP e elevar a consciência dos trabalhadores sobre a necessidade de uma revolução popular, a UP lançou Leo Péricles para presidente e Samara Martins para vice. A chapa da UP durante todo o primeiro turno, além de uma firme e contundente denúncia dos crimes do Governo Bolsonaro, combateu o racismo e a discriminação e conclamou os pobres e os oprimidos a se unirem e lutarem pelos seus direitos e pelo socialismo. No segundo turno, a UP não mediu esforços para avançar a luta antifascista e derrotar o genocida, distribuindo quatro milhões de panfletos convocando “Fora Bolsonaro! Lula Presidente!”.

Vimos, assim, toda a nossa militância agir e atuar como um verdadeiro partido marxista que tem a capacidade de manter a firmeza dos princípios comunistas, mas sabendo que para derrotar o inimigo e alcançar a vitória, é necessário “a máxima flexibilização  da tática” (Lênin).

A vitória de Lula não significa, porém, que o fascismo não representa mais uma ameaça e que foi eliminado. Pensar assim é não ter em conta a doutrina marxista da luta de classes. Com efeito, enquanto o Brasil for uma sociedade classes, a luta entre as classes não só continuará como será cada vez mais profunda. O capitalismo vive uma de suas maiores crises econômicas, políticas e sociais. A ameaça de uma Guerra Mundial é cada dia mais concreta e o Brasil está inteiramente acorrentado às cadeias do imperialismo capitalista.

A grande burguesia nacional e internacional, apesar de seus louvores à democracia, seguirá conspirando com suas Forças Armadas para implantar um regime fascista, em particular nos principais países capitalistas, Brasil incluído.

Para aumentar seus lucros extraordinários, a classe capitalista necessita de governos autoritários que roubem direitos dos trabalhadores, reduzam os salários e aumentem a exploração dos escravos assalariados, os trabalhadores. Em síntese, enquanto as classes não forem eliminadas, o fascismo seguirá existindo no mundo e em nosso país.

Vejamos. Após 21 anos de terrorismo, tortura, assassinatos, arrocho salarial, a ditadura militar teve seu fim em 1985. Desde então, passaram-se 37 anos e, no entanto, as eleições realizadas neste ano tiveram como um dos principais objetivos, para os revolucionários, impedir a continuidade de um governo fascista que, durante quatro anos, atuou com as Forças Armadas para implantar uma nova ditadura militar e que chegou mesmo a militarizar o governo com a nomeação de 6.000 membros das Forças Armadas para cargos do 1º e 2º escalão.

Verdade seja dita: o golpe militar fascista fracassou porque as parcelas mais conscientes e combativas das massas se mobilizaram diversas vezes e realizaram centenas de ações denunciando os objetivos dos fascistas e defendo as liberdades democráticas.

Porém, embora as manifestações de massa, as greves, as passeatas foram decisivas para enfraquecer o governo fascista e afastar parcelas importantes da sociedade da sua base de apoio, a derrota da extrema-direita aconteceu não nas ruas, mas nas urnas. Assim, o novo governo, como o próprio Lula definiu, será um governo de união nacional. Ora, na sociedade atual, capitalista, a classe mais forte, a que domina, é a burguesia. Nessas condições, um governo de união nacional, embora jure prioridade aos pobres, favorecerá principalmente os interesses dessa própria burguesia. Em outras palavras, a burguesia será a classe mais beneficiada e ficará economicamente ainda mais forte, salvo novas e graves crise econômicas que venham sacudir o mundo.

Mas é fato também que a nova situação que se abre em nosso país é mais favorável à atuação e ao avanço da luta popular, visto que a extrema-direita, o fascismo, sofreu um duro golpe, perdendo o governo para as forças que embora democráticas, são instáveis, vacilantes e temem o desenvolvimento do movimento revolucionário. 

Caberá, pois, a nós, comunistas revolucionários, atuar de forma ainda mais combativa e vigorosa para aproveitar ao máximo a nova situação, crescer nossas forças, ampliar nossa influência sobre as massas, principalmente e urgentemente sobre as massas trabalhadoras, e desenvolver um movimento revolucionário que seja capaz de impor uma derrota definitiva à grande burguesia e ao fascismo e que tenha suficiente base operária para construir uma sociedade socialista.

Editorial publicado na edição impressa nº 261 do Jornal A Verdade (1ª quinzena de novembro).

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